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Amigas infláveis

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Liang queria arranhar e furar a cobertura plástica que a continha, mas não tinha unhas ou ossos. De intenções próprias só possuía a ideia de liberdade e o bafo de látex, dos outros, um selo de qualidade e um manual sobre cuidados e usos com garantia de um ano.

– Chegou sua hora – Angelina sussurra no ouvido inflável da boneca para acalmá-la.

Angelina empurra o carrinho em direção ao caixa do atacado. Coisas para o almoço de aniversário. Bebidas, batatas para a salada, três frangos congelados, latas de leite condensado para os brigadeiros dos bisnetos.

– O frango hoje em dia não tem sabor de frango, parece papel – reclama com a filha quando ela atende o celular.

– É a idade mãe, também sinto que estou perdendo o paladar.

– Não, Clarinha, não é a idade. São os detalhes no sabor, sabe. Aqueles que a língua se lembra. É só por na boca este frango de agora e a lembrança desaparece.

– Não cozinha muita coisa, mãe. Os meninos não vão, eles têm compromissos de família este domingo. Quer dizer, com a própria família… Quer dizer, a família deles e os filhos. Entendeu? Não fica chateada, eles também não dão bola para mim ou para o pai.

O supermercado está vazio, são três da manhã. Angelina testa a filha pelo menos uma vez por semana, liga no meio da madrugada para ver se ela se irrita, mas não.

– Um retiro de idosos. Esses de casinhas. São bonitos.

– Não e não, mãe. Uma que não tenho dinheiro para este tipo de asilo, outra que não vou jogar você em qualquer canto. Enquanto estiver lúcida e bem, não tem razão.

Angelina ouviu a amiga de malha contando da prima que mora num retiro com casinhas:

– De noite, menina, ninguém é de ninguém. Uma suruba só.

Angelina empurra o carrinho de volta ao corredor onde comprou a boneca inflável. Na sessão Acessórios para Adultos o atendente faz piada:

– Já tem dezoito, vovó? Se não tiver não pode entrar.

Ela segue para a seção de infláveis.

– Menino tosco – sussurra para si mesmo.

Angelina compra mais duas bonecas. Nem escolhe, só derruba as caixas no carrinho. Entabula uma conversa com as prateleiras: acessórios BDMS…

– Já basta ter que lavar, passar, arrumar a casa, pagar as contas. Ha! Ha!

… fantasias

– Homem de Ferro tá mais para BDMS. Ha! Há!

… consolos

– Pintos! São pintos! Pena que não vai ninguém na minha festa. Podia comprar todos estes e fazer uma piscina, como as de bolinhas.

A aposentadoria deste mês e do próximo foi o total da compra. Paga tudo com cartão de crédito parcelado para estourar de novo. Os filhos e netos que se virem para cobrir o rombo.

O perueiro do supermercado fez a gentileza de colocar todas as sacolas na mesa da cozinha por cinco reais. Angelina deixa a compra ali mesmo, as batatas, os sorvetes e os frangos.  Leva as bonecas para a sala.

Quando criança tinha uma de trapo, cabeça de madeira com olhos descascados que lhe dizia coisas doces ao ouvido, promessas que nunca cumpriu.

– Boneca tratante, mas eu gostava dela.

Angelina procura o pino de Liang e assopra até ficar ficar sem fôlego. Tosse, arfa. Deita no sofá e puxa a caixa de instruções de cima da mesinha. Tira os óculos para ajustar a lente às letras miúdas. Morda o pino e assopre.

– Ah! Tá! Espera só recuperar o ar.

Amadeus se enrodilha na suas pernas esticadas. E Angelina dá um pulo.

– Oh! gato! Oh! Angelina! Que louca! Ele vai arranhar as meninas.

Cata o bichano pelo cangote e o coloca porta afora.

– Vai namorar umas gatas e encher o saco dos vizinhos, Amadeus, seu gato safado.

Ser preenchida de ar é melhor do que ser preenchida de nada. A menina recém inflada tinha olhos, tinha pele, embora tenha sido feita para ser cega e inerte. Angelina escolhe roupas. Penteia os cabelos das moças, senta-as da sala para bater papo enquanto a comida descongela sobre a mesa.

– Primeiro quero conhecer vocês. Vou ver se acerto os nomes. Liang é você de cabelo comprido e camiseta amarela. Acertei? Você, pequena de cabelo curto é Mei Mei. A loira é a Kate.

Liang ouve recostada nas almofadas de franjas. Mei Mei ainda não sabe de si. Kate gosta da voz rouca e doce de Angelina.

– Meu marido morreu há dois anos. Graças a Deus! Velho rabugento. Eu era rabugenta, mas agora tomo remédios e estou feliz.

Liang sorri com boca redonda e profunda. Mei Mei balança a franja. O relógio cuco pia seis horas da manhã. O sol aparece na fresta da cortina.

– A conversa foi boa, meninas, mas preciso ir jogar malha. Semifinal do campenonato. Desejem sorte para estas mãozinhas.

– Toda a sorte, diz Kate.

Angelina ajeita as meninas na própria cama. O avião das 6.20 passa rasteiro na sua rota para o aeroporto.

– Lá do alto se vê o contorno do mundo.

Angelina esvazia as moças. Dobra as pernas, os braços, as cabeças, para dentro dos corpos. Vaginas e seios no látex murcho. Ela as empilha e guarda na prateleira do guarda roupa, onde estavam as malas de viagem que jogou fora na semana passada.

– Porque quis. Porque sim. Se for viajar vou com a roupa do corpo ou para uma colônia de nudismo – respondeu rindo para a filha.

No caminho cumprimenta Alva, sentada no banco do ponto de ônibus a espera de alguém para bater papo. Um menino de mochila é seu próximo alvo. Angelina prefere mirar no tangível. Brinca com o disco de malha na mão direita para avaliar seu peso. Dizem que o peso do disco é calibrado. Não é, varia de acordo com a disposição da mão em carregá-lo. Isto pode ser dito também sobre a distância da cabeceira da pista ao pino na extremidade oposta. Hoje, para Angelina, o disco parece mais leve e flexível e o pino, mais próximo, mais largo. Ela poderia jurar que o disco flutua. Dobra um pouco os joelhos, eles doem. Apoia o disco gentilmente nos dedos e prende-o com o dedão. Traz a mão do disco para perto do ombro. Convém avaliar de novo o peso e a distância. A Terra gira e oscila sobre seu eixo, circula em volta do Sol, caminha em espiral pela Via Láctea atraída pelos outros bilhões, trilhões de estrelas. E de acordo com esta relatividade, Angelina lança o disco e derruba o pino.

No caminho de volta oferece um abraço a Alva. Ela recusa:

– Sabe se o Parque dos Pinheiros passa aqui¿

– Ih! Alvinha, faz anos que não passa mais.

Coloca os frangos descongelados nos sacos de marinada pronta e os joga dentro da geladeira. Os sorvetes, as latas de cerveja e os refrigerantes coloca no freezer para endurecerem. Toma um banho demorado e dorme na companhia murcha de Liang, Mei Mei e Kate.

As bonecas trocam fluídos. Estão hipoteticamente úmidas. As variáveis dos objetos inanimados existem na dimensão da realidade de Angelina.

Faz o almoço como o padre faz a missa, orando pela ressurreição da carne. A filha e o genro descem do carro e entram pela porta da cozinha, precisam colocar a sobremesa na geladeira.

– Desculpa o atraso, mãe. Domingo tem tanto trânsito no horário do almoço!

– Acordei tarde, filha. Vai demorar umas três horas, acabei de por dois frangos no forno.

– Dois frangos! Que exagero! Falei que as crianças não vêm. Esqueceu?

– Claro que não, minha memória continua excelente. Pode me perguntar o que conversamos da última vez, que digo palavra por palavra.

– Foi bom trocar de remédio, então. – Clara senta-se na cadeira da cozinha. – Quer ajuda, Dona Angelina? – Reinaldo fuma um cigarro no quintal.

– Não! Fora o frango, o resto está pronto. Maionese sem milho para você. Farofa sem passas para a Clara. Feijão com meu temperinho e arroz soltinho. Salada. Vou limpar a cozinha agora. Enquanto você faz companhia para as minhas amigas na sala.

– Amigas! Que novidade boa, mãe! Do clube de malha? – Clara estica o pescoço para olhar para o corredor que leva à sala. Mas sua mãe mudou os móveis de lugar.

Sandra segue pelo corredor, olha o quarto da mãe. Tudo arrumado, remédios na cabeceira. O banheiro brilha, a nova faxineira é mais cuidadosa que a anterior. Abre a última porta, onde passou a vida até se casar. O quarto está vazio, ela o preenche com a memória dos móveis e brinquedos. Da primeira vez com o namoradinho da oitava série. Foi horrível, mas foi a primeira vez, lembra e suspira.

Na sala, Liang, Mei Mei e Kate esperam por Clara. Rodam, oscilam, circulam e fazem a elíptica. No sofá, ela se acomoda ao lado de Kate e segura sua mão.

– Que é isso? – pergunta o homem.

– Quem, Reinaldo. A pergunta certa é quem. São as amigas da mamãe.

– Já falei. Sua mãe não está bem. A gente leva ela para casa, coloca no quarto do Leo e com as aposentadorias dela contrata uma moça para ajudar. Assim… – aponta para as meninas. – deste jeito… não dá…

– Você não entende nada, Reinaldo.

Angelina limpa as mãos e joga o avental no cesto de roupas do banheiro, também para na porta do quarto da filha. Ela imagina camas para suas novas amigas, um guarda roupa, quadros nas paredes com paisagens de países que gostaria de visitar. Uma prateleira de troféus para que elas admirem sua habilidade na malha.

– Kate, Mei Mei, Liang, estes são minha nora e genro, Clara e Reinaldo.

– Ganhei o campeonato de malha de novo. Queria participar do estadual da 3ª idade.

– Vai mamãe. Vai ser bom.

– Não posso deixar as meninas, elas estão se adaptando ainda.

– São bonecas infláveis, Dona Angelina – reclama Reinaldo. – Servem para tarados fazerem sexo com elas. Ainda bem que as crianças não vieram!

– E você acha que as crianças iriam ligar para aparência das minhas amigas. Você é visita assim como elas. A casa é minha, então respeite minhas amigas.

Kate se defende. Angelina rasgou o manual, então ela pode o que quiser.

– Você não pode por um feitiço em mim, homem. Não pode me fazer trabalhar para você. Não pode me trancar no armário, não pode me surrar, ou me obrigar a ficar de quatro.

Outras mulheres se juntam ao coro de Kate. Animadas ou mortas.

– Não pode apontar uma arma para minha cabeça. Não pode atirar. Nem me enterrar no jardim como se nada tivesse acontecido e arrumar outra para repetir minha sina. Não pode me fazer de culpada como se a maldade fosse minha, não sua. Colocar fogo na minha pele e depois atirar um balde de água e esperar que as cicatrizes desapareçam. – As que nasceram antes de você, antes de mim, de Angelina ou Clara. Quando a Terra não rodava, oscilava ou circulava. As mulheres são a elíptica. O tempo não se move com elas, elas movem o tempo.

– Ouviu o que elas disseram, Reinaldo?

– Elas são bonecas! Não falam, Dona Angelina!

– Vai lá fora fumar um cigarro, meu bem. Deixa que as mulheres se entendem? Vamos fazer as unhas enquanto o almoço não fica pronto? – segura nas mãos de Liang – Mãe? Moças?

– Estou precisando mesmo – Angelina olha para os dedos miúdos e tortos.

– Reparei.

– Queremos tatuagens – pede Mei Mei.

Angelina abre a caixa de manicure e tira a tampa de todos os esmaltes. Entrelinhas, no vidro de esmalte lia-se tatuagens para pessoas infláveis. Angelina desenha um bordado de renda no braço de Mei Mei na cor Dara. Sandra desenha peixes na barriga de Liang na cor Jaqueta Jeans.

Entremeios, Kate assobia uma canção. Os frangos ficam prontos. Reinaldo se recusa a sentar na mesa com as meninas.

– É embaraçoso. Perco o apetite de olhar para elas. Vou comer na mesinha do quintal.

– Seu desaforo é bem vindo, meu genro.

– Cadê o Amadeus, mãe?

– Trepando por ai.

– Precisa castrar.

– Gatos são engraçados quando estão no cio e gosto de amolar os vizinhos.

– Seu frango está delicioso. Não está, meninas?

Mei Mei balança a franja. Liang finge que pisca. Kate admira as tatuagens nas irmãs.

Reinaldo espera no carro enquanto Clara se despede da mãe.

– Obrigado, o almoço estava ótimo. Queria te ver mais. Adorei suas amigas. Pena que o Rei se incomoda, senão convidaria vocês para passar uma tarde lá em casa. Ainda quer ir para o retiro?

– Não. Bobagem minha. Melhor assim, com as moças. Já tive meu quinhão de vida normal.

Kate, Mei Mei, Liang e Angelina conversaram sobre o Universo até amanhecer a segunda feira.

 

O desejo de ser como um rio

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Não comprei minha passagem para o outro eu. Embora, nos últimos dez anos, tenha guardado dinheiro para este fim. Acessei o link, marquei o dia e a hora da viagem e fui até o guichê para embarcar. Uma fila imensa. Odiar multidões é uma das muitas neuroses que a idade me trouxe. Faltando dois números, desisti. Não estou velho o suficiente para perder toda a disposição de lutar contra o novo. Voltei para casa e peguei meu crochê, dei laçadas e laçadas até que novos calos crescessem sobre os outros. Antoine me chamou três vezes e não atendi, nem deletei.

Confortável e protegido pelas almofadas sobre o sofá, concentrei toda a minha capacidade em copiar o padrão da combinação de cores no modelo, para que ao final do processo o desenho fosse o mais perfeito possível. Em algum momento, anestesiado pelo compasso da agulha, adormeci. Quando acordei tomei o resto do suco que ficou me esperando sobre a mesinha. Os líquidos me entendem, se acomodam ao copo, se acomodam dentro de mim. Fui ao banheiro, precisava de um banho, mas não tomei. A linha em toda a extensão do novelo cheirava a mim.

Antoine chamou e o localizador apontou para a minha porta. Esqueci de marcar ausente e ele sabia que eu estava em casa, escondido, imóvel. Será que eu poderia ser a porta da rua na próxima vida? Não me sentiria sozinho, ouviria as conversas dos que me esperavam abrir, mudaria de cor e forma de tempos em tempos. A resposta é não. Então teria que ser a alma da porta, não a porta física, não seria eu, mas a minha alma a ocupar um lugar.

Antoine usou o código que lhe dei e entrou provando que a minha resistência era inútil. Seria encontrado e confrontado de qualquer jeito. Ele me fez as perguntas para as quais eu mesmo buscava respostas.

– Está lúcido? – Foi a primeira.

– Acho que sim, não sei. Boa tarde, Antoine.

– Boa tarde, Lucas. Que aconteceu com você?

– Eu fui, mas não tive coragem. Você entende?

– Olha para mim.

Eu estava olhando para ele e para aquele mundo torto e sujo, que um dia foi como meu apartamento. Janelas retas e móveis práticos. Antoine refletia sobre o vidro da janela num laranja crepuscular e compassivo. Ele me observando envelhecer e sofrer.

– Eu mudei – disse.

– Não, Antoine, para mim continua o mesmo. – Virei e meu amigo estava nítido, em nada parecido com o sol moribundo do fim da tarde. Resplandecente em toda a sua juventude e energia, como 40 anos atrás.

– Eu só fiz por que você disse que faria o mesmo depois que eu atingisse a idade limite! Gastei tudo o que tinha! Mudei, estou pronto, esperando por você. – Os olhos brilharam, mas nenhuma lágrima. Antes da viagem com certeza choraria rios, fluído como era.

– Não consegui. Acho que não consigo. – Volto a olhar o crepúsculo, agora roxo e fúnebre, as nuvens descendo junto com o sol para as entranhas da cidade gigante que é o hoje.

Por insistência dele, agendo uma consulta com a doutora Simone, do outro lado do rio. Vou a pé, meu prédio é um dos únicos nesta região que não sofreu interferências até perder a estética, assim como eu. Não me acomodo à nova maneira de viver, ele também. Somos pares, nossa paisagem continua do mesmo jeito de quando éramos criança: paredes retas, janelas retangulares, terraços espaçosos com seus parapeitos gradeados onde minha mãe costumava pendurar o tapete da sala para arejar. “Tapetes respiram”, dizia ela. O estacionamento em frente onde brincava com meu skate não existe mais, foi substituído por uma torre verde, um enorme emaranhado de plantas hipócritas na Rua da Agricultura que não produzem sequer uma romã, sem folhas no inverno e infestado de insetos no verão.

Quando o sol ataca a janela do meu quarto carregado pelos pernilongos e moscas, meu desejo de viajar e ser o outro aumenta. Nos últimos dez anos, todos os dias durante os dois meses de sol intenso, faço uma oração de estio, ameaço os insetos com a intenção de abandoná-los, deixá-los sem a iguaria que é meu sangue ralo de idoso. Tóxico de passar pela vida respirando poluição e ameaças. Então, como os padres extintos, me recolho ao catre – minha cama envolta em tela – e procrastino, peço ardentemente por mais um dia, me penitencio com picadas.

No fim da rua havia uma prisão que virou hospital que agora é depositário dos que transitam entre esta vida e a outra. Minha mãe dizia que éramos sortudos, pois se qualquer doença nos acometesse era só andar uma quadra e pronto, não precisaríamos nem de ambulância. Nunca precisamos, meu pai era catalão, dizia: “meu filho é forte como um touro”. Só preciso andar uma quadra para ser jovem, ser melhor, quase imortal. Quando tiver coragem para abandonar-me eu irei, ou melhor, quando tiver certeza de que a vida que levei valeu a pena, conseguirei passar pela multidão e retirar minha passagem, andar este quarteirão e me juntar ao futuro. Antoine ficará feliz em ver um Lucas que nunca deixará de amanhecer, como ele.

A Avenida Charles de Gaulle não existe mais, aqueles prédios baixos, os espaços abertos. O vento úmido com o cheiro do rio é amparado pelas aletas dos edifícios tortos entre vielas idem, de onde pendem itens variados para o conforto dos que se arriscam voar. Prefiro rastejar, mas não há a opção pele de lagarto na nova vida: asas retráteis, pés rodantes, mãos multiuso, sexo reversível são as modificações mais solicitadas. O dinheiro compra mobilidade e prazer. As minhas juntas doem e estalam, o peso do meu corpo é excessivo e meus joelhos que se dobram para dentro permanecem inchados a despeito das pílulas e injeções. Bato a bengala na calçada, mais para espantar a dor do que me equilibrar. Queria arrastar-me pelo chão, investigar as frestas e desaguar no rio.

Não gosto de atravessá-lo ele me faz querer mergulhar até o banco de areia no seu fundo, areia que se espalha pelas suas margens nuas, sem plantas, no descaso onde estendem-se os ociosos do fim da tarde. Tiraram as laterais da ponte, desnecessárias neste mundo seguro, sem suicidas ou veículos erráticos. Sento-me na beirada de concreto e observo a corrente tranquila do rio serpentear pela cidade. Do outro lado, a doutora me espera e o rio de outra cidade, imundo. A confusão dos que gritam para além da ponte.

– Sente-se, Lucas. É bom tê-lo aqui, são poucos pacientes hoje em dia. Todos se acham perfeitos e sem problemas. Não que esteja reclamando.

– Já está, doutora.

– Sei, queria trabalhar mais. Temos a mesma idade, você sabe, não?

– Sim, você já me disse. Nasceu no Rio, não foi?

– Não, em São Paulo, deste lado do rio. Havia uma rodoviária aqui bem movimentada.

– Novos tempos, novas experiências.

Ela parece distante. Da sua própria profissão. Fomos jovens num tempo em que o trabalho era tudo, dignidade e escravidão, corda bamba que cruzávamos todos os dias na intenção única de sobreviver. Para os que amavam o que faziam é doloroso olhar o passado e desvencilhar-se deste amor. Eu era fotógrafo, parte do que capturei em preto e branco está na minha caixa de memórias que pode ser acessada por todos, mas quase ninguém vê. Eu a chamo de minha paixão invisível.

– Eu imaginava – diz ela – na vida anterior, que a esta altura estaríamos todos morando numa estação espacial e comendo ração ou encontrando algum predador alienígena. – Simone enlaça os dedos de 30 anos, ela sempre foi comedida, a maioria pede menos de 25. As unhas estão pintadas de vermelho fogo como os lábios.

– Posso falar do que me incomoda? – Interrompo suas divagações, não quero voltar depois de anoitecer e nossas sessões são doloridas.

– Claro, Lucas. Desculpe. Fale, por favor.

– A solidão. Eu tinha um trabalho reconhecido no mundo inteiro, não era famoso, mas meus pares me motivavam e eles não existem mais.

– Explique melhor seu raciocínio, Lucas. Pois acredito que as pessoas a quem se refere estão vivas, pelo menos a maioria.

– Elas estão vivas para si mesmas. Nós, os mais velhos, ainda podemos sentir aquela compaixão desapegada. Antes se caíssemos na rua, seríamos amparados por estranhos que não perguntariam se éramos dignos ou não de ajuda. Não remexeriam nas nossas informações para saber que tipo de pessoas somos ou fomos, simplesmente nos ajudariam. Hoje, sofremos de compaixão seletiva.

– Você acha que não te ajudariam se o vissem cair na rua?

– Provavelmente não, foram tantos os erros semânticos e não semânticos que cometi na vida. Todos nós cometemos, quero dizer.

– Eu não me lembro de nenhum. Esta é uma das vantagens de renascer, acho mesmo a melhor. – Deu um sorriso resignado. – Poder eliminar todos os arrependimentos.

– Deve ser o Paraíso na Terra, não é? – começo a rir e não consigo parar até que o riso vire gargalhada. – Somos todos uns filhos da puta ateus procurando pela redenção religiosa disfarçada de tecnologia, a humanidade virou uma charge gigantesca.

Simone esperou primeiro a graça passar em mim e então a volta do ar aos meus pulmões asmáticos. Eles que são parte da minha resistência pacífica e recusam-se a trabalhar na normalidade. Respiro amplamente num esforço para sugar todo o ar da sala e faço aquele som de torneira abrindo e cano vazio. Ele resiste, o ar da sala continua todo lá, rodando à minha volta, zombando da minha incompetência em subjugá-lo.

– Sinto muito, Simone – sussurro ou arfo ou os dois.

– Quando estiver melhor continuamos, sabe que não tenho pressa. Não preciso ter.

– Vou indo. Tenho uma colcha para acabar. – Apoio a bengala no tapete sujo e levanto.

– Lucas, precisamos conversar. Por favor, sente-se, não fuja de si mesmo novamente.

– Eu sei que não há saídas, Simone. Amanhã viajo, em uma semana estarei nos braços de Antoine, novo em folha, um lindo bebê com sua memória em progresso. Quero escolher parar aos 35 anos, acha uma boa idade?

– Sim. Quero te ver em alguns anos, promete voltar.

– Prometo voltar e te levar para olhar as estrelas e fazer amor sob elas até amanhecer. Como antigamente.

– Não me lembro disso.

– Desta vez não vai se arrepender.

Ao deixar o consultório tenho a impressão que consegui enganá-la, mesmo sem saber porque o faria, talvez só para me livrar desta Simone. No princípio era novidade, recordava dos nossos tempos em Paris, do apartamento longe do centro, da comida brasileira que ela me fazia, enquanto ela falava. Ela não recorda mais. Ao longo de nossas conversas consegui descobrir o que ela trouxe para a nova vida e o que deixou para trás, mas estou longe de conquistá-la e quando recuperar as lembranças de nós dois elas se limitarão àquele consultório monótono do lado barulhento da cidade ubíqua. Nossos diálogos sem nexo, as minhas inconstâncias e as inseguranças dela. Médico e paciente, barreira moralmente intransponível como um incesto.

As paredes grafitadas e irregulares do túnel Cruzeiro do Sul sustentam milhares de abrigos sobre ela, os refugiados da Cidade Luz, os que não tinham dinheiro para a transformação. Cogitei mudar-me para cá, para o resto do mundo que não conhece nada além da necessidade de sobreviver este dia para talvez ganhar o próximo. Sou prisioneiro do meu conforto, da minha rotina, dos dois banhos diários, das histórias nas estantes da memória, da cultura e correção dos meus pares, da comida que nunca falta. Sem falar, mas já falando, do crochê e das almofadas sedutoras sobre meu sofá.

Preciso de um transporte, é quase noite. Talvez quando sair do túnel o horizonte já esteja negro e a lua tenha tomado emprestado um pouco do brilho do sol. Vou a pé. Daqui a pouco minhas costas arquearão ainda mais e meus joelhos latejarão. Mais adiante, disputarei contra o ar, com ajuda dos meus velhos escudeiros, os pulmões, tossirei e arfarei até que derrotado ele não tenha outra opção a não ser deixar-se respirar. Sentirei pela última vez todo o pesar da minha vida, chorarei a noite inteira a tristeza infinita que é amar e perder o amor, amar e perder o amor, amar e perder o amor.

É noite sobre a ponte sobre o rio. Ele fluí e eu sento exaurido para vê-lo seguir sem que lhe seja cobrado outro caminho que não o seu destino. O que previ no túnel alguns minutos atrás torna-se realidade. Menos o resultado da batalha, o ar venceu e não tenho mais provisões no meu castelo fortaleza murado contra o novo. Quero tombar para frente, cair, tocar a água e ser levado para a areia, mas sinto meu corpo inclinar para o lado, meus dedos soltarem o cabo da bengala, a Lua me iluminando, refletindo sua distância na lâmina do rio.

Não sei por que tenho medo do prédio na Rua da Agricultura. Papai me diz que foi na outra vida. Fico mais tranqüilo.

– O que você quer fazer depois do passeio, Lucas? – ele pergunta.

– Brincar de voar!

Antoine abre as asas e me carrega. Ele é o melhor pai do mundo!