Eu, Zumbi

zumbi2 “desenho – Claudia Dugim”

 

 

Os sinos da igreja chamam os fiéis . Som monótono e frio cortando a noite em dois pedaços, os que acreditam e os que não. Não acredito. Mas sou refém de badaladas, tangências e vibrações. Meus olhos convulsionam em suas órbitas desobedecendo a força da gravidade. O apelido que tinha por causa dos óculos não me lembro. Minha memória também está cega também.

Mais badaladas e os atrasados correm pela escadaria da igreja. Ouço os saltos tamborilando na pedra dos degraus. A porta está sempre aberta, tanto aos bons quanto aos maus. Estou no meio da praça, numa das árvores uma coruja pia. Um cão late abandonado pelo dono à sua sorte sem deus. O cão que guia meus ouvidos, meu cão guia. Sinto seu calor e o cheiro de sua transpiração à esquerda. Cambaleio até ele. Sinto a pressão do seu sangue subir e também emito um som, gutural e provocador. O latido transforma-se em ganido. O cão está arrependido e pede perdão.

– Serei um bom menino, seu melhor amigo – gane o cão.

Amigos não me interessam. Ele abocanha meu braço, pressiona as mandíbulas e arranca a carne dos ossos. Minha vez. Cravo meus dentes na sua jugular, abro seu estômago, consumo suas entranhas, engulo seus globos oculares na esperança de voltar a ver.

Não estou satisfeito, nada mais me dá prazer. Um açougue inteiro ou um rebanho inteiro e não estaria saciado. O padre tem seu próprio rebanho e não se satisfaz. Por que eu deveria?

Ouço o clamor dos fiéis e um cavalo, que sabendo da morte próxima, agita-se para soltar as amarras, como fez o cachorro. Os fiéis agitam-se também, esperam que a morte nunca chegue ou que venha cercada de anjos, flores e virgens. A morte principiou-se em mim e ela é feia, suja e patética.

Mordi o cavalo na artéria e chupei seu sangue enquanto ouvia sua ânsia de viver definhar. Ele não suplicou por misericórdia como o cachorro, sua vida escrava não era grande coisa.

O padre inicia a homilia. O canto mecânico que hipnotiza os fies é mais que um convite. Estão todos em constrição, observando os pecados guardados no próprio umbigo. Cordão que não foi cortado ao nascer e nem será quando, em breve, estiverem mortos. Não visto uma capa preta, não carrego uma foice, não vou separar os justos dos injustos, pois sou carne e sangue. Ninguém será perdoado. Trago o inferno e não tenho medo do que foi benzido e conclamado com suas propriedades e filhos bastardos, na santa arrogante onisciência.

Sigo as palavras do padre, por que os crentes silenciam na oração com as cabeças entre as mãos. Só uma mãe atrapalha a contrição, sentada no último banco, ralha com seus três filhos pequenos e impacientes, pois eles sapateiam e riem. A pequena no colo inicia um choro desesperado ao compasso de alguns nãos, provavelmente me viu e previu a ausência de futuro. Não chorara por muito tempo, nem ela, nem os irmãos.

Conto escrito para o Desafio Skynerd/Jovem Nerd/Suke (Ricardo Strowitzky) em setembro/2013

 

 

 

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  1. CARACA!!! Com certeza esse foi o melhor conto que li nos últimos anos…merece até um sequência. Não em ordem cronológica, pois no caos não existe tempo.

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