IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

Infelizmente eu não tenho tempo para muita coisa na minha vida de professora. Se somar minhas horas de trabalho remunerado às de trabalho não remunerado sobra pouco tempo para comer, ler e tomar banho, quanto a dormir a gente se ajeita. A maior parte do que escrevo aqui remete a experiências e leituras pessoais. Com certeza alguém já fez um tratado sobre isso, um TCC. Um blogueiro americano escreveu em inglês um artigo cheio de adjetivos, redundâncias, exemplos locais que não dá para entender, com no mínimo 1500 caracteres para falar de como não esquecer seus cinco sentidos, ou parte deles, ao escrever sua história.

Ontem à noite estava lendo um livro de ficção histórica e imaginando o trabalho do autor em coletar sua pesquisa para contar o que aconteceu setecentos anos atrás. Comida, plantas, remédios, veículos, armas, roupas e materiais. Imergi no livro e percebi o porque, ele falava do cheiro da comida, das texturas das roupas, do gosto dos remédios, dos diversos sons que o exército em marcha produzia.

Por que alguns livros e contos que leio parecem não oferecer a imersão na história que o autor pretende sugerir? Acho que faltam os cinco sentidos parece ser um boa resposta.
Autores iniciantes imaginam seu livro como um filme, se você sentar numa sala de cinema você vai ver e ouvir a cena – já se tentou fazer cinema com cheiro, mas o fracasso foi diretamente proporcional ao cheiro dos refrigerantes e salgadinhos que as pessoas consumiam, o perfume que usavam ou a falta dele. Setenta por cento da nossa percepção é visual, um filme como Chocolate, com Juliet Binoche e Johnny Depp, remete ao sabor de bombons e ao cheiro da calda quente, mas não sentimos nem o cheiro, nem o sabor ao assisti-lo, pressupomos.

Escrever é suposição bruta de todos os sentidos. A dimensão da experiência sensorial assume o caráter de símbolos sobre o papel e o leitor pode até dispensar a visibilidade destes símbolos: o braile, áudio-livros, contadores de história que leem livros para uma audiência. Se fechar os olhos por alguns momentos, os outros sentidos passam a compensar paulatinamente a falta do principal. Fechei meus olhos e percebi que minha vizinha do apartamento de baixo está fazendo pernil e alguém lava roupa ou o piso com produto perfumado, o ar que entra pelo meu nariz está seco, mesmo tendo chovido ontem à noite e pouco ou nada do cheiro de mato do parque em frente consigo sentir. Posso continuar assim explorando os outros sentidos, tato – a secura do ar mencionada acima – e paladar.
Ao construir seu universo,  ao criar os personagens, cenário e história, o pentagrama sensorial deve ser pensado e explorado, não necessariamente destrinchado. Explore e recolha o que de mais contundente ou contextualizado no sentido (tato-paladar-audição-olfato-visão) e inclua na história. O escritor iniciante que concentrar seu foco só na aparência ou nos ruídos perderá a oportunidade de realizar esta imersão.
Já li vários trechos e contos de autores cuja descrição da cena é como se fosse um roteiro, que deve ser completado pelo leitor. Não faz sentido. O leitor quer viver uma história, quem cria a história é o escritor! Se o leitor tiver interesse em ampliar o universo que o escritor criou ele dispõe de outras ferramentas: desenhar o personagem como ele imaginou, escrever um fan-fic e publicar numa plataforma online para compartilhar com outros fãs etc.
O escritor iniciante imagina a cena e começa por um verbo – virou-se, olhou, ouviu, agachou, levantou – acrescenta um complemento que fomenta mais dúvidas do que surpresas ou questionamento ao leitor e quase nenhuma imersão e a sentença geralmente acaba no nada:
Virou-se e viu um estranho que não sabia dizer quem era.
Olhou para uma coisa estranha que não sabia dizer o que era.
Levantou-se estranhamente não sabia dizer o porquê.
Ouviu um som estranho vindo não sabia de onde.

Por exemplo, o escritor quer descrever uma cena noturna, o mundo será de vultos, dependendo de qual sensação precisa para dar ênfase à sua história terá que explorar um ou outro sentido. Vamos supor que não se trate de medo ou perseguição – o mais comum – mas de abandono ou desamparo, o autor pode trabalhar os odores que a noite exala, talvez uma área suja e pouco cuidada da cidade, um canto escuro cheirando a urina ou vômito. Uma caverna em que o personagem se escondeu e sente sob os pés não a dureza da pedra, mas a umidade de um curso d’água ou a maciez de fezes de animais. Feche os olhos imagine-se por completo dentro da história, sem vê-la, explore um pouco os outros sentidos.

Precisando de pesquisa, vá atrás. A terra na região sudeste brasileira é vermelha por causa do ferro que contém, o chão tem um cheiro agradável e ferroso depois da chuva. O autor que escrever sobre um homem que vira guará nas noites de lua cheia em Minas Gerais, pode usar este elemento e combiná-lo com o gosto ferroso do sangue das vítimas, combinar a temperatura do sangue com o calor das noites de verão etc. Se o autor se preocupar somente em mencionar que o lobo era grande, forte, musculoso, peludo com grandes presas, uivava e corria e a vítima virou-se e viu algo estranho atrás dela, a cena perderá metade do impacto em relação àquela na qual outros elementos sensoriais foram usados. Além disso, esse acréscimo sensorial torna a escrita mais rica e é uma das razões por trás da frase – “Gostei mais do livro que do filme”.

Pense em todos os elementos sensoriais que estão envolvidos na construção de sua história: gostos, cheiros, textura e peso, além dos sons e imagens e no que elas podem enriquecer a sua narrativa. Não precisa encher páginas e páginas de busca sensorial se esta busca não representar nada efetivamente, o que você quer é que o leitor seja imerso no mundo que você criou, não se afogue em excessos abandonando a leitura.

Feche os olhos e responda: que cheiro, que gosto e qual é a sensação sobre a sua pele neste momento?

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About claudiadu

Sou professora e escritora. Gosto de ler e escrever Ficção Científica e Fantasia. O resto é bobagem. Livros: O Caminho do Príncipe Matando Gigantes Um Pequeno Livro de Poemas, 70% Água Na Taverna do Capitão Destroços Contos do Mimeógrafo Noveletas: IICO Contos publicados: Gente é Tão Bom - Trasgo no. 1 O Tesouro de Nossa Senhora dos Condenados, Coletânea Piratas - Editora Catavento Lolipop, Coletânea Boy's Love - Editora Draco Monsuta - Shi, Coletânea Dragões - Draco Encaixotando Nina - Cobaias de Lázaro Invasão de Corpos - co autoria, Cobaias de Lázaro Seduzindo Oliver - co-autoria, Cobaias de Lázaro A Princesa no Escafandro Cor-de-Rosa - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco Extensão - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco A sair em breve: Retrônicos, coletânea - editoração e conto O Menino Jaguar e o Escudo do Sol - Trasgo 10

Posted on November 15, 2015, in Uncategorized. Bookmark the permalink. Leave a comment.

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