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Micro Contos – Como e Porque Escrever

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O que são e o que não são Micro Contos

Micro contos são narrativas muito curtas, com 300 palavras ou menos, que trazem uma história total, não parcial. Não são muito populares no Brasil, nem mesmo tem valor comercial. Então por que nós, escritores brasileiros, deveriamos perder tempo escrevendo micro contos?

Primeiro porque para o escritor qualquer forma de escrita é válida. De haicais à sagas em “n” volumes.

Escrever micro contos permite ao autor avaliar o que é importante na prosa. Trabalhar o vocabulário e escolher as palavras mais adequadas. Cortar  redundâncias e tudo o que não é essencial. O autor fica afiado na hora de escrever narrativas longas. Além do que é uma forma de arte com as palavras, um modo divertido ou profundo de contar histórias.

Precisamos saber, no entanto, o que um micro conto NÃO é: um resumo de uma história ou uma parte isolada de uma narrativa maior. Também não são pensamentos aleatórios ou reflexões, cenários desconexos. Ações sem contexto não são micro contos. Recortes dentro de uma narrativa maior não são micro contos.

Micro Contos são narrativas completas e como tal necessitam de enredo, elementos do arco narrativo (reviravolta, flash backs, repetições, conflitos etc.), personagens, local, tempo.

Dois micro contos e seus elementos narrativos

Assim como o conto tradicional, a linha narrativa é melhor desenvolvida se baseada em no máximo três personagens e a trama contenha elementos simples e facilmente reconhecíveis.

Acerto de Contas – Lydia Davis (considerada uma das melhores escritoras contemporâneas de narrativa curta)

 “O fato de ele não me dizer sempre a verdade faz duvidar da verdade do que ele às vezes me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não para de me dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

Personagens – duas pessoas num relacionamento

Arco – estabelece a dúvida sobre o que ouve do parceiro, faz uma busca para descobrir o que é verdade, termina por convencer-se que ele às vezes não diz mentiras.

Elementos narrativos – flash back, reviravolta, conflito, repetição

Tempo – ao longo do relacionamento.

Arquíloco – séc. VII a.C.

Algum saio (guerreiro da tribo inimiga) do escudo se orgulha. Sem querer abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se: conseguirei outro igual.

Personagens – Arquíloco e o saio

Arco – perdeu o escudo, salvou a própria vida, eliminou o arrependimento

Elementos narrativos – flash back, suspense, conflito, repetição

Tempo – durante uma batalha

Local – no campo de batalha

Dicas para escrever micro contos

  1. Mostre não conte, este conselho essencial para qualquer narrativa, deve ser seguido à risca para as narrativas curtas.
  2. Atenha-se ao que faz uma narrativa interessante, conflito, cenário, atmosfera, personagens, enredo
  3. Escreva e reescreva sua história diversas vezes, quantas forem necessárias, até que ela só mostre o essencial.
  4. Comece pelo meio, pela parte mais importante ou mais emocionante. Forneça uma guia da história ao leitor.
  5. Escolha o melhor título possível, ele fará parte da narrativa
  6. Deixe um questionamento na última linha que conduza o leitor a reler o conto para entender a mensagem. Ou seja, leve o leitor por um caminho e o empurre para outro.
  7. Coloque a conclusão no meio da história.

Neste link, Lydia Davi conta sobre seu processo criativo e mostra como um dos seus contos foi escrito. Do rascunho ao final.

 

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/07/lydia-daviss-very-short-stories/372286/

Pontuação de Diálogos -(“) desculpou-se por interromper (“).

A shelf filled with books

O pedreiro levantou a parede da cozinha, a da pia. Instalações hidráulicas e elétricas precisam ser feitas, para permitir a passagem dos conduites e canos. Se você contratou um empreiteiro ou arquiteto ele vai fazer uma análise da praticidade das instalações antes mesmo de levantar a parede. Se não, prepare-se para algumas dores de cabeça e despesas desnecessárias com reformas assim que a obra ficar pronta.

A pontuação dos diálogos é este buraco por onde passarão os verbos dicendi ou outra informação que deixe claro quem está falando. Dependendo de como você usa a pontuação ela pode facilitar ou dificultar a leitura, acrescentar elementos novos ou deixar o leitor desconfortável.

Outras informações sobre como fazer ou não fazer um diálogo estão nesta outra postagem (Diálogos e seus Dramas (ou seriam Comédias?) – Dicas Para o Escritor Iniciante – 16

Diálogos

Regras Para Pontuar o Diálogos.

Para as regras você pode consultar também gramática. No entanto, são as nuances que fazem a pontuação importante. Para começar, há duas formas básicas.

LATINA

– Muito maior – acrescentou o outro.

INGLESA

“Pobre pequena”, ela sussurrou.

OUTROS MODELOS

Com vírgulas separando o verbo dicendi

– Você está lindo, disse ela, esquece-me inteiramente. (Machado de Assis, D. Casmurro)

Com aspas retas, o correto nas línguas latinas

“Você está lindo”, disse ela, “esquece-me inteiramente”.

Com aspas simples, inglês séc. XIX

‘Ele vai e vem cristão’, disse ela. (C. Dickens – Oliver Twist)

Aspas inserindo o diálogo dentro do corpo do parágrafo

Pree permaneceu em pé na grama embaixo das árvores. “É isso que os Imortais já fizeram por você?” perguntou desacreditado, assim que a viu.  (G. R. R. Martin, Game of Thrones)

Travessões separando o sujeito do predicado ou de outras partes da mesma sentença.

– Nada – eu sopro – é menos seguro que a palavra divina, Eva. (Paul Valery, A Serpente e o Pensar)

Com verbos acendi:

Ela acrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:

– Seremos felizes!

(Machado de Assis – D. Casmurro)

Sem dicendi ou acendi

– Séculos depois e você quer se comparar ao Angelo… – Ele fez um gesto de impaciência. (Priscilla Matsumoto, Ball Jointed Alice)

Nada ou quase nada

O texto deixa claro quem está falando e só usa dicendi ou acendi com figurantes.

Daniel Galera – Cordilheira

QUAL MODELO ESCOLHER?

Como as instalações da parede. Eu posso escolher quebrar a parede para colocar os conduites, posso usar tijolos especiais para passagem de fios, canos e instalação de tomadas, assim como fazer instalação aparentes. Tudo vai depender do estilo do proprietário, da casa, da decoração etc.

Portanto a escolha da pontuação nos diálogos está diretamente ligada ao efeito que se pretende no texto.

Olhando para o travessão e para a vírgula: o primeiro parece separar quase completamente o diálogo da ação, enquanto o segundo tem um efeito de proximidade.

Olhando para as aspas e para o travessão: as aspas parecem dar certa cumplicidade ao texto e a ação, enquanto o travessão tem um caráter mais explicativo, esclarecedor.

Quebrar a ação ao meio como no exemplo acima:

– Nada – eu sopro – é menos seguro que a palavra divina, Eva.

Traduz-se como reticências, uma pausa do locutor entre as partes das sentenças, a própria vírgula, então o uso da vírgula neste exemplo específico faria menos sentido do que o travessão.

Começar o diálogo dentro do parágrafo e continuar dentro do parágrafo pode sugerir uma interação entre cenário e diálogo, como se os personagens não pudessem se dissociar do local em que a ação acontece.

PARA ALÉM DA REGRA

Ainda podemos pensá-lo como todo o texto em primeira pessoa num diálogo consigo mesmo em que as próprias respostas fossem o parágrafo seguinte.

Tabulá-los como num poema

Entorpecido de pesados sonos.

Sonho?

Sonolento de sonhos e arbustos.

Foi sonho?

Espesso de mormaço e sonhos…

Sonhei ou…?

(Mallarme – A sesta de um fauno)

 

Ou como numa conversa em rede social

PASSA LÁ EM CASA

QUE HORAS?

DEPOIS DAS TRÊS

O desejo de ser como um rio

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Não comprei minha passagem para o outro eu. Embora, nos últimos dez anos, tenha guardado dinheiro para este fim. Acessei o link, marquei o dia e a hora da viagem e fui até o guichê para embarcar. Uma fila imensa. Odiar multidões é uma das muitas neuroses que a idade me trouxe. Faltando dois números, desisti. Não estou velho o suficiente para perder toda a disposição de lutar contra o novo. Voltei para casa e peguei meu crochê, dei laçadas e laçadas até que novos calos crescessem sobre os outros. Antoine me chamou três vezes e não atendi, nem deletei.

Confortável e protegido pelas almofadas sobre o sofá, concentrei toda a minha capacidade em copiar o padrão da combinação de cores no modelo, para que ao final do processo o desenho fosse o mais perfeito possível. Em algum momento, anestesiado pelo compasso da agulha, adormeci. Quando acordei tomei o resto do suco que ficou me esperando sobre a mesinha. Os líquidos me entendem, se acomodam ao copo, se acomodam dentro de mim. Fui ao banheiro, precisava de um banho, mas não tomei. A linha em toda a extensão do novelo cheirava a mim.

Antoine chamou e o localizador apontou para a minha porta. Esqueci de marcar ausente e ele sabia que eu estava em casa, escondido, imóvel. Será que eu poderia ser a porta da rua na próxima vida? Não me sentiria sozinho, ouviria as conversas dos que me esperavam abrir, mudaria de cor e forma de tempos em tempos. A resposta é não. Então teria que ser a alma da porta, não a porta física, não seria eu, mas a minha alma a ocupar um lugar.

Antoine usou o código que lhe dei e entrou provando que a minha resistência era inútil. Seria encontrado e confrontado de qualquer jeito. Ele me fez as perguntas para as quais eu mesmo buscava respostas.

– Está lúcido? – Foi a primeira.

– Acho que sim, não sei. Boa tarde, Antoine.

– Boa tarde, Lucas. Que aconteceu com você?

– Eu fui, mas não tive coragem. Você entende?

– Olha para mim.

Eu estava olhando para ele e para aquele mundo torto e sujo, que um dia foi como meu apartamento. Janelas retas e móveis práticos. Antoine refletia sobre o vidro da janela num laranja crepuscular e compassivo. Ele me observando envelhecer e sofrer.

– Eu mudei – disse.

– Não, Antoine, para mim continua o mesmo. – Virei e meu amigo estava nítido, em nada parecido com o sol moribundo do fim da tarde. Resplandecente em toda a sua juventude e energia, como 40 anos atrás.

– Eu só fiz por que você disse que faria o mesmo depois que eu atingisse a idade limite! Gastei tudo o que tinha! Mudei, estou pronto, esperando por você. – Os olhos brilharam, mas nenhuma lágrima. Antes da viagem com certeza choraria rios, fluído como era.

– Não consegui. Acho que não consigo. – Volto a olhar o crepúsculo, agora roxo e fúnebre, as nuvens descendo junto com o sol para as entranhas da cidade gigante que é o hoje.

Por insistência dele, agendo uma consulta com a doutora Simone, do outro lado do rio. Vou a pé, meu prédio é um dos únicos nesta região que não sofreu interferências até perder a estética, assim como eu. Não me acomodo à nova maneira de viver, ele também. Somos pares, nossa paisagem continua do mesmo jeito de quando éramos criança: paredes retas, janelas retangulares, terraços espaçosos com seus parapeitos gradeados onde minha mãe costumava pendurar o tapete da sala para arejar. “Tapetes respiram”, dizia ela. O estacionamento em frente onde brincava com meu skate não existe mais, foi substituído por uma torre verde, um enorme emaranhado de plantas hipócritas na Rua da Agricultura que não produzem sequer uma romã, sem folhas no inverno e infestado de insetos no verão.

Quando o sol ataca a janela do meu quarto carregado pelos pernilongos e moscas, meu desejo de viajar e ser o outro aumenta. Nos últimos dez anos, todos os dias durante os dois meses de sol intenso, faço uma oração de estio, ameaço os insetos com a intenção de abandoná-los, deixá-los sem a iguaria que é meu sangue ralo de idoso. Tóxico de passar pela vida respirando poluição e ameaças. Então, como os padres extintos, me recolho ao catre – minha cama envolta em tela – e procrastino, peço ardentemente por mais um dia, me penitencio com picadas.

No fim da rua havia uma prisão que virou hospital que agora é depositário dos que transitam entre esta vida e a outra. Minha mãe dizia que éramos sortudos, pois se qualquer doença nos acometesse era só andar uma quadra e pronto, não precisaríamos nem de ambulância. Nunca precisamos, meu pai era catalão, dizia: “meu filho é forte como um touro”. Só preciso andar uma quadra para ser jovem, ser melhor, quase imortal. Quando tiver coragem para abandonar-me eu irei, ou melhor, quando tiver certeza de que a vida que levei valeu a pena, conseguirei passar pela multidão e retirar minha passagem, andar este quarteirão e me juntar ao futuro. Antoine ficará feliz em ver um Lucas que nunca deixará de amanhecer, como ele.

A Avenida Charles de Gaulle não existe mais, aqueles prédios baixos, os espaços abertos. O vento úmido com o cheiro do rio é amparado pelas aletas dos edifícios tortos entre vielas idem, de onde pendem itens variados para o conforto dos que se arriscam voar. Prefiro rastejar, mas não há a opção pele de lagarto na nova vida: asas retráteis, pés rodantes, mãos multiuso, sexo reversível são as modificações mais solicitadas. O dinheiro compra mobilidade e prazer. As minhas juntas doem e estalam, o peso do meu corpo é excessivo e meus joelhos que se dobram para dentro permanecem inchados a despeito das pílulas e injeções. Bato a bengala na calçada, mais para espantar a dor do que me equilibrar. Queria arrastar-me pelo chão, investigar as frestas e desaguar no rio.

Não gosto de atravessá-lo ele me faz querer mergulhar até o banco de areia no seu fundo, areia que se espalha pelas suas margens nuas, sem plantas, no descaso onde estendem-se os ociosos do fim da tarde. Tiraram as laterais da ponte, desnecessárias neste mundo seguro, sem suicidas ou veículos erráticos. Sento-me na beirada de concreto e observo a corrente tranquila do rio serpentear pela cidade. Do outro lado, a doutora me espera e o rio de outra cidade, imundo. A confusão dos que gritam para além da ponte.

– Sente-se, Lucas. É bom tê-lo aqui, são poucos pacientes hoje em dia. Todos se acham perfeitos e sem problemas. Não que esteja reclamando.

– Já está, doutora.

– Sei, queria trabalhar mais. Temos a mesma idade, você sabe, não?

– Sim, você já me disse. Nasceu no Rio, não foi?

– Não, em São Paulo, deste lado do rio. Havia uma rodoviária aqui bem movimentada.

– Novos tempos, novas experiências.

Ela parece distante. Da sua própria profissão. Fomos jovens num tempo em que o trabalho era tudo, dignidade e escravidão, corda bamba que cruzávamos todos os dias na intenção única de sobreviver. Para os que amavam o que faziam é doloroso olhar o passado e desvencilhar-se deste amor. Eu era fotógrafo, parte do que capturei em preto e branco está na minha caixa de memórias que pode ser acessada por todos, mas quase ninguém vê. Eu a chamo de minha paixão invisível.

– Eu imaginava – diz ela – na vida anterior, que a esta altura estaríamos todos morando numa estação espacial e comendo ração ou encontrando algum predador alienígena. – Simone enlaça os dedos de 30 anos, ela sempre foi comedida, a maioria pede menos de 25. As unhas estão pintadas de vermelho fogo como os lábios.

– Posso falar do que me incomoda? – Interrompo suas divagações, não quero voltar depois de anoitecer e nossas sessões são doloridas.

– Claro, Lucas. Desculpe. Fale, por favor.

– A solidão. Eu tinha um trabalho reconhecido no mundo inteiro, não era famoso, mas meus pares me motivavam e eles não existem mais.

– Explique melhor seu raciocínio, Lucas. Pois acredito que as pessoas a quem se refere estão vivas, pelo menos a maioria.

– Elas estão vivas para si mesmas. Nós, os mais velhos, ainda podemos sentir aquela compaixão desapegada. Antes se caíssemos na rua, seríamos amparados por estranhos que não perguntariam se éramos dignos ou não de ajuda. Não remexeriam nas nossas informações para saber que tipo de pessoas somos ou fomos, simplesmente nos ajudariam. Hoje, sofremos de compaixão seletiva.

– Você acha que não te ajudariam se o vissem cair na rua?

– Provavelmente não, foram tantos os erros semânticos e não semânticos que cometi na vida. Todos nós cometemos, quero dizer.

– Eu não me lembro de nenhum. Esta é uma das vantagens de renascer, acho mesmo a melhor. – Deu um sorriso resignado. – Poder eliminar todos os arrependimentos.

– Deve ser o Paraíso na Terra, não é? – começo a rir e não consigo parar até que o riso vire gargalhada. – Somos todos uns filhos da puta ateus procurando pela redenção religiosa disfarçada de tecnologia, a humanidade virou uma charge gigantesca.

Simone esperou primeiro a graça passar em mim e então a volta do ar aos meus pulmões asmáticos. Eles que são parte da minha resistência pacífica e recusam-se a trabalhar na normalidade. Respiro amplamente num esforço para sugar todo o ar da sala e faço aquele som de torneira abrindo e cano vazio. Ele resiste, o ar da sala continua todo lá, rodando à minha volta, zombando da minha incompetência em subjugá-lo.

– Sinto muito, Simone – sussurro ou arfo ou os dois.

– Quando estiver melhor continuamos, sabe que não tenho pressa. Não preciso ter.

– Vou indo. Tenho uma colcha para acabar. – Apoio a bengala no tapete sujo e levanto.

– Lucas, precisamos conversar. Por favor, sente-se, não fuja de si mesmo novamente.

– Eu sei que não há saídas, Simone. Amanhã viajo, em uma semana estarei nos braços de Antoine, novo em folha, um lindo bebê com sua memória em progresso. Quero escolher parar aos 35 anos, acha uma boa idade?

– Sim. Quero te ver em alguns anos, promete voltar.

– Prometo voltar e te levar para olhar as estrelas e fazer amor sob elas até amanhecer. Como antigamente.

– Não me lembro disso.

– Desta vez não vai se arrepender.

Ao deixar o consultório tenho a impressão que consegui enganá-la, mesmo sem saber porque o faria, talvez só para me livrar desta Simone. No princípio era novidade, recordava dos nossos tempos em Paris, do apartamento longe do centro, da comida brasileira que ela me fazia, enquanto ela falava. Ela não recorda mais. Ao longo de nossas conversas consegui descobrir o que ela trouxe para a nova vida e o que deixou para trás, mas estou longe de conquistá-la e quando recuperar as lembranças de nós dois elas se limitarão àquele consultório monótono do lado barulhento da cidade ubíqua. Nossos diálogos sem nexo, as minhas inconstâncias e as inseguranças dela. Médico e paciente, barreira moralmente intransponível como um incesto.

As paredes grafitadas e irregulares do túnel Cruzeiro do Sul sustentam milhares de abrigos sobre ela, os refugiados da Cidade Luz, os que não tinham dinheiro para a transformação. Cogitei mudar-me para cá, para o resto do mundo que não conhece nada além da necessidade de sobreviver este dia para talvez ganhar o próximo. Sou prisioneiro do meu conforto, da minha rotina, dos dois banhos diários, das histórias nas estantes da memória, da cultura e correção dos meus pares, da comida que nunca falta. Sem falar, mas já falando, do crochê e das almofadas sedutoras sobre meu sofá.

Preciso de um transporte, é quase noite. Talvez quando sair do túnel o horizonte já esteja negro e a lua tenha tomado emprestado um pouco do brilho do sol. Vou a pé. Daqui a pouco minhas costas arquearão ainda mais e meus joelhos latejarão. Mais adiante, disputarei contra o ar, com ajuda dos meus velhos escudeiros, os pulmões, tossirei e arfarei até que derrotado ele não tenha outra opção a não ser deixar-se respirar. Sentirei pela última vez todo o pesar da minha vida, chorarei a noite inteira a tristeza infinita que é amar e perder o amor, amar e perder o amor, amar e perder o amor.

É noite sobre a ponte sobre o rio. Ele fluí e eu sento exaurido para vê-lo seguir sem que lhe seja cobrado outro caminho que não o seu destino. O que previ no túnel alguns minutos atrás torna-se realidade. Menos o resultado da batalha, o ar venceu e não tenho mais provisões no meu castelo fortaleza murado contra o novo. Quero tombar para frente, cair, tocar a água e ser levado para a areia, mas sinto meu corpo inclinar para o lado, meus dedos soltarem o cabo da bengala, a Lua me iluminando, refletindo sua distância na lâmina do rio.

Não sei por que tenho medo do prédio na Rua da Agricultura. Papai me diz que foi na outra vida. Fico mais tranqüilo.

– O que você quer fazer depois do passeio, Lucas? – ele pergunta.

– Brincar de voar!

Antoine abre as asas e me carrega. Ele é o melhor pai do mundo!

 

 

O Básico sobre Mostrar e Contar

Contar e Mostar

 

Este artigo foi traduzido do original escrito por Emma Darwin em seu blog The Icht of Writing Showing and Telling: The Basics.

Fale-se muito em “mostrar e não contar” porque escritores iniciantes contam demais quando eles deveriam estar mostrando. Mas é claro, como regra geral, não é tão radical a necessidade de Mostrar ao invés de Contar. Ambos têm seu valor, a chave é entender a força de cada um e usá-los de forma eficiente na sua história. Repare que nem tudo na escrita é sempre binário, na verdade, atravessa um espectro que vai do mais contado conto até a mais mostrada mostra.
Mostrar é para fazer com que o leitor sinta que está dentro da história: cheire, veja, ouça, acredite na verdade da experiência do personagem. Como John Gardner diz: “é convencendo o leitor através da realidade e do detalhe que evocamos nosso mundo imaginário sobre o que o personagem faz ou diz”, persuadimos o leitor a ler a história como se tivesse realmente acontecido, mesmo estando cientes do contrário. Significa trabalhar com a imediata reação física e emocional do personagem: a cólera que chega a seus ouvidos, o vento açoitando seu rosto, um pedinte agarrando seu casaco. Quanto mais eu explico o Mostrar, mais eu o quero chamar de Evocar.
Contar é para forrar o caminho, quando você precisa de um narrador, tanto se ele é um personagem quanto por sugestão: um narrador externo ou uma terceira pessoa. Uma informação suplementar: “era uma vez”, “um exército voluntário foi reunido”, ou “as montanhas estavam cobertas de uma fina camada de cinza vulcânica”. Colocado desta forma é só um pouco mais distante da experiência imediata de que o momento do livro trata. Quanto mais eu falo sobre Contar, mais eu quero chamar de Informar.

Contar/Informar: A temperatura caiu durante a noite e a densa geada refletia os brilhantes raios de sol.
Mostrar/Evocar: O ar da manhã penetrava o frio cortante que era faca em seu nariz e boca, deslumbrantes camadas de gelo cobriam cada broto e galho.
Contar/Informar: O homem alto era um marceneiro pleno e carregava as ferramentas de seu ofício.
Mostrar/Evocar: Um machado e um martelo pendiam de se cinto e um enxó enganchava-se ali, a unha de um de seus dedões era negra e quando ele se inclinou ela viu várias farpas e serragens presas em seus cabelos negros.
Contar/Informar: Eles estavam em pé, juntos e envolviam os braços um no outro, num abraço apaixonado, então ela percebeu que ele havia cavalgado muito para encontrá-la e, talvez, por isso estivesse tão nervoso quanto ela.
Mostrar/Evocar: Eles se agarraram no abraço e o tecido de sua jaqueta parecia desconfortável sob o seu queixo. Sua mão subiu para tocar seus cabelos, ela sentiu o cheiro do couro e dos cavalos sobre a pele de seu punho. Ele tremia.

Perceba que, embora Mostrar seja um pouco mais longo que contar, não precisa ser necessariamente assim (Link para o artigo em inglês sobre Mostrar demais) Existe situações em que deixamos assuntos mais abertos e não tão pormenorizados para que o leitor possa fazer uso da própria imaginação, (link para artigo em inglês sobre mais e menos informação). No geral, você está tentando fazer com que a experiência do mundo e do personagem ganhe vida, como se sentisse de leve o perfume deles, intenso e imediato. Mostrar é mais importante nos momentos de mudança na história, nos eventos cruciais na jornada do personagem e deve viver em nós da forma mais intensa possível, pela sua total compleição, acima de tudo, pela total evocação.

Contar/Informar: James era alto e atraente para as mulheres, sendo charmoso ao ponto delas se apaixonarem à primeira vista, elas nem imaginavam o quão pouco ele se importava com isso.
Mostrar/Evocar: Mostre-nos como é James no bar, o que ele diz, mostre-nos Anna olhando para seu rosto e vendo o amor no seu sorriso… e então mostre-nos o que ele diz, no banheiro dos homens, sobre se prevenir para que aquela garota, “Como é mesmo o nome dela? Anna?”, não descubra seu endereço.
Diálogo é basicamente Mostrar, está é a sua função, embora tenha que se ter cuidado para que

a) a voz do personagem, a maneira como fala, reflita sua personalidade e

b) não encher o diálogo de tralhas descritivas sobre o que está rolando em volta.
Pode ajudar muito pensar em termos de distância fictícia (Link para o artigo em inglês sobre distanciamento). Por enquanto, dê uma olhada nos parâmetros de distâncias, e veja como elas demonstram o espectro que vai do extremo contar até o extremo mostrar.

  1. É o inverno do ano de 1853. Um homem forte está parado do lado de fora da porta sob a tempestade de neve.
  2. Henry J. Warburton nunca se preocupou com nevascas.
  3. Henry odeia nevascas.
  4. Deus! Como ele odeia estas malditas nevascas.
  5. Neve. Sob o seu colarinho, dentro de seus sapatos, congelando e encobrindo sua alma miserável

Veja como o Contar é ótimo e explica exatamente onde estamos e o que está acontecendo. E Mostrar funciona da mesma maneira quando queremos denominar o físico e o emocional da experiência do personagem, embora não nos diga onde e quem o personagem é. Como um exercício sobre o assunto, pegue duas ou três sentenças do meio de uma história que você está tentando escrever, e reescreva-as de acordo com os cinco parâmetros de distância sugeridos por Gardner.

A sugestão Mostrar-não-Contar é também a raiz da discórdia quando se fala em que se deve evitar adjetivos e advérbios. Se você nos diz que uma casa é imponente e um personagem se aproxima nervosa e hesitantemente, não é nem de perto tão vívido quanto fornecer a sensação da experiência dele sobre a casa, fornecendo corpo ao momento.
“Ela tem que dobrar o pescoço para ver o topo do telhado e uma águia de pedra olha de volta, enquanto ela sobe degrau por degrau suas pernas doem.”
Encorpar o efeito de colocar o personagem na ação faz com queo leitor sinta junto com ele, porque a mente não reconhecesse a diferença entra o imaginário e o real durante a leitura. O que a palavra imponente nos faz sentir? O que a expressão aproxima-se nervosa tem a nos dizer na verdade?Nos informa qual o efeito, mas não evoca a experiência do personagem. Mas eu sei como é sentir meu pescoço dobrando para olhar para cima e subir escadas que parecem não terminar nunca. Mostrar/Evocar ainda nos dá outra vantagem neste exemplo. Do ponto de vista dela as águias estando apontando seus narizes na sua direção: a evocação da sua postura é filtrada através da sua própria percepção, assim ao mesmo tempo nos é dada tanto a experiência física quanto a emocional. E porque estamos cientes de que as emoções são dela, sabemos que pode não ser tudo a se dizer (alguém pode ver as águias de forma positiva como se curvando num sinal de boas-vindas, uma terceira pessoa ainda pode conjecturar de que espécie são as águias) e nosso entendimento sobre o caráter da personagem e sua experiência subjetiva ganha peso.

Um subitem de Contar, que trata também do uso de advérbios, fala sobre a inscrição do discurso propriamente dito (Link para texto em inglês sobre elocuções). Não informe que ele gritou furiosamente, evoque em palavras furiosas e ações, assim a fúria será evocada para o leitor também. Não informe que ela falou em tom de piada, escreva a piada e confie que o leitor saberá que se trata de uma gracinha do personagem. Se o discurso for tomar um caminho diferente do que pretendia, mostre o efeito que será produzido: ele foi surpreendido pela fúria que irrompeu de si mesmo ou nos outros personagens. Na verdade, mostre-nos o efeito daquela gracinha que ela disse, o que há de realmente interessante na cena: ela contou uma piada, esperou pelas risadas, ele sorriu e Granny resmungou desaprovando. Um pouco menos eficientes, são as marcações de discurso, elocuções, no sentido de mostrar o como foi dito: “ele riu, ingênuo”, “ela murmurou já sem esperanças”. Se tiver dúvidas, troque o disse ou falou por “gritou”, “chorou” quando quiser indicar volume, por exemplo.

 

Não elimine o Contar. Contar é a cobertura do terreno quando ela é necessária, tem muito valor. Que você pode colorir com a voz e o ponto de vista do seu personagem, tornar mostrável, mesmo se for só para fornecer um forro à cena.
Contar Ruim: A temperatura nos meses de novembro e dezembro era terrível, como ela percebia toda a vez que se iniciava seu dia de trabalho. No geral, o trabalho progredia, mas os cavalos sofriam com o tempo úmido. Ela esperou que ele entrasse em contato com ela, mas ele não o fez e perto do Natal ela quase persuadiu a si mesma a perder a esperança de que ele entraria em contato. Ela decidiu que de qualquer jeito celebraria o Natal e foi decorar a árvore, então, finalmente, ela ouviu o toque do celular indicando que alguém estava tentando entrar em contato com ela.

Contar Legal: Novembro virou-se em Dezembro e a trama no tricô crescia com constância, enquanto do lado de fora abaixo da sua janela os cavalos eram incomodados pela chuva. E ele ainda não ligara. Perto do Natal ela desistiu de ter esperanças. Decidiu armar a árvore mesmo assim, quando ela estava tentando enganchar a primeira bola o celular tocou.

O Personagem Conta: Novembro desaba em chuvas, sem parar, todos os dias, parecendo um único e longo final de semana, os cavalos pastavam tristonhos e eu tricotava. Sei que sempre chove nesta época, mas parecia que estava chovendo em mim, a chuva era pessoal, além disso o telefone recusava-se a tocar. Choveu Dezembro todo também e mesmo quando eu abri a caixa de enfeites de Natal não me senti melhor, neste momento o telefone tocou…

Repare que por causa do Contar a narrativa não está próxima, a distância psíquica paira entre o 2 e 3 (NT: vide acima  exemplos de distância em negrito). Quando o personagem conta pode ser 3, pois ainda oferece dados precisos, forra o terreno, mas não generaliza o número de meses e a inclemência do tempo ou a época festiva. Tudo é envelopado em aspectos físicos, tangíveis, imagináveis: o tempo marcado no crescimento do tricô, o seu estado de espírito na tristeza aparente dos cavalos sob a chuva, a erosão gradual da esperança enquanto o tricô crescia o telefone continuava mudo. Ainda há um verbo de ação atrelado ao mês, que abstrai a ideia de tempo. Embora o contar do personagem não use estruturas específicas de Contar tipo: “sempre chovia”, “não me fez sentir melhor” etc., o fato deste contar ser produto da expressão e do ponto de vista do personagem o torna mais vívido.

E quando ela atender o telefone, iremos direto para o Mostrar do personagem em ação: o que ela disse, sentiu, pensou. Generalizando, quanto mais crucial é a cena, o personagem em ação, o cenário, mais cheio de mostrar terá que ser sua escrita. A maioria das cenas principais acontecerá em tempo real, porque serão os momentos importantes de mudança, conflito, decisão e aquisição de experiência. Elas precisam e merecem ser evocadas com o máximo de vida e conteúdo possível. Como um trem: mostrando os compartimentos e os vagões enquanto passa pelo túnel, contar seria um engate forte e flexível que liga uma composição à outra.

No entanto, sempre existirá casos para condensar partes de uma cena importante: sempre existirá eventos que precisamos saber que aconteceram, momentos que precisamos dar forma à cena sem detalhes tão específicos. Momentos em que na verdade o escritor precisará ser mais direito, mais plano para deixar um pouco de espaço à imaginação do leitor. (NT: em breve traduzirei dois artigos da mesma autora que falam justamente deste tema, um deles sobre cenas de sexo e outro que explora excessos no Mostrar).

Especialmente no começo de um livro torna-se complicado balancear o mostrar e o contar de forma correta, porque por um lado você precisa envolver o leitor o mais rápido possível na vida e nos sentimentos dos personagens, fazer com que tenham carinho por eles e assim levar o leitor a querer saber mais sobre eles. Por outro lado, precisamos de uma certa quantidade de informações sobre o quê, o onde e o porquê, isso se nos preocupamos suficientemente com o leitor para fazê-lo continuar com a leitura. Se você começar no 1 é melhor inserir logo o leitor no mundo do personagem, se começar no 5, terá um monte de explicações para dar.

Uma última observação. Sempre existe a liberdade de ação para quem quiser escrever a história como fábula ou caso, gênero que usa frequentemente um contador de histórias para contá-la e a voz do narrador está presente ao longo da história. O arquetípico narrativo é parecido com o de um conto de fadas, que é quase totalmente Contar. Neste modelo, a voz do narrador é mais crítica do que em qualquer outro tipo de escrita, para manter o efeito de distanciamento o narrador nos mantem junto a ele e não com os personagens, o narrador e o que está dizendo deve ser muito mais cativante. Mas se você ler algum dos contadores modernos verá que mesmo com uma narrativa carregada de Contar ou um narrador muito presente quando bem feita não elimina a experiência física e emocional do que lemos é extremamente vívida. Isto é o que Mostrar significa quando faz uso do Contar.

 

Quase razões

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Eu escrevo porque é o que me resta

fazer neste fim.

O mundo pode acabar amanhã,

em uma semana,

ou na próxima década. Sobrou

contar as favas onde será lançado.

O inferno será aqui,

amanhã,

em uma semana

ou na próxima década. Escrevo

para lembrar que não estou

no sonho da musa,

brinquedo da mídia,

coçando-me das picadas

das pulgas

da cultura ocidental.

Partirei em breve, partiremos,

pela casa descascada,

pelo carro descabido,

pela estrada asfaltada

e a insignificância dos escolhidos.

Que serão doentes e selvagens

e vagarão pelo rumo da fome.

Vivo sozinha, por enquanto

escrever é parte

desta solidão quase finda.

Infinitesimal partícula menos

cem,

duzentos,

mil à décima

se comparada ao todo que não sabemos

Comestível e longínquo

em medidas cósmicas.

Vamos todos morrer da ignorância.

Visto do espaço não sou visto,

olho para o espaço e ele é cego.

As estrelas brilham

Evocando outros mundos

A maioria morreu, restaram ecos

como os meus.

Escrevo não porque estou viva,

Ou existo e pertenço.

Escrevo porque imploro que

estes últimos instantes sejam os primeiros

e o sol se transforme em vento

e o vento em aura leve de histórias plenas.

12 FUNDAMENTOS PARA ESCREVER O OUTRO – TRADUÇÃO DO ARTIGO DE DANIEL JOSÉ OLDER

“Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema que é escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social.”

 

Estamos sempre escrevendo o outro, e sempre escrevendo nós mesmos. Nos deparamos com uma equação quase impossível de resolver toda vez que contamos histórias. Quando criamos personagens com origens e experiências diversas das nossas, nós estamos na verdade contando essencialmente suas histórias sob a nossa própria perspectiva.

Nós nos deparamos com discussões acaloradas sobre escrever o outro – a intersecção entre poder e identidade, privilégio e resistência –  em seminários, nas seções de comentários dos artigos e blogs, na rede social, em salas de aula. Então, como podemos escrever respeitosamente na perspectiva do outro? Aqui estão 12 orientações para iniciar este processo:

1. Pesquisar é só o começo e ainda é muito pouco

Quase todas as conferências, dissertações, blogs e seminários que tenho visto a respeito de escrever o outro podem ser resumidas em “faça sua lição de casa”. Deduz-se pelo não dito que todas as peças deste quebra-cabeças insolúvel de privilégios e poder se encaixarão perfeitamente, se fizermos nossa pesquisa. Só que não é assim. Escrever sobre pessoas que têm uma experiência de identidade diferente da nossa não é um desafio narrativo de simples solução. Vários escritores que são “especialistas” em uma cultura específica ainda criam estereótipos pobres e vulgares quando se trata de trazer esta especialização para criar personagens reais.

As raízes da prática de pesquisa ocidentalizada de culturas diversas incluem eugenia, dissecações, esterilizações forçadas e, frequentemente, o véu desumanizador da antropologia. Não estou dizendo que “toda a pesquisa é má”, mas sim que temos que ter consciência das histórias complexas e mesmo dolorosas que abordaremos para que não repitamos os traumas já causados.

Eis o que diz o escritor de American Horror Story, James Wong: “Fizemos uma pesquisa profunda sobre magia negra e claro, não existia tanta coisa para a gente trabalhar em cima porque nada disso é verdade (risos). Mas quando fazemos pesquisa, encontramos muitos símbolos sobre fertilidade e fomos juntando e misturando este e aquele até resultar na cerimônia que criamos”. A despeito da sua opinião sobre American Horror Story, positiva ou negativa, este é um exemplo excelente de como a pesquisa é somente o primeiro passo. Tendo feito uma “porção” de pesquisa, o time de escritores optou por jogar as cerimônias de fertilidade num caldeirão, misturar tudo e criar algo novo. Veja que a ideia principal era de que nenhuma destas crenças tinha alguma verdade é algo risível para o Sr. Wong. Uma mistura de elementos pode ser bem feita. No entanto, se misturada, como geralmente se faz, com flagrante desdém pelo sistema de crenças que professa, o resultado é uma massa padrão, que não é isso ou aquilo, versão sintética de uma cerimônia sagrada enraizada em tropos de racismo e desrespeito.

2. Seus parâmetros são uma merda (¹)”

Diz Juno Díaz: “A única coisa que se pode dizer de um cara que escreve na perspectiva de uma mulher é: seus parâmetros são uma merda”. A marca de um grande músico não é a sua habilidade com o instrumento (²), mas sua capacidade de ouvir. O patriarcado vem ensinando desde sempre aos homens (NT: gênero) que supostamente nós somos especialistas automáticos em qualquer assunto, então por que ouvir o que outra pessoa tem a dizer sobre o assunto? Resposta: Para escrever o outro nós temos que ouvi-lo. Para ouvir precisamos calar. E esta não é a uma tarefa simples, só esperar alguém terminar de falar para então desembuchar imediatamente seu ponto de vista. Sério. Sente-se, respire profundamente e ouça o que as pessoas em volta estão dizendo. Ouça a você mesmo, seu próprio eu. Suas dúvidas e medos, as coisas que não quer admitir. Ouça as coisas que as pessoas dizem que fazem você se sentir desconfortável. Sente-se com este desconforto. Compreenda que está errado. Então tente errar menos e vá em frente.

3. Empoderar (³) importa

Diz-se que o conflito é a espinha dorsal da história, e o poder é o cerne do conflito, o que faz a história ter importância. Mas a nossa classe raramente oferece uma discussão sobre empoderamento e suas faltas e falhas. Como escritores de ficção não esperam que sejamos versados em escrever sobre o empoderamento, os detalhes, a sutileza, a complexidade disto ou a dor no coração. Habitualmente, pesquisa de fatos toma o lugar de diálogos profundos sobre opressão e resistência.

A compreensão do empoderamento importa mais do que detalhes tangíveis.

Cada personagem tem uma relação com o poder, que inclui as faces: institucional, interpessoal, histórica e cultural. Que é representada das micro-agressões aos crimes de ódio, de orientação sexual, à imagem corporal, das mudanças nas posturas de vida devido aos aborrecimentos cotidianos e diários e no profundo trauma histórico sofrido por uma comunidade. Poder afeta a relação do personagem consigo mesmo e com os outros, sua jornada física e emocional através da história. Se você ignora isso, ao final do processo você obterá bonecas de papel ou rostos brancos pintados de preto.

 

 

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço de Germana Vieira – www.lizziebordello.com/

4. Esqueça o outro. você consegue escrever sobre si mesmo?

Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema sobre escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social. Então vemos tantos caras bonzinhos e perfeitos, salvadores brancos e machos que fazem tudo “certo” e sabem exatamente como agir.

Você, possivelmente, não tem ideia de como os outros o percebem e, principalmente, se a imagem que faz de si mesmo é desconfortável por conta da qualidade do poder que ela perpassa. Salta na página este tipo de abstração do escritor.

Não existe escassez quando o assunto é livros de pessoas brancas falando de pessoas negras, o que não vemos muito são livros de pessoas brancas escrevendo sobre a experiência emocional, política, e social de ser um branco, os desafios e complexidades de ser branco. Nós não vemos muitos homens escrevendo sobre o patriarcado, como isso nos estragou, como diariamente ao nosso redor, aqui e ali, dançam os discutíveis gêneros binários. Sim, isto soa como tópicos para uma dissertação, mas na verdade são exatamente os tipos de conflitos internos que dão vida a um personagem.

 

5.  “Escrita racista é uma falha na construção da história”

Kwame Dawes apontou esta falha na AWP (Association of Writers and Writting Programs). Eu a mencionei anteriormente e vale a pena repetir de vez em quando. Nós falamos sobre preconceito e ódio de gênero como se eles fossem somente morais ou políticos, no entanto, essa abordagem resulta em estereótipos redundantes. Se você escreve estereótipos, sejam eles personagens, pontos na trama, ou pistas contextuais, você está escrevendo alguma porcaria que vem sendo repetida ao longo de gerações. Isso é chato, você consegue fazer melhor.

6. Caso de vida ou morte

Tendo dito que a escrita racista é um caso de como construir sua história, quero deixar claro que vai muito além disso. Normalmente o racismo é colocado em pauta como “ofensivo” ou discute-se o “politicamente correto”. Este é o ponto para debate: nem tanto isso, nem tanto aquilo. Estes formatos são uma moldura condescendente e desumanizadora do diálogo. Estamos falando de vozes continuamente silenciadas e apagadas pela corrente principal da cultura hétero-branca-machista.

Estamos falando da vida e morte de povos inteiros, estamos falando de auto estima e humanidade. Mesmo sendo adultos, com raras exceções, não percebemos como lidar com esta imagética. Pois quando criança não nos foram dadas as ferramentas para lidar com isso. Elas, as crianças, se deparam com isto mais do que ninguém. As altas taxas de suicídio e a opressão racial e de gênero que elas internalizam são reais.

Não podemos continuar criando gerações de crianças negras sob a égide de que só há espaço para elas como os caras maus nas histórias ou o figurante que vai morrer e gerações de crianças brancas pensando que estão perto de Deus só por causa da aparência. Não podemos continuar promovendo normativas sexistas hetero/cis e ideias racistas em nossa literatura. Criando uma configuração padrão de raça e gênero. Se você não está trabalhando contra isso conscientemente, está trabalhando a favor. Ser neutro não é uma opção. O luxo de se pensar deste jeito tem que acabar.

Citando Junot mais uma vez. “Eu acho que a menos que você esteja trabalhando ativa e conscientemente contra a atração gravitacional da cultura, você criará uma temática previsível com esta representação babaca de estereótipos. Sem falhas. A única maneira para fazer isso é admitir para si mesmo que você não é bom com estas questões, e estar consciente do processo de criação destes personagens.”

7. Ritual ≠ Espetáculo

Recentemente editei “Long Hidden”, uma antologia de ficção especulativa com contornos históricos. Eu e minha co-editora, Rose Fox, recebemos um grande número de submissões que não tinham nenhum elemento especulativo e apresentavam cenas de cerimônias não-cristãs. Culturas e crenças diversas de outros povos não são fantasia. Uma coisa é um semideus ou espírito andar por ai, interagindo com as pessoas – só essa interação por si terá uma certa complexidade – outra coisa é pessoas que celebram a sua crença serem incluídas no elemento fantasia, ou seja, serem consideradas não reais (NT), este tipo de coisa caracteriza-se como racismo cultural imperialista.

Além disso, a cultura de outras pessoas não é um circo, um show de horrores, um vídeo de música pop, uma paródia kitsch de um lar, uma fantasia de Halloween, uma afirmação para seu próprio ego.

Veja acima o que disse o roteirista de American Horror Story: “nada disso é real (risos)”. Se a possibilidade destas crenças serem reais é uma piada não escreva sobre elas.

No espetacular “Is Paris Burning?” Bell Hooks escreveu que “ritual é o ato cerimonial que carrega um significado… que vai além da aparência, enquanto espetáculo funciona somente como uma apresentação dramatizada feita para entreter… estes elementos de um dado ritual que são empoderadores e subvertem a ordem, podem não ser perceptíveis para quem olha de fora.

Por isso é fácil para um observador branco retratar rituais negros como espetáculo. Mais adiante, Hooks argumenta como o documentário Paris is Burning reforça esse retrato espetaculoso e desumanizante do ritual quando uma das pessoas retratadas no filme é morta: “tendo servido ao propósito do espetáculo, o filme abandona-o/a… Não há cenas de pesar pela sua morte. Falando grosseiramente, sua morte é suplantada pelo espetáculo. A morte não é  divertida.”

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8. Pesquisa do Outro: História com Estereótipo

Uma estratégia comum para escrever sobre o outro é inverter o estereótipo. O que é somente um começo, porque você continuará apoiado no clichê original, na verdade, terá que ir mais longe. Para começar uma contra narrativa, você tem que saber o que está lá fora. De outra forma trabalhará no mesmo caminho e chegará à mesma porcaria. Textos como o de Edward Said, Orientalismo, famoso por virar o jogo da antropologia branca, analisando sua própria análise, não refletem o que as pessoas querem dizer quando se referem a pesquisar sobre, quer dizer, não há a análise sobre a pesquisa na sua pesquisa, e a análise é tanto ou mais do que o subtexto da história que está contanto. Portanto, fique atento ao seu poder opressor.

 

9.  Evite o Enredo “Sou o Único Capaz de Salvar o Mundo”

 

Falando de estereótipos, vamos pegar o Mágico Negro como exemplo, usada excessivamente no meu gênero preferido, ficção especulativa (FFC). Se no seu livro existir duas pessoas negras e ambas têm superpoderes e representam forças do bem e do mal você tem um problema. Entre estes dois personagens será expressa uma gama de características e complexidade emocional genuinamente brancas. Não importa se um dos personagens seja o bonzinho, acredite, você vai errar.

Na verdade, nós temos que ultrapassar o enredo do tipo O Escolhido, “The Chosen One”. Esse tipo de trama só tem um parâmetro, nada mais é que a representação do Salvador Branco.

– Num mar de rostos negros/mulatos/índios/orientais existe uma pessoa capaz de salvar o mundo!” Damos um zoom e o escolhido é… aquele com a cara branca. –

Como pessoa, esta suposição do salvador não existiria. Como escritor, eu imaginaria desse jeito. Resolve uma série de problemas se o personagem for pré-determinado desta forma para um épico confronto final. O personagem construído dentro do molde “o único capaz” fornece a razão para o antagonista querer colocar o povo nas trevas, para o levantar das lanças e o inevitável e emocionante clímax. A mesma PORCARIA que temos visto zilhões de vezes. Vamos fazer melhor.

10. O fato de que você vai errar não é razão para não fazer

Por volta dos meus vinte anos eu decidi que gostaria de falar sobre sexismo. Eu sabia todas as palavras que queria dizer, e não disse. Um dos motivos do meu silêncio é que meu conhecimento ia até certo ponto, assumi que iria fazer alguma coisa errada, e qualquer coisa que fizesse errado seria agravada pelo fato de que eu era só um de tantos homens falando sobre sexismo. Então eu me percebi jogando comigo mesmo, um jogo mental de ironia, ego e auto percepção, totalmente sem sentido que me impedia de fazer uma coisa que sabia ser importante.

Isto é uma verdade para todos aqueles que escrevem sobre outras culturas e experiências. Você vai estragar tudo e vai ser épico. Eu sei, eu fiz isto. Não significa que não deve fazer. Significa que você deve desafiar a si mesmo a fazer melhor e melhor a cada vez, aprender com seus erros ao invés de deixar-se acovardar por eles e/ou colocar-se numa posição defensiva. Como resultado deste empreendimento se tornará um escritor melhor.

11. A Feira Livre Que é O Mercado Editorial

O cenário atual na indústria editorial ainda inclui branqueamento das capas de livros, racismo, sexismo, cis-normativas, classismo, homofobia e capacitismo (NT: preconceito contra pessoas que têm qualquer tipo de condição física debilitante ou que as torna ineptas a se adaptar aos padrões considerados socialmente “normais”: nanismo, falta de um dos membros, cegueira etc.) A maioria dos agentes e editores são brancos, e a cultura branca rege a indústria. Autores negros lutam para ter sua voz ouvida, e nas editoras que apoiam a diversidade de publicação são autores brancos que, em sua maioria, escrevem sobre personagens negros. Apropriação cultural importa neste contexto porque se trata de quem tem acesso e de quem é pago, o que vai além de problemas como construção pobre da trama ou representação desrespeitosa. Como brancos temos que compreender que, além do contexto dentro da história que escrevemos, existe um contexto social do qual nosso trabalho faz parte.

12. Já considerou o ‘POR QUÊ fazer’? E o “NÃO fazer”?

Este processo requer uma busca da alma e sentir-se desconfortável. Sem desconforto, você não cresce. Às vezes, as pessoas evitam as questões mais básicas. Por que você sente que cabe a você escrever a história de outra pessoa? Por que você tem o direito de tomar para si a voz de outro? A resposta nem sempre é não – como escritores estamos constantemente penetrando na cabeça de outras pessoas. Com muita frequência, no entanto, não paramos para considerar se é a coisa certa a fazer. Então, as vezes a resposta é mesmo não.

 

 

12 Fundamentals Of Writing “The Other” (And The Self)

http://www.buzzfeed.com/danieljoseolder/fundamentals-of-writing-the-other#.vcXPyDzw8

Daniel José Older é um escritor do Brooklyn (NY/EUA), editor e compositor, Salsa Noturna, “ghost noir colection”, foi aclamado como impressionante e original pelo  Publishers Weekly. É editor da antologia Long Hidden: Speculative Fiction from the Margins of History, e seu livro de fantasia urbana The Half Resurrection Blues, o primeiro de uma trilogia, foi lançado em janeiro deste ano pela Penguin’s Roc. Dissertações e contos de sua autoria foram publicados na  The New Haven Review, Salon, Tor, PANK, Strange Horizons, e Apex. Sua música, ponderações e aventuras de ambulância moram em ghoststar.net e @djolder.

 

 

 

Coisas que gostei em O Andarilho das Sombras de Eduardo Kasse Ed Draco.

 

 

562934_452750564755791_959192777_nO Andarilho das Sombras – Eduardo M. Kasse – 378 páginas – Editora Draco – 1a Edição 2012

Demorei muito para falar deste livro, justamente por causa do título das minhas resenhas – o que mais gostei em O Andarilho das Sombras foi…, pois só conseguia completar com – tudo.

Na verdade, eu não gostei, eu adorei Andarilho das Sombras. Quando comprei o livro, no entanto, fui redondamente enganada pelo autor. Explico, fantasia histórica não é o primeiro item na minha fila de leituras, embora seja tão fascinada por História que esta disciplina chegou a ser cogitada como uma opção de carreira. Além de não ser muito chegada ao assunto “beber sangue e ser imortal”.

– Não é um livro sobre vampiros, ele me disse.

Eduardo Kasse não mentiu nesta parte, não se trata disso, mas o personagem se alimenta do sangue dos vivos e o autor narra estas passagens com tal maestria que agradeço muito ter sido ludibriada.

O livro conta a saga do filho de nobres Harold Stonecross, um ser imortal, amaldiçoado pelos deuses antigos, perseguido pela igreja católica, a quem despreza acima de tudo. Usufruindo do conforto que rouba dos nobres e padres, título e ouro, respectivamente, ele não sente culpa ou arrependimentos, aceita a sua jornada pela imortalidade quase como uma dádiva, a despeito das circunstâncias que o transformaram. De vila em vila escolhe suas vítimas e seduz mulheres.

São duas as linhas cronológicas da narrativa, a atual e a passada, tão bem costuradas que não dá para se perder, o leitor é conduzido com acuidade pelas entrelinhas, situando-o no momento que está sendo explorado naquela determinada parte. A leitura acaba sendo arrebatadora e só no final ficamos sabendo que evento/maldição tornou Harold Stonecross imortal.

Quanto a parte histórica do livro, ele se passa nos séculos X e XI na Inglaterra. O mais legal, além da trama e estilo narrativo, é que, ao invés de centralizar a ação num determinado evento histórico, importante e conhecido, ela corre pelos caminhos do homem comum daquela época. O autor teve o cuidado de pesquisar profundamente os hábitos das pessoas, nobres, religiosos, camponeses, ermitões – não heróis – pessoas como eu e você. E não se pode dizer que Harold é um herói, ou uma vítima, ele é assim como nós, meros mortais, só que não…  já que no caso de Harold ele vive para sempre. Eduardo Kasse nos diz no seu livro das pessoas e costumes da época, do que eram feitas as casas e abrigos, o que comiam e como eram cultivados, comprados, preparados seus alimentos, passando pelo vestuário, armas, hábitos, músicas etc.  Tudo é tão vívido que dá até para sentir o cheiro da comida, ouvir os animais na mata, perceber a textura das roupas no corpo.

Há outros dois livros da saga, que se chama Tempos de Sangue, um que se passa na Itália, Deuses Esquecidos, neste é o camponês Alessio que recebe a maldição e outra, Guerras Eternas, que retorna à Inglaterra no século XII onde encontramos novamente Harold Stonecross e outros imortais.

Recomendo muito a leitura destes livros, para quem gosta de ficção histórica e para quem não gosta, para quem gosta de bebedores de sangue e para quem não gosta, para quem gosta de heróis clássicos e principalmente para quem não gosta.

http://eduardokasse.com.br/blog/2015/08/13/a-literatura-e-a-economia-criativa/

http://editoradraco.com/2012/06/11/pre-venda-com-20-desconto-e-frete-gratis-de-o-andarilho-das-sombras-eduardo-kasse-2/

 

IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

Infelizmente eu não tenho tempo para muita coisa na minha vida de professora. Se somar minhas horas de trabalho remunerado às de trabalho não remunerado sobra pouco tempo para comer, ler e tomar banho, quanto a dormir a gente se ajeita. A maior parte do que escrevo aqui remete a experiências e leituras pessoais. Com certeza alguém já fez um tratado sobre isso, um TCC. Um blogueiro americano escreveu em inglês um artigo cheio de adjetivos, redundâncias, exemplos locais que não dá para entender, com no mínimo 1500 caracteres para falar de como não esquecer seus cinco sentidos, ou parte deles, ao escrever sua história.

Ontem à noite estava lendo um livro de ficção histórica e imaginando o trabalho do autor em coletar sua pesquisa para contar o que aconteceu setecentos anos atrás. Comida, plantas, remédios, veículos, armas, roupas e materiais. Imergi no livro e percebi o porque, ele falava do cheiro da comida, das texturas das roupas, do gosto dos remédios, dos diversos sons que o exército em marcha produzia.

Por que alguns livros e contos que leio parecem não oferecer a imersão na história que o autor pretende sugerir? Acho que faltam os cinco sentidos parece ser um boa resposta.
Autores iniciantes imaginam seu livro como um filme, se você sentar numa sala de cinema você vai ver e ouvir a cena – já se tentou fazer cinema com cheiro, mas o fracasso foi diretamente proporcional ao cheiro dos refrigerantes e salgadinhos que as pessoas consumiam, o perfume que usavam ou a falta dele. Setenta por cento da nossa percepção é visual, um filme como Chocolate, com Juliet Binoche e Johnny Depp, remete ao sabor de bombons e ao cheiro da calda quente, mas não sentimos nem o cheiro, nem o sabor ao assisti-lo, pressupomos.

Escrever é suposição bruta de todos os sentidos. A dimensão da experiência sensorial assume o caráter de símbolos sobre o papel e o leitor pode até dispensar a visibilidade destes símbolos: o braile, áudio-livros, contadores de história que leem livros para uma audiência. Se fechar os olhos por alguns momentos, os outros sentidos passam a compensar paulatinamente a falta do principal. Fechei meus olhos e percebi que minha vizinha do apartamento de baixo está fazendo pernil e alguém lava roupa ou o piso com produto perfumado, o ar que entra pelo meu nariz está seco, mesmo tendo chovido ontem à noite e pouco ou nada do cheiro de mato do parque em frente consigo sentir. Posso continuar assim explorando os outros sentidos, tato – a secura do ar mencionada acima – e paladar.
Ao construir seu universo,  ao criar os personagens, cenário e história, o pentagrama sensorial deve ser pensado e explorado, não necessariamente destrinchado. Explore e recolha o que de mais contundente ou contextualizado no sentido (tato-paladar-audição-olfato-visão) e inclua na história. O escritor iniciante que concentrar seu foco só na aparência ou nos ruídos perderá a oportunidade de realizar esta imersão.
Já li vários trechos e contos de autores cuja descrição da cena é como se fosse um roteiro, que deve ser completado pelo leitor. Não faz sentido. O leitor quer viver uma história, quem cria a história é o escritor! Se o leitor tiver interesse em ampliar o universo que o escritor criou ele dispõe de outras ferramentas: desenhar o personagem como ele imaginou, escrever um fan-fic e publicar numa plataforma online para compartilhar com outros fãs etc.
O escritor iniciante imagina a cena e começa por um verbo – virou-se, olhou, ouviu, agachou, levantou – acrescenta um complemento que fomenta mais dúvidas do que surpresas ou questionamento ao leitor e quase nenhuma imersão e a sentença geralmente acaba no nada:
Virou-se e viu um estranho que não sabia dizer quem era.
Olhou para uma coisa estranha que não sabia dizer o que era.
Levantou-se estranhamente não sabia dizer o porquê.
Ouviu um som estranho vindo não sabia de onde.

Por exemplo, o escritor quer descrever uma cena noturna, o mundo será de vultos, dependendo de qual sensação precisa para dar ênfase à sua história terá que explorar um ou outro sentido. Vamos supor que não se trate de medo ou perseguição – o mais comum – mas de abandono ou desamparo, o autor pode trabalhar os odores que a noite exala, talvez uma área suja e pouco cuidada da cidade, um canto escuro cheirando a urina ou vômito. Uma caverna em que o personagem se escondeu e sente sob os pés não a dureza da pedra, mas a umidade de um curso d’água ou a maciez de fezes de animais. Feche os olhos imagine-se por completo dentro da história, sem vê-la, explore um pouco os outros sentidos.

Precisando de pesquisa, vá atrás. A terra na região sudeste brasileira é vermelha por causa do ferro que contém, o chão tem um cheiro agradável e ferroso depois da chuva. O autor que escrever sobre um homem que vira guará nas noites de lua cheia em Minas Gerais, pode usar este elemento e combiná-lo com o gosto ferroso do sangue das vítimas, combinar a temperatura do sangue com o calor das noites de verão etc. Se o autor se preocupar somente em mencionar que o lobo era grande, forte, musculoso, peludo com grandes presas, uivava e corria e a vítima virou-se e viu algo estranho atrás dela, a cena perderá metade do impacto em relação àquela na qual outros elementos sensoriais foram usados. Além disso, esse acréscimo sensorial torna a escrita mais rica e é uma das razões por trás da frase – “Gostei mais do livro que do filme”.

Pense em todos os elementos sensoriais que estão envolvidos na construção de sua história: gostos, cheiros, textura e peso, além dos sons e imagens e no que elas podem enriquecer a sua narrativa. Não precisa encher páginas e páginas de busca sensorial se esta busca não representar nada efetivamente, o que você quer é que o leitor seja imerso no mundo que você criou, não se afogue em excessos abandonando a leitura.

Feche os olhos e responda: que cheiro, que gosto e qual é a sensação sobre a sua pele neste momento?

COPO MUITO CHEIO – BLOQUEIO POR EXCESSO CRIATIVO – Dicas para o Escritor Iniciante 30 (o anterior era 29)

Copo cheio

Já conversamos sobre Bloqueio Criativo (https://claudiadu.wordpress.com/2014/03/06/a-dor-da-folha-em-branco-bloqueio-criativo/), de onde vem este monstro e como acalma-lo. Alguns amigos comentaram comigo que uma das razões do bloqueio criativo é o excesso de projetos e ideias na cabeça, eu também sofro disso as vezes. Hoje, então, vou falar sobre o excesso criativo.

Na última oficina que coordenei nós trabalhamos a criação de ideias, como faze-las surgir de qualquer coisa. Uma lembrança do passado, cadeiras empilhadas, observando pessoas no metrô, juntando referências de outras histórias. É a criação: retalhos de experiências articulados de forma única e harmônica. Quando o autor percebe isso, no entanto, as ideias parecem ganhar um volume superior ao que cabe nas prateleiras de sua mente e, pior, todas as ideias juntas urgem para ganhar vida de alguma forma ou serão enterradas umas sob as outras, desaparecendo.

É isto o que acontece, elas vão se sobrepondo, se engalfinhado para nascer e acabam perdidas, abortadas, cobertas de poeira e ficamos muito tristes com a nossa incapacidade em fazer tudo ao mesmo tempo agora. Mas e o caderninho de anotações? Vocês podem perguntar. Ele é ótimo para guardar ideias, mas as páginas vão passando e algumas vezes nem nos lembramos mais do quê e porquê anotamos aquelas linhas.

Acho que a primeira coisa a se dizer é: ESQUEÇA. Esquecer faz parte do processo, se a ideia era realmente boa, você irá recupera-la e conseguirá se lembrar dela. Se a ideia não tiver que acontecer não acontecerá, outras tomarão seu lugar. Feito isso, livramo-nos da neura, mas não nos livramos dos quatro, cinco, seis projetos que temos em mente para produzir.

Priorizar dá certo¿

Colocar em ordem de importância o que vamos fazer dá certo. Sim, na maioria das vezes. O que costuma não dar certo é o motivo da priorização. A nossa linha de produção criativa precisa ter uma razão além do querer. Esta linha depende do que almejamos quando escrevemos. Escrever para nós mesmos e para o nosso deleite sem pensar se iremos ser lidos ou não, este é o objetivo, então o querer é o determinante ideal para a prioridade. No entanto, a maioria das pessoas sãs escreve para ser lida.

Para estabelecer uma prioridade precisamos pesar a importância das variáveis.

Se você é um escritor amador ou principiante que escolheu o caminho mais difícil e o mais certo para se guiar na profissão – fazer cursos e se aprimorar, trocar ideias com seus iguais e participar de concursos para ter um destaque neste meio bastante competitivo – a sua prioridade precisa estar de acordo com os prazos e conteúdos dos concursos e com o perfil das editoras que você está buscando.

Vai escrever uma saga em três volumes, não tenha outras ideias pelos próximos anos. Dedique-se a organizar as ideias que coletou dentro da sua saga. Não tem jeito de unir aquela determinada ideia à saga? Guarde-a para depois ou faça um conto dentro do mesmo universo. É possível trabalhar mais de um projeto ao mesmo tempo, depende do quão flexível é o autor e da profundidade de sentimento envolvido na construção de seu universo.

Faça um quadro de projetos. Um rascunho, folhas de caderno. Dê notas de um a cinco, pontos positivos ou qualquer tipo de marcação para aspectos como: sua vontade de escrever sobre aquele tema; a relevância que este projeto tem para você e para o seu público alvo; a quantidade de informação que deverá ser coletada para fazer o projeto e se essa parte da pesquisa te atrai; seria interessante para as editoras e está dentro do perfil daquelas que você tem buscado e por fim avalie os prazos de produção, caso vá participar de algum concurso. Nem precisa somar as notas e os pontos positivos, já vai dar para ter uma ideia do que você pode descartar por este momento e ao que se dedicar só por ter pensado sobre.

Usando como exemplo o meu quadro de produção, tenho dois projetos para serem entregues até o final do ano, estes são os prioritários pois têm prazos e envolvem pesquisa, um deles massiva. Um projeto terminado que precisa de atenção para revisão, ou seja, o grosso da criação terminou, precisa aparar as arestas então é mais suave. Um projeto em desenvolvimento, já com começo, meio e fim prontos na fase de pós primeira revisão e primeira reescrita. Por fim um que faço por diversão, nas horas em que a cabeça pesa, mas que quero acabar. Outros dois projetos estão esperando na fila quando acabar pelo menos dois dos citados.

Colocar prazos para si mesmo ajuda muito a não engavetar ideias que foram entendidas como válidas e importantes nos aspectos citados. Não se preocupe se tiver que adiar seus prazos, o que geralmente acontece, você não é uma empresa, mas precisa se entender como um profissional. Encher seu copo com doses de prazer e responsabilidade tomando cuidado para não transbordar.

Se você é uma pessoa que faz só um projeto por vez, sinta-se invejado.

COISAS QUE AMEI EM BALL JOINTED ALICE DA PRISCILLA MATSUMOTO

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Já havia lido um conto da Priscilla Matsumoto, O Reflexo do Dokkaebi – Boys Love, e gostado do modo como ela dialogava com a psique de seus personagens. Estava empolgada para ler o livro. E agora, livro lido, não estou querendo mais história, a história está completa, cheia e tão bem alojada dentro de mim que vai levar um tempo até poder ler algumas das outras que me esperam na estante. Já abri uns três livros e não consigo passar da primeira página ao perceber que falta o artista por trás das letras. Não são livros ruins, Priscilla é que é boa demais. Vou ainda chorar um pouco o vazio de Frank, por dentro, embaixo da cama, no escuro.

O mundo espelhado por Frank, que não consegue se enxergar, me lembrou um livro da minha adolescência, no final dos 70, chamado Sybil, história real de uma garota abusada na infância que desenvolveu 16 personalidades diferentes. Frank é obcecado por sexo e por caos, coloca obstáculos a todo tipo de amor recebido, enquanto do outro lado do espelho ele é completamente apaixonado por pessoas que estão fora de seu alcance: artificiais, mortas ou lésbicas e eventualmente um gay mais deprimido do que ele.

Não se engane pelo que disse até agora pensando que se trata de um relato introspectivo e denso difícil de ler. Não é. Ball Jointed Alice é um livro de ação, personagens que parecem saídos de um mangá muito louco. A violenta e irracional Emi, traficante que guarda um arsenal em casa, Tay a estilista voluptuosa, misto de pin-up e Mortícia Adams, Shin, o japônes lindão gay, o único “normal” do grupo, alheio ao que acontece quando as coisas ficam feias. E elas ficam muito feias, quando Emi decide usar seu arsenal para explodir o hospício de onde todos fugiram e “contrata” Frank para criar um exército de bonecas Alice.

E sobre Alice, a boneca que dá nome ao livro? Ela é a linha que costura o rasgado Frank novamente, que vai busca-lo no poço onde ele caiu e o resgata da Rainha de Copas. Só chegando ao fim do livro para perceber quem é Alice.

Melhor coisa de Ball Jointed Alice é a interpretação do leitor, os quatro parágrafos acima foram a minha leitura da história, a partir de experiências, do entendimento pessoal das referências de livros, a Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, a Sybil etc e dos mangás japoneses e coreanos. Alguém que nunca leu Alice (difícil achar quem não, mas vai que) leia primeiro, depois jogue-se no poço de Ball Jointed Alice e morda o biscoito do mundo conturbado e louco de Frank.

Ainda hoje de manhã me perguntei se Frank não era só um espelho.

Onde encontrar: no site da Editora Draco: http://editoradraco.com