Reino Sem Fim – RPG e ficção escrita – Dicas para o escritor iniciante 24

RPG

O RPG inspira jovens jogadores a se aventurarem como escritores, através da fantasia das sagas criadas pelos games, com seus personagens ricos e coloridos e inúmeras possibilidades de cenários. Ótimo começo, mas só um começo. Estes jovens raciocinam mais ou menos desta forma:

“Fazendo uma continha de 2 + 2, onde o primeiro 2 são os personagens e o segundo 2 é o cenário, vamos ter um resultado de 4, ou seja se eu tenho cenário e personagens eu tenho um livro, basta escrever uma trama onde eu possa mostrar os poderes dos meus personagens e a maravilha do meu cenário. Tão fácil como 2 + 2.”

Não funciona assim, infelizmente, um livro não é um manual de informações sobre personagens, nem a trama de uma história baseia-se só no seu cenário.

Sentindo-se capazes pelas horas a fio de RPG, pelo mestrar e o rolar de dados, imaginam a história no mesmo formato. Quando colocam suas ideias no papel costumam usar o mesmo plano do manual, descrevem seus personagens e habilidades por um capítulo a fio, usam dois ou três capítulos para falar do “reino/mundo”, o cenário, onde se passa a trama. As vezes dividem os capítulos iniciais do livro entre estas duas descrições antes de incluir os personagens na trama ou mesmo mostrar ao que eles vieram. Confundem definição e construção com dissertação e fazem uma lista de atribuições físicas, poderes, capacidades, letalidade das armas e poções, deliram sobre a simbologia de uma única tatuagem por exemplo.

 “Turmond era alto e tinha os ombros retos e musculosos, cabelos negros e longos e olhos profundos que denotavam sua coragem e força. Possuía quatro escudos, e quatro espadas cada um representando um dos elementos da natureza, o escudo para a batalha contra a água era ornamentado com uma anaconda e o fulgor da luz nos sulcos do desenho refletia o rio que ele teria que dominar se quisesse atingir o maior grau de poder. A espada da terra era feita de cobre e blá,blá,blá”, e assim por diante para cada arma e peça de roupa, do que é feita, quando deve ser usada etc.

Parágrafos e parágrafos para descrever personagens e/ou cenários. Difícil criar expectativa sobre a trama, empatia com o personagem e entender sobre o que é o livro.

Nem toda a característica física ou psicológica do personagem precisa ser definida com uma descrição. Pode ser feita de forma indireta através dos olhos de outros personagens, de uma situação em que o personagem se mostre alto ou baixo, forte ou fraco, corajoso ou esperto. Através dos diálogos, do apelido etc. O personagem irá viver por palavras escritas numa folha de papel, não por imagem ou sensação. Ele ganha vida quando mostramos que ele reage como nós reagimos, não quando mostra seus poderes sobrenaturais. Vamos ver o Tormund novamente.

“Depois da noite mal dormida – a cama da estalagem era muito pequena. Tormund se prepara para a batalha que o aguarda assim que passar pelo portão sul. Pura rotina diária, para esse mercenário, bastava escolher o escudo e a espada certa, calçar as botas que o terreno pedisse e partir para decepar cabeças, braços e pernas, sem dó, sem misericórdia. O que não entendia é por que neste dia sentia-se tão cansado de tudo isso?”

Veja bem, você sabe que Tormund é alto, porque a cama da estalagem era pequena para ele, e ele é como eu ou você, que tem noites mal dormidas. Sabe-se que ele é forte, porque ele decepa partes de corpos, sabe-se que ele tem várias armas porque ele escolhe aquela que usará. Sabe-se também que ele já lutou muito, tanto que está até entediado, não lhe falta coragem. Quanto às características das armas deixe para quando a batalha chegar.

Mostre, evoque seu personagem, faça-o viver a cada linha, não informe que ele é isso ou aquilo sem demonstrar. (sobre a diferença entre Mostrar e Contar irei publicar um post em breve)

O cenário não é outro personagem do livro, ele é um pano de fundo, sua função é refletir a história e os humores de seus protagonistas. O sino de um campanário pode parecer doce a quem sonha com um casamento ou torturante para quem está de ressaca. Um castelo pode ser sombrio quando residência do mal e cheio de energia quando guarda uma relíquia mágica. Ele não está lá só para oferecer um obstáculo ao protagonista, ele é a moldura da trama. Uma taberna que se chama Covil dos Ogros tem que ter algo além do que só ogros horrendos bebendo cerveja.

“Tormund deixou o escudo de terra, aquele que precisaria para derrotar os homens de areia, com Barl, “amigos” ogros são inconstantes, não devia ter feito isso, mas estava bêbado e foi muita sorte ter se lembrado com quem deixara a arma. Desceu a rua até o “Covil dos Ogros”, lugar escuro, úmido, cheirando a carne podre e imbecilidade. A placa na entrada anunciava o descaso, pendia pendurada por um único gancho enferrujado, o chão nunca vira nada além de cusparadas, nacos de charque, vinho derramado e desprezo. Barl jogava Trim com seus “amigos”. Trim era um jogo de dados, para cada derrota um pouco de sangue do adversário, o escudo de Tormund apoiava as facas usadas para lacerar o perdedor.” 

É importante que seu personagem tenha sido definido previamente, que ele viva dentro da sua imaginação, que suas características sejam sempre lembradas para que ele tenha coerência. Seu personagem cria empatia à medida que ele pareça real e apresente reações coerentes com a trama. Um personagem de um livro não é um boneco, uma peça num tabuleiro, é alguém que ganhará vida para você para o seu leitor.

Evitando os clichês

Outra coisa que acontece com os escritores “rpgísticos” é o excesso de adjetivos, as redundâncias, os pleonasmos, típico das traduções descuidadas do inglês para o português. São línguas diferentes, com diferentes usos das palavras. Leia muito, boa literatura, clássicos nacionais, use um dicionário para saber se não está abusando da mesma coisa. Cuidado com os gerúndios.

Estas sentenças estavam em duas páginas de um livro:

“Um forte facho de luz que cegou-o” – luz que cega, típico.

“Barulho ensurdecedor” – além de cego, ficou surdo, coitado.

“A porta se abriu com um rangido metálico” – melhor seria: a porta metálica rangeu ao se abrir.

“Estrutura corpórea avantajada” – sem comentários.

“Explosão ensurdecedora” – o cara já estava surdo, ficou ainda mais.

“Meneou a cabeça numa expressão desaprovadora” – melhor seria: desaprovou balançando a cabeça.

Há várias outras expressões clichês comuns no mundo do RPG, fiquem atentos e façam uso de seu  próprio brilho sem depender delas e seja bem vindo ao reino dos escritores.

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About claudiadu

Sou professora e escritora. Gosto de ler e escrever Ficção Científica e Fantasia. O resto é bobagem. Livros: O Caminho do Príncipe Matando Gigantes Um Pequeno Livro de Poemas, 70% Água Na Taverna do Capitão Destroços Contos do Mimeógrafo Noveletas: IICO Contos publicados: Gente é Tão Bom - Trasgo no. 1 O Tesouro de Nossa Senhora dos Condenados, Coletânea Piratas - Editora Catavento Lolipop, Coletânea Boy's Love - Editora Draco Monsuta - Shi, Coletânea Dragões - Draco Encaixotando Nina - Cobaias de Lázaro Invasão de Corpos - co autoria, Cobaias de Lázaro Seduzindo Oliver - co-autoria, Cobaias de Lázaro A Princesa no Escafandro Cor-de-Rosa - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco Extensão - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco A sair em breve: Retrônicos, coletânea - editoração e conto O Menino Jaguar e o Escudo do Sol - Trasgo 10

Posted on September 26, 2014, in Dicas Para Escritores Iniciantes and tagged , , , , . Bookmark the permalink. 1 Comment.

  1. Post excelente, estou na exata situação que vc mencionou no começo do texto, me aventurando como escritor e esse tipo de conselho ajuda muuuito, pois nem sempre a gente consegue racionalizar o que é bom ou ruim em algo que gosta ou não.

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