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Micro Contos – Como e Porque Escrever

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O que são e o que não são Micro Contos

Micro contos são narrativas muito curtas, com 300 palavras ou menos, que trazem uma história total, não parcial. Não são muito populares no Brasil, nem mesmo tem valor comercial. Então por que nós, escritores brasileiros, deveriamos perder tempo escrevendo micro contos?

Primeiro porque para o escritor qualquer forma de escrita é válida. De haicais à sagas em “n” volumes.

Escrever micro contos permite ao autor avaliar o que é importante na prosa. Trabalhar o vocabulário e escolher as palavras mais adequadas. Cortar  redundâncias e tudo o que não é essencial. O autor fica afiado na hora de escrever narrativas longas. Além do que é uma forma de arte com as palavras, um modo divertido ou profundo de contar histórias.

Precisamos saber, no entanto, o que um micro conto NÃO é: um resumo de uma história ou uma parte isolada de uma narrativa maior. Também não são pensamentos aleatórios ou reflexões, cenários desconexos. Ações sem contexto não são micro contos. Recortes dentro de uma narrativa maior não são micro contos.

Micro Contos são narrativas completas e como tal necessitam de enredo, elementos do arco narrativo (reviravolta, flash backs, repetições, conflitos etc.), personagens, local, tempo.

Dois micro contos e seus elementos narrativos

Assim como o conto tradicional, a linha narrativa é melhor desenvolvida se baseada em no máximo três personagens e a trama contenha elementos simples e facilmente reconhecíveis.

Acerto de Contas – Lydia Davis (considerada uma das melhores escritoras contemporâneas de narrativa curta)

 “O fato de ele não me dizer sempre a verdade faz duvidar da verdade do que ele às vezes me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não para de me dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

Personagens – duas pessoas num relacionamento

Arco – estabelece a dúvida sobre o que ouve do parceiro, faz uma busca para descobrir o que é verdade, termina por convencer-se que ele às vezes não diz mentiras.

Elementos narrativos – flash back, reviravolta, conflito, repetição

Tempo – ao longo do relacionamento.

Arquíloco – séc. VII a.C.

Algum saio (guerreiro da tribo inimiga) do escudo se orgulha. Sem querer abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se: conseguirei outro igual.

Personagens – Arquíloco e o saio

Arco – perdeu o escudo, salvou a própria vida, eliminou o arrependimento

Elementos narrativos – flash back, suspense, conflito, repetição

Tempo – durante uma batalha

Local – no campo de batalha

Dicas para escrever micro contos

  1. Mostre não conte, este conselho essencial para qualquer narrativa, deve ser seguido à risca para as narrativas curtas.
  2. Atenha-se ao que faz uma narrativa interessante, conflito, cenário, atmosfera, personagens, enredo
  3. Escreva e reescreva sua história diversas vezes, quantas forem necessárias, até que ela só mostre o essencial.
  4. Comece pelo meio, pela parte mais importante ou mais emocionante. Forneça uma guia da história ao leitor.
  5. Escolha o melhor título possível, ele fará parte da narrativa
  6. Deixe um questionamento na última linha que conduza o leitor a reler o conto para entender a mensagem. Ou seja, leve o leitor por um caminho e o empurre para outro.
  7. Coloque a conclusão no meio da história.

Neste link, Lydia Davi conta sobre seu processo criativo e mostra como um dos seus contos foi escrito. Do rascunho ao final.

 

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/07/lydia-daviss-very-short-stories/372286/

Marcadores Neutros de Gênero – x, e, @, i, u – Considerações sobre o uso

O uso de indicadores neutros  x, e, @, i, u de gênero  não é um assunto novo lá fora. Aqui é um pouco mais recente. Não vou falar das polêmicas, problematizar não é o objetivo, o texto traça algumas considerações sobre o como fazer e a parte prática deste fazer. A transformação da linguagem se dá mais pelo uso do que por decreto ou por força. O importante é que a língua muda, quer se aceite ou não. O nascimento do italiano moderno, por exemplo, está ligado à popularidade da A Divina Comédia, que foi escrita em uma das muitas línguas da região, não em latim como era comum.  A língua já fazia parte do povo, era ouvida nas ruas, nas casas, nos órgãos administrativos. Dante não mudou a língua, só colocou no papel o que já existia, solidificou o uso.

A subversão é importante, mas não determinante. O subversivo causa um ferida, resta saber se esta ferida é profunda para formar uma cicatriz permanente. Até que ponto vai a nossa ambição em modificar o que é popularmente aceito sem causar uma sangria irreversível entre o acadêmico/popular e a expressão da igualdade de gêneros? Queremos matar a nossa esperança ou construir uma nova identidade? O esperanto morreu na sua ambição de se tornar uma língua comum, justamente porque não se preocupou com fatores culturais e sociais de identidade dos povos e a importância da linguagem na representação desta identidade.

O Português e o sentido intrínseco do marcador de gênero

A língua portuguesa determina geralmente o feminino e o masculino pelo uso das vogais a e o, respectivamente. Tudo tem gênero. A casa, o carro, o tomate, a batata. Animismo que algema as expressões não binárias. Os marcadores de gênero nos adjetivos, bonita, bonito, desiludido, desiludida ainda podem ser acrescidos de seu esteriótipo.

Generosa – mulher boa, doadora, humilde, provavelmente religiosa e submissa a algum preceito de caráter conservador.

Generoso – homem bom, desapegado, honesto, provavelmente rico que dedica os fins de semana para fazer o bem ao próximo, porque durante a semana trabalha para acumular bens.

Uma atitude generosa nos parece corriqueira, acontecida no dia a dia.

Um ato generoso tem força, exigiu do protagonista desprendimento do ego.

Quantas vezes os escritores preferem usar ato generoso para demonstrar a importância do gesto sem perceber que reforçam esteriótipo de gênero?

Portanto quando usamos um marcador de gênero num objeto, ação ou pessoa estamos ao mesmo tempo reforçando padrões culturalmente aceitos como norma de que a mulher é fraca e o homem é forte. Mas como disse no início, não é o objetivo deste artigo. O objetivo é buscar ideias para a representação não binária.

Marcadores – e, x, i, @, u e seu uso prático

Algumas considerações permeiam todas as classes de palavras, pronomes, adjetivos, substantivos e artigos.

Pronomes – ele, dele, seu, sua, aquela, aquele etc…

E – ele, dele, seu ou sue – A presença do e como partícula masculina nestes pronomes nos impede de usar este marcador como neutro/não binário.

X – elx, delx – quando falamos acrescentamos uma vogal ao final da palavra quando ela termina em consoante, o anglicismo na frase me add no seu facebook se transforma em |me ade no seu facebuque|. Mudamos o som final do l em u, do m em ão. Ao pronunciar o x em elx, delx, aquelx, acrescentaremos vogais ao sons |cs| ou |∫| (símbolo fonético para o som ch): elecs, delecs, elechi, delechi. Impossível com seu e sua – sex, sux!!!! Sem falar da questão dos áudio books e leituras sonoras por aplicativos para cegos, analfabetos, disléxicos etc.

@ – é um novo sinal, atual, moderno, pouco prático sonoramente, seria o mesmo que usar o a ao invés do e. Por que não? Seria uma atitude política, de afirmação mais do que uma atitude prática que conduzisse a uma mudança que fosse aceita por todos a longo prazo. A primeira alteração seria gráfica, um símbolo novo @ no nosso alfabeto. A segunda sonora. Qual sonora? |a|, |at|?

I – eli, deli – dependendo do país e região em que se vive, os sons não diferem em relação ao e. Siu ou sui são similares às onomatopeias de sussurros, alívios, chamadas.

U – elu, delu – em tese parece o mais adequado, na prática ele esbarra na falta de costume com a sonoridade do |u|, vogal menos usada em português. Podemos pensar que eu termina em u e portanto faria todo o sentido usar elu tanto para ele quanto para ela. Seu e sua conservariam o s e o u, su, eliminando tanto o e quanto o a. No entanto, a som |u| é usado para palavras que terminam em o e são masculinas na maioria dos sotaques: pato – |patu|, atrasado |atrasadu|.

Adjetivos e Substantivos

Tendo o que foi dito sobre o uso dos marcadores nos pronomes, as questões do uso do X, I, @ para adjetivos seriam similares. O x e a exclusão de grupos de pessoas. O i e a similaridade com o som do e, o @ e a complexidade de introdução de dois novos conceitos ao invés de um.

E –  usado para designar tanto palavras masculinas quanto femininas, o tomate, o embate, a manchete, a tempestade. A adaptação para o uso desta terminação com substantivos e adjetivos é simples e próxima ao uso que já fazemos do e para complementar o som de consoantes “solitárias” no final e no meio da palavra.

U – como dizemos o |i| é falado no lugar do e, em muitos sotaques, tapete |tapeti| e assim acontece o mesmo com o |u|,  em relação ao o, barco |barcu|, o que jogaria todos os adjetivos e substantivos com a terminação u como masculinos.

Artigos O, A

@ – neste caso específico do artigo, este símbolo tem um quê de unificador o a envolvido pelo o, no entanto esbarramos no problema da dupla complexidade de introdução. A aparência do símbolo também remete mais à androginia do que a não binaridade.

E – analisando o uso que fazemos do e como onomatopeia para chamar a atenção de alguém ou pausar a sentença para pensar sobre o que estamos falando, parece uma solução simples usá-lo também como substitui do a e o.- Ê, fulane, vem aqui! – Estava em casa eeeeeeee não estava na escola quando recebi a mensagem. Porém, e é uma partícula de ligação, o que poderia confundir o leitor ou ouvinte. Será uma continuação do que se fala ou não? Precisaremos exercitar a contextualização.

Exemplos de uso

Irei utilizar o u e o como marcadores para exemplo. Alguns vícios de linguagem são inevitáveis com o uso de marcadores:

Ambiguidade:

Rani e Kieran estavam conversando quando de repente elu pegou o cavalo delu e fugiu. Elu ficou surpreso com o roubo.

Quem fugiu? Com e cavale de quem? Quem ficou surpreso?

Repetição:

Rani e Kieran estavam conversando quando Kieran pegou e cavale de Rani e fugiu. Rani ficou surprese.

Um texto com excesso de repetição se torna cansativo e desestimula a leitura.

Há a questão da própria sonoridade do texto, quem escreve trabalha com símbolos no papel, mas quem lê transforma estes símbolos em sons. Por isso ler o texto em voz alta é um dos conselhos dados aos escritores iniciantes para avaliação do próprio texto. Como avaliar sonoramente um texto se não podemos lê-lo?

 Rani e Kieran estavam conversando enquanto Anna carregava @ arma. De repente Kieran pegou @ cavalo de Rani e fugiu. Rani ficou surpres@ com @ atitud@ d@ menin@. 

A quem se refere o menin@? A Kieran ou Rani?

Marcadores e Representatividade

Rani estava conversando com Kieran quando de repente estu fugiu com o cavalo daquelu. Aquelu ficou surprese.

Além do exemplo acima ter ficado horrível em todos os sentidos. Por nossa memória semântica concluiremos que os dois personagens são de gênero masculino. Pode não ser importante para a trama e pode ser importante se estamos buscando uma literatura representativa. Rani é a personagem do livro O Sino de Rani de Jim Anotsu, uma menina negra. Kieran é o personagem da série Castelo das Águias da Ana Lúcia Merege, um professor.

Num curso para debater a escrita quir  (de queer – peço desculpas a quem não gosta de anglicismo, prefiro o termo por ser abrangente) produzimos textos sem marcadores. Não mencionamos gênero, cor, sexualidade. A classe  era diversa: cis, trans, homos, héteros, não binários, bissexuais, negros, brancos e índios etc.Conseguimos produzir bons textos e colocar as características dos personagens nas entrelinhas. A conclusão sobre o que os textos nos diziam da posição de leitores foi no mínimo triste. Até que as entrelinhas se tornassem claras para os leitores, quase todos imaginaram os personagens como brancos/héteros/masculinos. Não há representatividade ou igualdade na anulação das características dos personagens. Não vivemos uma utopia social e cultural onde todos são iguais. E se queremos que o leitor comum veja esta representatividade e que ela um dia chegue a ser considerada a norma cultural e social precisamos deixar claro de quem falamos.

Para escrever sobre um personagem das minorias precisamos pensar como um personagem de minoria e valorizar as características que representam esta minoria no personagem.

Minhas escolhas (que não precisam ser as suas)

De dois anos para cá tenho buscado algumas soluções. Não dispenso o gênero do personagem se é importante. Quanto aos adjetivos uso o e para fugir da conotação do a e do e. Se vou escrever sobre um personagem assexuado ou não binário procuro soluções de marcadores que passem esta definição. Quando faço um estudo de personagem, penso em como ele gostaria de ser identificado e escolho a representação mais adequada. Não uso marcadores, ou uso e u para os personagens em que o gênero não tem relevância alguma, são figurantes. De qualquer forma não sigo uma regra. Existem mais cores no espectro do arco íris do que sete. Posso estar enganada quanto as escolhas, por isso fico de ouvidos e olhos atentos às palavras de amigues.

Rani e Kieran conversavam. Repentinamente e para surpresa de Kieran, Rani arrancou as rédeas do cavalo de suas mãos e saiu em disparada.

Não é fácil escrever uma história que seja clara, interessante, tenha uma estética própria e personagens com características marcantes. Pensar cada parágrafo dentro de seu próprio contexto e em relação aos anteriores e posteriores. Para não falar do cuidado ortográfico e semântico. O escritor que busca sempre aprimorar-se tem mais um desafio. Adequar seu trabalho ao tempo em que vive.

Para quem gosta de escrever. Este é um momento único. O momento em que o problema que se apresenta é universal, não é particular de uma determinada língua. Quantas possibilidades para pensar e elaborar! Quantas ideias para trocar! Ninguém criou uma fórmula ainda. Somos nós participando deste momento e tendo liberdade para colaborar com uma mudança importante no modo como nos comunicamos.

COISAS QUE AMEI EM BALL JOINTED ALICE DA PRISCILLA MATSUMOTO

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Já havia lido um conto da Priscilla Matsumoto, O Reflexo do Dokkaebi – Boys Love, e gostado do modo como ela dialogava com a psique de seus personagens. Estava empolgada para ler o livro. E agora, livro lido, não estou querendo mais história, a história está completa, cheia e tão bem alojada dentro de mim que vai levar um tempo até poder ler algumas das outras que me esperam na estante. Já abri uns três livros e não consigo passar da primeira página ao perceber que falta o artista por trás das letras. Não são livros ruins, Priscilla é que é boa demais. Vou ainda chorar um pouco o vazio de Frank, por dentro, embaixo da cama, no escuro.

O mundo espelhado por Frank, que não consegue se enxergar, me lembrou um livro da minha adolescência, no final dos 70, chamado Sybil, história real de uma garota abusada na infância que desenvolveu 16 personalidades diferentes. Frank é obcecado por sexo e por caos, coloca obstáculos a todo tipo de amor recebido, enquanto do outro lado do espelho ele é completamente apaixonado por pessoas que estão fora de seu alcance: artificiais, mortas ou lésbicas e eventualmente um gay mais deprimido do que ele.

Não se engane pelo que disse até agora pensando que se trata de um relato introspectivo e denso difícil de ler. Não é. Ball Jointed Alice é um livro de ação, personagens que parecem saídos de um mangá muito louco. A violenta e irracional Emi, traficante que guarda um arsenal em casa, Tay a estilista voluptuosa, misto de pin-up e Mortícia Adams, Shin, o japônes lindão gay, o único “normal” do grupo, alheio ao que acontece quando as coisas ficam feias. E elas ficam muito feias, quando Emi decide usar seu arsenal para explodir o hospício de onde todos fugiram e “contrata” Frank para criar um exército de bonecas Alice.

E sobre Alice, a boneca que dá nome ao livro? Ela é a linha que costura o rasgado Frank novamente, que vai busca-lo no poço onde ele caiu e o resgata da Rainha de Copas. Só chegando ao fim do livro para perceber quem é Alice.

Melhor coisa de Ball Jointed Alice é a interpretação do leitor, os quatro parágrafos acima foram a minha leitura da história, a partir de experiências, do entendimento pessoal das referências de livros, a Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, a Sybil etc e dos mangás japoneses e coreanos. Alguém que nunca leu Alice (difícil achar quem não, mas vai que) leia primeiro, depois jogue-se no poço de Ball Jointed Alice e morda o biscoito do mundo conturbado e louco de Frank.

Ainda hoje de manhã me perguntei se Frank não era só um espelho.

Onde encontrar: no site da Editora Draco: http://editoradraco.com

 

DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 30 (acho) – BOLACHA RECHEADA DE PARÁGRAFOS

Vamos comparar o texto/livro a um pacote de bolachas recheadas (você pode substituir a palavra bolacha por biscoito).

Compramos o pacote pela capa, aquelas bolachas “photoshopadas” que parecem crocantes com recheio cremoso, escolhemos o sabor, eu leio um pouco o rótulo como as pessoas leem as orelhas e as resenhas dos livros.

Podemos dizer que a embalagem é a introdução do texto, o que podemos esperar da narrativa. A primeira bolacha é os parágrafos iniciais e irá nos dizer se gostamos ou não do estilo do autor. Lambemos o recheio e sentimos se o texto tem um bom conteúdo, é docinho e desliza na ideia, conseguimos sentir o gosto. Se é mole demais e desmancha muito rápido na boca. Se oferece pouca ligação, na hora da lambida ele se desgruda todo ou mesmo cheio de gordura, mas sem sabor nenhum. A embalagem dizia que o recheio era sabor limão e não sentimos nem o doce do açúcar, nem o ácido da fruta. Se estamos com fome, estamos acostumados a comer qualquer coisa ou se nos delicia vamos até o fim do pacote de uma vez sem arrependimentos.

Regra geral para se comer bolacha recheada: separe as duas metades, lamba o recheio, coma as duas metades. Regra geral da construção de parágrafos. Ideia central ou nuclear vem primeiro, ideias secundárias, que envolvem ou explicam decorrem da ideia central. Há outras maneiras de comer bolacha recheada, mas esta é a básica.

Vou usar uma frase que acabo de discutir com o amigo Giovani Arieira, para explicar o conceito de ideia central:

Ele escreveu:

A escuridão foi rompida por uma lâmpada acesa no canto da sala que iluminava só uma parte do ambiente oposta ao que Gregor se encontrava.

O mais importante nesta sentença é a luz, assim como nas subsequentes protagonista enxerga o ambiente. Mencionar Gregor pelo nome sendo ele o único personagem da trama é gordura desnecessária que tira um pouco o sabor . Reescrita ficou assim:

A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta. (o protagonista havia entrado na sala no parágrafo anterior).

Eu gosto de comer as bolachas inteiras, sem separar, conheço quem come as partes e deixa o recheio e outros que raspam o recheio com faca para comer depois. A apresentação de um parágrafo é tão relativa quanto o modo de se comer uma bolacha recheada. Depende do assunto, da complexidade, do gênero, do público leitor etc.

O autor, no entanto, precisa saber gerir os recursos de expressão e desenvolvimento da ideia começando pelo básico.Não existe liberdade sem que se saiba onde estão as amarras que nos prendem, por isso precisamos conhecer e estudar a estrutura das frases e parágrafos para que elas não nos limitem. Um parágrafo mal construído pode sugerir ao leitor desordem de raciocínio, falta de unidade ou objetividade, acabando por enjoar e desinteressar.

Nos livros de técnicas literárias aprendemos que o parágrafo é uma unidade de composição que representa um processo completo de raciocínio dentro da ideia principal. Ou seja, o ponto central e seus contornos, o recheio e suas duas metades. Até que aparece alguém como Roberto Bolaños (não é o Chaves, pois ele gostava de churros não de bolachas) e escreve “Noturno do Chile”, um livro de 120 páginas, com somente dois parágrafos, um que ocupa quase todo o livro e outro com 8 palavras! Não significa que o autor não domina a construção do texto, significa que ele se sente tão livre que pode fazer o que bem quiser que o texto continuará tendo unidade. Muitos consideram “Noturno” sua obra-prima.

Então podemos concluir que a extensão do parágrafo é menos importante do que a coesão com o conteúdo da ideia principal.

De uma forma bem rasteira podemos dizer que o parágrafo tem que ter:

  1. Uma ideia central e principal que puxa o texto e ocupa dois ou três períodos curtos,
  2. O desenvolvimento ou explicação da ideia e
  3. Uma conclusão ou ligação para o próximo parágrafo.

“ 1- Naquela manhã perdi toda a esperança de encontrar Madalena, pois ela havia partido, de forma definitiva. 2 – A nave em que ela embarcou tinha um destino bem diferente da minha, o tempo em que ficaria em estado de suspensão, muito mais longo que o meu. 3 – Percebi que não há está coisa de destino traçado, duas metades da mesma laranja, par perfeito. Se houver o que podemos chamar de para sempre, não se aplicava a mim e a ela.”

 

Desdobramento da ideia em parágrafos

 

Recurso comum e eficiente é desdobrar uma ideia mais complexa em alguns parágrafos. Argumentar sobre ela, narrar um incidente que a explique, descrever o quadro geral, respondendo perguntas sobre o quê, quando, onde, para quem, por quê.

Trecho de O Homem Sintético de Theodore Sturgeon

“Livrou-se da embriaguez. O alcoolismo não é uma doença, mas um sintoma. Há duas maneiras de liquidar o alcoolismo. Uma é curar a causa. A outra é substituí-lo por outro sintoma. Foi esse o caminho escolhido por Pierre Monetre.

Escolheu desprezar os homens que o liquidaram e acabou desprezando o resto da humanidade, porque estava muito próxima daqueles homens.

Gozava com esse desprezo. Erigiu um pedestal de ódio e encarapitou-se nele para escarnecer da humanidade. Isso era, naquela época, a única coisa que o satisfazia. Ao mesmo tempo, morria de fome; mas, como os ricos eram a única coisa que tinha valor para o mundo do qual zombava, gozou também sua pobreza. Por algum tempo.”

Nestes três parágrafos o autor demonstra a passagem do estado de alcoólatra desiludido para sociopata lunático do personagem.

No primeiro ele diz do raciocínio de Pierre para abandonar o alcoolismo.

No segundo, onde ele aplicou esse raciocínio.

No terceiro, o como.

Abra um livro qualquer, um bom livro, escrito por um autor renomado, daqueles que tanto o público quanto a crítica gostam. Também pode ser um escritor profissional como Jay Bonansinga, responsável pela adaptação de The Walking Dead para romance, ou Timothy Zahn que adaptou Star Wars. Dê uma boa olhada na construção dos parágrafos e na sua disposição. Na próxima história que escrever pratique o que aprendeu com suas leituras e veja o quanto sua história ganha em clareza, coerência e principalmente: sabor.

Tomando Críticas e Se Sentindo Bem – Dicas Para o Escritor Iniciante 25

crítica

 

“Nossa! Não é que seja o vestido de noiva mais feio que já vi, mas não combina com você, ele te deixa gorda, minha filha… Agora vamos que a porta da igreja já abriu.

A noiva entra na igreja aos prantos, todos acham que é felicidade.”

Ninguém gosta de receber críticas. Jeito infalível de conquistar pessoas no primeiro contato é elogiando-as, todo bom vendedor sabe disso. Apesar de ansiarmos por elogios, também esperamos por repreensões, não quer dizer que nos preparamos para recebê-las ou nos sentiremos bem ao ouvi-las.

No entanto, se mudarmos nossa atitude e prepararmos nossas mentes para as críticas, poderemos aliviar seus efeitos negativos sobre a nossa autoestima e utilizá-las a nosso favor.

Há duas situações que nos impulsionam a criar, ligadas à resposta que recebemos dos nossos pais e amigos quando mostramos nosso trabalho. Na primeira recebemos congratulações, tapinhas nas costas, afinal eles nos amam, portanto nos admiram para além do que fazemos. Estimulados nos dispomos a ir adiante, trabalhar mais, estudar mais e nos aprimorar para que sua admiração nunca cesse. Na segunda, recebemos indiferença e escárnio das mesmas pessoas e somos estimulados a provar nossa capacidade para que um dia conquistemos sua admiração.

São situações antagônicas, mas as duas nos direcionam a buscar somente admiração e respeito dos outros, não nos preparam para críticas positivas. Inconscientemente a crítica gera sentimentos de falta de amor e rejeição, por que ela está intimamente ligada aos laços afetivos que desenvolvemos e assim a projetamos para o mundo.

Por isso é muito comum reagirmos às críticas negativas com observações como “Esta pessoa não me conhece para falar do meu trabalho desta forma”, “Se esta pessoa não entende o que escrevo,problema dela, se tivesse lido direito entenderia”, “Não gostou, faz melhor que quero ver se consegue”, “#$%&¨%$@” ou chorando, ficando deprimido, abandonando o projeto. Quem nunca teve um professor que gostava de diminuir os alunos e cujas críticas fizeram com que odiasse a matéria que ele ensinava¿

Lembrando o que foi dito em outros capítulos, o escritor escreve para seu público, precisa de leitores. Não escreve nem para si próprio, nem para seus pais ou amigos. É o analista que vai dizer o que está errado com ele antes que o leitor o rejeite, pois pessoas que não te conhecem, não tem laços afetivos com você é que irão ler sua história, ela precisa estar pronta para eles.

Devemos nos preparar com isenção de sentimentos para as críticas, elas são sempre positivas, mesmo quando descem o cacete no que fazemos, mesmo que injustas, nos fazem olhar para dentro de nós mesmos, buscar os porquês da nossa necessidade criativa. Um pai não nega uma injeção ao filho pequeno, mesmo que doa muito, se isso o curar de uma doença. Deixe as emoções de lado e ouça o que outros têm a dizer como se o trabalho não fosse seu.

Só Elogios

Leitores beta são pessoas comuns, que podem ler seu livro antes mesmo da primeira revisão. E darão uma opinião geral sobre ele: se gostaram, se não e por que:

Como escolher seus betas:

Antes de procurar um leitor crítico ou agente literário (as vezes as duas funções são feitas pela mesma pessoa), tente obter alguns feed-backs de leitores seus conhecidos e amigos (desconhecidos só depois da obra registrada). Alguns requisitos para escolher bem:

 

1 – Se gosta de ler, tem o hábito da leitura. Não adianta entregar seu livro para aquela pessoa da faculdade de quem você está a fim só para que se admire com o fato de você ter escrito um livro.

2 – Se faz o gênero desta pessoa, ela gosta de romances e escrevemos terror, é melhor procurar entre os que gostam do gênero, eles lhe darão um retorno condizente com o conteúdo do seu livro.

3 – Se a pessoa tem disponibilidade para ler até o fim e apontar os erros. Seus amigos próximos vão te elogiar porque gostam de você, irão justificar seus erros durante a leitura com a lente da amizade. São aquelas pessoas que vão dizer: “Nossa! Demais! Adorei!” – mesmo se tiver uma porcaria. Isso insufla o ego, mas não melhora seu trabalho.

4 – O melhor beta é aquele que também escreve, por isso é bom formar um círculo de amigos escritores com quem trocar ideias e originais.

Não entregue seu original para muita gente, uma a três pessoas bem escolhidas são o suficiente. Se os leitores se sentem incomodados com personagens ou com as cores que demos a eles, se todos os apontam como clichês, machistas, preconceituosos, os vilões são fracos e as dúvidas, muitas. Jogue tudo fora antes mesmo de passar na mão do crítico e recomece.

 

Antes de procurar uma editora ou publicar seu livro e depois de registrado, tente obter o máximo de respostas às leituras. Ao escolher o leitor beta verifique:

1 – Se gosta de ler, tem o hábito da leitura. Não adianta entregar seu livro para aquela garota/o da faculdade de quem você está afim só para que ela/ele se admire com a sua obra.

2 – Se  seu livro faz gênero deste leitor. Ela gosta de romances e escrevemos terror, é melhor procurar entre os que gostam do gênero, eles lhe darão um retorno condizente com o conteúdo do seu livro, já leram outros e podem apontar os problemas.

3 – Se a pessoa tem disponibilidade para ler até o fim e apontar os erros. Se o único retorno que espera receber é “gostei” ou “não gostei” não ajudará no esforço em aprimorar o que fazemos.

 

Leitor Crítico

Antes da revisão e copidesque do seu livro, entregue-o a um leitor crítico. Para escolher, verifique se ele já trabalhou com leituras do seu gênero, se puder solicite informações de escritores que usaram seus serviços. Este profissional vai vasculhar seu livro atrás de falhas mais profundas do que o copidesquista, embora na análise das partes as duas funções se confundam. Sua função principal é analisar o todo e dar opiniões sobre vários aspectos:

Título – se condiz com a história.

Estrutura – analise do gênero literário e como o livro se situa nele.

Enredo – se foi bem desenvolvido e de que maneira.

Cenas, Cenários, Diálogos – quais os pontos positivos e negativos.

Tensão emocional – os micro clímax e o clímax são percebidos corretamente

Personagens – se são carismáticos e tem personalidade própria

Discurso – se o livro é equilibrado mantendo a mesma característica discursiva ao longo do texto e se há problemas entre contar/mostrar

Análise Estilística – se o autor é elegante, profissional ou não tem estilo próprio.

Elementos Simbólicos – emprego correto

Vícios de Linguagem – recorrência

Final – se o leitor terá uma reação positiva, mesmo em se tratando de parte de uma trilogia, pois o livro tem que fechar o arco narrativo.

Explicada a complexidade da análise do leitor crítico, você deve estar pensando que é um negócio caro. Sim, com certeza. Entenda o seu livro como o cachorrinho ou gatinho a quem você ama como parte da família e que de repente fica doente, você não mede esforços para pagar a conta do veterinário nem que seja em 12 vezes. Seu livro já nasceu doente e quanto mais iniciante o escritor é, mais fraco o livro, então faça sua poupança à medida que escreve para não pesar no final.

Como tirar o melhor proveito das críticas

O leitor crítico é mais incisivo, portanto o escritor tem que ser mais aberto às mudanças e interferências, e consequentemente às opiniões que possam diminuir a sua autoestima. Ao receber a avaliação, baixe a bola, encare a realidade e mãos à obra. A opinião do leitor crítico não é um ultimato, se sentir-se inseguro busque outra opinião. Não entenda como um carimbo de aprovação ou recusa, a leitura crítica é muito mais uma alavanca para impulsionar o próprio nível crítico do autor e melhorar seu desempenho.

Preste bem atenção em tudo o que o leitor crítico tem a dizer, não descarte nenhuma sugestão. No entanto o livro é seu e você pode muito bem mudar. Faça uma análise dos conselhos recebidos e no caso de sentir-se desconfortável com alguns deles, questione-se se a mudança lhe fará bem. Por exemplo, o crítico/leitor diz que uma determinada passagem é desnecessária, mas nós gostamos do que está escrito, pois tem uma poética própria, há várias opções: guardar para outra obra, torna-la importante, arranjar outra posição em que ela seja relevante.

Se o leitor/crítico não entendeu uma passagem que está clara para nós, pode ser por que a passagem não está bem resolvida. Fazemos um comentário pequeno sobre uma passagem importante e não complementamos esta informação, para nós que estamos dentro da história parece que todos irão entender, mas não é o que acontece. Insira Informações.

Se o crítico e os leitores se sentem incomodados com personagens ou com as cores que damos a estes personagens, podemos avaliar a necessidade da mudança e verificar se na hora de delinear o personagem notamos este desconforto ou se ele é proposital ao caráter do personagem, mas não ficou claro. Adapte.

Não se incomode se tiver que injetar coisas novas, costurar lacunas, amputar partes desnecessárias. Faça o que tiver que fazer para que seu livro sobreviva e passe a sua mensagem de forma que seus leitores entendam.

Agente Literário

O agente literário é um leitor crítico contratado por uma editora para avaliar os originais recebidos. E acredite, são muitos! E por trás de cada um deles há um escritor esperando virar estrela.

Os bons agentes são pagos pelas editoras e não são de fácil acesso. Mandar seu original direto para algum deles sem que seja solicitado é destinar seu livro para a prateleira coberta com pó do esquecimento. Para não dizer lixeira. Portanto, é preciso que o agente encontre você. Como? Toda vez que você encaminhar livros para a editora é o agente que receberá sua oferta e, antes de ler, ele avaliará entre outras:

1. A necessidade do mercado em relação à sua proposta literária,

2. A sua carreira (participação em concursos, contos publicados, formação, blog etc.),

3. O seu posicionamento profissional através de feed-back dos veículos nos quais já tenha publicado. (Não é bom discutir nas redes sociais, com leitores e outros autores.)

Se depois desta análise inicial concluir que você tem algum potencial ele lerá o que escreveu. Você pode também ser indicado por alguém para este agente, mas não se iluda, com certeza passará pelo mesmo processo de avaliação prévia. Prepare-se. Algumas dicas para uma boa apresentação sua e de seus originais estarão num próximo capítulo.

 

 

 

A Profissão de Escritor – Dicas Para o Escritor Iniciante 13

Mortimer room

Encontrei a casa dos meus sonhos. Sempre quis um lugar só meu, onde eu pudesse construir um futuro. Paguei barato. O problema é que tem um fantasma morando lá dentro. Vou desistir? Não, vou enfrentá-lo e vencer esta batalha, mesmo que passem anos até que seu plasma se desintegre completamente.

Qualquer artista sabe o quanto pode ser demorado o sonhado “reconhecimento”. Alguns desistem de lutar, outros adiam a luta até que encontrem tempo em suas rotinas para enfrentá-la (este foi meu caso), outros tombam antes de chegar ao final de sua saga.

Inúmeros são os exemplos de escritores que chegaram ao sucesso depois de mortos. E mesmo aqueles que têm reconhecimento não têm muito dinheiro. Se você escolheu ser escritor, dinheiro deve ser sua menor preocupação. Não que a indolência deva arrebatá-lo. Tenha outros objetivos em mente na sua luta: aprimoramento, sociabilidade, amor.

Então não dá para espantar o fantasma e sobreviver? Claro que sim basta seguir estas regras:

1.  Estude – acadêmico ou não, o estudo é sempre essencial. Se optar por fazer uma faculdade, existem cursos fora do Brasil voltados exclusivamente à formação de escritores, portanto a concorrência é muito séria. Não tendo disponibilidade para fazer um curso no exterior, pode escolher entre jornalismo, letras, direito, ou outra em que a palavra escrita seja aplicada com correção. Há várias oficinas com preços módicos, oferecidas por profissionais, além de aprender você cria laços com outros aspirantes a escritores.

2.  Pratique – escreva de tudo, sobre tudo. Não se atenha somente aos livros de fantasia ou novelas policiais ou o gênero que preferir. Comente livros, faça resenhas, resumos. Escreva crônicas, contos, poesia etc.

3.  Compartilhe – encontre seu grupo e compartilhe seus conhecimentos e críticas.

4.  Siga diligentemente quanto as instruções 1, 2 e 3 antes de jogá-las fora. (Adoro Matsuo Basho, poeta e iluminado japonês)

Se você quer fazer da escrita uma profissão, não fique esperando que o fantasma venha até você, vá até ele. Trabalhe com constância. (Como já citado no Dicas para o Escritor Iniciante 2 – Método e Disciplina).

No Brasil o mercado editorial voltado à profissão de escritor ainda é muito incipiente se comparado a outros países, mas vem apresentando um nítido crescimento nos últimos anos, nos EUA e Europa circulam dezenas de revistas especializadas, os jornais têm suas colunas dirigidas a este público, muitos livros são publicados.

Recomendo um livrinho sobre a vida prática do escritor (já recomendei dois sobre teoria – Quero Ser Escritor 3).

– Você já pensou em escrever um livro? – Sonia Belloto – (está esgotado, mas a 5ª. edição virá em breve).

O escritor pode desenvolver inúmeras atividades que ao final do mês possam pagar o aluguel e a conta do supermercado. Traduções, revisões, leitura crítica, artigos para jornais, revistas e blogs, escrever textos técnicos ou publicitários, ser um escritor-fantasma etc.

Mãos à obra.

Auto publicação, e-books, Vanity Press – Dicas Para o Escritor Iniciante 10

Menino

Este capítulo é um pouco extenso para evitar possíveis ataques de tubarões brancos da costa Australiana (não sabe do que estou falando, leia o segundo parágrafo do capítulo 22)

Há uma certa confusão quando se fala em editora independente e editora por demanda no estilo vanity press, por parte dos escritores iniciantes. As editoras independentes são aquelas que fazem o trabalho citado no capítulo anterior, as vanities vão imprimir seu livro do jeito que você mandar para elas, ou seja, vão fazer o trabalho gráfico e cobrar por isso, mais nada, algumas oferecem uma revisão ortográfica básica incluída no preço.

Excluir o trabalho do editor e do agente literário no processo de publicação é sempre um risco muito grande, são profissionais que conhecem o mercado, conhecem o que está sendo publicado, conhecem seu público alvo melhor do que você, leem muito e diversos gêneros, atualizam-se constantemente. Portanto, pense duas vezes antes de optar por este caminho e se o fizer procure evitar ao máximo cometer os erros que eles não cometeriam. Publicar um material sem qualidade técnica, sem nicho de mercado (sem leitores potenciais), desatualizado ou que se parece muito com centenas de outras obras, seja na parte conceptual, seja no estilo e que não ofereça nada de realmente original ou literariamente criativo.

1 – Como funciona a publicação por demanda ou “vanity press”

Vanity press – “vanity” significa vaidade, por isso o material que estas editoras/gráficas exploram é a vaidade do criador. A urgência de ser lido, reconhecido, amado. Generalizando, pois existem exceções, elas trabalham visando unicamente o lucro, não importa a qualidade do material, não há interesse em penetrar no mercado das tradicionais ou das livrarias, pois todos os custos e o lucro virá do escritor amador e de sua “vaidade” em dizer-se um autor publicado.

Não se iluda se elas têm o nome de: clubes, associações, grupo independente dos escritores etc. Estamos num país capitalista. Você irá pagar pelos serviços através de uma fatura antecipada ou com vencimento para 30, 60, 90 dias, que estará em seu nome. Então, se é para correr riscos, vamos analisar até que ponto podemos ir, pois esse é o mesmo raciocínio destas empresas. E não estou dizendo que é errado, num país capitalista é a forma correta de fazer negócios.

Nas vanities, o autor paga posteriormente pelos serviços referentes à primeira tiragem dos exemplares que se destinarão ao lançamento do livro ou venda direta pelo autor, estes serviços, no entanto, variam de editora para editora, algumas oferecem todos no pacote, inclusive revisão, outras oferecem somente os serviços de gráfica e capista e o registro no ISBN. Outras ainda encobrem o fato de que são somente prestadoras de serviços e dizem pagar pelos custos, quando na verdade o autor é atrelado a um contrato de compra de exemplares.

Depois destes exemplares entregues, qualquer nova solicitação pode ser feita através da editora, por demanda, ou seja, a editora imprime um exemplar por pedido. O preço de venda do livro fica a cargo da editora e a margem de lucro do escritor. Nestes casos o preço de mercado costuma ficar pouco competitivo, 30 ou 40% mais que outro com a mesma qualidade ou qualidade superior lançados por editoras tradicionais.

Em ambos os modelos, você encontrará vanities que imprimirão qualquer coisa que pedir, como 800 páginas de livro sem revisão, sem conflito, com personagens copiados de livros famosos.

Fique atento:

1 – Verifique o portfólio da empresa que irá contratar e tente receber um “feed back” de outras pessoas que publicaram com eles.

2 – No contrato sob demanda, verifique se terá acesso à quantidade de cópias que foram impressas e vendidas pela empresa, além daquelas pagas como primeira tiragem.

3 – O trabalho de revisão se refere somente à parte ortográfica, o original passa por um programa e os erros são corrigidos de forma automática, mas o custo é de uma revisão tradicional. Por isso o recomendável é que faça a revisão e depois registre seu livro, só então encaminhe para a editora.

4 – No contrato há cláusulas que não permitem que você aprove as etapas do trabalho. Lembre à editora que quem está pagando é você e também peça uma planilha de custos e valores de cada serviço para ter certeza que o preço acertado está dentro dos parâmetros de mercado.

5 – Não acredite em “histórias de vendedor” como: o autor precisa de espaço para criar, não precisa se preocupar com a parte técnica, nós resolveremos tudo; nossos profissionais são mais caros porque são os melhores; seu livro é muito bom, você deveria imprimir 300 cópias e não 30 etc.

2 – Auto publicação

A auto publicação não é uma coisa nova, grandes escritores como Emily Dickinson, Jane Austen, Virginia Woolf, Marcel Proust publicaram suas obras sem editoras. Mas não foi só o ato de se publicarem que os tornou famosos, foi muito mais a qualidade do que escreveram.

A diferença entre a auto publicação e publicar numa vanity é que na primeira o autor tem total domínio sobre a produção. É um processo trabalhoso, pois envolve a contratação de no mínimo três serviços profissionais, depois do livro passar por análise crítica, revisão e copidesque, com o Registro na Biblioteca Nacional e ISBN resolvidos. O autor precisará contar com a ajuda de um capista com experiência em capas de livros, um profissional da área gráfica para diagramar o livro corretamente, existe uma série de detalhes, por fim encontrar uma gráfica com experiência em livros sob demanda. Ao ter a liberdade para supervisionar e opinar sobre todas as partes do processo, o resultado final será sua responsabilidade, de ninguém mais.

Dependendo da sua capacidade financeira, pode contratar um profissional que cuidará de todo o processo, existe no mercado profissionais da área gráfica especializados em auto publicação, que cuidam de tudo, inclusive de encontrar profissionais para revisões e registros.

Cabe mencionar mais uma vez que o trabalho do editor não é só cuidar dos processos técnicos e de distribuição, o editor faz um trabalho de curadoria para seu livro. Análise de mercado, busca de parcerias. Ele tem uma visão externa que o autor não tem na relação autor-livro-leitor e que, ao publicar de forma independente estará perdendo a chance de contar com o trabalho deste profissional e aprender com ele.

3 – Auto publicando em E-books

Vou fazer algumas considerações gerais antes de entrar no assunto da publicação nesta plataforma. Embora muitas pessoas ainda considerem a leitura de livros físicos mais agradável quando comparada aos digitais e atribuindo ao modelo até um certo fetiche, os e-books oferecem grandes vantagens ao leitor: mais baratos, mais portáteis, mais dinâmicos. Quanto à questão ecológica, não vejo da mesma maneira que o alardeado, sobre a economia das florestas etc., papel tem um grau de “reciclabilidade” muito superior ao e-book, que contém entre os plásticos alguns metais pesados. De forma alguma, acredito que os livros físicos devam ser substituídos totalmente por e-books, mas podemos nos limitar a comprar só os livros físicos que gostaríamos de reler mais tarde, ou guardar para os mais jovens, pois não há quem garanta que a tecnologia atual não se extinguirá, levando com ela nosso acervo.

Como publicar

Publicar em e-books é simples e fácil, existe no mercado vários tutorias para as redes de vendas mais famosas e populares, que fornecem parte do trabalho gráfico, sem a mesma qualidade, por isso é uma opção interessante quando queremos nos testar e formar um público consumidor, além de ter algum retorno financeiro. Precisamos ficar atentos às entrelinhas do processo:

1 – Cuide do seu texto com os mesmos critérios de auto publicação do livro físico, escolha leitores beta, passe por profissionais de análise e revisão, estabeleça um nicho de mercado, cuide da capa (*) e faço um bom plano de divulgação e promocional. Pois seu livro/conto terá que se destacar entre muitos textos mal cuidados e de escritores despreparados e pode acabar envolto em uma mistura desinteressante. Publicar em e-book não isenta do Registro na Biblioteca Nacional.

(*) Assim como você não gostaria de ver um texto de sua autoria ser usado por outra pessoa para valorizar o trabalho dela, não o seu, sem sua autorização, é uma falta de respeito e educação usar o trabalho de outro para ilustrar o seu da mesma forma. Existem sites de imagens gratuitas e outros de aluguel de imagens, certifique-se de que a que escolheu para ilustrar seu livro não possua direitos autorais.

2 – Nunca desvalorize seu trabalho só porque muitos o fazem. Quer fazer uma semana promocional, liberando seu texto gratuitamente¿ É uma boa estratégia como parte de um plano de marketing. A gratuidade contínua sugere algo de menor qualidade, descartável e desnecessário. O que você compra com 1 real? Um livro, três balas, uma caneta.

3 – Os e-books independentes são baratos pois o material não tem edição, revisão, a qualidade é ruim na sua grande maioria e há vários textos reacionários e de caráter duvidoso. É uma generalização, mas se o seu texto foi bem cuidado, não se venda por centavos, pode ser democrático, libertário, mas não é justo, ainda não vivemos na utopia que queremos.

Uma boa opção é publicar textos curtos em e-book, contos, pois o custo de revisão e análise é baixo e você pode mostrar às editoras seu potencial e sua criatividade como escritor.

4 – Plataformas de Publicação Gratuita

Publicar em plataformas gratuitas, como o Wattpad, é um bom exercício de escrita e de teste de público. No entanto, seja comedido e cuidadoso. Disponibilize alguns textos ou mesmo um livro que você não tenha intensão de ver publicado por uma grande editora, converse com o público leitor dos seus trabalhos, os direcione para o seu blog, revistas com seus textos, livros e contos. Cultive o seu blog tanto ou mais do que cultiva estas plataformas. Elas são um bom instrumento de divulgação, mas não servem para espelhar qualidade, principalmente pelo que foi dito do item 2 da parte acima, não se venda por bananas.

Na plataforma gratuita você pode ter aquele público fiel de leitores que consome seu livro ou seus textos esporádicos, no entanto, eles não significam compradores em potencial para as editoras compradores. Significa que existe um bom público que gosta do tipo de história que você escreve e assim como a sua também leem outras do mesmo gênero. No momento em que a sua for posta para ser publicada numa editora e colocada à venda em formato de livro, a maioria dos seus leitores irá migrar para outros textos de mesmo gênero que continuam disponíveis gratuitamente na plataforma. Para que eles paguem para ler seus textos, esses terão que apresentar algo diferente e especial. Essa diferença esbarra tanto na originalidade quanto na qualidade técnica, pois sem estas duas, qualquer autor um pouco mais experiente e renomado poderia escrever uma história parecida com a sua, a editora lançar com uma boa campanha e certeza de lucro, pois não precisou apostar num desconhecido.

5 – Financiamento Coletivo

O financiamento coletivo tem se mostrado mais eficiente do que a publicação por vanity press em termos de qualidade do material e retorno do investimento e também permite ao autor que quer se auto publicar, mas não tem recursos para fazê-lo uma forma de obter esses recursos. Existem algumas plataformas para financiamento coletivo, a mais conhecida entre nós é o Catarse.

O autor irá fazer o mesmo trabalho mencionado na parte 2, auto publicação, cuidar desde a contratação de um revisor até a impressão na gráfica. Por isso terá que fazer uma planilha de custo e pesquisar o mercado com cuidado, pois na plataforma escolhida irá solicitar aos amigos e conhecidos que colaborem para que o seu livro se torne realidade através de doação em dinheiro e precisará relacionar os gastos das etapas do processo para que os investidores compreendam.

Você vai solicitar aos amigos e conhecidos que invistam em você e oferecer algo em troca. Fará um ranking de doações, podendo ir de 10 reais a 200 reais, os valores ficam a seu critério, pode oferecer uma cópia do seu livro aos que doarem menos e além do livro um brinde bacana a quem doar mais. Os valores destes brindes também devem constar na planilha de custos, portanto é interessante você conversar com alguém que tenha usado este tipo de plataforma para saber a média de pessoas em cada categoria de acordo com o valor solicitado. Geralmente as pessoas que contribuem com o valor maior são as de sua família e os amigos bem próximos.

Feita a planilha com cuidado e estabelecido o valor a ser requerido você pode começar a fazer a solicitação na plataforma escolhida. Algumas estabelecem um prazo para que o valor seja alcançado, então você tem que se certificar que vai conseguir todo o dinheiro dentro deste prazo, o que geralmente não acontece, então o ideal é começar com um valor baixo e subir assim que virar o prazo, em algumas plataformas existe essa possibilidade.

Problemas com este tipo de plataforma:

1 – Você não tem muitos amigos e colegas, sua rede social é pequena ou você não é uma pessoa de interagir com todo mundo, não consegue pedir um real emprestado para inteirar a condução para sua própria mãe. Talvez este modelo não seja o ideal para publicação, pois terá que gastar muita saliva para conseguir o total que precisa. E se não conseguir, pode pegar mal com quem colaborou, terá que devolver o dinheiro.

2 – Você oferece brindes que não sabe se vai conseguir ou que são importados e o mercado flutua negativamente, preferível mandar fazer: canecas, camisetas, canetas, marcadores dentro do básico para não se arriscar muito.

3 – Demora muito a conseguir o total do dinheiro e os investidores ficam aborrecidos, pois ninguém gosta de esperar muito tempo para receber “os lucros” o que pode gerar inimizades na sua rede social. Tenha cuidado.

4 – Você terá o trabalho de enviar para um por um dos seus investidores os brindes a que eles têm direito, isso significa: comprar embalagens, empacotar, ir até os Correios e pagar o frete, custo que deve estar incluído na solicitação da plataforma. Demanda tempo, vamos supor que você vá enviar 100 livros com brindes, calcule a demora para escrever a dedicatória pessoal (não vale fazer uma geral), agradecendo a colaboração, embalar os livros e os brindes em plástico bolha, envelopar, endereçar e ir até a agência, ficar na fila e enviar todos os 10 pacotes.

Existe uma maneira de financiamento em grupo de escritores, você e seus amigos se juntam e financiam um livro de contos, um conto para cada (não ultrapasse os 20, mais que isso não vale a pena) e depois publicando. Meu grupo de escritores trabalhou assim com o primeiro projeto e agora está fazendo com o mesmo com segundo projeto. É interessante checar no blog como nós fizemos. Não precisa ser da maneira exata, podem ser contos independentes sobre um mesmo tema como o Wild Cards do George R. R. Martin.

Prós e Contras

Prós auto publicação:

1 – Não precisar esperar dois ou três anos para ver seu livro publicado.

2 – Você tem certa liberdade para escolher como apresentar seu produto. O que garante que a história não sofrerá modificações ou interferências mercadológicas.

3 – É uma das maneiras de se tornar conhecido no mercado editorial e também mandar seu material pronto e com o retorno do público para algumas editoras tradicionais.

Contras da auto publicação:

1 – Publicar um livro de maneira independente influencia sua imagem, no Brasil até poucos anos atrás a publicação independente desqualificava o autor junto aos grupos editoriais, como o mercado brasileiro acompanha as mudanças do mercado externo, ocorreu recentemente uma flexibilização de olhares sobre o independente. A questão é que os escritores na Europa e Estados Unidos, mesmo os amadores, têm uma visão mais profissional da carreira do que nós temos, pois eles sabem que tudo que publicam é um mostruário da sua capacidade.

2 – Sem meios de divulgação ou disponibilidade para fazê-lo, seu livro morre sem atingir a cota de vendas para pagar os gastos com a gráfica. Você pode acabar com prejuízo dobrado: seu livro foi mal visto, porque o trabalho da editora foi mal feito e/ou não vendeu o volume contratado o que reflete na sua imagem como gerador de mercado.

3 – Perceber que seu livro está muito longe da imagem que criou, sente-se frustrado e acaba destruindo seus sonhos e bloqueando sua vontade para projetos futuros. Não desista.

Resumindo, encontre um amigo tubarão e não se faça de seu almoço.

Leitura Crítica – Dicas para o Escritor Iniciante – 7

Investi meu tempo e um pouco de dinheiro com a revisão e o copidesque de minha preciosa obra, não estou ironizando, ideias valem ouro! Meu amigão, aquele que havia lido antes e estava cheio de dúvidas, lê meu livro novamente. Espero ansioso pelo fim da leitura e pelo retorno. Ele diz – Nossa! Melhorou bastante! Genial! Amei! Só me explica uma coisa que não entendi. Como o dragão não morreu no capítulo 7? – Você explica. – Ah! E a princesa? Ela fugiu ou ficou no capítulo 10? – Mais explicações. – E no final? O que aconteceu mesmo?  Foi o dragão que virou um príncipe ou o príncipe apareceu do nada mesmo? – Sensação de completa derrota. Estava tão claro!!!

Foi o que senti ao terminar um dos meus livros e quando perguntei aos poucos leitores sobre o final, percebi que só eu entendia.

Se errei em algum ponto e não sou capaz de perceber. Este erro pode ser sanado com a leitura crítica. Não é um serviço barato, mas compensa cada centava, pense que você está pagando para aprender. E deve ser feito antes da revisão.

Muitas vezes este é o trabalho do profissional que avalia livros para editoras, não é raro encontrar um leitor crítico que também é um agente literário.

Na prática o leitor crítico vai analisar alguns aspectos do seu livro, alguns deles relativos ao copidesque. O que é avaliado:

Se o texto não confunde demasiado o leitor ao se perder na narrativa.

Se os parágrafos e capítulos tem continuidade e se completam, não deixando arestas.

Se o texto é claro e inteligível. Citar grandes mestres do gênero em excesso, fazer extensas alusões a outras obras ou encher de palavras rebuscadas torna o livro de difícil digestão.

Se o texto flui naturalmente, ou seja: começa, se desenvolve e termina com o mesmo ritmo. Sem grandes ocos de divagações inúteis e fora de contexto. Permitindo que o leitor mantenha a leitura sem abandoná-la.

Se a linguagem que está sendo usada é coerente com o contexto ou objetivo do livro.

E se existe a “Suspensão de Descrença”, ou seja, se não há explicações desnecessárias a ponto de o leitor desacreditar no que está lendo.

A opinião do leitor crítico não é um ultimato. Um carimbo de aprovação ou recusa. É uma alavanca para impulsionar o próprio nível crítico do autor e melhorar seu desempenho.