Experimentação na Ficção Curta

Matsuo Basho

No lançamento do volume 1 da Trasgo, revista especializada em ficção especulativa, fantasia e ficção científica, fui convidade a participar de uma mesa redonda com o editor Rodrigo Van Kampen e a escritora e amiga Karen Alvares. O propósito inicial da mesa era falar sobre experimentação na ficção curta, mas abrimos o leque da discussão e acabamos falando sobre mercado editorial, experiências de publicação em editoras e independente etc., conduzindo a conversa de acordo com a audiência. Infelizmente eu tinha um compromisso importante à noite e não pudemos nos alongar e falar sobre experimentação.

A ficção curta tem o tamanho ideal para testar nossos experimentos linguísticos e especulativos. Não porque seja mais simples fazer um conto do que um romance, ambos exigem de escritore um determinado tipo de comprometimento. Na ficção curta – conto, micro conto, poesia – podemos nos permitir explorar com mais liberdade, pois ela é sintética e deixa pouco espaço para escapar ao contexto, num romance, cheio de nuances e personagens, elementos que quebrem a regra podem quebrar também o ritmo da narrativa, ou serem supérfluos em relação ao todo.

Experimentar significa ir além de parecer estranho ou desconfortável. Escritore deixa de lado as convenções da língua ou da estrutura narrativa e busca alternativas para se expressar. Este desligamento diegético ou estético, no entanto, tem que servir ao propósito do conteúdo.

O ponto de partida para a disgreção é a regra. Entender a tradição literária em português, Machado, Cecília, Eça, Pessoa. Conhecer sua narrativa, suas metáforas, o posicionamento social e cultural, a forma, para então desafiar as convenções. Na narrativa não-experimental, e escritore se atenta ao cenário, à construção de personagens multi dimensionais, à descrição vívida da ação, aos diálogos marcantes e identificáveis, referências culturais e transformações aplicadas aos personagens, ação ou cenário. A ligação com a “realidade” é mais contundente, exige-se uma suspensão de descrença e uma verossimilhança que coloquem e leitore na pele do protagonista.

Na narrativa experimental, e escritore tende a ser mais metafísico, mental e emocional, a “realidade”, como apontada no parágrafo anterior, raramente é organizada e limpa. A escrita é descontinuada, fragmentária, com elementos gráficos, personagens sem contornos ou identidade. E leitore é levade a interagir diretamente com o texto, não se trata mais de ser transportade e viver a vida do personagem, mas investigar a si mesmo dentro do contexto. Provocar uma sensação, mais do que a compreensão da narrativa, e leitore se questiona através dela.

Indico a leitura do conto 73 do Jogo da Amarelinha de Júlio Cortazar (contista obrigatório), para entender como é ser levade à sensação de parafuso sendo apertado pelo ritmo e escolha das palavras, analisar o porquê da escolha simbólica do autor. Décio Pignatari, Guimarães Rosa, Jorge Luís Borges, são experimentadores que, assim como Cortazar, já se tornaram clássicos. Será que podemos desafiar os desafiadores?

A pergunta a se fazer para verificar a experimentação no texto é a contra-experimentação. O que sobra se tirarmos os elementos experimentais? A experiência desviou-se ou diluiu a ideia inicial? Há elementos clássicos interagindo com o texto? Quais? Qual a importância destes elementos?

Algumas experimentações são menos metafísicas e mais diretas, como o uso de marcadores neutros de gênero que desafia a norma culta da escrita, ou diálogos com o formato de mensagem em redes sociais, narrativa não-linear etc. O próprio nome já diz que vamos fazer da nossa escrita um laboratório de testes, jentar e falhar várias vezes até acertar, ou não, pode resolver jogar fora e voltar-se para outro projeto. Mesmo quando ao ler o texto tiver a sensação de desafio às convenções, precisará ainda perguntar o propósito de querer desafiá-las e se conseguiu atingir sua intenção inicial, não para si mesmo, óbvio, para e leitore. Afinal, experimental não quer dizer ser hermético, voltado para o próprio umbigo. Compartilhamos experiências para torná-las úteis.

Exemplos

Na revista Psychopomp, gratuita, o texto da brasileira Beatriz L. Seeleander está em formato de questionário, a última pergunta (tradução minha):

15. Fim

  • a) o fim?
  • b) seguido de cinco livros com o spin-off da série
  • c) a morte é o único fim, as outras histórias foram ideologicamente editadas
  • d) não existe nada para se começar. Isso é ficção

Narrativa não-linear, o autor Fábio Fernandes narra uma história sobre amor de forma fragmentária na edição 11 da revista Trasgo. Amor: Uma Arqueologia.  , pode ser lido gratuitamente.

Personagens sem contornos e interferências gráficas na poesia e prosa da autora Adriana Versiani dos Anjos, A Física dos Beatles, Contos dos Dias, A Lâmina que Matou meu Pai.

How to Contemplate the World From The Detroit House of Correction and Begin My Life Over Again da autora Joyce Carol Oates.

 

Links para meus escritos – não experimentais 🙂

gratuito

Editora Draco

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Sou professora e escritora. Gosto de ler e escrever Ficção Científica e Fantasia. O resto é bobagem. Contos publicados: O Desejo de ser como um rio - Amazon Gente é Tão Bom - Trasgo no. 1 O Tesouro de Nossa Senhora dos Condenados, Coletânea Piratas - Editora Catavento Lolipop, Coletânea Boy's Love - Editora Draco Monsuta - Shi, Coletânea Dragões - Draco Encaixotando Nina - Cobaias de Lázaro Invasão de Corpos - co autoria, Cobaias de Lázaro Seduzindo Oliver - co-autoria, Cobaias de Lázaro A Princesa no Escafandro Cor-de-Rosa - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco Extensão - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco Retrônicos, coletânea - editoração e conto O Menino Jaguar e o Escudo do Sol - Trasgo 10 A sair Volte para o seu lar - Amazon Rede vermelha sobre o oceano de merda - Amazon Elonara e o Silêncio - Boys Love Super Heróis - Draco Boca Maldita - Cyberpunk - Draco Ó! Elefante! Ó! - Cthulhu - Draco

Posted on November 30, 2017, in Dicas Para Escritores Iniciantes, Uncategorized and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. 1 Comment.

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