Marcadores de Gênero II

Considerações sobre o uso na ficção

No primeiro artigo, escrito três anos atrás, minhas observações e comparações foram basicamente sobre questões morfológicas em pronomes, adjetivos e substantivos. No atual, pretendo me envolver um pouco mais em questões semânticas. A carga simbólica e quando usar.

Antes, tenho que mencionar que de lá para cá pouco mudou, quem usa os capacitistas “x” e “@” para neutralidade continua usando, eu uso o “e” o mais que posso, já expliquei a razão no link: https://claudiadu.wordpress.com/2016/09/05/pequenas-consideracoes-sobre-os-pronomes-de-genero-x-e-i/.

O que mudou nesses três anos foi o número cada vez maior de escritores que incluem personagens diversos, mas que se concentram em pessoas binárias: trans, gays e lésbicas binárias e esquecem todas as outras letrinhas da sopa LGBT, ou mesmo as desconhecem, afinal ficar antenade demanda tempo, internet rápida, informação prévia e convenhamos que boa parcela da população não tem nada disso. Dicas sobre como construir um personagem LGBT fica para outro artigo.

Simbolismos

Profissões, cargos são majoritariamente masculinos. O empreiteiro, o diretor, o comerciante, o cientista. Para quebrar essa hegemonia masculina no comando da cadeia produtiva, podemos usar o feminino quando mencionamos profissionais no sentido geral.

“As cientistas se reuniram todas na sala de conferência à espera de um comunicado do chefe de estado. A sala estava em completo silêncio até que o responsável pelos experimentos o quebrou:

– Eu causei o problema. Por que todas estão parecem constrangidas? – perguntou Roberto.”

Na primeira leitura, para os acostumados com textos tradicionais, há uma falha de compreensão no gênero dos envolvidos. Se eram todas mulheres na sala, o que fazia Roberto no meio delas? Há tantas sutilezas de como a construção social influencia nossa percepção que precisaria de um TCC inteiro para responder essa pergunta. As perguntas aqui seriam: qual a relevância para a trama? Como lidar em outros trechos para que a leitora/leitor/leitore menos atente possa estabelecer um vínculo com a mensagem e, de alguma forma, superar a carga da construção social?

“Os cientistas se reuniram todos na sala de conferência à espera de um comunicado da chefe de estado. A sala estava em completo silêncio até que a responsável pelos experimentos o quebrou:

– Eu causei o problema. Por que todos parecem constrangidos? – perguntou Roberta.”

O segundo modo soa mais natural? Se você responder sim, precisa pensar nas razões que levaram você a achar natural generalizar no masculino e não no feminino.

Se você acha que não faz diferença, o convido (masculino mesmo) a catar coquinho.

Em ambos os textos há duas personagens com gêneros definidos e não gerais, para essas eu uso o pronome que mais respeita a identidade da pessoa: a chefe, o chefe, Roberto, Roberta. A escolha da carga indentitária dos personagens por autoras deve ser ponderada na fase de planejamento da história. A escolha dos adjetivos ou das características de personagens pode nos indicar também problemas em relação às nossas próprias razões para escrever dessa forma. Quando digo problemas me refiro às questões culturais e pessoais.

Não seria melhor escrever sempre usando um marcador neutro?

Quando conseguirmos pensar numa nova linguagem e nos livrarmos dos símbolos sexistas, pode ser. Mas ainda não vivemos esse momento, ainda vivemos numa sociedade binarista em essência. Gênero importa para muita gente, por exemplo, para o trans homem faz uma enorme diferença usar um pronome neutro no lugar de um masculino, o masculino pesa na sua luta por se ver representado, portanto fará diferença para seu personagem trans homem.

No entanto, a língua muda à medida que mudam os paradigmas, os valores da sociedade, nesse sentido a inclusão paulatina de neutralidade nas questões de gênero pode, ao longo prazo, ser um indicador de uma sociedade mais igualitária. Lembrando que só o fato de uma parcela da intelectualidade cosmopolita desejar que a linguagem neutra seja viável, não significa que a grande parcela da sociedade, que não é nem intelectualizada, nem cosmopolita (*), queira essa mudança ou no mínimo tenha ciência da possibilidade de mudança.

(*) cosmopolita no sentido em que grandes concentrações humanas em áreas centrais de metrópoles tornam as diferenças mais presentes no cotidiano e mais “normalizadas”.

Quando usar ou não usar definição de gênero

Quando for necessário, quando a definição de gênero for importante. Para uma representação feminina ou masculina, seja cis ou trans. Para as palavras que não designam pessoas: a casa, o carro, a rua, o caminho.

Quando não queremos definir personagem por gênero, quando não binárie, intersexe, egênere etc. Em 2016, Nova Iorque passou uma lei em que reconhecia 31 diferentes gêneros (há controvérsias quanto à designação de alguns), o que fazer quando a diversidade bate tão contundentemente à nossa porta? Ser o mais fiel a não conformidade de personagem.

A autora pode alternar o gênero em caso de fluído? Não vejo porque não chamar pelo masculino uma hora e noutra pelo feminino. Pode ser complicado para as leitoras no início, mas que seja, a autora se acostuma, a leitora também. Uma equação de segundo grau é um problema insolúvel para uma criança da terceira série, mas nada demais para uma aluna do último ano do ensino médio. Não subestime suas leitoras.

Usar marcadores neutros exige prática, escrever e reescrever, escolher a correta construção de frase, de palavra, para que a escrita fique clara e fluente ao mesmo tempo faça justiça às características de personagem. Substituir pronomes como ele, ela, dele, delas por diferentes construções. Substituir o generalisador eles, por pessoas, ou da/do por de. Fazer jus ao que o português nos oferece – o sujeito oculto.

“Os pedestres se assustaram com o terremoto. Eles não acreditaram que pudesse ocorrer dois no mesmo dia. A culpa era dela/dele.”

“As pessoas na rua se assustaram com o terremoto. Não acreditaram que pudesse ocorrer dois no mesmo dia. A culpa era de nome de personagem.”

Pedestres se assustaram com o terremoto. Não acreditaram que pudesse ocorrer dois no mesmo dia. A culpa era de engenheire.”

Revisão e Copidesque

Bons escritores dependem de bons revisores, é fato. Não existe revisor especializado em português que possa avaliar se seu texto contém erros em expressão neutra de gênero. O ideal é procurar e pagar um leitor beta que seja similar à pessoa retratada no seu livro/conto/poema/HQ e pedir uma leitura atenta, ou uma colega escritora que tenha familiaridade com marcadores.

Contribua

Não é nada fácil mudar a maneira de se expressar, nem possível do dia para a noite. Mas vale a pena começar a tentar, cometer erros, aprender com eles, para que um dia consigamos nos comunicar de forma mais igualitária.

Como esse é um assunto ainda em construção, qualquer sugestão será bem vinda. Vocês já usaram marcadores neutros? Qual personagem? Como funcionou para leitoras?

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O QUE GOSTEI DE LER JULHO 2019

Voltando a escrever no meu blog depois de muuuiiitooo tempo. Estava no limbo, acho. Ou com preguiça, mais plausível.  Arranjei todos os livros não lidos ou que tenho vontade de reler em grupos de cinco ou seis de diferentes tipos: romance, poesia, história em quadrinhos, contos, revistas e zines, artigos. Espero dar conta de ler e comentar a maior parte.

Romance

Extemporâneo – Alexey Dodsworth – Ed. Presságio – 2016 – Físico

Nesse romance curto, o criativo Alexey amarra uma história de intersecção de realidade e multiversos. Uma pessoa acorda sempre no mesmo dia, 15 de setembro de 2015, e tirando o fato de ser um ser humano, todo o resto é diferente: o país, a realidade, o gênero e idade da pessoa muda. Acompanhamos um recorte das inúmeras faces a partir de George, um homem hétero brasileiro vivendo em Hy-Brasil, Hitler ganhou a guerra, lembrei de Philip K. Dick, e se existisse um castelo no alto do Corcovado? (não tem isso no livro, piração minha). E se nesse lugar distópico, as pessoas fossem separadas em castas, classes, cor de pele? (se bem que não é muito diferente do que se vive no Brasil atual)

A pessoa acorda para outro dia 15 e é Cassandra, uma mulher trans com poderes psíquicos. A medida que a persona de Cassandra começa a se manifestar as lembranças de George se apagam. Para combinar com a misteriosa Londres, Cassandra se envolve na investigação de um crime. Quebrando a amnésia das “vidas passadas”, Cassandra encontra registros deixados por George para que ela não o esquecesse.

No próximo e o mesmo dia 15, a pessoa é Cynthia, uma adolescente irlandesa, fã de rituais pagãos e diagnosticada esquizofrênica, que invocando a magia das runas começa a quebrar barreiras.

O quarto é o Ercole, padre de um pequeno vilarejo na Itália. Que consegue reunir as memórias dos anteriores.

Com muitas referências, filosóficas, espirituais e históricas, Alexey costura a trama através de um ponto comum entre as pessoas/personagens, a determinação de encontrar a quem se ama e manter a chama acesa para o “próximo dia”.

Rápido de ler e cativante, no entanto, me incomodou um pouco o contar a história ao invés de mostrar os acontecimentos, problema amplamente compensado pela habilidade e clareza da escrita de Alexey http://pressagio.com.br/catalogo/extemporaneo/.

História em Quadrinhos

Hacking Wave – Larissa Palmieri – Pedro Okuyama – Zaheer – Publicação Independente da Zapata Edições – HQ em Foco – 2017 – físico

Eu adoro HQs independentes, porque eles não têm compromisso estético ou mercadológico com nada. Você pode comê-los com salada, bebendo energético ou com um prato de torresmo coberto de muçarela, purê de batata, bebendo suco de graviola.

São duas histórias nesse HQ, as duas falam de inteligência artificial e controle digital. Na primeira, Sol Negro no Horizonte, destaca-se o roteiro limpo de Larissa Palmieri, que com poucos diálogos e cenas e a caneta mágica de Pedro Okuyama consegue passar uma história que mistura visual de perseguição de carros anos 90, hackers milenials, AI Black Mirror, ação no ritmo de mangás com um tema muito atual, o controle de fontes essenciais para sobrevivência humana, como a luz do sol. A atualidade do tema bateu forte na semana passada quando a Espanha proibiu o uso de painéis solares sem que haja permissão e pagamento de taxas para o governo.

Na segunda história, Faça a Evolução, os diálogos dão lugar a explicações, achei a originalidade da história muito legal, pessoas com habilidades especiais, tipo X-Men, são raptadas por empresas-governos e suas habilidades transformadas em apps. O resultado final, a amarração entre roteiro e imagem me pareceu um pouco confuso, no entanto, nada que tire a diversão/reflexão.

https://www.ugrapress.com.br/quadrinhos/brasileiros/hacking-wave/

Poesia

A Paixão Medida – Carlos Drumond de Andrade – Livraria José Olympio Editora – 4ª edição – 1983 – físico

A Corrente

Sente raiva do passado

Que o mantém acorrentado.

Sente raiva da corrente

a puxá-lo para frente

e a fazer de seu futuro

o retorno ao chão escuro

onde jaz envilecida

certa promessa de vida

de onde brotam cogumelos

venenosos, amarelos,

e encaracoladas lesmas

deglutindo-se a si mesmas.

Revista ou zine

Revista – Zine

Psycopomp Magazine – Última edição de Abril 2019, gratuita, em inglêsdigital

Li dois contos dessa edição que gostei muito, a revista traz sempre um conto com  experimentações com formatos de textos diferentes, desse  escrevo primeiro:

6.3 Synchrons by Lorraine Schein – publicado originalmente em 1995

Interessante como esse “conto” curto feito de um suposto conjunto de anotações sobre acontecimentos sincrônicos e escrito antes das grandes redes digitais faz tanto sentido hoje em dia. Também me surpreendi pensando em como sincronizar eventos em sistemas solares, galáxias diferentes, já que o tempo da Terra não se aplicaria a esses lugares. É um paradoxo, para existir sincronicidade é necessária uma linha de tempo linear com um ponto em comum, essa linha linear não existe em termos universais. Ou existe?

https://psychopompmag.com/6-3-synchrons/

Glitering Dark by Jeremy Packert Burke – publicado originalmente em 2018

Um conto para ler em voz alta, sonoro, é possível ouvir o som dos insetos, assim como as conversas das pessoas através das latas vazias. É um conto polifônico e ao mesmo tempo sinestésico. A história percorre um ano do verão ao verão, na América do Norte, o que é muito diferente do nosso clima tropical. As mudanças de humor se conectam às estações numa harmonia triste, de solidão, isolamento em um subúrbio de classe média.

O autor constrói um visual caleidoscópico e irreal, começando com brincadeira de telefone com latas, aquela em que crianças amarram barbante no fundo de duas latas para conversar a distância. No conto, as latas são carregadas por insetos multicolores durante o verão. No inverso tudo é substituído e uniformizado pela neve.

Não há como não fazer um paralelo com as nossas relações interpessoais na era das redes digitais, onde muito ouvimos e falamos, mas pouco contato físico temos um com outro. Varremos os insetos da frente de nossas casas assim como limpamos as conversas do “whatsapp”.

Então, ao final da história, mais surrealismo e encantamento, não vou dar spoilers, só posso dizer que tem ossos de baleia.

Um pedacinho como tira gosto (traduzido)

“Nós nos dirigiamos uns aos outros o melhor que podíamos, fingindo não reconhecer as vozes dos nossos padres, professores, bibliotecários e capitães da indústria, fingindo que não estamos coordenando uma infidelidade em massa. Sei que havia um tempo limitado para que a mensagem o alcançasse. Então, você teria que decidir se desejava falar comigo, ou não.”

“Nossa devoção seguiu apressada. Contamos infinitos contos de fadas, de desejos, de sexo e dons, falando ao mesmo tempo, ouvindo ao mesmo tempo, na esperança de absorver as palavras do outro, assim teríamos no que nos agarrar durante os longos meses gelados.” https://psychopompmag.com/glittering-dark/

Orlando e o Escuro da Coragem – Ana Lúcia Merege

 

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Quem disse que adultos não leem infato juvenis? Na verdade eu comprei Orlando pensando nos meus netos, sabendo que eles demorarão pelo menos uma década para ler, afinal eu nem tenho netos. Foi só desculpa.

Mas para você que gosta de infanto juvenis ou tem crianças na família, recomendo muito Orlando, que fala da coragem de abandonar o egoísmo em favor do grupo, mesmo assim, saber confrontar os amigues quando necessário, perceber os próprios erros e aprender com eles.

Orlando é um menino de 12 anos que vive em Athelgard, a terra de fantasia criada pela autora Ana Merege. O irmão mais velho de Orlando é bom de briga, enquanto Orlando prefere a companhia de um velho mago e treinar seu falcão vesgo para a caça. Quando o rei recebe um convite para enviar um dos filhos a uma justa no Reino das Colinas Negras, ele envia o mais velho, mas Orlando acaba sendo confundido com o irmão e sendo levado por um caminho secreto ao reino distante. Orlando será obrigado a enfrentar competidores mais velhos e experientes que ele para conseguir o Escudo da Coragem, uma arma mágica e indestrutível e honrar seus pais e reino.

A história surpreende ao fugir do clássico “herói auto suficiente que não tem medo de nada.” Orlando possui poderes mágicos, mas ainda não está treinado para usá-los, e a disputa se revela muito mais do que uma demonstração de força. É preciso inteligência e principalmente trabalho em grupo para superar os obstáculos. Esta é a melhor parte do livro, além do fato de Ana Merege ter uma escrita limpa e envolvente. A medida que Orlando avanças nas etapas da competições, aprendemos algumas lições valiosas: aceitar ajuda quando necessário, discutir as possibilidades e ouvir os outros, seguir os instintos, mas só quando os resultados decididos pelo grupo não derem certo, tomar decisões difíceis e se colocar em posição de liderança quando for exigido.

O livro é bem pequeno, como qualquer infanto juvenil, com pouco espaço para desenvolver a narrativa, Ana Lucia habilmente consegue criar personagens atraentes e carismáticos para o leitor, uma história cativante, cheia de ação e acontecimentos inesperados, e um gostinho de quero mais no final da leitura. Falo sério, quero mais da pequena Ana além das aventuras na trilha secreta (outro livro infanto juvenil da série) e do pequeno Orlando e seu falcão vesgo.

Link para compra

https://editoradraco.com/produto/orlando-e-o-escudo-da-coragem-ana-lucia-merege/

Um pouco mais sobre o livro

https://blog.editoradraco.com/2018/07/como-escrevi-orlando-e-o-escudo-da-coragem/

Um pouco mais sobre a autora

http://castelodasaguias.blogspot.com/

 

 

 

 

 

 

 

Falando sobre a velhice

Dois contos de O Desejo de Ser Como Um Rio e Amigas Infáveis foram analisados num congresso sobre terapias complementares em gerontologia.

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Experimentação na Ficção Curta

Matsuo Basho

No lançamento do volume 1 da Trasgo, revista especializada em ficção especulativa, fantasia e ficção científica, fui convidade a participar de uma mesa redonda com o editor Rodrigo Van Kampen e a escritora e amiga Karen Alvares. O propósito inicial da mesa era falar sobre experimentação na ficção curta, mas abrimos o leque da discussão e acabamos falando sobre mercado editorial, experiências de publicação em editoras e independente etc., conduzindo a conversa de acordo com a audiência. Infelizmente eu tinha um compromisso importante à noite e não pudemos nos alongar e falar sobre experimentação.

A ficção curta tem o tamanho ideal para testar nossos experimentos linguísticos e especulativos. Não porque seja mais simples fazer um conto do que um romance, ambos exigem de escritore um determinado tipo de comprometimento. Na ficção curta – conto, micro conto, poesia – podemos nos permitir explorar com mais liberdade, pois ela é sintética e deixa pouco espaço para escapar ao contexto, num romance, cheio de nuances e personagens, elementos que quebrem a regra podem quebrar também o ritmo da narrativa, ou serem supérfluos em relação ao todo.

Experimentar significa ir além de parecer estranho ou desconfortável. Escritore deixa de lado as convenções da língua ou da estrutura narrativa e busca alternativas para se expressar. Este desligamento diegético ou estético, no entanto, tem que servir ao propósito do conteúdo.

O ponto de partida para a disgreção é a regra. Entender a tradição literária em português, Machado, Cecília, Eça, Pessoa. Conhecer sua narrativa, suas metáforas, o posicionamento social e cultural, a forma, para então desafiar as convenções. Na narrativa não-experimental, e escritore se atenta ao cenário, à construção de personagens multi dimensionais, à descrição vívida da ação, aos diálogos marcantes e identificáveis, referências culturais e transformações aplicadas aos personagens, ação ou cenário. A ligação com a “realidade” é mais contundente, exige-se uma suspensão de descrença e uma verossimilhança que coloquem e leitore na pele do protagonista.

Na narrativa experimental, e escritore tende a ser mais metafísico, mental e emocional, a “realidade”, como apontada no parágrafo anterior, raramente é organizada e limpa. A escrita é descontinuada, fragmentária, com elementos gráficos, personagens sem contornos ou identidade. E leitore é levade a interagir diretamente com o texto, não se trata mais de ser transportade e viver a vida do personagem, mas investigar a si mesmo dentro do contexto. Provocar uma sensação, mais do que a compreensão da narrativa, e leitore se questiona através dela.

Indico a leitura do conto 73 do Jogo da Amarelinha de Júlio Cortazar (contista obrigatório), para entender como é ser levade à sensação de parafuso sendo apertado pelo ritmo e escolha das palavras, analisar o porquê da escolha simbólica do autor. Décio Pignatari, Guimarães Rosa, Jorge Luís Borges, são experimentadores que, assim como Cortazar, já se tornaram clássicos. Será que podemos desafiar os desafiadores?

A pergunta a se fazer para verificar a experimentação no texto é a contra-experimentação. O que sobra se tirarmos os elementos experimentais? A experiência desviou-se ou diluiu a ideia inicial? Há elementos clássicos interagindo com o texto? Quais? Qual a importância destes elementos?

Algumas experimentações são menos metafísicas e mais diretas, como o uso de marcadores neutros de gênero que desafia a norma culta da escrita, ou diálogos com o formato de mensagem em redes sociais, narrativa não-linear etc. O próprio nome já diz que vamos fazer da nossa escrita um laboratório de testes, jentar e falhar várias vezes até acertar, ou não, pode resolver jogar fora e voltar-se para outro projeto. Mesmo quando ao ler o texto tiver a sensação de desafio às convenções, precisará ainda perguntar o propósito de querer desafiá-las e se conseguiu atingir sua intenção inicial, não para si mesmo, óbvio, para e leitore. Afinal, experimental não quer dizer ser hermético, voltado para o próprio umbigo. Compartilhamos experiências para torná-las úteis.

Exemplos

Na revista Psychopomp, gratuita, o texto da brasileira Beatriz L. Seeleander está em formato de questionário, a última pergunta (tradução minha):

15. Fim

  • a) o fim?
  • b) seguido de cinco livros com o spin-off da série
  • c) a morte é o único fim, as outras histórias foram ideologicamente editadas
  • d) não existe nada para se começar. Isso é ficção

Narrativa não-linear, o autor Fábio Fernandes narra uma história sobre amor de forma fragmentária na edição 11 da revista Trasgo. Amor: Uma Arqueologia.  , pode ser lido gratuitamente.

Personagens sem contornos e interferências gráficas na poesia e prosa da autora Adriana Versiani dos Anjos, A Física dos Beatles, Contos dos Dias, A Lâmina que Matou meu Pai.

How to Contemplate the World From The Detroit House of Correction and Begin My Life Over Again da autora Joyce Carol Oates.

 

Links para meus escritos – não experimentais 🙂

gratuito

Editora Draco

Amazon

 

 

 

 

 

 

 

 

Descrevendo um boi

bOI

Como começar a descrever um boi? Dando a ele o nome de boi.

Abro as abas dos dicionários, livros, sites de pesquisa e de imagens antes de começar a escrever. Sei que precisarei recorrer para buscar a palavra adequada, verificar uma referência, me inspirar. O dicionário de sinônimos é um dos sites usados pelos escritores, afinal é um erro repetir, um vício de linguagem.

O português é uma língua rica, mas de nomes esquecidos. Uma características dos nativos de língua inglesa é a fascinação pelos sinônimos, por aprender outras formas de dizer as mesmas palavras. Na escola há competições de spelling bee, os competidores precisam conhecer palavras incomuns, as pessoas jogam scrabble, um jogo em que o que conta é o tamanho do vocabulário. Além do fato do inglês ser uma mistura de várias línguas que eram usadas em concomitância antes da consolidação do idioma.

O mesmo não acontece com o português, nossa cultura é diferente, não damos tanto valor ao estabelecido. Há quem ache importante não deixar o vernáculo morrer, há quem discuta que a língua é um organismo vivo e deixemos que viva com liberdade, se recrie a partir do hoje. Nós somos pródigos em cunhar palavras, regionalismos, nomes próprios. Será que Guimarães Rosa seria Guimarães Rosa se não fosse brasileiro? Lógico que um bom conhecimento do vernáculo é importante para o escritor, não precisa ser só isso no entanto.

Com a massiva difusão de livros de nativos de língua inglesa, ou que são traduzidos para o português através do original em inglês, o tradutor se depara com termos que se usados literalmente ficariam assim: “tinha um brilho brilhoso”, ou “tinha um brilho rutilante”, o primeiro é uma redundância, o segundo pode estar mais próximo do original, mas provoca uma pausa na leitura ou pode não fazer sentido ao público ao qual se destina. Óbvio que um ou outro termo menos comum é interessante para se colocar num livro. O leitor aumenta seu vocabulário. Como dizer que o rio coleava ao invés de serpenteava. Mas não em todas as linhas, em todos os parágrafos, ou a leitura ficará cansativa e desinteressante.

O que isso tem a ver com dar nomes aos oxen, digo, bois. Palavras generalizantes ou com significados distorcidos são usadas para evitar redundância ou causar a tal “estranheza”. A história causa estranheza, as palavras mal colocadas causam desinteresse do leitor. O escritor em português, amador, iniciante, muitas vezes usa o termo generalizante quando quer falar do específico, por exemplo, por causa dos manuais de RPG e livros mal traduzidos ou porque, ao invés de mudar a estrutura da frase, prefere usar uma palavra que pretenda deixar o leitor em suspense e que, na verdade, leva o leitor a suspender a leitura.

  1. “Pelo contorno da figura, podia-se dizer que era uma pessoa”.
  2. “A figura lançou um coquetel molotov em direção ao tanque”.
  3. “Ela tinha uma bela figura, expressão confiante no rosto e andar seguro”.

No caso do número um, a redundância de contorno e figura. “O contorno de uma pessoa, podia-se dizer”.

No caso número dois falta clareza, a primeira acepção da palavra figura não significa a forma de uma pessoa, refere-se à forma de qualquer corpo ou ser, uma barata, um alienígena. A não ser que seja isto mesmo, que o autor esteja se referindo a uma criatura fantástica ou desconhecida, a palavra é inadequada. Um ser humano jogou o coquetel molotov, então é preferível dar nomes aos bois. “A pessoa/Uma pessoa/Um sujeito/A manifestante lançou um coquetel molotov em direção ao tanque.” No terceiro caso está claro que a palavra figura se refere à segunda acepção da palavra, aparência de alguém.

“O castelo apareceu por entre as brumas da manhã. Os muros altos, cujas paredes eram feitas de pedra, cercavam a cidade e protegiam a construção no seu centro”.

Fica melhor assim:

“A névoa da manhã se dissipava. As torres ficaram visíveis e, em seguida, a muralha de pedra que protegia o castelo e a cidade ao seu redor”.

Se a escolha da palavra não está ligada ao ritmo dentro da sentença/parágrafo, sensação de não inclusão ao ambiente ou ao nome do lugar/pessoa, o ideal é que usemos a palavra mais comum, neste caso névoa é melhor do que bruma. Já uma muralha é um muro alto espesso geralmente feito de pedras. Por fim, se o castelo estava atrás dos muros, não foi ele que apareceu primeiro, foram as suas torres ou as torres de vigilância da própria muralha.

“A criatura se aproximou com suas oito patas e um corpo gigantesco e monstruoso. Fumaça saia de suas narinas.”

Se é um monstro, deixe claro na primeira menção. Fumaça não é a palavra certa, a não ser que se trate de um dragão. Seria interessante economizar adjetivos e descrever com metáforas, mas não vou usar no exemplo, só colocar um pouco de tempero para melhorar o resultado:

“O monstro se aproximava. Quando uma das oito patas gigantescas tocava o chão, as paredes tremiam. A criatura arfava de raiva, um bafo quente e podre.”

Procure a palavra certa, coloque na ordem certa de importância. Seja direto, simples e claro. Vocabulário inadequado ou escasso, faz com que a nossa ideia chegue distorcida ou não chegue ao leitor. Por outro lado, ter um vocabulário muito amplo não significa que dominaremos a língua, precisamos saber como usar as palavras numa frase, ter noção de conjunto, ritmo etc.

Links de outros artigos que falam do uso das palavras.

A Inconfundível Clareza do Ser – Dicas para o escritor iniciante – 18

IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

A Força da Palavra – Dicas Para o Escritor Iniciante 17

Reino Sem Fim – RPG e ficção escrita – Dicas para o escritor iniciante 24

NINGUÉM É OBRIGADO A LER SEU LIVRO

Leitura Crítica

Primeiro dia na casa nova. Que sensação incrível a de começar uma nova vida! Depois de carregar todas as caixas e tralhas para dentro, você deita no colchão que ainda está embrulhado em plástico e, enquanto descansa, pensa onde colocar suas coisas. Sensação parecida a de quando vem à sua mente uma ideia para um livro ou conto novo e você começa a planejar como escrever.

Os próximos dias, semanas serão de intenso trabalho, desempacotando, limpando, colocando móveis no lugar, limpando, organizando as coisas nos armários, limpando. Isso se você pegou férias no trabalho. Se precisa trabalhar, seus finais de semana deixarão de existir por um ou dois meses. Com prazer você vê sua casa nova ganhando forma. Obervar o desenrolar da sua história, o desenrolar de personagens não é diferente. Aquele móvel não cabe nesta parede, aquele parágrafo fica melhor na página seguinte. Aquele abajur não combina com nada é melhor dar embora, aquele diálogo não tem importância é melhor eliminar.

Casa pronta você chama amigues para um almoço. Mostra a casa, abre os armários novos da cozinha. E começam os palpites.

Por que você não coloca o fogão do lado da pia no lugar do aparador?

Se você mudar a cama para o lado que bate sol, evitaria problemas de ácaros no colchão, sabia?

As paredes da sala, você podia pintar de bege?

A não ser que você seja uma pessoa muito teimosa rejeitará todos os conselhos que lhe derem. Afinal, é prático ter o fogão ao lado da pia. Colchões e travesseiros precisam tomar sol de vez em quando. Bege, bege não, ninguém merece. Seus amigos são os leitores betas, aqueles que dão palpites de como melhorar seu texto.

Entrou um dinheiro extra, férias, 13o. Vamos reformar a casa para ficar nos trinques. Você contratara uma arquiteta, é caro, mas vale a pena, ela fará você economizar um bom dinheiro na reforma, talvez mais do que os 5 ou 10% que normalmente cobra. Esta é a função da leitura crítica. Especialista que analisará o ambiente em que se passa sua história, avaliará os espaços necessários para cada parte e personagem, se o material tem o volume necessário, principalmente a quem você quer agradar ou fazer se interessar pelo seu livro. Como você gostaria que as pessoas percebessem a história, confortável ou desafiadora, clássica ou conceitual.

Por fim, a decoração. Aquele cantinho que está escuro ganhará um abajur, a parede da sala um quadro novo. Aquele tapete de crochê horroroso será um bom presente para a pessoa que gosta de paredes beges. Revisor-copidesquista, uma pessoa que vale por duas, dará o toque final para que tudo fique lindo.

Você não sai pela rua convidando gente estranha para sua casa nova, chama a primeira arquiteta ou pedreira da lista do Google. Como escolher amigues e profissionais para palpitar o seu livro?

O que esperar da leitura beta?

Primeiro e mais importante. NINGUÉM É OBRIGADE A LER SEU LIVRO.

Segundo, porque ninguém é obrigado a ler seu livro, melhor contar com amigues, pessoas próximas, se possível colegas escritores. Quatro ou cinco leitores betas são interessantes, porque pelo menos dois darão retorno.

Devo estabelecer prazo para leitura?

Se você for escritore com editora e tiver um prazo de entrega não tem como não marcar uma data fixa. Você precisará de tempo também para a leitura crítica e a revisão.

Se não existir um prazo de entrega, estabeleça um prazo flexível, mas limitado, dois a três meses para um livro, duas a três semanas para um conto. Você pode perguntar se não é muito tempo. Não, porque leitores betas tem outras coisas para fazer e estão fazendo um favor, então seja paciente.

Como cobrar a leitura beta dos meus amigues?

Com muita educação e gentileza, sendo direto e curto na formulação. Não deixe as pessoas desconfortáveis com explicações detalhadas do motivo de precisar com urgência saber o que pensam sobre a “obra prima” que escreveu. Cobre duas vezes no máximo e esqueça, seu amigue teve outras coisa para fazer, não foi desta vez que poderá te ajudar, agradeça a oferta mesmo assim porque NINGUÉM É OBRIGADO A LER SEU LIVRO.

O que esperar de uma leitura beta?

Há betas revisores, que apontarão erros gramaticais e de sintaxe além de fazer uma avaliação breve do seu trabalho.

Há betas comentaristas, que criarão balões de comentários a cada parágrafo.

Há betas resenhistas, que farão uma resenha do livro/conto com introdução, dois parágrafos e conclusão.

Há betas leitores críticos, que analisarão as falhas e farão um resumão das possíveis mudanças.

Há betas concises, escreverão um parágrafo sobre o que acharam e só.

E misturades, beta que revisa e critica, beta que faz resenha e análise etc.

Qual o melhor? TODOS.

Nesta fase é bom ter quantos palpites conseguir, betas com diferentes abordagens ajudam ainda mais. Se precisar de avaliações extras, pois não sentiu que foram suficientes, procure por novos betas.

Agradeça muito, sempre, porque NINGUÉM É OBRIGADO A LER SEU LIVRO E GOSTAR.

Como seguir as sugestões

Antes de rejeitar um palpite que você não gostou, pense bem, reflita, reescreva. Se não gosta de parede da sala bege, não pinte.

Por último, ofereça para retribuir o favor lendo o texto de amigues.

Como escolher Análise Crítica e Revisão

Primeiro. Leitura crítica é um serviço pago, então pode ser cobrado dentro do prazo. A data da entrega do relatório deve ser discutida entre as partes.

Uma boa forma de encontrar ajuda profissional é pedir indicações de amigues escritores e perguntar como foi a resposta recebida.

Cada profissional tem seu jeito. Um relatório geral faz parte do serviço, às vezes detalhado por tópicos como estrutura narrativa, personagens etc., outras a preferência é por incluir estas observações como comentários dentro do texto.

Envie para o revisor uma cópia do arquivo, o bom revisor nunca altera o seu texto, ele faz marcações como letras em cores diferentes e tachados para apontar falhas e sugerir mudanças. Não corrija no texto revisado, faça também uma cópia com a revisão e passe a limpo.  

Evite profissionais não-profissionais, que não tenham carreira na área, ou formação, há muitos charlatões infelizmente. Como aquele prime decoradore que resolveu fazer um curso de decoração no youtube e agora cobra para dar palpites não muito diferentes do tapete bege.

Pesquise, pergunte, afinal é o seu dinheiro.

Mais sobre leitura crítica e revisão nestes links:

http://talesgubes.com/como-fazer-revisao-um-texto-1/

https://www.wattpad.com/188142087-quero-ser-escritor-20-o-rascunho-1-revis%C3%A3o-e

https://www.wattpad.com/193587897-quero-ser-escritor-21-rascunho-2-leitura-cr%C3%ADtica

As pessoas não entendem o que escrevo então f$¨*-%#

Por que ter trabalho e dor de cabeça com leitores betas, revisores, leitores? Se apresentar para as editoras e for aceite elas cuidarão desta parte. Você decidiu se autopublicar, portanto quando o livro for lido e resenhado receberá sugestões para melhorar e pode publicar uma segunda edição, enquanto isso ganha dinheiro, não gasta.

1- Para ser escolhido por uma editora que pague pelo seu texto(*), ele precisa se destacar e muito, porque a concorrência é grande, além de outros profissionais de qualidade, a aspirante ainda enfrenta escritores com QI, youtubers etc.

2 – O mercado editorial brasileiro é pequeno e você pode acabar se queimando com os agentes literários por causa da falta de cuidado.

3 – Há um mar de blogueiros e vlogueiros literários, os que têm mais acessos cobram caro, dinheiro, além de marcadores e livros. E se o retorno for negativo? Como fará para se recuperar emocionalmente das críticas.

4 – Auto publicação não é desmérito, mas o cuidado deve ser redobrado, já que não terá um editor por perto para aconselhar.

(*) O contrário não é decente, ninguém deve pagar para editoras, editoras pagam ao autor não o contrário, as Vanity Presses são só gráficas que fazem uso de corretor automático.  Link de um podcast muito esperto que fará aspirante a escritore ficar esperte também.

http://leitorcabuloso.com.br/2016/09/cabulosocast-179-as-armadilhas-editoriais/

Não precisa chorar, não foi de propósito

Não leve o trabalho dos profissionais para o lado pessoal, seja tão profissional quanto eles, analise as sugestões e dicas e faça as mudanças necessárias para melhorar seu texto. Tire proveito do dinheiro gasto. Se necessário deixe derrubar a parede e faça uma nova, lide com o entulho.

PAGOU PARA OUVIR CRÍTICAS, AGUENTA FIRME.

Ao fim de muito trabalho e caçambas de tijolos e azulejos, sua casa ficou perfeita, do jeito que você sempre sonhou. Seu livro ficou uma maravilha e não há cartão de crédito que pague pela sensação de um trabalho bem feito.
PS.: Agradeço de joelhos todas as críticas que recebi de amigues betas e críticos. Sem elas eu não seria a escritora que sou hoje, não teria a coragem para realizar um sonho de infância às vésperas do outono de minha vida.

 

 

Bienal 2017 – A Trilha da Fantasia

Visitar a Bienal e conseguir ver tudo, selecionar um bom livro ou HQ, e gastar o que está dentro do orçamento é tarefa quase impossível. Achar as editoras bacanas, com livros e HQs legais de Fantasia, Ficção Científica e Terror consome tempo e pernas. Então resolvi fazer uma listinha de editoras, dar umas dicas de livros que podem ser encontrados por lá e comprados sem susto. Assim quando bater a culpa porque o dinheiro já era, pelo menos o leitor se sinta satisfeito com suas escolhas.

Só nacionais, os estrangeiros tem um departamento de marketing inteirinho para eles, os autores lusófonos precisam ralar muito para se sobressair no mercado.

– Ah! Mas não tem a mesma qualidade.

Só diz isso quem nunca leu um lusófono de Fantasia/FC/Terror bem escrito, bem editado, surpreendente. Se a Europa e os EUA estão interessados no que produzimos no Brasil, com nosso tempero, por que nós, que temos os livros ao nosso alcance e na nossa língua, não nos interessaríamos?

Não pensem que é fácil para as editoras valorizarem os nacionais. Os estrangeiros chegam pagos ao Brasil, os nacionais necessitam investimentos gigantes em marketing. Além de sorte para render ou pelo menos pagar-se. A grande maioria dos editores das independentes são apaixonados pelo que fazem, lutam para continuar no mercado e zerar as contas no fim do mês e então publicar bons trabalhos nacionais. Sem estes editores os HQs e livros dos autores brasileiros ficariam para sempre perdidos, seja na gaveta ou nas intermináveis listas das plataformas de e-book. Eles  fazem uma peneira rigorosa para oferecer ao seu público livros e HQs de qualidade. Sim, já li coisa ruim estrangeira, traduzida e publicada no Brasil como se fosse o último biscoito mofado do pacote que só a tradução salvou do completo desastre.

Tem uma vantagem monstro para quem visita os estandes dos nacionais. Ter um contato direto com o autor, receber marcadores e brindes, tirar selfies e, porque somos brasileiros, ganhar um abraço e uns beijinhos. Conversar sobre o universo, saber da continuação das séries etc. Impossível com os paparicados autores internacionais. Consegue imaginar George R.R. Martin trocando beijinhos e falando da continuação de As Crônicas (Uma Canção) de Gelo e Fogo?

Para prestigiar estes editores valentes e suas editoras independentes comece a Trilha no Pavilhão Verde.

  1. Siga as setas e pare nos estandes marcados com um X
  2. Converse com os autores e editores
  3. Selecione o livro
  4. Descubra um mundo novo   

 

Trilha Beinal 2017

 

Lista dos expositores com livros legais de Fantasia, Ficção Científica e Terror e de alguns livros que recomendo, tem muita coisa bacana além dos títulos que citei, vale a visita. 

Pode ser que alguém não concorde com o gênero atribuídos aos livros, mas tentei resumir usando o gênero e no máximo em três palavras, querendo saber mais sobre o livro é só acessar o site das editoras nos links.

PAVILHÃO VERDE

Devir L14

Devir é editora e distribuidora de HQs, RPG e jogos de tabuleiro

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A Bandeira do Elefante e da Arara – Fantasia heróica com folclore nacional –

Christopher Kastensmidt (embora ele seja americano, reside há 15 anos em Porto Alegre)

Shimandur – Fantasia com São Paulo como pano de fundo – Caio Alexandre Bezarias

Mistério de Deus – Terror com toques de realidade no Brasil de 1991 – Roberto de Souza Causo.

http://devir.com.br/

Jambô – M18

Editora de HQs, games e livros de fantasia

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Crônicas das Tormentas – série de coletâneas de fantasia organizada por J. M. Trevisan com grandes nomes da fantasia nacional como Raphael Draccon, Leonel Caldela, Eduardo Spohr, Rogério Saladino etc.

O Inimigo do Mundo – fantasia épica – Leonel Caldela

Passagem Para a Escuridão – fantasia grimdark – Danilo Sarcinelli

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Ich – fantasia e terror – HQ ambientada na América do Sul – Luciano Saracino, Ariel Olivetti

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço – ficção científica nonsense – Germana Vianna

http://jamboeditora.com.br/

Draco – M13

Só publica nacional, HQs e livros de fantasia, ficção científica e terror com qualidade.

Octopusgarden – Space Ópera Erótica – Gerson Lodi Ribeiro um dos mestres do FC nacional

Magos – 3a. coletânea de fantasia organizada pela Ana Lúcia Merege, as outras são Excalibur e Medieval

O Infinito no Meio – literatura fantástica – Priscilla Matsumoto

Space Ópera – HQ – coletânea de histórias sobre disputas espaciais.

Tempos de Sangue – Eduardo Kasse – Fantasia – 5 volumes sobre imortais e idade média.

http://editoradraco.com/

Chiado – M05

Especializada em autorxs portugueses e brasileiros

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O Labirinto dos Sonhos – Fantasia – Ema Machado

https://www.chiadoeditora.com/editora

Giz- P04

Resultado de imagemResultado de imagem para kaori giulia moonImagem relacionada

Outra editora que investe bastante no nacional

Cira e o Velho – Fantasia Histórica no Brasil – Walter Tierno

Kaori – Fantasia Nipo brasileira – Giulia Moon

A Torre Acima do Véu – Ficção Científica Distópica – Roberta Spindler

http://www.gizeditorial.com.br/

Avec – Na Aquário CL07 e New Order M19

A Avec não tem estande na Bienal este ano, mas é possível encontrar os livros e quadrinhos da editora nos estandes da Aquário e da New Order

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Le Chevalier – HQ – Stempunk – A.Z. Cordenonsi, Fred Rubim

Guanabara Real – A Alcova da Morte – Steampunk – Enéas Tavares, Nikelen Witter, A. Z. Cordenonsi

Filhos da Lua (série) – O Legado – Marcela Rossetti

PAVILHÃO AZUL

Cia das Letras – G13

Resultado de imagem para Ninguém Nasce Herói

Ninguém Nasce Herói – Ficção Científica – Erick Novello

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=55121

Rocco G17

Resultado de imagem para As Águas Vivas não sabem de so

As Águas Vivas Não Sabem de Si –  Ficção Científica/Fantástica – Aline Valek 

https://www.rocco.com.br/o-som-em-as-aguas-vivas-nao-sabem-de-si/

Gutemberg – G 26

Resultado de imagem para Série Anomalos

Série Anomalos – Distopia Jovem Adulto – Bárbara Morais

https://grupoautentica.com.br/gutenberg/livros/a-ilha-dos-dissidentes/951

Record – E09

Resultado de imagem para Série Filhos do Éden

Filhos do Éden – Fantasia – Eduardo Spohr

http://www.record.com.br/colecoes_colecao.asp?id_colecao=217

 

Lógico que não precisa seguir a risca as estrelinhas, existem outros livros e editoras legais, senti muito por ter que deixar de lado alguns dos colegas escritores em razão da concisão. Ou por que a editora trabalha por demanda e neste artigo quis valorizar as editoras que investem no autor, afinal como disse Neil Gaiman: o dinheiro tem que fluir na direção do autor, não o contrário. Aceito sugestões para melhorar a trilha nos comentários.

 

Micro Contos – Como e Porque Escrever

flash-fiction

O que são e o que não são Micro Contos

Micro contos são narrativas muito curtas, com 300 palavras ou menos, que trazem uma história total, não parcial. Não são muito populares no Brasil, nem mesmo tem valor comercial. Então por que nós, escritores brasileiros, deveriamos perder tempo escrevendo micro contos?

Primeiro porque para o escritor qualquer forma de escrita é válida. De haicais à sagas em “n” volumes.

Escrever micro contos permite ao autor avaliar o que é importante na prosa. Trabalhar o vocabulário e escolher as palavras mais adequadas. Cortar  redundâncias e tudo o que não é essencial. O autor fica afiado na hora de escrever narrativas longas. Além do que é uma forma de arte com as palavras, um modo divertido ou profundo de contar histórias.

Precisamos saber, no entanto, o que um micro conto NÃO é: um resumo de uma história ou uma parte isolada de uma narrativa maior. Pensamentos aleatórios ou reflexões, cenários desconexos ou piadas. Ações sem contexto não são micro contos. Recortes dentro de uma narrativa maior não são micro contos.

Micro Contos são narrativas completas e como tal necessitam de enredo, elementos do arco narrativo (reviravolta, flash backs, repetições, conflitos etc.), personagens, local, tempo.

Dois micro contos e seus elementos narrativos

Assim como o conto tradicional, a linha narrativa é melhor desenvolvida se baseada em no máximo três personagens e a trama contenha elementos simples e facilmente reconhecíveis.

Acerto de Contas – Lydia Davis (considerada uma das melhores escritoras contemporâneas de narrativa curta)

 “O fato de ele não me dizer sempre a verdade faz duvidar da verdade do que ele às vezes me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não para de me dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

Personagens – duas pessoas num relacionamento

Arco – estabelece a dúvida sobre o que ouve do parceiro, faz uma busca para descobrir o que é verdade, termina por convencer-se que ele às vezes não diz mentiras.

Elementos narrativos – flash back, reviravolta, conflito, repetição

Tempo – ao longo do relacionamento.

Arquíloco – séc. VII a.C.

Algum saio (guerreiro da tribo inimiga) do escudo se orgulha. Sem querer abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se: conseguirei outro igual.

Personagens – Arquíloco e o saio

Arco – perdeu o escudo, salvou a própria vida, eliminou o arrependimento

Elementos narrativos – flash back, suspense, conflito, repetição

Tempo – durante uma batalha

Local – no campo de batalha

Dicas para escrever micro contos

  1. Mostre não conte, este conselho essencial para qualquer narrativa, deve ser seguido à risca para as narrativas curtas.
  2. Atenha-se ao que faz uma narrativa interessante, conflito, cenário, atmosfera, personagens, enredo
  3. Escreva e reescreva sua história diversas vezes, quantas forem necessárias, até que ela só mostre o essencial.
  4. Comece pelo meio, pela parte mais importante ou mais emocionante. Forneça uma guia da história ao leitor.
  5. Escolha o melhor título possível, ele fará parte da narrativa
  6. Deixe um questionamento na última linha que conduza o leitor a reler o conto para entender a mensagem. Ou seja, leve o leitor por um caminho e o empurre para outro.
  7. Coloque a conclusão no meio da história.

Neste link, Lydia Davi conta sobre seu processo criativo e mostra como um dos seus contos foi escrito. Do rascunho ao final.

 

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/07/lydia-daviss-very-short-stories/372286/

Marcadores Neutros de Gênero – x, e, @, i, u – Considerações sobre o uso

O uso de indicadores neutros  x, e, @, i, u de gênero  não é um assunto novo lá fora. Aqui é um pouco mais recente. Não vou falar das polêmicas, problematizar não é o objetivo, o texto traça algumas considerações sobre o como fazer e a parte prática deste fazer. A transformação da linguagem se dá mais pelo uso do que por decreto ou por força. O importante é que a língua muda, quer se aceite ou não. O nascimento do italiano moderno, por exemplo, está ligado à popularidade da A Divina Comédia, que foi escrita em uma das muitas línguas da região, não em latim como era comum.  A língua já fazia parte do povo, era ouvida nas ruas, nas casas, nos órgãos administrativos. Dante não mudou a língua, só colocou no papel o que já existia, solidificou o uso.

A subversão é importante, mas não determinante. O subversivo causa um ferida, resta saber se esta ferida é profunda para formar uma cicatriz permanente. Até que ponto vai a nossa ambição em modificar o que é popularmente aceito sem causar uma sangria irreversível entre o acadêmico/popular e a expressão da igualdade de gêneros? Queremos matar a nossa esperança ou construir uma nova identidade? O esperanto morreu na sua ambição de se tornar uma língua comum, justamente porque não se preocupou com fatores culturais e sociais de identidade dos povos e a importância da linguagem na representação desta identidade.

O Português e o sentido intrínseco do marcador de gênero

A língua portuguesa determina geralmente o feminino e o masculino pelo uso das vogais a e o, respectivamente. Tudo tem gênero. A casa, o carro, o tomate, a batata. Animismo que algema as expressões não binárias. Os marcadores de gênero nos adjetivos, bonita, bonito, desiludido, desiludida ainda podem ser acrescidos de seu esteriótipo.

Generosa – mulher boa, doadora, humilde, provavelmente religiosa e submissa a algum preceito de caráter conservador.

Generoso – homem bom, desapegado, honesto, provavelmente rico que dedica os fins de semana para fazer o bem ao próximo, porque durante a semana trabalha para acumular bens.

Uma atitude generosa nos parece corriqueira, acontecida no dia a dia.

Um ato generoso tem força, exigiu do protagonista desprendimento do ego.

Quantas vezes os escritores preferem usar ato generoso para demonstrar a importância do gesto sem perceber que reforçam esteriótipo de gênero?

Portanto quando usamos um marcador de gênero num objeto, ação ou pessoa estamos ao mesmo tempo reforçando padrões culturalmente aceitos como norma de que a mulher é fraca e o homem é forte. Mas como disse no início, não é o objetivo deste artigo. O objetivo é buscar ideias para a representação não binária.

Marcadores – e, x, i, @, u e seu uso prático

Algumas considerações permeiam todas as classes de palavras, pronomes, adjetivos, substantivos e artigos.

Pronomes – ele, dele, seu, sua, aquela, aquele etc…

E – ele, dele, seu ou sue – A presença do e como partícula masculina nestes pronomes nos impede de usar este marcador como neutro/não binário.

X – elx, delx – quando falamos acrescentamos uma vogal ao final da palavra quando ela termina em consoante, o anglicismo na frase me add no seu facebook se transforma em |me ade no seu facebuque|. Mudamos o som final do l em u, do m em ão. Ao pronunciar o x em elx, delx, aquelx, acrescentaremos vogais ao sons |cs| ou |∫| (símbolo fonético para o som ch): elecs, delecs, elechi, delechi. Impossível com seu e sua – sex, sux!!!! Sem falar da questão dos áudio books e leituras sonoras por aplicativos para cegos, analfabetos, disléxicos etc.

@ – é um novo sinal, atual, moderno, pouco prático sonoramente, seria o mesmo que usar o a ao invés do e. Por que não? Seria uma atitude política, de afirmação mais do que uma atitude prática que conduzisse a uma mudança que fosse aceita por todos a longo prazo. A primeira alteração seria gráfica, um símbolo novo @ no nosso alfabeto. A segunda sonora. Qual sonora? |a|, |at|?

I – eli, deli – dependendo do país e região em que se vive, os sons não diferem em relação ao e. Siu ou sui são similares às onomatopeias de sussurros, alívios, chamadas.

U – elu, delu – em tese parece o mais adequado, na prática ele esbarra na falta de costume com a sonoridade do |u|, vogal menos usada em português. Podemos pensar que eu termina em u e portanto faria todo o sentido usar elu tanto para ele quanto para ela. Seu e sua conservariam o s e o u, su, eliminando tanto o e quanto o a. No entanto, a som |u| é usado para palavras que terminam em o e são masculinas na maioria dos sotaques: pato – |patu|, atrasado |atrasadu|.

Adjetivos e Substantivos

Tendo o que foi dito sobre o uso dos marcadores nos pronomes, as questões do uso do X, I, @ para adjetivos seriam similares. O x e a exclusão de grupos de pessoas. O i e a similaridade com o som do e, o @ e a complexidade de introdução de dois novos conceitos ao invés de um.

E –  usado para designar tanto palavras masculinas quanto femininas, o tomate, o embate, a manchete, a tempestade. A adaptação para o uso desta terminação com substantivos e adjetivos é simples e próxima ao uso que já fazemos do e para complementar o som de consoantes “solitárias” no final e no meio da palavra.

U – como dizemos o |i| é falado no lugar do e, em muitos sotaques, tapete |tapeti| e assim acontece o mesmo com o |u|,  em relação ao o, barco |barcu|, o que jogaria todos os adjetivos e substantivos com a terminação u como masculinos.

Artigos O, A

@ – neste caso específico do artigo, este símbolo tem um quê de unificador o a envolvido pelo o, no entanto esbarramos no problema da dupla complexidade de introdução. A aparência do símbolo também remete mais à androginia do que a não binaridade.

E – analisando o uso que fazemos do e como onomatopeia para chamar a atenção de alguém ou pausar a sentença para pensar sobre o que estamos falando, parece uma solução simples usá-lo também como substitui do a e o.- Ê, fulane, vem aqui! – Estava em casa eeeeeeee não estava na escola quando recebi a mensagem. Porém, e é uma partícula de ligação, o que poderia confundir o leitor ou ouvinte. Será uma continuação do que se fala ou não? Precisaremos exercitar a contextualização.

Exemplos de uso

Irei utilizar o u e o como marcadores para exemplo. Alguns vícios de linguagem são inevitáveis com o uso de marcadores:

Ambiguidade:

Rani e Kieran estavam conversando quando de repente elu pegou o cavalo delu e fugiu. Elu ficou surpreso com o roubo.

Quem fugiu? Com e cavale de quem? Quem ficou surpreso?

Repetição:

Rani e Kieran estavam conversando quando Kieran pegou e cavale de Rani e fugiu. Rani ficou surprese.

Um texto com excesso de repetição se torna cansativo e desestimula a leitura.

Há a questão da própria sonoridade do texto, quem escreve trabalha com símbolos no papel, mas quem lê transforma estes símbolos em sons. Por isso ler o texto em voz alta é um dos conselhos dados aos escritores iniciantes para avaliação do próprio texto. Como avaliar sonoramente um texto se não podemos lê-lo?

 Rani e Kieran estavam conversando enquanto Anna carregava @ arma. De repente Kieran pegou @ cavalo de Rani e fugiu. Rani ficou surpres@ com @ atitud@ d@ menin@. 

A quem se refere o menin@? A Kieran ou Rani?

Marcadores e Representatividade

Rani estava conversando com Kieran quando de repente estu fugiu com o cavalo daquelu. Aquelu ficou surprese.

Além do exemplo acima ter ficado horrível em todos os sentidos. Por nossa memória semântica concluiremos que os dois personagens são de gênero masculino. Pode não ser importante para a trama e pode ser importante se estamos buscando uma literatura representativa. Rani é a personagem do livro O Sino de Rani de Jim Anotsu, uma menina negra. Kieran é o personagem da série Castelo das Águias da Ana Lúcia Merege, um professor.

Num curso para debater a escrita quir  (de queer – peço desculpas a quem não gosta de anglicismo, prefiro o termo por ser abrangente) produzimos textos sem marcadores. Não mencionamos gênero, cor, sexualidade. A classe  era diversa: cis, trans, homos, héteros, não binários, bissexuais, negros, brancos e índios etc.Conseguimos produzir bons textos e colocar as características dos personagens nas entrelinhas. A conclusão sobre o que os textos nos diziam da posição de leitores foi no mínimo triste. Até que as entrelinhas se tornassem claras para os leitores, quase todos imaginaram os personagens como brancos/héteros/masculinos. Não há representatividade ou igualdade na anulação das características dos personagens. Não vivemos uma utopia social e cultural onde todos são iguais. E se queremos que o leitor comum veja esta representatividade e que ela um dia chegue a ser considerada a norma cultural e social precisamos deixar claro de quem falamos.

Para escrever sobre um personagem das minorias precisamos pensar como um personagem de minoria e valorizar as características que representam esta minoria no personagem.

Minhas escolhas (que não precisam ser as suas)

De dois anos para cá tenho buscado algumas soluções. Não dispenso o gênero do personagem se é importante. Quanto aos adjetivos uso o e para fugir da conotação do a e do e. Se vou escrever sobre um personagem assexuado ou não binário procuro soluções de marcadores que passem esta definição. Quando faço um estudo de personagem, penso em como ele gostaria de ser identificado e escolho a representação mais adequada. Não uso marcadores, ou uso e u para os personagens em que o gênero não tem relevância alguma, são figurantes. De qualquer forma não sigo uma regra. Existem mais cores no espectro do arco íris do que sete. Posso estar enganada quanto as escolhas, por isso fico de ouvidos e olhos atentos às palavras de amigues.

Rani e Kieran conversavam. Repentinamente e para surpresa de Kieran, Rani arrancou as rédeas do cavalo de suas mãos e saiu em disparada.

Não é fácil escrever uma história que seja clara, interessante, tenha uma estética própria e personagens com características marcantes. Pensar cada parágrafo dentro de seu próprio contexto e em relação aos anteriores e posteriores. Para não falar do cuidado ortográfico e semântico. O escritor que busca sempre aprimorar-se tem mais um desafio. Adequar seu trabalho ao tempo em que vive.

Para quem gosta de escrever. Este é um momento único. O momento em que o problema que se apresenta é universal, não é particular de uma determinada língua. Quantas possibilidades para pensar e elaborar! Quantas ideias para trocar! Ninguém criou uma fórmula ainda. Somos nós participando deste momento e tendo liberdade para colaborar com uma mudança importante no modo como nos comunicamos.