Monthly Archives: October 2014

Coisas que gostei em “Alameda dos Pesadelos” de Karen Alvares – Ed. Catavento

 

Alameda

Comparar livros a  coisas que agucem os sentidos como bebidas ou comidas é uma boa forma de transmitir o que sentimos ao lê-lo: vinhos, perfumes, a brisa do mar na pele.

O perfume da pessoa que amamos que resiste naquela peça de roupa e usamos para recordá-la. A folha de cheiro estranho, nem tempero, nem jasmim. O iogurte com geleia de fruta no fundo que comemos de uma vez para chegar ao docinho do final, em Alameda dos Pesadelos esse docinho talvez seja a folha de cheiro estranho ou a peça de roupa de cujo perfume só restou o de guardado.

O que vai te encontrar na Alameda dos Pesadelos são sentimentos misturados, recordações doloridas, constatações incômodas e doces revelações.

Devorei o livro em 4 dias, não lia assim tão avidamente desde o best-seller de Rafael Montes “Dias Perfeitos”, com quem gostaria de comparar o livro de Karen Alvares, os dois se completam, o que falta em um (no bom sentido) sobra no outro, mas não é esse o caso, talvez eu faça um infográfico, quando aprender a fazer um.

A história é tensa e emocionante, a linguagem de Karen Álvares é moderna e vívida. A cidade de São Paulo é o cenário desta história, no que ela tem de opressiva e caótica: o tráfego, as multidões, a correria do trabalho, moldura perfeita para a saga da protagonista Vivian e suas tribulações solitárias. Tudo no livro remete a esta solidão de alma que Vivian carrega, mesmo na companhia do atencioso pai ou quando consegue alguns momentos com o filho depois da longa jornada de trabalho. Tudo no dia a dia de Vivian é doloroso e arrastado. Impossível não gerar empatia e torcer para que as coisas deem certo.

O antagonista Gabriel costura as esgarçadas linhas do caminho de Vivian com sua obcessão. Vivian não consegue distinguir se a perseguição de Gabriel é real ou fruto de sua atormentada mente, em consequência a depressão da moça se agrava. No correr das páginas, a autora abandona  o leitor na mesma alameda e o expõe  aos mesmos pesadelos de Vivian.

Quanto ao caráter do suspense. Ao contrário do livro do Rafael, escrito em primeira pessoa, que tem o objetivo de transportar o leitor para a cabeça doentia do protagonista; o leitor espera que seu alvo se salve das garras físicas do seu sequestrador ao final – esse inesperado. No livro de Karen, em terceira pessoa, a catarse leva o leitor a partilhar a busca de Vivian para salvação de si própria.

O que mais gostei no livro de Karen é algo bem pessoal: lembrar de minha mãe e meu pai e de como eles foram importantes na minha vida, principalmente quando decidi criar meu filho sozinha.

 

https://papelepalavras.wordpress.com/author/karenalvares/

http://editoracatavento.com/alameda.html

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Coisas que gostei em “O Castelo das Águias” de Ana Lúcia Merege – Ed. Draco

 

O Castelo

Eu sou uma noob com esta coisa de resenhas.

Não faço resenhas porque só leio o que gosto. Como vou criticar meu próprio gosto?! Muito eclético, diga-se. Se não gosto de algum livro, leio só um pouquinho e pronto, e para ser justa na avaliação teria que ler todo o livro. Na minha idade ninguém me obrigaria a fazer o que não quero. E sou muito dura quando critico de verdade. Ô coisa boa envelhecer! Pode-se dizer o que se pensa, sem medo de parecer ridículo. A idade vai deixando a gente cada vez mais livre, mais curvo, mais feliz, menos conformado.

Então estas linhas não são uma resenha, são pedaços de amor sobre coisas que gostei de ler recentemente. Começarei pelo que li no segundo semestre de 2014, só nacionais, e o primeiro foi  O Castelo das Águias  de Ana Lúcia Merege

 

Mais informações: http://castelodasaguias.blogspot.com.br/ – http://estantemagica.blogspot.com.br/

Este é um livro de brasileira para brasileiros, não se sente o vício de linguagem das traduções mal feitas ou dos manuais de RPG que andam transformando jovens autores em autômatos do clichê e do pleonasmo. Uma obra cuidadosa, as palavras bem colocadas não deixam dúvidas no que se quer dizer ou atrapalham o entendimento do leitor.

Anna de Bryke é uma elfa meia humana, ou vice-versa, que vai ser professora de sagas numa Escola de Magia, o Castelo das Águias, em Vrindavhan, e este é o nome mais complicado do livro, a autora teve a decência de escolher nomes simples e jogar um pouco de pó de magia e pesquisa em cima deles. Nesta escola, Anna conhece o mago Kieran, por quem se apaixona, aos poucos e discretamente, bem ao estilo e tradições da época quase renascentista onde se passa a história, o que achei uma escolha bem feliz.

Lado a lado com o romance existe um conflito político entre duas regiões no mapa deste mundo circular: dividido em quatro partes, como quatro estações, quatro pontos cardeais, quatro modos de vida. Este conflito leva à disputa pelas águias e à possibilidade de transformá-las em máquinas de guerra através da magia. Magia sem referências a Harry Potter, onde os poderes beiram a realidade, nem superficiais, nem super-fantasiosos, dose certa de coerência.

As vezes delicada, as vezes destemida, as decisões que a protagonista tem que tomar são uma alegoria para as primeiras decisões do jovem que começa a encarar a vida adulta, mesmo os de hoje, afinal não mudamos tanto assim. E o livro consegue fazer de Anna a ligação entre todos os personagens, não deixando pontas soltas e garantindo seu protagonismo.

Só gostaria que a autora tivesse explorado um pouco mais as cores, mostrasse melhor este cenário tão colorido, não consegui sentir uma ligação emocional forte ou profunda o suficiente.

E que venha o livro dois “A Ilha dos Ossos”

http://estantemagica.blogspot.com.br/2011/01/arte-do-descarte.html

http://editoradraco.com/2011/04/02/o-castelo-das-aguias-de-ana-lucia-merege-2/