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Descrevendo um boi

bOI

Como começar a descrever um boi? Dando a ele o nome de boi.

Abro as abas dos dicionários, livros, sites de pesquisa e de imagens antes de começar a escrever. Sei que precisarei recorrer para buscar a palavra adequada, verificar uma referência, me inspirar. O dicionário de sinônimos é um dos sites usados pelos escritores, afinal é um erro repetir, um vício de linguagem.

O português é uma língua rica, mas de nomes esquecidos. Uma características dos nativos de língua inglesa é a fascinação pelos sinônimos, por aprender outras formas de dizer as mesmas palavras. Na escola há competições de spelling bee, os competidores precisam conhecer palavras incomuns, as pessoas jogam scrabble, um jogo em que o que conta é o tamanho do vocabulário. Além do fato do inglês ser uma mistura de várias línguas que eram usadas em concomitância antes da consolidação do idioma.

O mesmo não acontece com o português, nossa cultura é diferente, não damos tanto valor ao estabelecido. Há quem ache importante não deixar o vernáculo morrer, há quem discuta que a língua é um organismo vivo e deixemos que viva com liberdade, se recrie a partir do hoje. Nós somos pródigos em cunhar palavras, regionalismos, nomes próprios. Será que Guimarães Rosa seria Guimarães Rosa se não fosse brasileiro? Lógico que um bom conhecimento do vernáculo é importante para o escritor, não precisa ser só isso no entanto.

Com a massiva difusão de livros de nativos de língua inglesa, ou que são traduzidos para o português através do original em inglês, o tradutor se depara com termos que se usados literalmente ficariam assim: “tinha um brilho brilhoso”, ou “tinha um brilho rutilante”, o primeiro é uma redundância, o segundo pode estar mais próximo do original, mas provoca uma pausa na leitura ou pode não fazer sentido ao público ao qual se destina. Óbvio que um ou outro termo menos comum é interessante para se colocar num livro. O leitor aumenta seu vocabulário. Como dizer que o rio coleava ao invés de serpenteava. Mas não em todas as linhas, em todos os parágrafos, ou a leitura ficará cansativa e desinteressante.

O que isso tem a ver com dar nomes aos oxen, digo, bois. Palavras generalizantes ou com significados distorcidos são usadas para evitar redundância ou causar a tal “estranheza”. A história causa estranheza, as palavras mal colocadas causam desinteresse do leitor. O escritor em português, amador, iniciante, muitas vezes usa o termo generalizante quando quer falar do específico, por exemplo, por causa dos manuais de RPG e livros mal traduzidos ou porque, ao invés de mudar a estrutura da frase, prefere usar uma palavra que pretenda deixar o leitor em suspense e que, na verdade, leva o leitor a suspender a leitura.

  1. “Pelo contorno da figura, podia-se dizer que era uma pessoa”.
  2. “A figura lançou um coquetel molotov em direção ao tanque”.
  3. “Ela tinha uma bela figura, expressão confiante no rosto e andar seguro”.

No caso do número um, a redundância de contorno e figura. “O contorno de uma pessoa, podia-se dizer”.

No caso número dois falta clareza, a primeira acepção da palavra figura não significa a forma de uma pessoa, refere-se à forma de qualquer corpo ou ser, uma barata, um alienígena. A não ser que seja isto mesmo, que o autor esteja se referindo a uma criatura fantástica ou desconhecida, a palavra é inadequada. Um ser humano jogou o coquetel molotov, então é preferível dar nomes aos bois. “A pessoa/Uma pessoa/Um sujeito/A manifestante lançou um coquetel molotov em direção ao tanque.” No terceiro caso está claro que a palavra figura se refere à segunda acepção da palavra, aparência de alguém.

“O castelo apareceu por entre as brumas da manhã. Os muros altos, cujas paredes eram feitas de pedra, cercavam a cidade e protegiam a construção no seu centro”.

Fica melhor assim:

“A névoa da manhã se dissipava. As torres ficaram visíveis e, em seguida, a muralha de pedra que protegia o castelo e a cidade ao seu redor”.

Se a escolha da palavra não está ligada ao ritmo dentro da sentença/parágrafo, sensação de não inclusão ao ambiente ou ao nome do lugar/pessoa, o ideal é que usemos a palavra mais comum, neste caso névoa é melhor do que bruma. Já uma muralha é um muro alto espesso geralmente feito de pedras. Por fim, se o castelo estava atrás dos muros, não foi ele que apareceu primeiro, foram as suas torres ou as torres de vigilância da própria muralha.

“A criatura se aproximou com suas oito patas e um corpo gigantesco e monstruoso. Fumaça saia de suas narinas.”

Se é um monstro, deixe claro na primeira menção. Fumaça não é a palavra certa, a não ser que se trate de um dragão. Seria interessante economizar adjetivos e descrever com metáforas, mas não vou usar no exemplo, só colocar um pouco de tempero para melhorar o resultado:

“O monstro se aproximava. Quando uma das oito patas gigantescas tocava o chão, as paredes tremiam. A criatura arfava de raiva, um bafo quente e podre.”

Procure a palavra certa, coloque na ordem certa de importância. Seja direto, simples e claro. Vocabulário inadequado ou escasso, faz com que a nossa ideia chegue distorcida ou não chegue ao leitor. Por outro lado, ter um vocabulário muito amplo não significa que dominaremos a língua, precisamos saber como usar as palavras numa frase, ter noção de conjunto, ritmo etc.

Links de outros artigos que falam do uso das palavras.

A Inconfundível Clareza do Ser – Dicas para o escritor iniciante – 18

IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

A Força da Palavra – Dicas Para o Escritor Iniciante 17

Reino Sem Fim – RPG e ficção escrita – Dicas para o escritor iniciante 24

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NINGUÉM É OBRIGADO A LER SEU LIVRO

Leitura Crítica

Primeiro dia na casa nova. Que sensação incrível a de começar uma nova vida! Depois de carregar todas as caixas e tralhas para dentro, você deita no colchão que ainda está embrulhado em plástico e, enquanto descansa, pensa onde colocar suas coisas. Sensação parecida a de quando vem à sua mente uma ideia para um livro ou conto novo e você começa a planejar como escrever.

Os próximos dias, semanas serão de intenso trabalho, desempacotando, limpando, colocando móveis no lugar, limpando, organizando as coisas nos armários, limpando. Isso se você pegou férias no trabalho. Se precisa trabalhar, seus finais de semana deixarão de existir por um ou dois meses. Com prazer você vê sua casa nova ganhando forma. Obervar o desenrolar da sua história, o desenrolar de personagens não é diferente. Aquele móvel não cabe nesta parede, aquele parágrafo fica melhor na página seguinte. Aquele abajur não combina com nada é melhor dar embora, aquele diálogo não tem importância é melhor eliminar.

Casa pronta você chama amigues para um almoço. Mostra a casa, abre os armários novos da cozinha. E começam os palpites.

Por que você não coloca o fogão do lado da pia no lugar do aparador?

Se você mudar a cama para o lado que bate sol, evitaria problemas de ácaros no colchão, sabia?

As paredes da sala, você podia pintar de bege?

A não ser que você seja uma pessoa muito teimosa rejeitará todos os conselhos que lhe derem. Afinal, é prático ter o fogão ao lado da pia. Colchões e travesseiros precisam tomar sol de vez em quando. Bege, bege não, ninguém merece. Seus amigos são os leitores betas, aqueles que dão palpites de como melhorar seu texto.

Entrou um dinheiro extra, férias, 13o. Vamos reformar a casa para ficar nos trinques. Você contratara uma arquiteta, é caro, mas vale a pena, ela fará você economizar um bom dinheiro na reforma, talvez mais do que os 5 ou 10% que normalmente cobra. Esta é a função da leitura crítica. Especialista que analisará o ambiente em que se passa sua história, avaliará os espaços necessários para cada parte e personagem, se o material tem o volume necessário, principalmente a quem você quer agradar ou fazer se interessar pelo seu livro. Como você gostaria que as pessoas percebessem a história, confortável ou desafiadora, clássica ou conceitual.

Por fim, a decoração. Aquele cantinho que está escuro ganhará um abajur, a parede da sala um quadro novo. Aquele tapete de crochê horroroso será um bom presente para a pessoa que gosta de paredes beges. Revisor-copidesquista, uma pessoa que vale por duas, dará o toque final para que tudo fique lindo.

Você não sai pela rua convidando gente estranha para sua casa nova, chama a primeira arquiteta ou pedreira da lista do Google. Como escolher amigues e profissionais para palpitar o seu livro?

O que esperar da leitura beta?

Primeiro e mais importante. NINGUÉM É OBRIGADE A LER SEU LIVRO.

Segundo, porque ninguém é obrigado a ler seu livro, melhor contar com amigues, pessoas próximas, se possível colegas escritores. Quatro ou cinco leitores betas são interessantes, porque pelo menos dois darão retorno.

Devo estabelecer prazo para leitura?

Se você for escritore com editora e tiver um prazo de entrega não tem como não marcar uma data fixa. Você precisará de tempo também para a leitura crítica e a revisão.

Se não existir um prazo de entrega, estabeleça um prazo flexível, mas limitado, dois a três meses para um livro, duas a três semanas para um conto. Você pode perguntar se não é muito tempo. Não, porque leitores betas tem outras coisas para fazer e estão fazendo um favor, então seja paciente.

Como cobrar a leitura beta dos meus amigues?

Com muita educação e gentileza, sendo direto e curto na formulação. Não deixe as pessoas desconfortáveis com explicações detalhadas do motivo de precisar com urgência saber o que pensam sobre a “obra prima” que escreveu. Cobre duas vezes no máximo e esqueça, seu amigue teve outras coisa para fazer, não foi desta vez que poderá te ajudar, agradeça a oferta mesmo assim porque NINGUÉM É OBRIGADO A LER SEU LIVRO.

O que esperar de uma leitura beta?

Há betas revisores, que apontarão erros gramaticais e de sintaxe além de fazer uma avaliação breve do seu trabalho.

Há betas comentaristas, que criarão balões de comentários a cada parágrafo.

Há betas resenhistas, que farão uma resenha do livro/conto com introdução, dois parágrafos e conclusão.

Há betas leitores críticos, que analisarão as falhas e farão um resumão das possíveis mudanças.

Há betas concises, escreverão um parágrafo sobre o que acharam e só.

E misturades, beta que revisa e critica, beta que faz resenha e análise etc.

Qual o melhor? TODOS.

Nesta fase é bom ter quantos palpites conseguir, betas com diferentes abordagens ajudam ainda mais. Se precisar de avaliações extras, pois não sentiu que foram suficientes, procure por novos betas.

Agradeça muito, sempre, porque NINGUÉM É OBRIGADO A LER SEU LIVRO E GOSTAR.

Como seguir as sugestões

Antes de rejeitar um palpite que você não gostou, pense bem, reflita, reescreva. Se não gosta de parede da sala bege, não pinte.

Por último, ofereça para retribuir o favor lendo o texto de amigues.

Como escolher Análise Crítica e Revisão

Primeiro. Leitura crítica é um serviço pago, então pode ser cobrado dentro do prazo. A data da entrega do relatório deve ser discutida entre as partes.

Uma boa forma de encontrar ajuda profissional é pedir indicações de amigues escritores e perguntar como foi a resposta recebida.

Cada profissional tem seu jeito. Um relatório geral faz parte do serviço, às vezes detalhado por tópicos como estrutura narrativa, personagens etc., outras a preferência é por incluir estas observações como comentários dentro do texto.

Envie para o revisor uma cópia do arquivo, o bom revisor nunca altera o seu texto, ele faz marcações como letras em cores diferentes e tachados para apontar falhas e sugerir mudanças. Não corrija no texto revisado, faça também uma cópia com a revisão e passe a limpo.  

Evite profissionais não-profissionais, que não tenham carreira na área, ou formação, há muitos charlatões infelizmente. Como aquele prime decoradore que resolveu fazer um curso de decoração no youtube e agora cobra para dar palpites não muito diferentes do tapete bege.

Pesquise, pergunte, afinal é o seu dinheiro.

Mais sobre leitura crítica e revisão nestes links:

http://talesgubes.com/como-fazer-revisao-um-texto-1/

https://www.wattpad.com/188142087-quero-ser-escritor-20-o-rascunho-1-revis%C3%A3o-e

https://www.wattpad.com/193587897-quero-ser-escritor-21-rascunho-2-leitura-cr%C3%ADtica

As pessoas não entendem o que escrevo então f$¨*-%#

Por que ter trabalho e dor de cabeça com leitores betas, revisores, leitores? Se apresentar para as editoras e for aceite elas cuidarão desta parte. Você decidiu se autopublicar, portanto quando o livro for lido e resenhado receberá sugestões para melhorar e pode publicar uma segunda edição, enquanto isso ganha dinheiro, não gasta.

1- Para ser escolhido por uma editora que pague pelo seu texto(*), ele precisa se destacar e muito, porque a concorrência é grande, além de outros profissionais de qualidade, a aspirante ainda enfrenta escritores com QI, youtubers etc.

2 – O mercado editorial brasileiro é pequeno e você pode acabar se queimando com os agentes literários por causa da falta de cuidado.

3 – Há um mar de blogueiros e vlogueiros literários, os que têm mais acessos cobram caro, dinheiro, além de marcadores e livros. E se o retorno for negativo? Como fará para se recuperar emocionalmente das críticas.

4 – Auto publicação não é desmérito, mas o cuidado deve ser redobrado, já que não terá um editor por perto para aconselhar.

(*) O contrário não é decente, ninguém deve pagar para editoras, editoras pagam ao autor não o contrário, as Vanity Presses são só gráficas que fazem uso de corretor automático.  Link de um podcast muito esperto que fará aspirante a escritore ficar esperte também.

http://leitorcabuloso.com.br/2016/09/cabulosocast-179-as-armadilhas-editoriais/

Não precisa chorar, não foi de propósito

Não leve o trabalho dos profissionais para o lado pessoal, seja tão profissional quanto eles, analise as sugestões e dicas e faça as mudanças necessárias para melhorar seu texto. Tire proveito do dinheiro gasto. Se necessário deixe derrubar a parede e faça uma nova, lide com o entulho.

PAGOU PARA OUVIR CRÍTICAS, AGUENTA FIRME.

Ao fim de muito trabalho e caçambas de tijolos e azulejos, sua casa ficou perfeita, do jeito que você sempre sonhou. Seu livro ficou uma maravilha e não há cartão de crédito que pague pela sensação de um trabalho bem feito.
PS.: Agradeço de joelhos todas as críticas que recebi de amigues betas e críticos. Sem elas eu não seria a escritora que sou hoje, não teria a coragem para realizar um sonho de infância às vésperas do outono de minha vida.

 

 

Bienal 2017 – A Trilha da Fantasia

Visitar a Bienal e conseguir ver tudo, selecionar um bom livro ou HQ, e gastar o que está dentro do orçamento é tarefa quase impossível. Achar as editoras bacanas, com livros e HQs legais de Fantasia, Ficção Científica e Terror consome tempo e pernas. Então resolvi fazer uma listinha de editoras, dar umas dicas de livros que podem ser encontrados por lá e comprados sem susto. Assim quando bater a culpa porque o dinheiro já era, pelo menos o leitor se sinta satisfeito com suas escolhas.

Só nacionais, os estrangeiros tem um departamento de marketing inteirinho para eles, os autores lusófonos precisam ralar muito para se sobressair no mercado.

– Ah! Mas não tem a mesma qualidade.

Só diz isso quem nunca leu um lusófono de Fantasia/FC/Terror bem escrito, bem editado, surpreendente. Se a Europa e os EUA estão interessados no que produzimos no Brasil, com nosso tempero, por que nós, que temos os livros ao nosso alcance e na nossa língua, não nos interessaríamos?

Não pensem que é fácil para as editoras valorizarem os nacionais. Os estrangeiros chegam pagos ao Brasil, os nacionais necessitam investimentos gigantes em marketing. Além de sorte para render ou pelo menos pagar-se. A grande maioria dos editores das independentes são apaixonados pelo que fazem, lutam para continuar no mercado e zerar as contas no fim do mês e então publicar bons trabalhos nacionais. Sem estes editores os HQs e livros dos autores brasileiros ficariam para sempre perdidos, seja na gaveta ou nas intermináveis listas das plataformas de e-book. Eles  fazem uma peneira rigorosa para oferecer ao seu público livros e HQs de qualidade. Sim, já li coisa ruim estrangeira, traduzida e publicada no Brasil como se fosse o último biscoito mofado do pacote que só a tradução salvou do completo desastre.

Tem uma vantagem monstro para quem visita os estandes dos nacionais. Ter um contato direto com o autor, receber marcadores e brindes, tirar selfies e, porque somos brasileiros, ganhar um abraço e uns beijinhos. Conversar sobre o universo, saber da continuação das séries etc. Impossível com os paparicados autores internacionais. Consegue imaginar George R.R. Martin trocando beijinhos e falando da continuação de As Crônicas (Uma Canção) de Gelo e Fogo?

Para prestigiar estes editores valentes e suas editoras independentes comece a Trilha no Pavilhão Verde.

  1. Siga as setas e pare nos estandes marcados com um X
  2. Converse com os autores e editores
  3. Selecione o livro
  4. Descubra um mundo novo   

 

Trilha Beinal 2017

 

Lista dos expositores com livros legais de Fantasia, Ficção Científica e Terror e de alguns livros que recomendo, tem muita coisa bacana além dos títulos que citei, vale a visita. 

Pode ser que alguém não concorde com o gênero atribuídos aos livros, mas tentei resumir usando o gênero e no máximo em três palavras, querendo saber mais sobre o livro é só acessar o site das editoras nos links.

PAVILHÃO VERDE

Devir L14

Devir é editora e distribuidora de HQs, RPG e jogos de tabuleiro

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A Bandeira do Elefante e da Arara – Fantasia heróica com folclore nacional –

Christopher Kastensmidt (embora ele seja americano, reside há 15 anos em Porto Alegre)

Shimandur – Fantasia com São Paulo como pano de fundo – Caio Alexandre Bezarias

Mistério de Deus – Terror com toques de realidade no Brasil de 1991 – Roberto de Souza Causo.

http://devir.com.br/

Jambô – M18

Editora de HQs, games e livros de fantasia

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Crônicas das Tormentas – série de coletâneas de fantasia organizada por J. M. Trevisan com grandes nomes da fantasia nacional como Raphael Draccon, Leonel Caldela, Eduardo Spohr, Rogério Saladino etc.

O Inimigo do Mundo – fantasia épica – Leonel Caldela

Passagem Para a Escuridão – fantasia grimdark – Danilo Sarcinelli

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Ich – fantasia e terror – HQ ambientada na América do Sul – Luciano Saracino, Ariel Olivetti

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço – ficção científica nonsense – Germana Vianna

http://jamboeditora.com.br/

Draco – M13

Só publica nacional, HQs e livros de fantasia, ficção científica e terror com qualidade.

Octopusgarden – Space Ópera Erótica – Gerson Lodi Ribeiro um dos mestres do FC nacional

Magos – 3a. coletânea de fantasia organizada pela Ana Lúcia Merege, as outras são Excalibur e Medieval

O Infinito no Meio – literatura fantástica – Priscilla Matsumoto

Space Ópera – HQ – coletânea de histórias sobre disputas espaciais.

Tempos de Sangue – Eduardo Kasse – Fantasia – 5 volumes sobre imortais e idade média.

http://editoradraco.com/

Chiado – M05

Especializada em autorxs portugueses e brasileiros

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O Labirinto dos Sonhos – Fantasia – Ema Machado

https://www.chiadoeditora.com/editora

Giz- P04

Resultado de imagemResultado de imagem para kaori giulia moonImagem relacionada

Outra editora que investe bastante no nacional

Cira e o Velho – Fantasia Histórica no Brasil – Walter Tierno

Kaori – Fantasia Nipo brasileira – Giulia Moon

A Torre Acima do Véu – Ficção Científica Distópica – Roberta Spindler

http://www.gizeditorial.com.br/

Avec – Na Aquário CL07 e New Order M19

A Avec não tem estande na Bienal este ano, mas é possível encontrar os livros e quadrinhos da editora nos estandes da Aquário e da New Order

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Le Chevalier – HQ – Stempunk – A.Z. Cordenonsi, Fred Rubim

Guanabara Real – A Alcova da Morte – Steampunk – Enéas Tavares, Nikelen Witter, A. Z. Cordenonsi

Filhos da Lua (série) – O Legado – Marcela Rossetti

PAVILHÃO AZUL

Cia das Letras – G13

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Ninguém Nasce Herói – Ficção Científica – Erick Novello

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=55121

Rocco G17

Resultado de imagem para As Águas Vivas não sabem de so

As Águas Vivas Não Sabem de Si –  Ficção Científica/Fantástica – Aline Valek 

https://www.rocco.com.br/o-som-em-as-aguas-vivas-nao-sabem-de-si/

Gutemberg – G 26

Resultado de imagem para Série Anomalos

Série Anomalos – Distopia Jovem Adulto – Bárbara Morais

https://grupoautentica.com.br/gutenberg/livros/a-ilha-dos-dissidentes/951

Record – E09

Resultado de imagem para Série Filhos do Éden

Filhos do Éden – Fantasia – Eduardo Spohr

http://www.record.com.br/colecoes_colecao.asp?id_colecao=217

 

Lógico que não precisa seguir a risca as estrelinhas, existem outros livros e editoras legais, senti muito por ter que deixar de lado alguns dos colegas escritores em razão da concisão. Ou por que a editora trabalha por demanda e neste artigo quis valorizar as editoras que investem no autor, afinal como disse Neil Gaiman: o dinheiro tem que fluir na direção do autor, não o contrário. Aceito sugestões para melhorar a trilha nos comentários.

 

Micro Contos – Como e Porque Escrever

flash-fiction

O que são e o que não são Micro Contos

Micro contos são narrativas muito curtas, com 300 palavras ou menos, que trazem uma história total, não parcial. Não são muito populares no Brasil, nem mesmo tem valor comercial. Então por que nós, escritores brasileiros, deveriamos perder tempo escrevendo micro contos?

Primeiro porque para o escritor qualquer forma de escrita é válida. De haicais à sagas em “n” volumes.

Escrever micro contos permite ao autor avaliar o que é importante na prosa. Trabalhar o vocabulário e escolher as palavras mais adequadas. Cortar  redundâncias e tudo o que não é essencial. O autor fica afiado na hora de escrever narrativas longas. Além do que é uma forma de arte com as palavras, um modo divertido ou profundo de contar histórias.

Precisamos saber, no entanto, o que um micro conto NÃO é: um resumo de uma história ou uma parte isolada de uma narrativa maior. Também não são pensamentos aleatórios ou reflexões, cenários desconexos. Ações sem contexto não são micro contos. Recortes dentro de uma narrativa maior não são micro contos.

Micro Contos são narrativas completas e como tal necessitam de enredo, elementos do arco narrativo (reviravolta, flash backs, repetições, conflitos etc.), personagens, local, tempo.

Dois micro contos e seus elementos narrativos

Assim como o conto tradicional, a linha narrativa é melhor desenvolvida se baseada em no máximo três personagens e a trama contenha elementos simples e facilmente reconhecíveis.

Acerto de Contas – Lydia Davis (considerada uma das melhores escritoras contemporâneas de narrativa curta)

 “O fato de ele não me dizer sempre a verdade faz duvidar da verdade do que ele às vezes me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não para de me dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

Personagens – duas pessoas num relacionamento

Arco – estabelece a dúvida sobre o que ouve do parceiro, faz uma busca para descobrir o que é verdade, termina por convencer-se que ele às vezes não diz mentiras.

Elementos narrativos – flash back, reviravolta, conflito, repetição

Tempo – ao longo do relacionamento.

Arquíloco – séc. VII a.C.

Algum saio (guerreiro da tribo inimiga) do escudo se orgulha. Sem querer abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se: conseguirei outro igual.

Personagens – Arquíloco e o saio

Arco – perdeu o escudo, salvou a própria vida, eliminou o arrependimento

Elementos narrativos – flash back, suspense, conflito, repetição

Tempo – durante uma batalha

Local – no campo de batalha

Dicas para escrever micro contos

  1. Mostre não conte, este conselho essencial para qualquer narrativa, deve ser seguido à risca para as narrativas curtas.
  2. Atenha-se ao que faz uma narrativa interessante, conflito, cenário, atmosfera, personagens, enredo
  3. Escreva e reescreva sua história diversas vezes, quantas forem necessárias, até que ela só mostre o essencial.
  4. Comece pelo meio, pela parte mais importante ou mais emocionante. Forneça uma guia da história ao leitor.
  5. Escolha o melhor título possível, ele fará parte da narrativa
  6. Deixe um questionamento na última linha que conduza o leitor a reler o conto para entender a mensagem. Ou seja, leve o leitor por um caminho e o empurre para outro.
  7. Coloque a conclusão no meio da história.

Neste link, Lydia Davi conta sobre seu processo criativo e mostra como um dos seus contos foi escrito. Do rascunho ao final.

 

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/07/lydia-daviss-very-short-stories/372286/

Pontuação de Diálogos -(“) desculpou-se por interromper (“).

A shelf filled with books

O pedreiro levantou a parede da cozinha, a da pia. Instalações hidráulicas e elétricas precisam ser feitas, para permitir a passagem dos conduites e canos. Se você contratou um empreiteiro ou arquiteto ele vai fazer uma análise da praticidade das instalações antes mesmo de levantar a parede. Se não, prepare-se para algumas dores de cabeça e despesas desnecessárias com reformas assim que a obra ficar pronta.

A pontuação dos diálogos é este buraco por onde passarão os verbos dicendi ou outra informação que deixe claro quem está falando. Dependendo de como você usa a pontuação ela pode facilitar ou dificultar a leitura, acrescentar elementos novos ou deixar o leitor desconfortável.

Outras informações sobre como fazer ou não fazer um diálogo estão nesta outra postagem (Diálogos e seus Dramas (ou seriam Comédias?) – Dicas Para o Escritor Iniciante – 16

Diálogos

Regras Para Pontuar o Diálogos.

Para as regras você pode consultar também gramática. No entanto, são as nuances que fazem a pontuação importante. Para começar, há duas formas básicas.

LATINA

– Muito maior – acrescentou o outro.

INGLESA

“Pobre pequena”, ela sussurrou.

OUTROS MODELOS

Com vírgulas separando o verbo dicendi

– Você está lindo, disse ela, esquece-me inteiramente. (Machado de Assis, D. Casmurro)

Com aspas retas, o correto nas línguas latinas

“Você está lindo”, disse ela, “esquece-me inteiramente”.

Com aspas simples, inglês séc. XIX

‘Ele vai e vem cristão’, disse ela. (C. Dickens – Oliver Twist)

Aspas inserindo o diálogo dentro do corpo do parágrafo

Pree permaneceu em pé na grama embaixo das árvores. “É isso que os Imortais já fizeram por você?” perguntou desacreditado, assim que a viu.  (G. R. R. Martin, Game of Thrones)

Travessões separando o sujeito do predicado ou de outras partes da mesma sentença.

– Nada – eu sopro – é menos seguro que a palavra divina, Eva. (Paul Valery, A Serpente e o Pensar)

Com verbos acendi:

Ela acrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:

– Seremos felizes!

(Machado de Assis – D. Casmurro)

Sem dicendi ou acendi

– Séculos depois e você quer se comparar ao Angelo… – Ele fez um gesto de impaciência. (Priscilla Matsumoto, Ball Jointed Alice)

Nada ou quase nada

O texto deixa claro quem está falando e só usa dicendi ou acendi com figurantes.

Daniel Galera – Cordilheira

QUAL MODELO ESCOLHER?

Como as instalações da parede. Eu posso escolher quebrar a parede para colocar os conduites, posso usar tijolos especiais para passagem de fios, canos e instalação de tomadas, assim como fazer instalação aparentes. Tudo vai depender do estilo do proprietário, da casa, da decoração etc.

Portanto a escolha da pontuação nos diálogos está diretamente ligada ao efeito que se pretende no texto.

Olhando para o travessão e para a vírgula: o primeiro parece separar quase completamente o diálogo da ação, enquanto o segundo tem um efeito de proximidade.

Olhando para as aspas e para o travessão: as aspas parecem dar certa cumplicidade ao texto e a ação, enquanto o travessão tem um caráter mais explicativo, esclarecedor.

Quebrar a ação ao meio como no exemplo acima:

– Nada – eu sopro – é menos seguro que a palavra divina, Eva.

Traduz-se como reticências, uma pausa do locutor entre as partes das sentenças, a própria vírgula, então o uso da vírgula neste exemplo específico faria menos sentido do que o travessão.

Começar o diálogo dentro do parágrafo e continuar dentro do parágrafo pode sugerir uma interação entre cenário e diálogo, como se os personagens não pudessem se dissociar do local em que a ação acontece.

PARA ALÉM DA REGRA

Ainda podemos pensá-lo como todo o texto em primeira pessoa num diálogo consigo mesmo em que as próprias respostas fossem o parágrafo seguinte.

Tabulá-los como num poema

Entorpecido de pesados sonos.

Sonho?

Sonolento de sonhos e arbustos.

Foi sonho?

Espesso de mormaço e sonhos…

Sonhei ou…?

(Mallarme – A sesta de um fauno)

 

Ou como numa conversa em rede social

PASSA LÁ EM CASA

QUE HORAS?

DEPOIS DAS TRÊS

O Básico sobre Mostrar e Contar

Contar e Mostar

 

Este artigo foi traduzido do original escrito por Emma Darwin em seu blog The Icht of Writing Showing and Telling: The Basics.

Fale-se muito em “mostrar e não contar” porque escritores iniciantes contam demais quando eles deveriam estar mostrando. Mas é claro, como regra geral, não é tão radical a necessidade de Mostrar ao invés de Contar. Ambos têm seu valor, a chave é entender a força de cada um e usá-los de forma eficiente na sua história. Repare que nem tudo na escrita é sempre binário, na verdade, atravessa um espectro que vai do mais contado conto até a mais mostrada mostra.
Mostrar é para fazer com que o leitor sinta que está dentro da história: cheire, veja, ouça, acredite na verdade da experiência do personagem. Como John Gardner diz: “é convencendo o leitor através da realidade e do detalhe que evocamos nosso mundo imaginário sobre o que o personagem faz ou diz”, persuadimos o leitor a ler a história como se tivesse realmente acontecido, mesmo estando cientes do contrário. Significa trabalhar com a imediata reação física e emocional do personagem: a cólera que chega a seus ouvidos, o vento açoitando seu rosto, um pedinte agarrando seu casaco. Quanto mais eu explico o Mostrar, mais eu o quero chamar de Evocar.
Contar é para forrar o caminho, quando você precisa de um narrador, tanto se ele é um personagem quanto por sugestão: um narrador externo ou uma terceira pessoa. Uma informação suplementar: “era uma vez”, “um exército voluntário foi reunido”, ou “as montanhas estavam cobertas de uma fina camada de cinza vulcânica”. Colocado desta forma é só um pouco mais distante da experiência imediata de que o momento do livro trata. Quanto mais eu falo sobre Contar, mais eu quero chamar de Informar.

Contar/Informar: A temperatura caiu durante a noite e a densa geada refletia os brilhantes raios de sol.
Mostrar/Evocar: O ar da manhã penetrava o frio cortante que era faca em seu nariz e boca, deslumbrantes camadas de gelo cobriam cada broto e galho.
Contar/Informar: O homem alto era um marceneiro pleno e carregava as ferramentas de seu ofício.
Mostrar/Evocar: Um machado e um martelo pendiam de se cinto e um enxó enganchava-se ali, a unha de um de seus dedões era negra e quando ele se inclinou ela viu várias farpas e serragens presas em seus cabelos negros.
Contar/Informar: Eles estavam em pé, juntos e envolviam os braços um no outro, num abraço apaixonado, então ela percebeu que ele havia cavalgado muito para encontrá-la e, talvez, por isso estivesse tão nervoso quanto ela.
Mostrar/Evocar: Eles se agarraram no abraço e o tecido de sua jaqueta parecia desconfortável sob o seu queixo. Sua mão subiu para tocar seus cabelos, ela sentiu o cheiro do couro e dos cavalos sobre a pele de seu punho. Ele tremia.

Perceba que, embora Mostrar seja um pouco mais longo que contar, não precisa ser necessariamente assim (Link para o artigo em inglês sobre Mostrar demais) Existe situações em que deixamos assuntos mais abertos e não tão pormenorizados para que o leitor possa fazer uso da própria imaginação, (link para artigo em inglês sobre mais e menos informação). No geral, você está tentando fazer com que a experiência do mundo e do personagem ganhe vida, como se sentisse de leve o perfume deles, intenso e imediato. Mostrar é mais importante nos momentos de mudança na história, nos eventos cruciais na jornada do personagem e deve viver em nós da forma mais intensa possível, pela sua total compleição, acima de tudo, pela total evocação.

Contar/Informar: James era alto e atraente para as mulheres, sendo charmoso ao ponto delas se apaixonarem à primeira vista, elas nem imaginavam o quão pouco ele se importava com isso.
Mostrar/Evocar: Mostre-nos como é James no bar, o que ele diz, mostre-nos Anna olhando para seu rosto e vendo o amor no seu sorriso… e então mostre-nos o que ele diz, no banheiro dos homens, sobre se prevenir para que aquela garota, “Como é mesmo o nome dela? Anna?”, não descubra seu endereço.
Diálogo é basicamente Mostrar, está é a sua função, embora tenha que se ter cuidado para que

a) a voz do personagem, a maneira como fala, reflita sua personalidade e

b) não encher o diálogo de tralhas descritivas sobre o que está rolando em volta.
Pode ajudar muito pensar em termos de distância fictícia (Link para o artigo em inglês sobre distanciamento). Por enquanto, dê uma olhada nos parâmetros de distâncias, e veja como elas demonstram o espectro que vai do extremo contar até o extremo mostrar.

  1. É o inverno do ano de 1853. Um homem forte está parado do lado de fora da porta sob a tempestade de neve.
  2. Henry J. Warburton nunca se preocupou com nevascas.
  3. Henry odeia nevascas.
  4. Deus! Como ele odeia estas malditas nevascas.
  5. Neve. Sob o seu colarinho, dentro de seus sapatos, congelando e encobrindo sua alma miserável

Veja como o Contar é ótimo e explica exatamente onde estamos e o que está acontecendo. E Mostrar funciona da mesma maneira quando queremos denominar o físico e o emocional da experiência do personagem, embora não nos diga onde e quem o personagem é. Como um exercício sobre o assunto, pegue duas ou três sentenças do meio de uma história que você está tentando escrever, e reescreva-as de acordo com os cinco parâmetros de distância sugeridos por Gardner.

A sugestão Mostrar-não-Contar é também a raiz da discórdia quando se fala em que se deve evitar adjetivos e advérbios. Se você nos diz que uma casa é imponente e um personagem se aproxima nervosa e hesitantemente, não é nem de perto tão vívido quanto fornecer a sensação da experiência dele sobre a casa, fornecendo corpo ao momento.
“Ela tem que dobrar o pescoço para ver o topo do telhado e uma águia de pedra olha de volta, enquanto ela sobe degrau por degrau suas pernas doem.”
Encorpar o efeito de colocar o personagem na ação faz com queo leitor sinta junto com ele, porque a mente não reconhecesse a diferença entra o imaginário e o real durante a leitura. O que a palavra imponente nos faz sentir? O que a expressão aproxima-se nervosa tem a nos dizer na verdade?Nos informa qual o efeito, mas não evoca a experiência do personagem. Mas eu sei como é sentir meu pescoço dobrando para olhar para cima e subir escadas que parecem não terminar nunca. Mostrar/Evocar ainda nos dá outra vantagem neste exemplo. Do ponto de vista dela as águias estando apontando seus narizes na sua direção: a evocação da sua postura é filtrada através da sua própria percepção, assim ao mesmo tempo nos é dada tanto a experiência física quanto a emocional. E porque estamos cientes de que as emoções são dela, sabemos que pode não ser tudo a se dizer (alguém pode ver as águias de forma positiva como se curvando num sinal de boas-vindas, uma terceira pessoa ainda pode conjecturar de que espécie são as águias) e nosso entendimento sobre o caráter da personagem e sua experiência subjetiva ganha peso.

Um subitem de Contar, que trata também do uso de advérbios, fala sobre a inscrição do discurso propriamente dito (Link para texto em inglês sobre elocuções). Não informe que ele gritou furiosamente, evoque em palavras furiosas e ações, assim a fúria será evocada para o leitor também. Não informe que ela falou em tom de piada, escreva a piada e confie que o leitor saberá que se trata de uma gracinha do personagem. Se o discurso for tomar um caminho diferente do que pretendia, mostre o efeito que será produzido: ele foi surpreendido pela fúria que irrompeu de si mesmo ou nos outros personagens. Na verdade, mostre-nos o efeito daquela gracinha que ela disse, o que há de realmente interessante na cena: ela contou uma piada, esperou pelas risadas, ele sorriu e Granny resmungou desaprovando. Um pouco menos eficientes, são as marcações de discurso, elocuções, no sentido de mostrar o como foi dito: “ele riu, ingênuo”, “ela murmurou já sem esperanças”. Se tiver dúvidas, troque o disse ou falou por “gritou”, “chorou” quando quiser indicar volume, por exemplo.

 

Não elimine o Contar. Contar é a cobertura do terreno quando ela é necessária, tem muito valor. Que você pode colorir com a voz e o ponto de vista do seu personagem, tornar mostrável, mesmo se for só para fornecer um forro à cena.
Contar Ruim: A temperatura nos meses de novembro e dezembro era terrível, como ela percebia toda a vez que se iniciava seu dia de trabalho. No geral, o trabalho progredia, mas os cavalos sofriam com o tempo úmido. Ela esperou que ele entrasse em contato com ela, mas ele não o fez e perto do Natal ela quase persuadiu a si mesma a perder a esperança de que ele entraria em contato. Ela decidiu que de qualquer jeito celebraria o Natal e foi decorar a árvore, então, finalmente, ela ouviu o toque do celular indicando que alguém estava tentando entrar em contato com ela.

Contar Legal: Novembro virou-se em Dezembro e a trama no tricô crescia com constância, enquanto do lado de fora abaixo da sua janela os cavalos eram incomodados pela chuva. E ele ainda não ligara. Perto do Natal ela desistiu de ter esperanças. Decidiu armar a árvore mesmo assim, quando ela estava tentando enganchar a primeira bola o celular tocou.

O Personagem Conta: Novembro desaba em chuvas, sem parar, todos os dias, parecendo um único e longo final de semana, os cavalos pastavam tristonhos e eu tricotava. Sei que sempre chove nesta época, mas parecia que estava chovendo em mim, a chuva era pessoal, além disso o telefone recusava-se a tocar. Choveu Dezembro todo também e mesmo quando eu abri a caixa de enfeites de Natal não me senti melhor, neste momento o telefone tocou…

Repare que por causa do Contar a narrativa não está próxima, a distância psíquica paira entre o 2 e 3 (NT: vide acima  exemplos de distância em negrito). Quando o personagem conta pode ser 3, pois ainda oferece dados precisos, forra o terreno, mas não generaliza o número de meses e a inclemência do tempo ou a época festiva. Tudo é envelopado em aspectos físicos, tangíveis, imagináveis: o tempo marcado no crescimento do tricô, o seu estado de espírito na tristeza aparente dos cavalos sob a chuva, a erosão gradual da esperança enquanto o tricô crescia o telefone continuava mudo. Ainda há um verbo de ação atrelado ao mês, que abstrai a ideia de tempo. Embora o contar do personagem não use estruturas específicas de Contar tipo: “sempre chovia”, “não me fez sentir melhor” etc., o fato deste contar ser produto da expressão e do ponto de vista do personagem o torna mais vívido.

E quando ela atender o telefone, iremos direto para o Mostrar do personagem em ação: o que ela disse, sentiu, pensou. Generalizando, quanto mais crucial é a cena, o personagem em ação, o cenário, mais cheio de mostrar terá que ser sua escrita. A maioria das cenas principais acontecerá em tempo real, porque serão os momentos importantes de mudança, conflito, decisão e aquisição de experiência. Elas precisam e merecem ser evocadas com o máximo de vida e conteúdo possível. Como um trem: mostrando os compartimentos e os vagões enquanto passa pelo túnel, contar seria um engate forte e flexível que liga uma composição à outra.

No entanto, sempre existirá casos para condensar partes de uma cena importante: sempre existirá eventos que precisamos saber que aconteceram, momentos que precisamos dar forma à cena sem detalhes tão específicos. Momentos em que na verdade o escritor precisará ser mais direito, mais plano para deixar um pouco de espaço à imaginação do leitor. (NT: em breve traduzirei dois artigos da mesma autora que falam justamente deste tema, um deles sobre cenas de sexo e outro que explora excessos no Mostrar).

Especialmente no começo de um livro torna-se complicado balancear o mostrar e o contar de forma correta, porque por um lado você precisa envolver o leitor o mais rápido possível na vida e nos sentimentos dos personagens, fazer com que tenham carinho por eles e assim levar o leitor a querer saber mais sobre eles. Por outro lado, precisamos de uma certa quantidade de informações sobre o quê, o onde e o porquê, isso se nos preocupamos suficientemente com o leitor para fazê-lo continuar com a leitura. Se você começar no 1 é melhor inserir logo o leitor no mundo do personagem, se começar no 5, terá um monte de explicações para dar.

Uma última observação. Sempre existe a liberdade de ação para quem quiser escrever a história como fábula ou caso, gênero que usa frequentemente um contador de histórias para contá-la e a voz do narrador está presente ao longo da história. O arquetípico narrativo é parecido com o de um conto de fadas, que é quase totalmente Contar. Neste modelo, a voz do narrador é mais crítica do que em qualquer outro tipo de escrita, para manter o efeito de distanciamento o narrador nos mantem junto a ele e não com os personagens, o narrador e o que está dizendo deve ser muito mais cativante. Mas se você ler algum dos contadores modernos verá que mesmo com uma narrativa carregada de Contar ou um narrador muito presente quando bem feita não elimina a experiência física e emocional do que lemos é extremamente vívida. Isto é o que Mostrar significa quando faz uso do Contar.

 

Quase razões

malha_espaco_tempo

Eu escrevo porque é o que me resta

fazer neste fim.

O mundo pode acabar amanhã,

em uma semana,

ou na próxima década. Sobrou

contar as favas onde será lançado.

O inferno será aqui,

amanhã,

em uma semana

ou na próxima década. Escrevo

para lembrar que não estou

no sonho da musa,

brinquedo da mídia,

coçando-me das picadas

das pulgas

da cultura ocidental.

Partirei em breve, partiremos,

pela casa descascada,

pelo carro descabido,

pela estrada asfaltada

e a insignificância dos escolhidos.

Que serão doentes e selvagens

e vagarão pelo rumo da fome.

Vivo sozinha, por enquanto

escrever é parte

desta solidão quase finda.

Infinitesimal partícula menos

cem,

duzentos,

mil à décima

se comparada ao todo que não sabemos

Comestível e longínquo

em medidas cósmicas.

Vamos todos morrer da ignorância.

Visto do espaço não sou visto,

olho para o espaço e ele é cego.

As estrelas brilham

Evocando outros mundos

A maioria morreu, restaram ecos

como os meus.

Escrevo não porque estou viva,

Ou existo e pertenço.

Escrevo porque imploro que

estes últimos instantes sejam os primeiros

e o sol se transforme em vento

e o vento em aura leve de histórias plenas.

12 FUNDAMENTOS PARA ESCREVER O OUTRO – TRADUÇÃO DO ARTIGO DE DANIEL JOSÉ OLDER

“Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema que é escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social.”

 

Estamos sempre escrevendo o outro, e sempre escrevendo nós mesmos. Nos deparamos com uma equação quase impossível de resolver toda vez que contamos histórias. Quando criamos personagens com origens e experiências diversas das nossas, nós estamos na verdade contando essencialmente suas histórias sob a nossa própria perspectiva.

Nós nos deparamos com discussões acaloradas sobre escrever o outro – a intersecção entre poder e identidade, privilégio e resistência –  em seminários, nas seções de comentários dos artigos e blogs, na rede social, em salas de aula. Então, como podemos escrever respeitosamente na perspectiva do outro? Aqui estão 12 orientações para iniciar este processo:

1. Pesquisar é só o começo e ainda é muito pouco

Quase todas as conferências, dissertações, blogs e seminários que tenho visto a respeito de escrever o outro podem ser resumidas em “faça sua lição de casa”. Deduz-se pelo não dito que todas as peças deste quebra-cabeças insolúvel de privilégios e poder se encaixarão perfeitamente, se fizermos nossa pesquisa. Só que não é assim. Escrever sobre pessoas que têm uma experiência de identidade diferente da nossa não é um desafio narrativo de simples solução. Vários escritores que são “especialistas” em uma cultura específica ainda criam estereótipos pobres e vulgares quando se trata de trazer esta especialização para criar personagens reais.

As raízes da prática de pesquisa ocidentalizada de culturas diversas incluem eugenia, dissecações, esterilizações forçadas e, frequentemente, o véu desumanizador da antropologia. Não estou dizendo que “toda a pesquisa é má”, mas sim que temos que ter consciência das histórias complexas e mesmo dolorosas que abordaremos para que não repitamos os traumas já causados.

Eis o que diz o escritor de American Horror Story, James Wong: “Fizemos uma pesquisa profunda sobre magia negra e claro, não existia tanta coisa para a gente trabalhar em cima porque nada disso é verdade (risos). Mas quando fazemos pesquisa, encontramos muitos símbolos sobre fertilidade e fomos juntando e misturando este e aquele até resultar na cerimônia que criamos”. A despeito da sua opinião sobre American Horror Story, positiva ou negativa, este é um exemplo excelente de como a pesquisa é somente o primeiro passo. Tendo feito uma “porção” de pesquisa, o time de escritores optou por jogar as cerimônias de fertilidade num caldeirão, misturar tudo e criar algo novo. Veja que a ideia principal era de que nenhuma destas crenças tinha alguma verdade é algo risível para o Sr. Wong. Uma mistura de elementos pode ser bem feita. No entanto, se misturada, como geralmente se faz, com flagrante desdém pelo sistema de crenças que professa, o resultado é uma massa padrão, que não é isso ou aquilo, versão sintética de uma cerimônia sagrada enraizada em tropos de racismo e desrespeito.

2. Seus parâmetros são uma merda (¹)”

Diz Juno Díaz: “A única coisa que se pode dizer de um cara que escreve na perspectiva de uma mulher é: seus parâmetros são uma merda”. A marca de um grande músico não é a sua habilidade com o instrumento (²), mas sua capacidade de ouvir. O patriarcado vem ensinando desde sempre aos homens (NT: gênero) que supostamente nós somos especialistas automáticos em qualquer assunto, então por que ouvir o que outra pessoa tem a dizer sobre o assunto? Resposta: Para escrever o outro nós temos que ouvi-lo. Para ouvir precisamos calar. E esta não é a uma tarefa simples, só esperar alguém terminar de falar para então desembuchar imediatamente seu ponto de vista. Sério. Sente-se, respire profundamente e ouça o que as pessoas em volta estão dizendo. Ouça a você mesmo, seu próprio eu. Suas dúvidas e medos, as coisas que não quer admitir. Ouça as coisas que as pessoas dizem que fazem você se sentir desconfortável. Sente-se com este desconforto. Compreenda que está errado. Então tente errar menos e vá em frente.

3. Empoderar (³) importa

Diz-se que o conflito é a espinha dorsal da história, e o poder é o cerne do conflito, o que faz a história ter importância. Mas a nossa classe raramente oferece uma discussão sobre empoderamento e suas faltas e falhas. Como escritores de ficção não esperam que sejamos versados em escrever sobre o empoderamento, os detalhes, a sutileza, a complexidade disto ou a dor no coração. Habitualmente, pesquisa de fatos toma o lugar de diálogos profundos sobre opressão e resistência.

A compreensão do empoderamento importa mais do que detalhes tangíveis.

Cada personagem tem uma relação com o poder, que inclui as faces: institucional, interpessoal, histórica e cultural. Que é representada das micro-agressões aos crimes de ódio, de orientação sexual, à imagem corporal, das mudanças nas posturas de vida devido aos aborrecimentos cotidianos e diários e no profundo trauma histórico sofrido por uma comunidade. Poder afeta a relação do personagem consigo mesmo e com os outros, sua jornada física e emocional através da história. Se você ignora isso, ao final do processo você obterá bonecas de papel ou rostos brancos pintados de preto.

 

 

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço de Germana Vieira – www.lizziebordello.com/

4. Esqueça o outro. você consegue escrever sobre si mesmo?

Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema sobre escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social. Então vemos tantos caras bonzinhos e perfeitos, salvadores brancos e machos que fazem tudo “certo” e sabem exatamente como agir.

Você, possivelmente, não tem ideia de como os outros o percebem e, principalmente, se a imagem que faz de si mesmo é desconfortável por conta da qualidade do poder que ela perpassa. Salta na página este tipo de abstração do escritor.

Não existe escassez quando o assunto é livros de pessoas brancas falando de pessoas negras, o que não vemos muito são livros de pessoas brancas escrevendo sobre a experiência emocional, política, e social de ser um branco, os desafios e complexidades de ser branco. Nós não vemos muitos homens escrevendo sobre o patriarcado, como isso nos estragou, como diariamente ao nosso redor, aqui e ali, dançam os discutíveis gêneros binários. Sim, isto soa como tópicos para uma dissertação, mas na verdade são exatamente os tipos de conflitos internos que dão vida a um personagem.

 

5.  “Escrita racista é uma falha na construção da história”

Kwame Dawes apontou esta falha na AWP (Association of Writers and Writting Programs). Eu a mencionei anteriormente e vale a pena repetir de vez em quando. Nós falamos sobre preconceito e ódio de gênero como se eles fossem somente morais ou políticos, no entanto, essa abordagem resulta em estereótipos redundantes. Se você escreve estereótipos, sejam eles personagens, pontos na trama, ou pistas contextuais, você está escrevendo alguma porcaria que vem sendo repetida ao longo de gerações. Isso é chato, você consegue fazer melhor.

6. Caso de vida ou morte

Tendo dito que a escrita racista é um caso de como construir sua história, quero deixar claro que vai muito além disso. Normalmente o racismo é colocado em pauta como “ofensivo” ou discute-se o “politicamente correto”. Este é o ponto para debate: nem tanto isso, nem tanto aquilo. Estes formatos são uma moldura condescendente e desumanizadora do diálogo. Estamos falando de vozes continuamente silenciadas e apagadas pela corrente principal da cultura hétero-branca-machista.

Estamos falando da vida e morte de povos inteiros, estamos falando de auto estima e humanidade. Mesmo sendo adultos, com raras exceções, não percebemos como lidar com esta imagética. Pois quando criança não nos foram dadas as ferramentas para lidar com isso. Elas, as crianças, se deparam com isto mais do que ninguém. As altas taxas de suicídio e a opressão racial e de gênero que elas internalizam são reais.

Não podemos continuar criando gerações de crianças negras sob a égide de que só há espaço para elas como os caras maus nas histórias ou o figurante que vai morrer e gerações de crianças brancas pensando que estão perto de Deus só por causa da aparência. Não podemos continuar promovendo normativas sexistas hetero/cis e ideias racistas em nossa literatura. Criando uma configuração padrão de raça e gênero. Se você não está trabalhando contra isso conscientemente, está trabalhando a favor. Ser neutro não é uma opção. O luxo de se pensar deste jeito tem que acabar.

Citando Junot mais uma vez. “Eu acho que a menos que você esteja trabalhando ativa e conscientemente contra a atração gravitacional da cultura, você criará uma temática previsível com esta representação babaca de estereótipos. Sem falhas. A única maneira para fazer isso é admitir para si mesmo que você não é bom com estas questões, e estar consciente do processo de criação destes personagens.”

7. Ritual ≠ Espetáculo

Recentemente editei “Long Hidden”, uma antologia de ficção especulativa com contornos históricos. Eu e minha co-editora, Rose Fox, recebemos um grande número de submissões que não tinham nenhum elemento especulativo e apresentavam cenas de cerimônias não-cristãs. Culturas e crenças diversas de outros povos não são fantasia. Uma coisa é um semideus ou espírito andar por ai, interagindo com as pessoas – só essa interação por si terá uma certa complexidade – outra coisa é pessoas que celebram a sua crença serem incluídas no elemento fantasia, ou seja, serem consideradas não reais (NT), este tipo de coisa caracteriza-se como racismo cultural imperialista.

Além disso, a cultura de outras pessoas não é um circo, um show de horrores, um vídeo de música pop, uma paródia kitsch de um lar, uma fantasia de Halloween, uma afirmação para seu próprio ego.

Veja acima o que disse o roteirista de American Horror Story: “nada disso é real (risos)”. Se a possibilidade destas crenças serem reais é uma piada não escreva sobre elas.

No espetacular “Is Paris Burning?” Bell Hooks escreveu que “ritual é o ato cerimonial que carrega um significado… que vai além da aparência, enquanto espetáculo funciona somente como uma apresentação dramatizada feita para entreter… estes elementos de um dado ritual que são empoderadores e subvertem a ordem, podem não ser perceptíveis para quem olha de fora.

Por isso é fácil para um observador branco retratar rituais negros como espetáculo. Mais adiante, Hooks argumenta como o documentário Paris is Burning reforça esse retrato espetaculoso e desumanizante do ritual quando uma das pessoas retratadas no filme é morta: “tendo servido ao propósito do espetáculo, o filme abandona-o/a… Não há cenas de pesar pela sua morte. Falando grosseiramente, sua morte é suplantada pelo espetáculo. A morte não é  divertida.”

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8. Pesquisa do Outro: História com Estereótipo

Uma estratégia comum para escrever sobre o outro é inverter o estereótipo. O que é somente um começo, porque você continuará apoiado no clichê original, na verdade, terá que ir mais longe. Para começar uma contra narrativa, você tem que saber o que está lá fora. De outra forma trabalhará no mesmo caminho e chegará à mesma porcaria. Textos como o de Edward Said, Orientalismo, famoso por virar o jogo da antropologia branca, analisando sua própria análise, não refletem o que as pessoas querem dizer quando se referem a pesquisar sobre, quer dizer, não há a análise sobre a pesquisa na sua pesquisa, e a análise é tanto ou mais do que o subtexto da história que está contanto. Portanto, fique atento ao seu poder opressor.

 

9.  Evite o Enredo “Sou o Único Capaz de Salvar o Mundo”

 

Falando de estereótipos, vamos pegar o Mágico Negro como exemplo, usada excessivamente no meu gênero preferido, ficção especulativa (FFC). Se no seu livro existir duas pessoas negras e ambas têm superpoderes e representam forças do bem e do mal você tem um problema. Entre estes dois personagens será expressa uma gama de características e complexidade emocional genuinamente brancas. Não importa se um dos personagens seja o bonzinho, acredite, você vai errar.

Na verdade, nós temos que ultrapassar o enredo do tipo O Escolhido, “The Chosen One”. Esse tipo de trama só tem um parâmetro, nada mais é que a representação do Salvador Branco.

– Num mar de rostos negros/mulatos/índios/orientais existe uma pessoa capaz de salvar o mundo!” Damos um zoom e o escolhido é… aquele com a cara branca. –

Como pessoa, esta suposição do salvador não existiria. Como escritor, eu imaginaria desse jeito. Resolve uma série de problemas se o personagem for pré-determinado desta forma para um épico confronto final. O personagem construído dentro do molde “o único capaz” fornece a razão para o antagonista querer colocar o povo nas trevas, para o levantar das lanças e o inevitável e emocionante clímax. A mesma PORCARIA que temos visto zilhões de vezes. Vamos fazer melhor.

10. O fato de que você vai errar não é razão para não fazer

Por volta dos meus vinte anos eu decidi que gostaria de falar sobre sexismo. Eu sabia todas as palavras que queria dizer, e não disse. Um dos motivos do meu silêncio é que meu conhecimento ia até certo ponto, assumi que iria fazer alguma coisa errada, e qualquer coisa que fizesse errado seria agravada pelo fato de que eu era só um de tantos homens falando sobre sexismo. Então eu me percebi jogando comigo mesmo, um jogo mental de ironia, ego e auto percepção, totalmente sem sentido que me impedia de fazer uma coisa que sabia ser importante.

Isto é uma verdade para todos aqueles que escrevem sobre outras culturas e experiências. Você vai estragar tudo e vai ser épico. Eu sei, eu fiz isto. Não significa que não deve fazer. Significa que você deve desafiar a si mesmo a fazer melhor e melhor a cada vez, aprender com seus erros ao invés de deixar-se acovardar por eles e/ou colocar-se numa posição defensiva. Como resultado deste empreendimento se tornará um escritor melhor.

11. A Feira Livre Que é O Mercado Editorial

O cenário atual na indústria editorial ainda inclui branqueamento das capas de livros, racismo, sexismo, cis-normativas, classismo, homofobia e capacitismo (NT: preconceito contra pessoas que têm qualquer tipo de condição física debilitante ou que as torna ineptas a se adaptar aos padrões considerados socialmente “normais”: nanismo, falta de um dos membros, cegueira etc.) A maioria dos agentes e editores são brancos, e a cultura branca rege a indústria. Autores negros lutam para ter sua voz ouvida, e nas editoras que apoiam a diversidade de publicação são autores brancos que, em sua maioria, escrevem sobre personagens negros. Apropriação cultural importa neste contexto porque se trata de quem tem acesso e de quem é pago, o que vai além de problemas como construção pobre da trama ou representação desrespeitosa. Como brancos temos que compreender que, além do contexto dentro da história que escrevemos, existe um contexto social do qual nosso trabalho faz parte.

12. Já considerou o ‘POR QUÊ fazer’? E o “NÃO fazer”?

Este processo requer uma busca da alma e sentir-se desconfortável. Sem desconforto, você não cresce. Às vezes, as pessoas evitam as questões mais básicas. Por que você sente que cabe a você escrever a história de outra pessoa? Por que você tem o direito de tomar para si a voz de outro? A resposta nem sempre é não – como escritores estamos constantemente penetrando na cabeça de outras pessoas. Com muita frequência, no entanto, não paramos para considerar se é a coisa certa a fazer. Então, as vezes a resposta é mesmo não.

 

 

12 Fundamentals Of Writing “The Other” (And The Self)

http://www.buzzfeed.com/danieljoseolder/fundamentals-of-writing-the-other#.vcXPyDzw8

Daniel José Older é um escritor do Brooklyn (NY/EUA), editor e compositor, Salsa Noturna, “ghost noir colection”, foi aclamado como impressionante e original pelo  Publishers Weekly. É editor da antologia Long Hidden: Speculative Fiction from the Margins of History, e seu livro de fantasia urbana The Half Resurrection Blues, o primeiro de uma trilogia, foi lançado em janeiro deste ano pela Penguin’s Roc. Dissertações e contos de sua autoria foram publicados na  The New Haven Review, Salon, Tor, PANK, Strange Horizons, e Apex. Sua música, ponderações e aventuras de ambulância moram em ghoststar.net e @djolder.

 

 

 

Coisas que gostei em O Andarilho das Sombras de Eduardo Kasse Ed Draco.

 

 

562934_452750564755791_959192777_nO Andarilho das Sombras – Eduardo M. Kasse – 378 páginas – Editora Draco – 1a Edição 2012

Demorei muito para falar deste livro, justamente por causa do título das minhas resenhas – o que mais gostei em O Andarilho das Sombras foi…, pois só conseguia completar com – tudo.

Na verdade, eu não gostei, eu adorei Andarilho das Sombras. Quando comprei o livro, no entanto, fui redondamente enganada pelo autor. Explico, fantasia histórica não é o primeiro item na minha fila de leituras, embora seja tão fascinada por História que esta disciplina chegou a ser cogitada como uma opção de carreira. Além de não ser muito chegada ao assunto “beber sangue e ser imortal”.

– Não é um livro sobre vampiros, ele me disse.

Eduardo Kasse não mentiu nesta parte, não se trata disso, mas o personagem se alimenta do sangue dos vivos e o autor narra estas passagens com tal maestria que agradeço muito ter sido ludibriada.

O livro conta a saga do filho de nobres Harold Stonecross, um ser imortal, amaldiçoado pelos deuses antigos, perseguido pela igreja católica, a quem despreza acima de tudo. Usufruindo do conforto que rouba dos nobres e padres, título e ouro, respectivamente, ele não sente culpa ou arrependimentos, aceita a sua jornada pela imortalidade quase como uma dádiva, a despeito das circunstâncias que o transformaram. De vila em vila escolhe suas vítimas e seduz mulheres.

São duas as linhas cronológicas da narrativa, a atual e a passada, tão bem costuradas que não dá para se perder, o leitor é conduzido com acuidade pelas entrelinhas, situando-o no momento que está sendo explorado naquela determinada parte. A leitura acaba sendo arrebatadora e só no final ficamos sabendo que evento/maldição tornou Harold Stonecross imortal.

Quanto a parte histórica do livro, ele se passa nos séculos X e XI na Inglaterra. O mais legal, além da trama e estilo narrativo, é que, ao invés de centralizar a ação num determinado evento histórico, importante e conhecido, ela corre pelos caminhos do homem comum daquela época. O autor teve o cuidado de pesquisar profundamente os hábitos das pessoas, nobres, religiosos, camponeses, ermitões – não heróis – pessoas como eu e você. E não se pode dizer que Harold é um herói, ou uma vítima, ele é assim como nós, meros mortais, só que não…  já que no caso de Harold ele vive para sempre. Eduardo Kasse nos diz no seu livro das pessoas e costumes da época, do que eram feitas as casas e abrigos, o que comiam e como eram cultivados, comprados, preparados seus alimentos, passando pelo vestuário, armas, hábitos, músicas etc.  Tudo é tão vívido que dá até para sentir o cheiro da comida, ouvir os animais na mata, perceber a textura das roupas no corpo.

Há outros dois livros da saga, que se chama Tempos de Sangue, um que se passa na Itália, Deuses Esquecidos, neste é o camponês Alessio que recebe a maldição e outra, Guerras Eternas, que retorna à Inglaterra no século XII onde encontramos novamente Harold Stonecross e outros imortais.

Recomendo muito a leitura destes livros, para quem gosta de ficção histórica e para quem não gosta, para quem gosta de bebedores de sangue e para quem não gosta, para quem gosta de heróis clássicos e principalmente para quem não gosta.

http://eduardokasse.com.br/blog/2015/08/13/a-literatura-e-a-economia-criativa/

http://editoradraco.com/2012/06/11/pre-venda-com-20-desconto-e-frete-gratis-de-o-andarilho-das-sombras-eduardo-kasse-2/

 

IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

Infelizmente eu não tenho tempo para muita coisa na minha vida de professora. Se somar minhas horas de trabalho remunerado às de trabalho não remunerado sobra pouco tempo para comer, ler e tomar banho, quanto a dormir a gente se ajeita. A maior parte do que escrevo aqui remete a experiências e leituras pessoais. Com certeza alguém já fez um tratado sobre isso, um TCC. Um blogueiro americano escreveu em inglês um artigo cheio de adjetivos, redundâncias, exemplos locais que não dá para entender, com no mínimo 1500 caracteres para falar de como não esquecer seus cinco sentidos, ou parte deles, ao escrever sua história.

Ontem à noite estava lendo um livro de ficção histórica e imaginando o trabalho do autor em coletar sua pesquisa para contar o que aconteceu setecentos anos atrás. Comida, plantas, remédios, veículos, armas, roupas e materiais. Imergi no livro e percebi o porque, ele falava do cheiro da comida, das texturas das roupas, do gosto dos remédios, dos diversos sons que o exército em marcha produzia.

Por que alguns livros e contos que leio parecem não oferecer a imersão na história que o autor pretende sugerir? Acho que faltam os cinco sentidos parece ser um boa resposta.
Autores iniciantes imaginam seu livro como um filme, se você sentar numa sala de cinema você vai ver e ouvir a cena – já se tentou fazer cinema com cheiro, mas o fracasso foi diretamente proporcional ao cheiro dos refrigerantes e salgadinhos que as pessoas consumiam, o perfume que usavam ou a falta dele. Setenta por cento da nossa percepção é visual, um filme como Chocolate, com Juliet Binoche e Johnny Depp, remete ao sabor de bombons e ao cheiro da calda quente, mas não sentimos nem o cheiro, nem o sabor ao assisti-lo, pressupomos.

Escrever é suposição bruta de todos os sentidos. A dimensão da experiência sensorial assume o caráter de símbolos sobre o papel e o leitor pode até dispensar a visibilidade destes símbolos: o braile, áudio-livros, contadores de história que leem livros para uma audiência. Se fechar os olhos por alguns momentos, os outros sentidos passam a compensar paulatinamente a falta do principal. Fechei meus olhos e percebi que minha vizinha do apartamento de baixo está fazendo pernil e alguém lava roupa ou o piso com produto perfumado, o ar que entra pelo meu nariz está seco, mesmo tendo chovido ontem à noite e pouco ou nada do cheiro de mato do parque em frente consigo sentir. Posso continuar assim explorando os outros sentidos, tato – a secura do ar mencionada acima – e paladar.
Ao construir seu universo,  ao criar os personagens, cenário e história, o pentagrama sensorial deve ser pensado e explorado, não necessariamente destrinchado. Explore e recolha o que de mais contundente ou contextualizado no sentido (tato-paladar-audição-olfato-visão) e inclua na história. O escritor iniciante que concentrar seu foco só na aparência ou nos ruídos perderá a oportunidade de realizar esta imersão.
Já li vários trechos e contos de autores cuja descrição da cena é como se fosse um roteiro, que deve ser completado pelo leitor. Não faz sentido. O leitor quer viver uma história, quem cria a história é o escritor! Se o leitor tiver interesse em ampliar o universo que o escritor criou ele dispõe de outras ferramentas: desenhar o personagem como ele imaginou, escrever um fan-fic e publicar numa plataforma online para compartilhar com outros fãs etc.
O escritor iniciante imagina a cena e começa por um verbo – virou-se, olhou, ouviu, agachou, levantou – acrescenta um complemento que fomenta mais dúvidas do que surpresas ou questionamento ao leitor e quase nenhuma imersão e a sentença geralmente acaba no nada:
Virou-se e viu um estranho que não sabia dizer quem era.
Olhou para uma coisa estranha que não sabia dizer o que era.
Levantou-se estranhamente não sabia dizer o porquê.
Ouviu um som estranho vindo não sabia de onde.

Por exemplo, o escritor quer descrever uma cena noturna, o mundo será de vultos, dependendo de qual sensação precisa para dar ênfase à sua história terá que explorar um ou outro sentido. Vamos supor que não se trate de medo ou perseguição – o mais comum – mas de abandono ou desamparo, o autor pode trabalhar os odores que a noite exala, talvez uma área suja e pouco cuidada da cidade, um canto escuro cheirando a urina ou vômito. Uma caverna em que o personagem se escondeu e sente sob os pés não a dureza da pedra, mas a umidade de um curso d’água ou a maciez de fezes de animais. Feche os olhos imagine-se por completo dentro da história, sem vê-la, explore um pouco os outros sentidos.

Precisando de pesquisa, vá atrás. A terra na região sudeste brasileira é vermelha por causa do ferro que contém, o chão tem um cheiro agradável e ferroso depois da chuva. O autor que escrever sobre um homem que vira guará nas noites de lua cheia em Minas Gerais, pode usar este elemento e combiná-lo com o gosto ferroso do sangue das vítimas, combinar a temperatura do sangue com o calor das noites de verão etc. Se o autor se preocupar somente em mencionar que o lobo era grande, forte, musculoso, peludo com grandes presas, uivava e corria e a vítima virou-se e viu algo estranho atrás dela, a cena perderá metade do impacto em relação àquela na qual outros elementos sensoriais foram usados. Além disso, esse acréscimo sensorial torna a escrita mais rica e é uma das razões por trás da frase – “Gostei mais do livro que do filme”.

Pense em todos os elementos sensoriais que estão envolvidos na construção de sua história: gostos, cheiros, textura e peso, além dos sons e imagens e no que elas podem enriquecer a sua narrativa. Não precisa encher páginas e páginas de busca sensorial se esta busca não representar nada efetivamente, o que você quer é que o leitor seja imerso no mundo que você criou, não se afogue em excessos abandonando a leitura.

Feche os olhos e responda: que cheiro, que gosto e qual é a sensação sobre a sua pele neste momento?