Monthly Archives: December 2013

Ritmo 2 – Parte B – Conjunto, Sequência, Alternância – Dicas Para o Escritor Iniciante 21

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B – Conjunto dos Ingredientes 

Receita de bolo tradicional: 3 xícaras de farinha, 3 de açúcar, 1 de leite, 3 ovos, 1 colher de sopa de fermento, duas colheres de sopa de manteiga ou margarina.

Outras receitas de bolo: existem ‘zilhões’. Tem até bolo sem farinha!

No entanto em qualquer receita que possa ser chamada de bolo temos: uma base (farinha, cenoura, fubá, mandioca etc.), um líquido (leite, óleo, suco, café etc.), um adoçante (açúcar, sacarose, mel etc.), um catalisador (ovos, margarina, óleo, mel etc.)

A questão é juntar os ingredientes de forma que ao final do processo obtenhamos um “bolo”. Não uma panqueca, bolacha, mingau ou tijolo.

Vou tentar fazer um paralelo:

A ideia original ou não (porque isso é o de menos) seria a base. No que todos os conceitos que desenvolveremos ao longo da trama se reportariam.

O líquido são os personagens onde dissolvemos nossas ideias.

O adoçante, o estilo/técnica/qualidade da escrita que dá sabor à história.

Catalisador é a trama propriamente dita, os acontecimentos.

Neste conceito de conjunto a primeira análise tem que ser feita ao tamanho da história para que possamos determinar a quantidade de cada elemento.

Uma ideia principal bem construída solicita a presença de várias sub ideias para que todos os detalhes da história ganhem forma. Qualquer outro elemento que se queira acrescentar vai depender da base que se tem, da capacidade da ideia principal em suportar o acréscimo deste elemento ou da capacidade do escritor de adicionar os outros elementos para que o conjunto se mantenha.

Personagens bem delineados e ajustados ao conjunto permitem que a profusão de ideias e subtramas não criem lacunas ou aglomeração. O leitor será capaz de identificar cada personalidade e perceberá como ela ponteia, costura e determina os rumos da história.

Aquela figura de linguagem usada no momento certo, aquele toque pessoal no ritmo da sentença ou no desenrolar de uma cena, a visão pessoal e particular do mundo contado na história fazem toda a diferença. A história tem aquele sabor que só você pode dar, nem doce de enjoar, nem com gosto de papel.

Uma história mais longa requer uma trama/catalisador mais forte, capaz de fazer com que as várias subtramas se agreguem quando aquecidas pela leitura. Uma sequência de acontecimentos que junte os personagens à ideia com uma estética agradável e única. Por isso acontecimentos fortuitos podem por a perder todo o conjunto.

Manter o foco: prestar atenção na relevância dos acontecimentos para a ideia principal e na personalidade dos personagens durante o desenrolar da trama, tudo isso sem perder a doçura. Nossa! Um esforço e tanto!

Já tem uma ideia? Mãos a obra, junte os ingredientes e faça um bolo.

PS: Antes que alguém pergunte – e o fermento? – o fermento é enfeite, dispensável nos bolos e indispensável nos pães. Mas tá valendo.

https://skynerd.com.br/perfil/Oldynerd/post/921125-quero-ser-escritor-21-ritmo-2-conjunto-sequ%C3%AAncia-altern%C3%A2ncia

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Ritmo 2 – Conjunto, Sequência, Alternância – Dicas Para o Escritor Iniciante 20

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Parte A –

“Minha vida é feita de camadas, umas rocha, outras nada, entre elas, gelatina” C. Dugim

1 – Conjunto do personagens

Estudo recente(*) aponta que nossa capacidade de relacionamento na internet é de no máximo 150 amigos, nosso neocortex não tem capacidade de armazenar informações que sejam relevantes no sentido que a palavra “amigo” sugere (detalhes pessoais e de personalidade) mais que este número podemos chamar de conhecidos casuais ou grupais com os quais podemos ter interação e não intimidade, com outros ainda, nem interagimos, pertencem ao campo das informações sociais adicionais.

Transporte esta amizade e interação para o conjunto dos personagens de um livro. De quantos personagens você consegue guardar informações ao ponto da identificação? Estes formam o conjunto principal.

Com quantos personagens há interação a ponto de inferir contexto? Estes formam o conjunto de interação.

Quantos dão suporte e fornecem corpo à trama? Estes são o grupo amalgama.

A quantidade ou qualidade de detalhes destes personagens tem relação direta com o tamanho da história, tanto físico (quantidade de páginas/capítulos) quanto espaço/temporal (duração da trama e cenário).

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Quanto mais nuclear, mais informações precisaremos: características físicas e de personalidade, interesses, ambições, formação e passado(família, arrependimentos etc.).

Por isso quando nos deparamos com um texto onde um personagem completamente figurativo ganha cores em demasia perdemos a noção do conjunto e o foco na história. Pois nosso cérebro entende que, se este personagem ganhou projeção, ele tem algo mais a oferecer à história e se os personagens forem muitos e a história muito longa, o leitor substituirá um personagem secundário por um figurativo e perderá a concentração. A história parecerá confusa e desinteressante.

Não se trata de uma questão de estilo ou conteúdo, é puramente intelectual, está dentro da nossa capacidade cerebral e de como processamos informações. Personagens secundários e figurativos podem tanto tornar a história mais real e surpreendente quanto tomar o lugar dos principais. O núcleo passa a não existir mais e a história implode sobre si mesma.

Não há impedimentos para que transformemos um personagem secundário, ou mesmo um figurante em principal, mas este deve ser o objetivo do personagem, deve estar dentro do contexto da história e ser conduzido de forma a que o leitor entenda que esta mudança ocorreu de fato. Não foi um capricho do escritor detalhista.

“Como o conteúdo deste capítulo é muito extenso para a entrada original na Skynerd, estou publicando em partinhas”

referência para o 1o. parágrafo –

http://super.abril.com.br/blogs/superblog/cerebro-comporta-no-maximo-150-amigos-diz-estudo/

link para o site original

https://skynerd.com.br/perfil/Oldynerd/post/917633-quero-ser-escritor-20-rimo-2-conjunto-sequ%C3%AAncia-altern%C3%A2ncia

 

Um coco, uma água viva, uma pedra. – NA TABERNA DO CAPITÃO DESTROÇOS

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– Avaste! Uma caneca para este parvalhão e outra para o marujo perneta!

Nunca que queria estar no mar. Voar com as gaivotas, isso sim. Mas deram-lhe um nome mareado: Timbo, pois sua mãe só sabia que o pai era pirata e andava atrás de galeões espanhóis por toda a costa do Caribe e mais ao Sul, onde os navios partem carregados de ouro e voltam transbordando escravos. Timbo conheceu alguns escravos transbordados, postos para afundar com suas grossas correntes ainda presas às pernas, como o negro  ao seu lado: Ogumé. Depois que aprendeu o idioma dos mares, Ogumé contava como um golfinho salvou-lhe a vida.

– Ioho, bobalhão! Como perdeu a perna? Comes-te? Estava apetitosa. – Pergunta o do bigode em voltas recolhendo outra caneca do balcão.

Profusão de risadas desta comunhão entre homens, seguros de si, ateus e sem família, com suas belezas no colo. Tudo era sujo neste canto do mundo, porto sem misericórdia que escondia a escória, a mesma que sustentava o luxo do continente distante, frio e encoberto pelo mal tempo, físico e moral. Janelas pequenas para sombrear ainda mais o que já era escuro, mesas tão batizadas pelas bebidas que quando ao final de seus dias, servissem de lenha, dariam fogueiras altas o suficiente para assar o Paraíso Celeste. Os dois velhos contavam histórias e tinham muitas, tantas quantos os meses que viveram. O taberneiro conhecia todas  de cor e as reproduzia àqueles que vinham procurar e não achavam nem Timbo ou Ogumé.

– Vai contar ou não mandrião! – reclama o cliente.

Nem se requeria tamanho incentivo, os dois velhos lobos viviam de restos e de histórias. Se alguém perguntasse a idade, adernando da sua rotina não mentiriam, mas não seriam acreditados, tão gastos pelo subir e descer das ondas estão, que a caveira do Capitão Destroços, pendurada na entrada da Taberna, parece mais nova do que eles em pelo menos dez anos.

– Se esperte bucaneiro que a madeira desta espelunca vai tremer com a minha história! – grita Ogumé.

Euforia e algazarra, bater de copos, de pés e de pernas de paus. Sem-Dentes recoloca o olho de vidro só para ouvir melhor. Zigue-Zague pede para a beleza voltar mais tarde, não quer perder nenhum detalhe. Piolho coça as feridas da cabeça na esperança de não incomodarem enquanto Ogumé contar a história. E assim um por um dos quase cinquenta que se apinham na taberna, preparam o silêncio e os “ohs” de surpresa ou incredulidade que irão soltar aqui e ali. Alguns já ouviram esta história outras vezes, por viés de causa, são os mais atentos, na certeza de que haverá mais um detalhe, esquecido ou ainda não imaginado.

Ogumé senta no balcão, mão segurando a faca para dar ênfase, copo de rum na outra para lembrar-se de por detalhes e esquecer o passado. Quando só as ondas batendo nas escoras do píer são ouvidas, ele começa.

– Comi minha perna sim, tinha gosto de banana, eu digo e repito: gosto de banana podre. Mas não foi por vontade. Das savanas de onde vim não há quem coma gente, os animais são grandes e cheios de carne. Vou contar do dia em que comi um elefante inteiro, sozinho. Hoje não. Vou começar do início. “Era não mais do que um rato de porão, fraco das pernas e dos braços, nenhuma mulher tinha me tocado ainda, ou vice-versa. Corria pelas savanas quando fui pescado junto com dois outros numa rede, como um peixe e nunca tinha visto o mar nem sabia que existiam homens sem cor, achei que os deuses estavam bravos comigo por causa de um jarro que quebrei. Levamos um mês para chegar ao porto, no navio que embarcaram outros iguais a mim, não conhecia ninguém. Empilhados, com frio e fome, mal nos mexíamos ou reclamávamos, porque o chicote do branco já tinha nos mostrado onde estava a covardia. Vomitávamos as tripas em alto mar e a febre espalhou-se. Primeiro levaram as crianças pequenas, quase todas. As que sobreviveram separaram, as doentes jogaram ao mar junto com uma ou outra mãe enlouquecida. Então me fiz de doente, tossi, esfreguei o dedo dentro do olho para parecer vermelho, me sentei do lado de um menino com febre e fingi delirar. Dito e feito, no dia seguinte fomos juntos nadar. A desgraça é que estava com ferros atados às pernas, minhas canelas eram finas demais para as argolas dos adultos e largas demais para as das crianças, então enrolaram uma corrente nas duas pernas e deram um nó. E com elas fui afundando. Debati-me para tirar as correntes, os peixes pequenos riam de mim com a sua boca sem dentes.

– Ah! Ah! Estou na história, disse o caolho abrindo a boca e deixando a gengiva lustrosa à mostra.

Gargalhadas e depois apupos pedindo silêncio.

– Os tubarões dançavam à minha volta, estes sim mostravam suas presas afiadas a me desafiar. Urrei uma porção de bolhas me fazendo de leão e para minha surpresa eles fugiram. Senti uma nadadeira nas minhas costas. Um tubarão destemido, e vai me comer… Ogumé faz uma pausa. Tem sempre um idiota com o cérebro já tomado pela sífilis que diz:

– Ahei! O tubarão te pegou.

E outros que replicam:

– Pare de marola. Não vê que ele está aqui, contando a história.

– Não era um tubarão, era um golfinho, por isso os tubarões fugiram. Ele enganchou a nadadeira na minha corrente e me puxou para cima. Sorte minha. Estava quase me afogando, aquele urro me deixou sem ar. Mas não pense que sossegou lá em cima o danado. Subia e mergulhava, subia e mergulhava. Engoli muita água até pegar o ritmo de respirar quando em cima, expirar quando embaixo. Criatura feliz aquela, resolveu dar saltos em pé. Magrinho, isso mesmo, essa montanha na sua frente já foi mais magra que um mosquete. Eu era jogado ao ar, ora para cima, ora para o lado. Batia em mim com a ponta do focinho e eu rodava no ar feito um timão na tempestade, até estatelar na água. Ele recolhia o brinquedo e recomeçava. Foram três dias e quatro noites…

– Não quebrou seus ossos?

– Não que eu soubesse… O bom marujo nasce com cartilagem, não ossos.

– Ahoy! – diz Timbo – Mais uma rodada de rum, que a história está boa.

– Eia, eia. – Ogumé enche e estala o copo no de Timbo e depois faz o mesmo com o do pequeno macaco bêbado e tontinho ao seu lado, Chaminé. – Então, ao cair pela última vez senti a areia sob meu corpo. Pus-me em pé e pulei em qualquer direção, tentei ver a praia, devia ter praia em algum lugar. Tudo rodava, como agora. Não está rodando?”

– Eeeeehhhhh, gritaram todos.

– O golfinho distraído com seus próprios pulos não percebeu que me afastei e eu mal distinguia a ilha na minha frente. – Ogumé desce do balcão saltita para  frente com sua perna boa e roda os olhos nas órbitas, gira os braços, dá mais dois saltinhos e cai ao chão. Levanta-se rapidamente antes que alguém o ajude e continua.

– Cheguei à praia, fora do alcance do golfinho. Dormi por duas noites. – Olha em volta. – Como eu sei? O sol passou e repassou pelas minhas pálpebras. – Faz dois arcos movendo o corpo e a cabeça, como o sol de bombordo a estibordo. Volta a sentar no balcão. – A ilha era tão minúscula que, se deitasse de comprido, molharia a cabeça e os pés ao mesmo tempo. No meio da ilha, um coqueiro fazia uma sombra bem ruinzinha, cheia de buracos e soprada pelo vento. Cocos tem água dentro, vocês sabem.

– Nós sabemos,  pai-velho. – Gritou um moleque emplumado.

– Me chama de pai-velho de novo e te esfolo o saco, fracote.

– Esfola mesmo, que já vi fazer. – Arrematou Timbo.

– Eu estava morrendo de fome e sede, achei que os cocos eram um tipo de fruta. As árvores das savanas são baixinhas, é só agarrar num galho e dar impulso. Mas aquela não, lisa e sem galhos, subia meio metro e escorregava um. Subia e caia. Não bastasse o sol a pino, toda a água salgada que tinha bebido e a areia escaldante, pisei numa água marinha. E “zás”, estava lá em cima do coqueiro. Ô dor! Por Yemoja!” Derrubei os cocos e percebi que havia água dentro deles. Como não era estúpido… – apontou para o moleque. – Ei você! Fracote com o chapéu de plumas. Venha cá.”

O vistoso chapéu se destaca naquele mar de desbotados marinho e marrom, Ogumé quer ter certeza que todos prestem atenção, e dar uma liçãozinha no marinheiro fresco, que não valia mais que a borra no fundo do barril. Está bêbado depois de tomar só dois goles, o estulto. Bem dizia Piaçava: “Um marujo novo é bom para o toco.” O cambaleante menino de não mais que treze anos, todo empafiado pelas plumas e por participar da sua primeira roda de Taberna, onde, achava, ter se dado muito bem, a ponto de mexer com os brios de Ogumé, apresenta-se ao velho pirata com um bater de botas e reverência tirando o chapéu. Gargalhada geral.

-Vou demonstrar como se abre um coco. -Ainda sentado no balcão acerta a coxa direita do menino com a perna de pau.”

– Ui! Ui! Ui! – diz o menino e esfrega a coxa.

– Se você não tira a polpa de que jeito vai quebrar o caroço? A canela deste pequeno só tem osso.

Nova gargalhada. Ogumé desce do balcão e acerta a canela do menino que despenca no chão com a dor. Gargalhada maior ainda. Com a dor a tirar-lhe o senso, o menino tenta soltar uma gargalhada e grasna como um pato na ponta da faca. As gargalhadas aumentaram e davam para ser ouvidas na ilha vizinha. Naquela época, quando as crianças eram só adultos de menor tamanho, como anões ou baixinhos, as palmadas eram normais. Hoje somos mais esclarecidos, no entanto ainda muitos vivem à margem, pirateando para viver.

Ogumé volta sem pressa  até murchar o rebuliço, acomoda-se no balcão e toma outro copo.

– Na ilha, então, prestem atenção,  havia três coisas além de mim: um coqueiro, uma água viva e uma pedra pontuda onde quebrei a moleira do coco. Trocaria todo o rum que bebi na vida para sentir de novo aquela água doce dentro minha boca. Os cocos não duraram muito e as correntes me machucavam, sem contar a maré, que quando subia, só deixava um espaçosinho assim entre a água e o coqueiro. Mal dava para assentar os dois pés. A fome me matava aos poucos. Pescar eu nunca soube e os peixes, quando os agarrava eram lisos como um convés mal lavado e, rebeldes, iam embora. Na minha tribo, os velhos contam lendas do início dos tempos, quando os homens eram só imaginação dos deuses e vice-versa. Uma destas lendas era a da serpente infinita: Olodumaré, o deus criador de tudo, deu à serpente as pernas mais bonitas de todos os seres. A serpente, no entanto gostava de rastejar e tocar a terra como se toca uma mulher, tinha medo da luz do dia e só abria os olhos à noite quando toda a criação, menos as estrelas, se escondiam, comia suas pernas de noite, para melhor rastejar, e estas cresciam de dia. Olodumaré enraivecido com a covardia da serpente, tirou-lhe as pernas para que rastejasse, mas botou-lhe veneno na boca para que ela nunca mais se comesse. Pensei então que poderia resolver dois problemas, matar minha fome comendo minha perna e castigar com meu veneno qualquer homem branco que quisesse me jogar num porão de navio novamente. Então fui comendo minha perna aos poucos. Primeiro o dedão, cuspi a unha e limpei bem o osso, chupei o sangue e queimei a ferida com a água viva. Depois os dedinhos, um por um…”

– E não doeu?

– Acha que eu era um fraco como o emplumadinho. Eu era o leão das savanas!

– Eeeeehhhhhh… Um brinde ao leão das savanas!

– Ahoi! Ahoi!

Neste ponto da história, como sempre, lágrimas vieram aos olhos de Ogumé, era a parte em que se lembrava de como realmente perdeu a perna, se a tivesse comido a dor que sentia não seria tão profunda. Limpou o rosto como se estivesse suado estancando o choro e interrompendo a mágoa.

– O pé tinha gosto salgado e de queijo coalho, a carne era dura como uma barbatana e só quando cheguei na canela que senti o gosto de banana podre. Então quebrei os ossos e chupei-lhe o tutano.

– Com o que quebrou os ossos?

– Hora da demonstração. – disse Timbo.

Ogumé desse do balcão e caminha para fora. No começo a maioria reclama e o chama de volta.

– Nada de choro, escumalha – esclareceu Timbo, fazendo sua parte. – Ele só vai mostrar como quebrou os ossos. Vamos segui-lo.

A turba sai do bar e caminha pela vila atrás do grandalhão, Ogumé, não manca mais porque a dor não deixa, arrasta a perna, e seu corpo curvado não é um décimo do que foi um dia. Abaixa-se perto de uma pilha de galhos que servirão de lenha e os examina. Antes qualquer um servia, agora precisa dos mais moles. Mesmo assim impressiona a todos. Levanta um galho da grossura de três dedos, parte ao meio no ponto mais largo e o morde sem dó. Os dentes fortes ainda estão lá, o escorbuto não foi páreo para eles.

– Mais alguma pergunta? – diz ao terminar a demonstração quebrando o galho com os dentes em mais alguns pedaços.

– Eeeeeehhhhh…

Os marujos embevecidos pela façanha e iluminados pelo ardil da história se cotizam e carregam Ogumé em triunfo para dentro da taberna. Todos acomodados e bêbados, Ogumé conclui:

– E por fim amigos, livre das correntes que me prendiam e saciado da fome que me matava, sobrevivi um mês até ser resgatado pelo bom amigo Timbo, aqui do lado.

Aplausos, assobios, chapéus ao alto e mais uma rodada de rum.

– Sua vez agora amigo. – diz Ogumé ao pé do ouvido de Timo.

– Estou pensando em contar sobre aquela vez com as sereias. – sussurra Timo.

– Essa não, me dá medo. Que tal a da visita ao reino dos polvos onde mora o Kraken?

– Não. Vou deixar esta para outro dia.

Ritmo 1 – Pontuando a História – Dicas Para o Escritor Iniciante 19

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 O Universo pulsa, nós pulsamos. Somos ondas de energia a pulsar pelo infinito. Portanto, tudo é música aos nossos ouvidos e olhos.

As palavras nos agradam quando preenchem nossas expectativas na sua forma, conteúdo e ritmo. A música e a poesia são rítmicas. O que significa este ritmo na prosa? Considerando que a prosa lida não é audível como a música, ou não nos parece toante como a poesia. É nossa capacidade sinestésica que funciona, nossos sentidos misturados pela experiência e a memória podem transformar uma foto de fruta em seu cheiro ou o som de uma badalada no formato e textura do metal de um sino. É assim que o caminhar de palavras no papel dá ritmo às histórias, nos apresentando a uma cadência resiliente.

Já citei o ritmo antes, mas indiretamente. Vamos começar colocando alguns pontos e vírgulas, literalmente.

Não escrevo usando muitos pontos e vírgulas, mas deveria, isto é, precisaria usá-los mais, amá-los. O Português, esta língua fresca e rítmica é cheia de possibilidades. Diria até que o ritmo do brasileiro não vem só dos tambores e das sílabas bem definidas, vem também das vírgulas bem colocadas.

Dentro do parágrafo o ponto cria um paralelo entre os assuntos/ações.

“A música do novo hino não tinha letra, e as pessoas gostavam de cantar o antigo hino da União Soviética, de forma que foi decidido retomar a antiga música. O debate era, em resumo, sobre uma nova compreensão do que era a Rússia, questão que muitos russos ainda não se sentem capazes de responder a contento.” Arte sob Pressão – Diversidade na Era da Globalização – Joost Smiers – 2006

O ponto não é excludente de assunto ou importância. Situando o contexto em paralelo ele tem duas funções: dar tempo ao leitor para pensar e mostrar uma possibilidade (seja explicativa, conclusiva, paradigmática etc.)dentro do mesmo tema.

Pegue qualquer bom livro da sua estante abra numa parte em que há parágrafos consecutivos sem diálogos para separá-los. Qual o foco dos parágrafos?

Fechei os olhos e peguei um livro. The Walking Dead – A Ascensão do Governador, página 208. Encontrei três parágrafos: no primeiro o personagem janta e a comida não cai bem e ele havia passado por noites mal dormidas; no segundo o sono demora a chegar e é acompanhado por um mal estar e no terceiro tem um pesadelo.

Uma boa delimitação de parágrafos dá ao leitor a sensação de que está participando do desenrolar da história. Sem atropelos ou demoras. (Sou refém dos atropelos)

Sugiro uma boa olhada em outros livros e também uma estudada na pontuação e suas funções, incluindo: barras, travessões, pontos de exclamação etc. É surpreendente como se pode abraçar melhor a sentença e os parágrafos com ajuda destes símbolos. Levando o texto para longe dos olhos e mais perto do coração.

Delicadamente Real – A Vida em Tons de Cinza de Ruta Sepetys

A Vida em Tons de Cinza

Livro: A Vida em Tons de Cinza  

Autora: Ruta Sepetys

Editora Arqueiro

Tradução Fernanda Abreu

240 páginas

 

Este livro estava na estante de minha nora, não me chamou atenção pela capa, nem pelo título. Eu o peguei emprestado para saber mais sobre o país de origem dos meus avós paternos, a Lituânia. Quando minha avó chegou ao Brasil em 1926, ela tinha a idade da protagonista do livro, Lina. Comunista de raiz e uma analfabeta sábia, letrada em contar histórias, conservava e transmitia seus ideais aos netos. O que acontecia em seu país natal, no entanto, estava longe desta utopia de igualdade e valorização do homem pela sua capacidade de produzir o bem comum.

Nas duas décadas entre a primeira e a segunda guerra mundial, os países bálticos eram constantemente ameaçados, de um lado pela Alemanha (meu avô nutria certo ódio pelos alemães, dizia ele que costumavam destruir as colheitas para forçar o povo a morrer de fome). Do outro, pela ampliação do estado soviético. A história começa em 1941 quando a União Soviética vence a disputa, sob o comando do ditador Stalin, e anexa os países bálticos à União Soviética. Então, Stalin promove um genocídio maior do que o que aconteceu na Segunda Guerra. 20 milhões de civis e suas famílias morreram sob o rótulo de ameaça ao regime stalinista que pregava a mudança pela força e não pelo consenso. Por mais absurdo que possa parecer, este massacre quase nunca é mencionado. Faz parte de uma história esquecida e enterrada sob o gelo que cobre estes países boa parte do ano.

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Lituanos no Campo de Trofmovisk

Lina Vilkas é filha de um professor universitário lituano, tem um grande talento para o desenho e sonha em entrar para a escola de Belas Artes. Mas seus sonhos são interrompidos quando agentes da NKVD (órgão soviético que reunia a polícia, a segurança interna e o serviço secreto) sequestram seu pai. Lina, a mãe e o irmão menor são enviados para um campo de concentração a dois mil quilômetros de distância no coração da União Soviética.

Lina e sua família são obrigadas a exaustivas horas de trabalho forçado, passam fome, sofrem humilhações e agressões. Neste campo, a mãe de Lina se destaca, consegue se comunicar com os guardas em russo e resolver atritos, além de demonstrar grande coragem e empatia, acaba fazendo com que os confinados trabalhem em equipe e atendam as exigências de seus algozes diminuindo as punições.

Então, sua família é mais uma vez deslocada. Mais três mil quilômetros, para Trofimovsk na Sibéria, um campo dentro do Círculo Polar Ártico. O frio chega a ser insuportável, os alojamentos não dispõem de calefação, as temperaturas no inverno chegam a menos 50º C. As noites duram 180 dias. Os algozes de Lina diziam que aquele era um lugar onde as pessoas iam para bem agonizar antes de morrer. Para nós que vivemos num país tropical, de clima agradável a maior parte do ano, é difícil imaginar que alguém consiga sobreviver num ambiente tão inóspito.

A autora, Ruta Sepetys, é dona de um prosa direta e fluída e, mesmo assim, rica em detalhes. Ela conta a história do ponto de vista de Lina e consegue passar com delicadeza de sentimentos a realidade da adolescente. A despeito das humilhações e privações, Lina não deixa o coração congelar e acaba vivendo o primeiro amor, um amor contido pelos ventos frios, mas nem por isso menos intenso. Os infortúnios e o abandono não transformam a jovem Lina em alguém insensível e vingativa. Ela mantém seu talento e se nega a deixar seus sonhos morrerem.

Embora a realidade retratada seja extremamente violenta, a autora tem a delicadeza de não incluir na narrativa recursos rasos como sadismo ou estupro. Preservando a integridade das pessoas entrevistadas para compor o livro.Todo ele fruto de uma pesquisa histórica e social que não se resumiu à textos. Ruta Sepetys colheu depoimentos das vítimas e costurou suas histórias vestindo as personagens de seu livro. No booktrailer é possível ver e ouvir os sobreviventes contando a própria experiência. Recomendo assisti-lo depois da leitura, garanto que o efeito é gratificante, pois o leitor irá reconhecer nos relatos as passagens do livro e reviver as passagens mais emocionantes.

www.youtube.com/watch?v=e80hAM8bxWY

Antanas Sutkus – fotógrafo lituano.

 

 

A Inconfundível Clareza do Ser – Dicas para o escritor iniciante – 18

Children's Books abstract

 

“Uma manhã, quando Gregor Samsa acordou de seus sonhos agitados, ele encontrou-se em sua cama, transformado num horrível inseto. Deitado sobre suas costas cascudas. E se levantasse a cabeça um pouco ele teria visto sua barriga marrom, levemente arredondada e dividida em duas densas secções. Os lençóis mal eram capazes de cobri-lo e pareciam que escorregariam a qualquer momento. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas se comparadas ao resto dele, acenavam impotentes enquanto ele as olhava. “O que aconteceu comigo?” Ele pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um quarto próprio de um ser humano, embora um pouco pequeno, repousava tranquilamente entre as quatro familiares paredes… “Ó Deus!”, pensou, “Que vigorosa carreira esta que você escolheu! Viajando dia sim, dia não. Fazendo negócios como se isso demandasse muito mais esforço do que seus próprios assuntos domésticos e, acima de tudo, a maldição da viagem em si: aborrecimentos com as baldeações de trem, comida ruim e irregular, contatar pessoas diferentes o tempo todo, tanto que você nunca conseguia conhecer alguém ou se tornar amigo de alguém. Isto tudo podia ir para o Inferno!” – F. Kafka – Metamorfose

Nós seres humanos temos a ‘linda’ capacidade raciocinar sobre nós mesmos, mesmo quando transformados numa barata.

Se ficamos “confusos”, “atordoados”, “desorientados” a primeira coisa que buscamos é clarear nossas ideias, limpar nossa mente e arranjar uma solução ou uma explicação para o estado de coisas em que nos encontramos. Não somos mentalmente atirados para esta ou aquela situação como um minúsculo inseto.

Narrar os sentimentos de uma pessoa exige concentração no personagem para, não só viver, como também pensar como ele. O personagem em situação limite não diz somente “Estou confuso/atordoado/desorientado/qualquer outra emoção”, que pareça momentaneamente limitante, sem que pense numa explicação ou solução, mais nesta última do que na primeira. Instinto Primitivo + Raciocínio Lógico a melhor arma, melhor que qualquer espada, magia ou canhão.

A empatia com o personagem de primeira pessoa é maior, portanto nos arriscamos muito se o leitor achá-lo vazio desta mistura raciocínio+instinto, entenda-se como instinto, também aquele construído através de nossas vivências. Um personagem muito racional é um robô ou um alienígena. Se muito instintivo não resistirá muito tempo aos seus próprios erros e dependerá quase exclusivamente da sorte – um personagem cômico é geralmente mais instintivo e menos lógico.

Para delinear um personagem sugiro que pensem além do passado ou das características físicas e emocionais que o trouxeram ao ponto em que a história se desenrola. Qual a motivação do personagem? O que o trouxe até a história? A trama apresentará conflitos que serão entendidos e solucionados. Qual será a postura do seu personagem diante destes conflitos? Que linha de raciocínio+instinto usará?