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Amigas infláveis

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Liang queria arranhar e furar a cobertura plástica que a continha, mas não tinha unhas ou ossos. De intenções próprias só possuía a ideia de liberdade e o bafo de látex, dos outros, um selo de qualidade e um manual sobre cuidados e usos com garantia de um ano.

– Chegou sua hora – Angelina sussurra no ouvido inflável da boneca para acalmá-la.

Angelina empurra o carrinho em direção ao caixa do atacado. Coisas para o almoço de aniversário. Bebidas, batatas para a salada, três frangos congelados, latas de leite condensado para os brigadeiros dos bisnetos.

– O frango hoje em dia não tem sabor de frango, parece papel – reclama com a filha quando ela atende o celular.

– É a idade mãe, também sinto que estou perdendo o paladar.

– Não, Clarinha, não é a idade. São os detalhes no sabor, sabe. Aqueles que a língua se lembra. É só por na boca este frango de agora e a lembrança desaparece.

– Não cozinha muita coisa, mãe. Os meninos não vão, eles têm compromissos de família este domingo. Quer dizer, com a própria família… Quer dizer, a família deles e os filhos. Entendeu? Não fica chateada, eles também não dão bola para mim ou para o pai.

O supermercado está vazio, são três da manhã. Angelina testa a filha pelo menos uma vez por semana, liga no meio da madrugada para ver se ela se irrita, mas não.

– Um retiro de idosos. Esses de casinhas. São bonitos.

– Não e não, mãe. Uma que não tenho dinheiro para este tipo de asilo, outra que não vou jogar você em qualquer canto. Enquanto estiver lúcida e bem, não tem razão.

Angelina ouviu a amiga de malha contando da prima que mora num retiro com casinhas:

– De noite, menina, ninguém é de ninguém. Uma suruba só.

Angelina empurra o carrinho de volta ao corredor onde comprou a boneca inflável. Na sessão Acessórios para Adultos o atendente faz piada:

– Já tem dezoito, vovó? Se não tiver não pode entrar.

Ela segue para a seção de infláveis.

– Menino tosco – sussurra para si mesmo.

Angelina compra mais duas bonecas. Nem escolhe, só derruba as caixas no carrinho. Entabula uma conversa com as prateleiras: acessórios BDMS…

– Já basta ter que lavar, passar, arrumar a casa, pagar as contas. Ha! Ha!

… fantasias

– Homem de Ferro tá mais para BDMS. Ha! Há!

… consolos

– Pintos! São pintos! Pena que não vai ninguém na minha festa. Podia comprar todos estes e fazer uma piscina, como as de bolinhas.

A aposentadoria deste mês e do próximo foi o total da compra. Paga tudo com cartão de crédito parcelado para estourar de novo. Os filhos e netos que se virem para cobrir o rombo.

O perueiro do supermercado fez a gentileza de colocar todas as sacolas na mesa da cozinha por cinco reais. Angelina deixa a compra ali mesmo, as batatas, os sorvetes e os frangos.  Leva as bonecas para a sala.

Quando criança tinha uma de trapo, cabeça de madeira com olhos descascados que lhe dizia coisas doces ao ouvido, promessas que nunca cumpriu.

– Boneca tratante, mas eu gostava dela.

Angelina procura o pino de Liang e assopra até ficar ficar sem fôlego. Tosse, arfa. Deita no sofá e puxa a caixa de instruções de cima da mesinha. Tira os óculos para ajustar a lente às letras miúdas. Morda o pino e assopre.

– Ah! Tá! Espera só recuperar o ar.

Amadeus se enrodilha na suas pernas esticadas. E Angelina dá um pulo.

– Oh! gato! Oh! Angelina! Que louca! Ele vai arranhar as meninas.

Cata o bichano pelo cangote e o coloca porta afora.

– Vai namorar umas gatas e encher o saco dos vizinhos, Amadeus, seu gato safado.

Ser preenchida de ar é melhor do que ser preenchida de nada. A menina recém inflada tinha olhos, tinha pele, embora tenha sido feita para ser cega e inerte. Angelina escolhe roupas. Penteia os cabelos das moças, senta-as da sala para bater papo enquanto a comida descongela sobre a mesa.

– Primeiro quero conhecer vocês. Vou ver se acerto os nomes. Liang é você de cabelo comprido e camiseta amarela. Acertei? Você, pequena de cabelo curto é Mei Mei. A loira é a Kate.

Liang ouve recostada nas almofadas de franjas. Mei Mei ainda não sabe de si. Kate gosta da voz rouca e doce de Angelina.

– Meu marido morreu há dois anos. Graças a Deus! Velho rabugento. Eu era rabugenta, mas agora tomo remédios e estou feliz.

Liang sorri com boca redonda e profunda. Mei Mei balança a franja. O relógio cuco pia seis horas da manhã. O sol aparece na fresta da cortina.

– A conversa foi boa, meninas, mas preciso ir jogar malha. Semifinal do campenonato. Desejem sorte para estas mãozinhas.

– Toda a sorte, diz Kate.

Angelina ajeita as meninas na própria cama. O avião das 6.20 passa rasteiro na sua rota para o aeroporto.

– Lá do alto se vê o contorno do mundo.

Angelina esvazia as moças. Dobra as pernas, os braços, as cabeças, para dentro dos corpos. Vaginas e seios no látex murcho. Ela as empilha e guarda na prateleira do guarda roupa, onde estavam as malas de viagem que jogou fora na semana passada.

– Porque quis. Porque sim. Se for viajar vou com a roupa do corpo ou para uma colônia de nudismo – respondeu rindo para a filha.

No caminho cumprimenta Alva, sentada no banco do ponto de ônibus a espera de alguém para bater papo. Um menino de mochila é seu próximo alvo. Angelina prefere mirar no tangível. Brinca com o disco de malha na mão direita para avaliar seu peso. Dizem que o peso do disco é calibrado. Não é, varia de acordo com a disposição da mão em carregá-lo. Isto pode ser dito também sobre a distância da cabeceira da pista ao pino na extremidade oposta. Hoje, para Angelina, o disco parece mais leve e flexível e o pino, mais próximo, mais largo. Ela poderia jurar que o disco flutua. Dobra um pouco os joelhos, eles doem. Apoia o disco gentilmente nos dedos e prende-o com o dedão. Traz a mão do disco para perto do ombro. Convém avaliar de novo o peso e a distância. A Terra gira e oscila sobre seu eixo, circula em volta do Sol, caminha em espiral pela Via Láctea atraída pelos outros bilhões, trilhões de estrelas. E de acordo com esta relatividade, Angelina lança o disco e derruba o pino.

No caminho de volta oferece um abraço a Alva. Ela recusa:

– Sabe se o Parque dos Pinheiros passa aqui¿

– Ih! Alvinha, faz anos que não passa mais.

Coloca os frangos descongelados nos sacos de marinada pronta e os joga dentro da geladeira. Os sorvetes, as latas de cerveja e os refrigerantes coloca no freezer para endurecerem. Toma um banho demorado e dorme na companhia murcha de Liang, Mei Mei e Kate.

As bonecas trocam fluídos. Estão hipoteticamente úmidas. As variáveis dos objetos inanimados existem na dimensão da realidade de Angelina.

Faz o almoço como o padre faz a missa, orando pela ressurreição da carne. A filha e o genro descem do carro e entram pela porta da cozinha, precisam colocar a sobremesa na geladeira.

– Desculpa o atraso, mãe. Domingo tem tanto trânsito no horário do almoço!

– Acordei tarde, filha. Vai demorar umas três horas, acabei de por dois frangos no forno.

– Dois frangos! Que exagero! Falei que as crianças não vêm. Esqueceu?

– Claro que não, minha memória continua excelente. Pode me perguntar o que conversamos da última vez, que digo palavra por palavra.

– Foi bom trocar de remédio, então. – Clara senta-se na cadeira da cozinha. – Quer ajuda, Dona Angelina? – Reinaldo fuma um cigarro no quintal.

– Não! Fora o frango, o resto está pronto. Maionese sem milho para você. Farofa sem passas para a Clara. Feijão com meu temperinho e arroz soltinho. Salada. Vou limpar a cozinha agora. Enquanto você faz companhia para as minhas amigas na sala.

– Amigas! Que novidade boa, mãe! Do clube de malha? – Clara estica o pescoço para olhar para o corredor que leva à sala. Mas sua mãe mudou os móveis de lugar.

Sandra segue pelo corredor, olha o quarto da mãe. Tudo arrumado, remédios na cabeceira. O banheiro brilha, a nova faxineira é mais cuidadosa que a anterior. Abre a última porta, onde passou a vida até se casar. O quarto está vazio, ela o preenche com a memória dos móveis e brinquedos. Da primeira vez com o namoradinho da oitava série. Foi horrível, mas foi a primeira vez, lembra e suspira.

Na sala, Liang, Mei Mei e Kate esperam por Clara. Rodam, oscilam, circulam e fazem a elíptica. No sofá, ela se acomoda ao lado de Kate e segura sua mão.

– Que é isso? – pergunta o homem.

– Quem, Reinaldo. A pergunta certa é quem. São as amigas da mamãe.

– Já falei. Sua mãe não está bem. A gente leva ela para casa, coloca no quarto do Leo e com as aposentadorias dela contrata uma moça para ajudar. Assim… – aponta para as meninas. – deste jeito… não dá…

– Você não entende nada, Reinaldo.

Angelina limpa as mãos e joga o avental no cesto de roupas do banheiro, também para na porta do quarto da filha. Ela imagina camas para suas novas amigas, um guarda roupa, quadros nas paredes com paisagens de países que gostaria de visitar. Uma prateleira de troféus para que elas admirem sua habilidade na malha.

– Kate, Mei Mei, Liang, estes são minha nora e genro, Clara e Reinaldo.

– Ganhei o campeonato de malha de novo. Queria participar do estadual da 3ª idade.

– Vai mamãe. Vai ser bom.

– Não posso deixar as meninas, elas estão se adaptando ainda.

– São bonecas infláveis, Dona Angelina – reclama Reinaldo. – Servem para tarados fazerem sexo com elas. Ainda bem que as crianças não vieram!

– E você acha que as crianças iriam ligar para aparência das minhas amigas. Você é visita assim como elas. A casa é minha, então respeite minhas amigas.

Kate se defende. Angelina rasgou o manual, então ela pode o que quiser.

– Você não pode por um feitiço em mim, homem. Não pode me fazer trabalhar para você. Não pode me trancar no armário, não pode me surrar, ou me obrigar a ficar de quatro.

Outras mulheres se juntam ao coro de Kate. Animadas ou mortas.

– Não pode apontar uma arma para minha cabeça. Não pode atirar. Nem me enterrar no jardim como se nada tivesse acontecido e arrumar outra para repetir minha sina. Não pode me fazer de culpada como se a maldade fosse minha, não sua. Colocar fogo na minha pele e depois atirar um balde de água e esperar que as cicatrizes desapareçam. – As que nasceram antes de você, antes de mim, de Angelina ou Clara. Quando a Terra não rodava, oscilava ou circulava. As mulheres são a elíptica. O tempo não se move com elas, elas movem o tempo.

– Ouviu o que elas disseram, Reinaldo?

– Elas são bonecas! Não falam, Dona Angelina!

– Vai lá fora fumar um cigarro, meu bem. Deixa que as mulheres se entendem? Vamos fazer as unhas enquanto o almoço não fica pronto? – segura nas mãos de Liang – Mãe? Moças?

– Estou precisando mesmo – Angelina olha para os dedos miúdos e tortos.

– Reparei.

– Queremos tatuagens – pede Mei Mei.

Angelina abre a caixa de manicure e tira a tampa de todos os esmaltes. Entrelinhas, no vidro de esmalte lia-se tatuagens para pessoas infláveis. Angelina desenha um bordado de renda no braço de Mei Mei na cor Dara. Sandra desenha peixes na barriga de Liang na cor Jaqueta Jeans.

Entremeios, Kate assobia uma canção. Os frangos ficam prontos. Reinaldo se recusa a sentar na mesa com as meninas.

– É embaraçoso. Perco o apetite de olhar para elas. Vou comer na mesinha do quintal.

– Seu desaforo é bem vindo, meu genro.

– Cadê o Amadeus, mãe?

– Trepando por ai.

– Precisa castrar.

– Gatos são engraçados quando estão no cio e gosto de amolar os vizinhos.

– Seu frango está delicioso. Não está, meninas?

Mei Mei balança a franja. Liang finge que pisca. Kate admira as tatuagens nas irmãs.

Reinaldo espera no carro enquanto Clara se despede da mãe.

– Obrigado, o almoço estava ótimo. Queria te ver mais. Adorei suas amigas. Pena que o Rei se incomoda, senão convidaria vocês para passar uma tarde lá em casa. Ainda quer ir para o retiro?

– Não. Bobagem minha. Melhor assim, com as moças. Já tive meu quinhão de vida normal.

Kate, Mei Mei, Liang e Angelina conversaram sobre o Universo até amanhecer a segunda feira.

 

12 FUNDAMENTOS PARA ESCREVER O OUTRO – TRADUÇÃO DO ARTIGO DE DANIEL JOSÉ OLDER

“Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema que é escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social.”

 

Estamos sempre escrevendo o outro, e sempre escrevendo nós mesmos. Nos deparamos com uma equação quase impossível de resolver toda vez que contamos histórias. Quando criamos personagens com origens e experiências diversas das nossas, nós estamos na verdade contando essencialmente suas histórias sob a nossa própria perspectiva.

Nós nos deparamos com discussões acaloradas sobre escrever o outro – a intersecção entre poder e identidade, privilégio e resistência –  em seminários, nas seções de comentários dos artigos e blogs, na rede social, em salas de aula. Então, como podemos escrever respeitosamente na perspectiva do outro? Aqui estão 12 orientações para iniciar este processo:

1. Pesquisar é só o começo e ainda é muito pouco

Quase todas as conferências, dissertações, blogs e seminários que tenho visto a respeito de escrever o outro podem ser resumidas em “faça sua lição de casa”. Deduz-se pelo não dito que todas as peças deste quebra-cabeças insolúvel de privilégios e poder se encaixarão perfeitamente, se fizermos nossa pesquisa. Só que não é assim. Escrever sobre pessoas que têm uma experiência de identidade diferente da nossa não é um desafio narrativo de simples solução. Vários escritores que são “especialistas” em uma cultura específica ainda criam estereótipos pobres e vulgares quando se trata de trazer esta especialização para criar personagens reais.

As raízes da prática de pesquisa ocidentalizada de culturas diversas incluem eugenia, dissecações, esterilizações forçadas e, frequentemente, o véu desumanizador da antropologia. Não estou dizendo que “toda a pesquisa é má”, mas sim que temos que ter consciência das histórias complexas e mesmo dolorosas que abordaremos para que não repitamos os traumas já causados.

Eis o que diz o escritor de American Horror Story, James Wong: “Fizemos uma pesquisa profunda sobre magia negra e claro, não existia tanta coisa para a gente trabalhar em cima porque nada disso é verdade (risos). Mas quando fazemos pesquisa, encontramos muitos símbolos sobre fertilidade e fomos juntando e misturando este e aquele até resultar na cerimônia que criamos”. A despeito da sua opinião sobre American Horror Story, positiva ou negativa, este é um exemplo excelente de como a pesquisa é somente o primeiro passo. Tendo feito uma “porção” de pesquisa, o time de escritores optou por jogar as cerimônias de fertilidade num caldeirão, misturar tudo e criar algo novo. Veja que a ideia principal era de que nenhuma destas crenças tinha alguma verdade é algo risível para o Sr. Wong. Uma mistura de elementos pode ser bem feita. No entanto, se misturada, como geralmente se faz, com flagrante desdém pelo sistema de crenças que professa, o resultado é uma massa padrão, que não é isso ou aquilo, versão sintética de uma cerimônia sagrada enraizada em tropos de racismo e desrespeito.

2. Seus parâmetros são uma merda (¹)”

Diz Juno Díaz: “A única coisa que se pode dizer de um cara que escreve na perspectiva de uma mulher é: seus parâmetros são uma merda”. A marca de um grande músico não é a sua habilidade com o instrumento (²), mas sua capacidade de ouvir. O patriarcado vem ensinando desde sempre aos homens (NT: gênero) que supostamente nós somos especialistas automáticos em qualquer assunto, então por que ouvir o que outra pessoa tem a dizer sobre o assunto? Resposta: Para escrever o outro nós temos que ouvi-lo. Para ouvir precisamos calar. E esta não é a uma tarefa simples, só esperar alguém terminar de falar para então desembuchar imediatamente seu ponto de vista. Sério. Sente-se, respire profundamente e ouça o que as pessoas em volta estão dizendo. Ouça a você mesmo, seu próprio eu. Suas dúvidas e medos, as coisas que não quer admitir. Ouça as coisas que as pessoas dizem que fazem você se sentir desconfortável. Sente-se com este desconforto. Compreenda que está errado. Então tente errar menos e vá em frente.

3. Empoderar (³) importa

Diz-se que o conflito é a espinha dorsal da história, e o poder é o cerne do conflito, o que faz a história ter importância. Mas a nossa classe raramente oferece uma discussão sobre empoderamento e suas faltas e falhas. Como escritores de ficção não esperam que sejamos versados em escrever sobre o empoderamento, os detalhes, a sutileza, a complexidade disto ou a dor no coração. Habitualmente, pesquisa de fatos toma o lugar de diálogos profundos sobre opressão e resistência.

A compreensão do empoderamento importa mais do que detalhes tangíveis.

Cada personagem tem uma relação com o poder, que inclui as faces: institucional, interpessoal, histórica e cultural. Que é representada das micro-agressões aos crimes de ódio, de orientação sexual, à imagem corporal, das mudanças nas posturas de vida devido aos aborrecimentos cotidianos e diários e no profundo trauma histórico sofrido por uma comunidade. Poder afeta a relação do personagem consigo mesmo e com os outros, sua jornada física e emocional através da história. Se você ignora isso, ao final do processo você obterá bonecas de papel ou rostos brancos pintados de preto.

 

 

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço de Germana Vieira – www.lizziebordello.com/

4. Esqueça o outro. você consegue escrever sobre si mesmo?

Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema sobre escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social. Então vemos tantos caras bonzinhos e perfeitos, salvadores brancos e machos que fazem tudo “certo” e sabem exatamente como agir.

Você, possivelmente, não tem ideia de como os outros o percebem e, principalmente, se a imagem que faz de si mesmo é desconfortável por conta da qualidade do poder que ela perpassa. Salta na página este tipo de abstração do escritor.

Não existe escassez quando o assunto é livros de pessoas brancas falando de pessoas negras, o que não vemos muito são livros de pessoas brancas escrevendo sobre a experiência emocional, política, e social de ser um branco, os desafios e complexidades de ser branco. Nós não vemos muitos homens escrevendo sobre o patriarcado, como isso nos estragou, como diariamente ao nosso redor, aqui e ali, dançam os discutíveis gêneros binários. Sim, isto soa como tópicos para uma dissertação, mas na verdade são exatamente os tipos de conflitos internos que dão vida a um personagem.

 

5.  “Escrita racista é uma falha na construção da história”

Kwame Dawes apontou esta falha na AWP (Association of Writers and Writting Programs). Eu a mencionei anteriormente e vale a pena repetir de vez em quando. Nós falamos sobre preconceito e ódio de gênero como se eles fossem somente morais ou políticos, no entanto, essa abordagem resulta em estereótipos redundantes. Se você escreve estereótipos, sejam eles personagens, pontos na trama, ou pistas contextuais, você está escrevendo alguma porcaria que vem sendo repetida ao longo de gerações. Isso é chato, você consegue fazer melhor.

6. Caso de vida ou morte

Tendo dito que a escrita racista é um caso de como construir sua história, quero deixar claro que vai muito além disso. Normalmente o racismo é colocado em pauta como “ofensivo” ou discute-se o “politicamente correto”. Este é o ponto para debate: nem tanto isso, nem tanto aquilo. Estes formatos são uma moldura condescendente e desumanizadora do diálogo. Estamos falando de vozes continuamente silenciadas e apagadas pela corrente principal da cultura hétero-branca-machista.

Estamos falando da vida e morte de povos inteiros, estamos falando de auto estima e humanidade. Mesmo sendo adultos, com raras exceções, não percebemos como lidar com esta imagética. Pois quando criança não nos foram dadas as ferramentas para lidar com isso. Elas, as crianças, se deparam com isto mais do que ninguém. As altas taxas de suicídio e a opressão racial e de gênero que elas internalizam são reais.

Não podemos continuar criando gerações de crianças negras sob a égide de que só há espaço para elas como os caras maus nas histórias ou o figurante que vai morrer e gerações de crianças brancas pensando que estão perto de Deus só por causa da aparência. Não podemos continuar promovendo normativas sexistas hetero/cis e ideias racistas em nossa literatura. Criando uma configuração padrão de raça e gênero. Se você não está trabalhando contra isso conscientemente, está trabalhando a favor. Ser neutro não é uma opção. O luxo de se pensar deste jeito tem que acabar.

Citando Junot mais uma vez. “Eu acho que a menos que você esteja trabalhando ativa e conscientemente contra a atração gravitacional da cultura, você criará uma temática previsível com esta representação babaca de estereótipos. Sem falhas. A única maneira para fazer isso é admitir para si mesmo que você não é bom com estas questões, e estar consciente do processo de criação destes personagens.”

7. Ritual ≠ Espetáculo

Recentemente editei “Long Hidden”, uma antologia de ficção especulativa com contornos históricos. Eu e minha co-editora, Rose Fox, recebemos um grande número de submissões que não tinham nenhum elemento especulativo e apresentavam cenas de cerimônias não-cristãs. Culturas e crenças diversas de outros povos não são fantasia. Uma coisa é um semideus ou espírito andar por ai, interagindo com as pessoas – só essa interação por si terá uma certa complexidade – outra coisa é pessoas que celebram a sua crença serem incluídas no elemento fantasia, ou seja, serem consideradas não reais (NT), este tipo de coisa caracteriza-se como racismo cultural imperialista.

Além disso, a cultura de outras pessoas não é um circo, um show de horrores, um vídeo de música pop, uma paródia kitsch de um lar, uma fantasia de Halloween, uma afirmação para seu próprio ego.

Veja acima o que disse o roteirista de American Horror Story: “nada disso é real (risos)”. Se a possibilidade destas crenças serem reais é uma piada não escreva sobre elas.

No espetacular “Is Paris Burning?” Bell Hooks escreveu que “ritual é o ato cerimonial que carrega um significado… que vai além da aparência, enquanto espetáculo funciona somente como uma apresentação dramatizada feita para entreter… estes elementos de um dado ritual que são empoderadores e subvertem a ordem, podem não ser perceptíveis para quem olha de fora.

Por isso é fácil para um observador branco retratar rituais negros como espetáculo. Mais adiante, Hooks argumenta como o documentário Paris is Burning reforça esse retrato espetaculoso e desumanizante do ritual quando uma das pessoas retratadas no filme é morta: “tendo servido ao propósito do espetáculo, o filme abandona-o/a… Não há cenas de pesar pela sua morte. Falando grosseiramente, sua morte é suplantada pelo espetáculo. A morte não é  divertida.”

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8. Pesquisa do Outro: História com Estereótipo

Uma estratégia comum para escrever sobre o outro é inverter o estereótipo. O que é somente um começo, porque você continuará apoiado no clichê original, na verdade, terá que ir mais longe. Para começar uma contra narrativa, você tem que saber o que está lá fora. De outra forma trabalhará no mesmo caminho e chegará à mesma porcaria. Textos como o de Edward Said, Orientalismo, famoso por virar o jogo da antropologia branca, analisando sua própria análise, não refletem o que as pessoas querem dizer quando se referem a pesquisar sobre, quer dizer, não há a análise sobre a pesquisa na sua pesquisa, e a análise é tanto ou mais do que o subtexto da história que está contanto. Portanto, fique atento ao seu poder opressor.

 

9.  Evite o Enredo “Sou o Único Capaz de Salvar o Mundo”

 

Falando de estereótipos, vamos pegar o Mágico Negro como exemplo, usada excessivamente no meu gênero preferido, ficção especulativa (FFC). Se no seu livro existir duas pessoas negras e ambas têm superpoderes e representam forças do bem e do mal você tem um problema. Entre estes dois personagens será expressa uma gama de características e complexidade emocional genuinamente brancas. Não importa se um dos personagens seja o bonzinho, acredite, você vai errar.

Na verdade, nós temos que ultrapassar o enredo do tipo O Escolhido, “The Chosen One”. Esse tipo de trama só tem um parâmetro, nada mais é que a representação do Salvador Branco.

– Num mar de rostos negros/mulatos/índios/orientais existe uma pessoa capaz de salvar o mundo!” Damos um zoom e o escolhido é… aquele com a cara branca. –

Como pessoa, esta suposição do salvador não existiria. Como escritor, eu imaginaria desse jeito. Resolve uma série de problemas se o personagem for pré-determinado desta forma para um épico confronto final. O personagem construído dentro do molde “o único capaz” fornece a razão para o antagonista querer colocar o povo nas trevas, para o levantar das lanças e o inevitável e emocionante clímax. A mesma PORCARIA que temos visto zilhões de vezes. Vamos fazer melhor.

10. O fato de que você vai errar não é razão para não fazer

Por volta dos meus vinte anos eu decidi que gostaria de falar sobre sexismo. Eu sabia todas as palavras que queria dizer, e não disse. Um dos motivos do meu silêncio é que meu conhecimento ia até certo ponto, assumi que iria fazer alguma coisa errada, e qualquer coisa que fizesse errado seria agravada pelo fato de que eu era só um de tantos homens falando sobre sexismo. Então eu me percebi jogando comigo mesmo, um jogo mental de ironia, ego e auto percepção, totalmente sem sentido que me impedia de fazer uma coisa que sabia ser importante.

Isto é uma verdade para todos aqueles que escrevem sobre outras culturas e experiências. Você vai estragar tudo e vai ser épico. Eu sei, eu fiz isto. Não significa que não deve fazer. Significa que você deve desafiar a si mesmo a fazer melhor e melhor a cada vez, aprender com seus erros ao invés de deixar-se acovardar por eles e/ou colocar-se numa posição defensiva. Como resultado deste empreendimento se tornará um escritor melhor.

11. A Feira Livre Que é O Mercado Editorial

O cenário atual na indústria editorial ainda inclui branqueamento das capas de livros, racismo, sexismo, cis-normativas, classismo, homofobia e capacitismo (NT: preconceito contra pessoas que têm qualquer tipo de condição física debilitante ou que as torna ineptas a se adaptar aos padrões considerados socialmente “normais”: nanismo, falta de um dos membros, cegueira etc.) A maioria dos agentes e editores são brancos, e a cultura branca rege a indústria. Autores negros lutam para ter sua voz ouvida, e nas editoras que apoiam a diversidade de publicação são autores brancos que, em sua maioria, escrevem sobre personagens negros. Apropriação cultural importa neste contexto porque se trata de quem tem acesso e de quem é pago, o que vai além de problemas como construção pobre da trama ou representação desrespeitosa. Como brancos temos que compreender que, além do contexto dentro da história que escrevemos, existe um contexto social do qual nosso trabalho faz parte.

12. Já considerou o ‘POR QUÊ fazer’? E o “NÃO fazer”?

Este processo requer uma busca da alma e sentir-se desconfortável. Sem desconforto, você não cresce. Às vezes, as pessoas evitam as questões mais básicas. Por que você sente que cabe a você escrever a história de outra pessoa? Por que você tem o direito de tomar para si a voz de outro? A resposta nem sempre é não – como escritores estamos constantemente penetrando na cabeça de outras pessoas. Com muita frequência, no entanto, não paramos para considerar se é a coisa certa a fazer. Então, as vezes a resposta é mesmo não.

 

 

12 Fundamentals Of Writing “The Other” (And The Self)

http://www.buzzfeed.com/danieljoseolder/fundamentals-of-writing-the-other#.vcXPyDzw8

Daniel José Older é um escritor do Brooklyn (NY/EUA), editor e compositor, Salsa Noturna, “ghost noir colection”, foi aclamado como impressionante e original pelo  Publishers Weekly. É editor da antologia Long Hidden: Speculative Fiction from the Margins of History, e seu livro de fantasia urbana The Half Resurrection Blues, o primeiro de uma trilogia, foi lançado em janeiro deste ano pela Penguin’s Roc. Dissertações e contos de sua autoria foram publicados na  The New Haven Review, Salon, Tor, PANK, Strange Horizons, e Apex. Sua música, ponderações e aventuras de ambulância moram em ghoststar.net e @djolder.