Monthly Archives: January 2014

Deixar Rolar o Planejamento do Enredo – Dicas Para o Escritor Iniciante 23

The_Writer_by_petebritney

Planejar antes de escrever tem suas compensações, mas será que é imprescindível, como dizem os grandes produtores de  livros (editoras e mega autores)? Podemos organizar aquele caderno cheio de rascunhos, ou as inúmeras anotações do bloco de notas do word e fazer chegar em algum lugar? Ou precisamos saber nosso destino para depois dar a partida?

De maneira geral, como  tudo o que escrevo aqui, farei observações sobre algumas possibilidades de produção da criação a que o escritor costuma utilizar:

A produção “hippie” – Quando o escritor vai desenrolando/escrevendo a história assim que as ideias aparecem, confia na inspiração como deus supremo da arte de escrever,  não espera que a ideia faça sentido, espera que ela se faça, a história caminha com o vento “sem lenço e sem documento”.  Este escritor não busca agradar ninguém, nem mesmo aos leitores, não conhece críticas, as vezes abusa das figuras de linguagem ou esmiúça o cotidiano. O emaranhado que sai de sua cabeça pode  ser bem interessante, ou pode ser a pior coisa que já se leu. Há muitos escritores neste estilo: Rimbaud, Jack Kerouac  e quase todos os beatnics precursores da cultura hippie por exemplo.  Uma boa capacidade de memorização, ou tempo livre para escrever sem parar por horas a fio permite que um texto assim engendrado: funcione, seja homogêneo e transmita verdade. Se bem que possa carecer às vezes de clareza e direção. No mais, muito talento, uma bagagem grande de experiência de vida e uma visão nova e acurada sobre o cotidiano podem tirar a história do lugar comum em que ela cairia, se esta fórmula produtiva fosse usada sem estas qualidades. Embora esta maneira criativa funcione  muito bem para contos curtos e poemas de combustão espontânea.

“Só muitos anos depois ouvi falar de novo no Conde Christian. Isto se deu em Urnekloster, e foi Mathilde Brahe quem gostava de falar nele. Estou certo, agora, que ela expunha os episódios de um modo muito pessoal, pois a vida de meu tio, da qual a família sabia sempre boatos, que ele nunca negava, era passível de interpretações ilimitadas. Urnekloster agora é propriedade dele. Mas ninguém sabe se mora lá. Talvez ainda esteja viajando, como era de costume; talvez a notícia da sua morte esteja chegando de algum, lugar longínquo da terra, escrita pela mão daquele criado esquisito num inglês ruim, ou em alguma língua desconhecida. Talvez esta criatura não dê sinal de vida quando um dia sobreviver ao patrão. Talvez, há muito, ambos tenham desaparecido, e permaneçam apenas como nomes na lista de passageiros de algum navio perdido, nomes que nem eram os verdadeiros.” Os Cadernos de Malte Laurids Brigge – Rainer M. Rilke

A produção “rabiscada” – A ideia do livro/conto surgiu e foi anotada conforme de costume, enquanto a ideia amadurece na cabeça do escritor ele reescreve o esboço do enredo, depois pensa nos personagens e na ação e a partir desta pré produção começa a escrever. Não há um ponto para o clímax ou para a reviravolta, estes acontecem à medida que a ação se desenvolve.

O escritor então toma outras notas, e refaz pontos que ficarão obscuros e reescreve. Rabisca, por assim dizer a obra, de fio a pavio. Algumas vezes usa vários cadernos/janelas, cola papéis pela parede e consegue ter uma visão do todo. Ao contrário do que parece, este escritor é o mais organizado de todos, se não fosse assim, não saberia por onde começar ou terminar em meio a tantas anotações. O mais coerente, pois precisa unir estes pontos num todo que faça sentido. Alguns escritores que optaram por este estilo, como Proust, são obcecados pela perfeição. Proust trabalhava assim.

Proust rascunhoEscrever a mão

Este é o tipo de livro que demanda mais tempo para ser produzido, pois cada parte dele precisa ser gestada separadamente e depois equilibrada no todo. Como uma família e suas unidades.

A produção “Sucesso Disney”: arrebatando o coração e a atenção das pessoas, a história estende-se em um planejamento padronizado. Quem opta por este sistema tem a seu favor um conjunto de dicas e um esquema realizador pré-fabricado, um quebra cabeça instantâneo. Escolha uma figura (ideia), escolha um tamanho (páginas/saga em 3 livros etc), recorte e então monte até formar a história. Consiste basicamente em dividir a história em partes e seguindo este padrão estabelecer qual será o contexto em que estas partes se inserirão, os contextos em termos gerais são: Apresentação/Ambientação – Incitação/Exposição – Busca/Desejo – Impedimentos/Questionamentos – Clímax/Reviravolta – Conclusão/Resolução

Plot diagram

O escritor monta um diagrama, com as ações e desenvolve cada ato do contexto de forma a obter o resultado desejado.

Diagram

O diagrama pode ser ampliado para uma planilha delineando capítulos. À medida que os capítulos vão acontecendo, revisa-se o processo. O  “feed-back” de leitores beta é imprescindível.  E a partir da metade do trabalho a planilha precisará ser revista e melhorada.

Plot board

Ao contrário do que se possa imaginar este processo tem raízes no teatro grego,  e faz parte integrante da nossa capacidade cognitiva. Não é um padrão inventado por um grupo de espertinhos da indústria cinematográfica hollywoodiana. Esta técnica foi muito bem aproveitada pelos escritores/produtores da tal indústria. A maioria dos autores de fantasia/young-adult  utilizam este processo, citemos, então, um anterior ao boom da “fórmula Disney” – O Senhor dos Anéis de Tolkien.

A Produção  “Mista” – Todos os processos acima são usados, mas não como ferramenta absoluta. O autor deixa-se levar pela inspiração e escreve horas a fio ou dias a fio. Então para e indaga ao texto. Onde ele me levará? Que história quero contar? Qual será o tamanho desta história? Entre outros. Desenvolve um plano, como um desenho de um caminho, mas sem a preocupação de seguir os passos do  contexto da produção 3.

O autor, embora tenha clara certeza do que quer contar, em muitos casos não visualiza o fim antes que este se apresente. Por isso a liberdade da produção 2, de reescrever à perfeição e demorar o quanto quiser pode ser usada, lapida a história até que a história seja o que espera. Quanto à  conclusão, como nos processos 1 e 2, não necessariamente apresenta uma solução, ela pode abrir-se para outra possibilidade, encerrar-se abruptamente deixando o leitor em suspense.

Neste processo o autor pode construir uma planilha dos capítulos ou partes a serem narradas e anotar um resumo dos acontecimentos para que não se perca a linha narrativa.  Esta planilha também irá ser útil no momento de enviar originais para editoras, pois muitas delas solicitam este material.

Gosto muito deste processo, por que, enquanto me dá liberdade para fugir do lugar comum, não me joga no “outerspace”, onde ficaria sozinho com meus pensamentos. Estes são alguns dos materiais físicos de planejamento que usei no meu livro “O Caminho do Príncipe”, que diga-se, comecei pela segunda parte e foi feito inteiramente no word. Pena que “os post-its” não existem mais.

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Superando o Bloqueio Criativo – Artigo de J. Mcnamara

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Overcoming Writing Block – J. Mcnamara – Tradução e adaptação de Claudia Dugim

Para muitos escritores a pior parte da experiência de escrever é o “começar”, quando se está sentados na mesa da cozinha/quarto/escritório admirando a folha de papel em branco na tela estável e perfeitamente vazia do monitor. “Não tenho nada a dizer”, é a única coisa que vem à cabeça. “Eu tenho 20 anos e não fiz nada, não descobri nada, não sou nada (este texto é em inglês e infelizmente eles não tiveram um Fernando Pessoa) e não existe pensamento  em minha cabeça que alguém, algum dia, gostaria de ler. Esta é a “Auto Crítica” no seu cérebro, sua censura interior, e algumas vezes esta censura é maior do que você. Quem sabe a causa da existência desta horrível “Auto Crítica”? Uma experiência desastrosa na infância, talvez, uma crítica muito rígida de um professor a um texto seu, não importa. A “Auto Crítica” existe para todos nós, construindo e reconstruindo esta coisa limitadora chamada Bloqueio Criativo. Pode ser reconfortante saber que até escritores profissionais sofrem de bloqueio criativo de vez em quando. Alguns dos grandes escritores, como Leon Tolstoy, Virginia Wolf, Josef Conrad,  eram atormentados por lapsos momentâneos na sua habilidade de produzir textos, não importa o quão produtivo seja o autor, um dia acontece.

O poeta americano W. Stafford oferece este conselho aos poetas que sofrem de bloqueio criativo: “Não existe esta coisa de Bloqueio Criativo para escritores de baixo nível”. A principio, este parece um conselho terrível. “Que?! Esperam que eu escreva um lixo qualquer?! É isso?! Sou melhor que isto!” Não, Stanford não está encorajando escritores a produzirem porcaria. Embora ele sugira que é fácil você se levar tão a sério ao ponto de achar que está produzindo a maior, mais encantadora, mais inteligente frase já escrita em todos os tempos. Se for assim, sente e pense o quanto você não vale a pena, amaldiçoe o dia em que nasceu, imagine por que cargas d’água você resolveu estudar, odeie cada frustante momento em que escreveu e não seu texto não funcionou . Um escritor tem que deixar-se levar, esquecer sobre censura e crítica. Vá em frente e escreva qualquer coisa, contanto que escreva. A parte todo o nonsense e as divagações, no entanto, acredite que alguma coisa boa irá sair, alguma ideia se acenderá ali mesmo, naquela página em branco, faiscará e guiará você. Disponha-se a jogar coisas no lixo. Tudo bem. Pode encher a lixeira do seu computador com “papéis amassados”. Alguma coisa boa vai sair deste processo.

Sempre carregue um bloco de notas, eletrônico ou não, onde você possa escrever ideias que surjam de repente. Quantas vezes as ideias não chegam até você dentro de um vagão de metrô ou na mesa de um bar? Você acha que se lembrará delas e então ao chegar em casa e sentar na frente do computador tudo o que você se lembra é que teve uma boa ideia uma hora atrás.(*) Parte da experiência de escrever decorre do fato de aprender que as ideias aparecem de maneira fortuita, não só quando nos predispomos a tê-las.

Pessoas que dizem a você que a atividade física é essencial ao processo mental dizem a verdade. Se nada acontece ao sentar-se na frente do computador, vá dar uma volta. Bata uma bolinha, corra em volta do quarteirão. Leve o bloco de notas com você. Sangue novo circulará pelo seu cérebro e ele ficará mais disposto e vigoroso.

Outro truque é começar no meio do seu projeto de escrita. Evitando aquele problema de começar por começar para ver onde vai dar. Comece pela parte do projeto que mais te interessa e depois volte à questão da introdução. Parece  como começar no segundo tempo do jogo. mas não é uma má ideia, por que algumas vezes é mais fácil dizer onde se quer chegar se já soubermos onde ir. Um jogo só se define no segundo tempo, às vezes na prorrogação. Uma dica final sobre Bloqueio Criativo, converse com um amigo sobre seus escritos, troque ideias, fale e grave em voz alta, depois ouça e veja se não consegue melhorar o corpo da ideia ou escreva livremente sobre o que ouviu.

(*) Opinião da tradutora/escritora – uma boa ideia não anula outra, muitas vezes eu perco uma ideia e depois outra melhor aparece, não é o fim do mundo.

Ritmo 3 – Conjunto, Sequência, Alternância – Dicas Para o Escritor Iniciante 22

Lello

C. Sequência e Alternância

Relembrando o post Dicas Para o Escritor Iniciante no. 4 – Ação Dramática. O conjunto de cenas amarrados em um capítulo/livro é chamado de ação dramática. São cinco os elementos que compõe a ação dramática – o suspense, o ‘flash-back’, a reviravolta, o descanso e a repetição.

Escrever com instinto é muito interessante, na verdade,  este “instinto” decorre do fato de que todo o escritor leu muito na vida (pelo menos é o que se espera que tenha feito) e estes elementos estão presentes no seu subconsciente, sem perceber o autor copia uma fórmula passada de geração em geração. Como um químico, ele não criará nenhum elemento novo, trabalhará unindo aqueles que conhece, de uma forma particular e pessoal.

Gosto muito da fórmula – folha em branco + ideia na cabeça. No entanto, a partir do momento que se debruçar sobre a ideia com o intuito de torná-la mais do que algumas linhas, comece a delinear a esboçar a sequência do conto ou livro. Um bom esboço garante uma boa recompensa.

Este esboço pode ser ideias no papel, um sumário com o resumo de cada capítulo e os acontecimentos dentro dele.

Qual a importância deste esboço? Existe uma determinada sequência para que os elementos combinem e não explodam ou vaporizem.

Vamos supor que você está escrevendo um livro sobre uma terra alternativa (principal elemento da fantasia de hoje – Tolkien/Martin) e decida começar descrevendo a geografia de todo o continente e os hábitos de cada povo, dedicando 100 páginas sobre o assunto, sem suspense, reviravolta, “flash-back” ou repetição. O único elemento utilizado foi o ‘descanso’. Acredito que até você irá bocejar quando ler, por mais rica e detalhada que seja a sua descrição.

Este é um exemplo simples de como a organização sequencial pode ajudar na construção do seu livro/conto.

A Espada Encantada – ideia principal – um menino encontra uma espada que o leva para um mundo paralelo onde ele é confundido com o príncipe herdeiro do reino.

Parte/Capítulo 1 – Suspense/Descanso/Flash-back – Como faz todas as manhãs, Artur caminha pelo bosque e encontra uma espada presa em uma pedra/Encolhe as mangas da camisa branca e pousa seus curiosos olhos negros sobre a imensa espada reluzente, estende seus bracinhos magros de garoto e pensa/ “Será que vou poder levar para casa? Quando levei aquele gato morto, minha mãe brigou comigo!”

Parte/Capítulo 2 – Reviravolta/Repetição/Suspense ….

Delineie sua ideia – pode ser o título e os elementos que farão parte da parte/capítulo, um resumo de cada parte/capítulo, o objetivo de cada parte/capítulo ou mesmo aquelas linhas aleatórias que você escreveu em outra ocasião e que agora quer tornar um todo. Depois de certa prática essas sequências e as suas alternâncias tornam-se naturais.

Após situações mais dramáticas, o leitor precisa do silêncio para digerir os acontecimentos, de repetição para fixar conteúdo, descrição para imersão no cenário e  ‘flash-back’ para entender melhor as motivações. Não necessariamente usamos esses elementos como moderadores, podemos usá-los como reforço ao suspense ou à reviravolta.

Ou seja, na arte tudo é uma questão de harmonia.