Lolipop – trecho +18

Conto publicado na Antologia Boys Love da Editora Draco

http://editoradraco.com/2015/07/01/boys-love-sem-preconceitos-sem-limites/

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Kani

 

quando voltei do trabalho, discuti com minha mulher por qualquer coisa que não me lembro agora – esqueci de muita coisa a partir de Lop. fui para área de vigilância designada. e que saco! a pior de todas, o quarteirão teatral. as pessoas achavam que podiam fazer o que quisessem por lá, que o livre pensar ainda prevalecia. eu que não queria voltar a viver no passado sem honra que um dia dominou  esta cidade.

só dava pervertido naquelas ruas, burlando as leis de castas. caralho! puta que pariu! ia ter trabalho sem parar, a última vez que estive aqui, enquadrei treze idiotas de uma vez, Cs numa orgia grupal, Hes e Hos misturados num quartinho onde não caberia cinco, uma bagunça, o cheiro de bebida, sexo e suor era insuportável, quis vomitar no banheiro, mas já estava sujo de vômito e bebida. pior foi achar que tinha ganho a noite, treze – pensei – fechei minha cota da semana. que nada! mandaram que voltasse para completar o turno, ainda peguei dois boquetes e mais três Cs, meninas que não tinham mais que quinze, em “situação comprometedora”. situação comprometedora meu rabo, isso sim. fiquei com dó delas, se denunciasse o que estavam fazendo, iriam ser mandadas para o reformatório. eu estive em um, garanto que a tortura que os robôs chamam de “reorientação” é pior lá do que na cadeia. “hoje vou enrolar”, pensei. pegar uns moleques nas passagens subterrâneas e passar uma hora dando sermão antes de enquadrar e chamar os drones. dois desses e acabo meu turno. tive sorte, assim que entrei na passagem entre a Rua dos Teatros e a Rua dos Cafés, dei de cara com dois infratores.

Lá estava o mesmo menino da balinha, o garoto estúpido. Calças arriadas e lágrimas nos olhos pedindo para o outro sujeito parar. Pensei que ele estava sendo atacado, puxei meu distintivo/alarme e dei a ordem de compostura:

– Botando a roupa. Mãos na cabeça. Tatuagem visível.

Como os dois responderam na mesma hora, segundo minha experiência na coisa, eles eram cúmplices, não havia agressão. Já conhecia a tatuagem do rapaz, fui conferir a do outro sujeito. Um “C”, ele estava ferrado. Passaria pelo menos duas semanas na “reorientação”. Quanto ao menino, não pegaria nada, ele era um Ho e L, mas na pressa de vestir as calças não teve tempo de puxar a camisa e não havia como esconder os seios, violação gravíssima – “Atentado à Forma Física” – dois anos no mínimo e cirurgia. Não sei o porquê, seguidor dos códigos como sou, só fiz que não vi. As lágrimas do menino borraram o cajal e rolavam pela bochecha. Quis beijá-lo, acalmá-lo.

que diabos!

Fui criado pela honra, meus pais me orientaram e quando perceberam que estava confuso, fizeram por bem me internar. honro meus pais e os odeio ao mesmo tempo. não digo isso. não digo nada. meus culhões covardes. dentro da minha cabeça os pensamentos circulam: controversos, impulsivos, violentos.

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