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Descrevendo um boi

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Como começar a descrever um boi? Dando a ele o nome de boi.

Abro as abas dos dicionários, livros, sites de pesquisa e de imagens antes de começar a escrever. Sei que precisarei recorrer para buscar a palavra adequada, verificar uma referência, me inspirar. O dicionário de sinônimos é um dos sites usados pelos escritores, afinal é um erro repetir, um vício de linguagem.

O português é uma língua rica, mas de nomes esquecidos. Uma características dos nativos de língua inglesa é a fascinação pelos sinônimos, por aprender outras formas de dizer as mesmas palavras. Na escola há competições de spelling bee, os competidores precisam conhecer palavras incomuns, as pessoas jogam scrabble, um jogo em que o que conta é o tamanho do vocabulário. Além do fato do inglês ser uma mistura de várias línguas que eram usadas em concomitância antes da consolidação do idioma.

O mesmo não acontece com o português, nossa cultura é diferente, não damos tanto valor ao estabelecido. Há quem ache importante não deixar o vernáculo morrer, há quem discuta que a língua é um organismo vivo e deixemos que viva com liberdade, se recrie a partir do hoje. Nós somos pródigos em cunhar palavras, regionalismos, nomes próprios. Será que Guimarães Rosa seria Guimarães Rosa se não fosse brasileiro? Lógico que um bom conhecimento do vernáculo é importante para o escritor, não precisa ser só isso no entanto.

Com a massiva difusão de livros de nativos de língua inglesa, ou que são traduzidos para o português através do original em inglês, o tradutor se depara com termos que se usados literalmente ficariam assim: “tinha um brilho brilhoso”, ou “tinha um brilho rutilante”, o primeiro é uma redundância, o segundo pode estar mais próximo do original, mas provoca uma pausa na leitura ou pode não fazer sentido ao público ao qual se destina. Óbvio que um ou outro termo menos comum é interessante para se colocar num livro. O leitor aumenta seu vocabulário. Como dizer que o rio coleava ao invés de serpenteava. Mas não em todas as linhas, em todos os parágrafos, ou a leitura ficará cansativa e desinteressante.

O que isso tem a ver com dar nomes aos oxen, digo, bois. Palavras generalizantes ou com significados distorcidos são usadas para evitar redundância ou causar a tal “estranheza”. A história causa estranheza, as palavras mal colocadas causam desinteresse do leitor. O escritor em português, amador, iniciante, muitas vezes usa o termo generalizante quando quer falar do específico, por exemplo, por causa dos manuais de RPG e livros mal traduzidos ou porque, ao invés de mudar a estrutura da frase, prefere usar uma palavra que pretenda deixar o leitor em suspense e que, na verdade, leva o leitor a suspender a leitura.

  1. “Pelo contorno da figura, podia-se dizer que era uma pessoa”.
  2. “A figura lançou um coquetel molotov em direção ao tanque”.
  3. “Ela tinha uma bela figura, expressão confiante no rosto e andar seguro”.

No caso do número um, a redundância de contorno e figura. “O contorno de uma pessoa, podia-se dizer”.

No caso número dois falta clareza, a primeira acepção da palavra figura não significa a forma de uma pessoa, refere-se à forma de qualquer corpo ou ser, uma barata, um alienígena. A não ser que seja isto mesmo, que o autor esteja se referindo a uma criatura fantástica ou desconhecida, a palavra é inadequada. Um ser humano jogou o coquetel molotov, então é preferível dar nomes aos bois. “A pessoa/Uma pessoa/Um sujeito/A manifestante lançou um coquetel molotov em direção ao tanque.” No terceiro caso está claro que a palavra figura se refere à segunda acepção da palavra, aparência de alguém.

“O castelo apareceu por entre as brumas da manhã. Os muros altos, cujas paredes eram feitas de pedra, cercavam a cidade e protegiam a construção no seu centro”.

Fica melhor assim:

“A névoa da manhã se dissipava. As torres ficaram visíveis e, em seguida, a muralha de pedra que protegia o castelo e a cidade ao seu redor”.

Se a escolha da palavra não está ligada ao ritmo dentro da sentença/parágrafo, sensação de não inclusão ao ambiente ou ao nome do lugar/pessoa, o ideal é que usemos a palavra mais comum, neste caso névoa é melhor do que bruma. Já uma muralha é um muro alto espesso geralmente feito de pedras. Por fim, se o castelo estava atrás dos muros, não foi ele que apareceu primeiro, foram as suas torres ou as torres de vigilância da própria muralha.

“A criatura se aproximou com suas oito patas e um corpo gigantesco e monstruoso. Fumaça saia de suas narinas.”

Se é um monstro, deixe claro na primeira menção. Fumaça não é a palavra certa, a não ser que se trate de um dragão. Seria interessante economizar adjetivos e descrever com metáforas, mas não vou usar no exemplo, só colocar um pouco de tempero para melhorar o resultado:

“O monstro se aproximava. Quando uma das oito patas gigantescas tocava o chão, as paredes tremiam. A criatura arfava de raiva, um bafo quente e podre.”

Procure a palavra certa, coloque na ordem certa de importância. Seja direto, simples e claro. Vocabulário inadequado ou escasso, faz com que a nossa ideia chegue distorcida ou não chegue ao leitor. Por outro lado, ter um vocabulário muito amplo não significa que dominaremos a língua, precisamos saber como usar as palavras numa frase, ter noção de conjunto, ritmo etc.

Links de outros artigos que falam do uso das palavras.

A Inconfundível Clareza do Ser – Dicas para o escritor iniciante – 18

IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

A Força da Palavra – Dicas Para o Escritor Iniciante 17

Reino Sem Fim – RPG e ficção escrita – Dicas para o escritor iniciante 24

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Micro Contos – Como e Porque Escrever

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O que são e o que não são Micro Contos

Micro contos são narrativas muito curtas, com 300 palavras ou menos, que trazem uma história total, não parcial. Não são muito populares no Brasil, nem mesmo tem valor comercial. Então por que nós, escritores brasileiros, deveriamos perder tempo escrevendo micro contos?

Primeiro porque para o escritor qualquer forma de escrita é válida. De haicais à sagas em “n” volumes.

Escrever micro contos permite ao autor avaliar o que é importante na prosa. Trabalhar o vocabulário e escolher as palavras mais adequadas. Cortar  redundâncias e tudo o que não é essencial. O autor fica afiado na hora de escrever narrativas longas. Além do que é uma forma de arte com as palavras, um modo divertido ou profundo de contar histórias.

Precisamos saber, no entanto, o que um micro conto NÃO é: um resumo de uma história ou uma parte isolada de uma narrativa maior. Também não são pensamentos aleatórios ou reflexões, cenários desconexos. Ações sem contexto não são micro contos. Recortes dentro de uma narrativa maior não são micro contos.

Micro Contos são narrativas completas e como tal necessitam de enredo, elementos do arco narrativo (reviravolta, flash backs, repetições, conflitos etc.), personagens, local, tempo.

Dois micro contos e seus elementos narrativos

Assim como o conto tradicional, a linha narrativa é melhor desenvolvida se baseada em no máximo três personagens e a trama contenha elementos simples e facilmente reconhecíveis.

Acerto de Contas – Lydia Davis (considerada uma das melhores escritoras contemporâneas de narrativa curta)

 “O fato de ele não me dizer sempre a verdade faz duvidar da verdade do que ele às vezes me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não para de me dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

Personagens – duas pessoas num relacionamento

Arco – estabelece a dúvida sobre o que ouve do parceiro, faz uma busca para descobrir o que é verdade, termina por convencer-se que ele às vezes não diz mentiras.

Elementos narrativos – flash back, reviravolta, conflito, repetição

Tempo – ao longo do relacionamento.

Arquíloco – séc. VII a.C.

Algum saio (guerreiro da tribo inimiga) do escudo se orgulha. Sem querer abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se: conseguirei outro igual.

Personagens – Arquíloco e o saio

Arco – perdeu o escudo, salvou a própria vida, eliminou o arrependimento

Elementos narrativos – flash back, suspense, conflito, repetição

Tempo – durante uma batalha

Local – no campo de batalha

Dicas para escrever micro contos

  1. Mostre não conte, este conselho essencial para qualquer narrativa, deve ser seguido à risca para as narrativas curtas.
  2. Atenha-se ao que faz uma narrativa interessante, conflito, cenário, atmosfera, personagens, enredo
  3. Escreva e reescreva sua história diversas vezes, quantas forem necessárias, até que ela só mostre o essencial.
  4. Comece pelo meio, pela parte mais importante ou mais emocionante. Forneça uma guia da história ao leitor.
  5. Escolha o melhor título possível, ele fará parte da narrativa
  6. Deixe um questionamento na última linha que conduza o leitor a reler o conto para entender a mensagem. Ou seja, leve o leitor por um caminho e o empurre para outro.
  7. Coloque a conclusão no meio da história.

Neste link, Lydia Davi conta sobre seu processo criativo e mostra como um dos seus contos foi escrito. Do rascunho ao final.

 

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/07/lydia-daviss-very-short-stories/372286/

COPO MUITO CHEIO – BLOQUEIO POR EXCESSO CRIATIVO – Dicas para o Escritor Iniciante 30 (o anterior era 29)

Copo cheio

Já conversamos sobre Bloqueio Criativo (https://claudiadu.wordpress.com/2014/03/06/a-dor-da-folha-em-branco-bloqueio-criativo/), de onde vem este monstro e como acalma-lo. Alguns amigos comentaram comigo que uma das razões do bloqueio criativo é o excesso de projetos e ideias na cabeça, eu também sofro disso as vezes. Hoje, então, vou falar sobre o excesso criativo.

Na última oficina que coordenei nós trabalhamos a criação de ideias, como faze-las surgir de qualquer coisa. Uma lembrança do passado, cadeiras empilhadas, observando pessoas no metrô, juntando referências de outras histórias. É a criação: retalhos de experiências articulados de forma única e harmônica. Quando o autor percebe isso, no entanto, as ideias parecem ganhar um volume superior ao que cabe nas prateleiras de sua mente e, pior, todas as ideias juntas urgem para ganhar vida de alguma forma ou serão enterradas umas sob as outras, desaparecendo.

É isto o que acontece, elas vão se sobrepondo, se engalfinhado para nascer e acabam perdidas, abortadas, cobertas de poeira e ficamos muito tristes com a nossa incapacidade em fazer tudo ao mesmo tempo agora. Mas e o caderninho de anotações? Vocês podem perguntar. Ele é ótimo para guardar ideias, mas as páginas vão passando e algumas vezes nem nos lembramos mais do quê e porquê anotamos aquelas linhas.

Acho que a primeira coisa a se dizer é: ESQUEÇA. Esquecer faz parte do processo, se a ideia era realmente boa, você irá recupera-la e conseguirá se lembrar dela. Se a ideia não tiver que acontecer não acontecerá, outras tomarão seu lugar. Feito isso, livramo-nos da neura, mas não nos livramos dos quatro, cinco, seis projetos que temos em mente para produzir.

Priorizar dá certo¿

Colocar em ordem de importância o que vamos fazer dá certo. Sim, na maioria das vezes. O que costuma não dar certo é o motivo da priorização. A nossa linha de produção criativa precisa ter uma razão além do querer. Esta linha depende do que almejamos quando escrevemos. Escrever para nós mesmos e para o nosso deleite sem pensar se iremos ser lidos ou não, este é o objetivo, então o querer é o determinante ideal para a prioridade. No entanto, a maioria das pessoas sãs escreve para ser lida.

Para estabelecer uma prioridade precisamos pesar a importância das variáveis.

Se você é um escritor amador ou principiante que escolheu o caminho mais difícil e o mais certo para se guiar na profissão – fazer cursos e se aprimorar, trocar ideias com seus iguais e participar de concursos para ter um destaque neste meio bastante competitivo – a sua prioridade precisa estar de acordo com os prazos e conteúdos dos concursos e com o perfil das editoras que você está buscando.

Vai escrever uma saga em três volumes, não tenha outras ideias pelos próximos anos. Dedique-se a organizar as ideias que coletou dentro da sua saga. Não tem jeito de unir aquela determinada ideia à saga? Guarde-a para depois ou faça um conto dentro do mesmo universo. É possível trabalhar mais de um projeto ao mesmo tempo, depende do quão flexível é o autor e da profundidade de sentimento envolvido na construção de seu universo.

Faça um quadro de projetos. Um rascunho, folhas de caderno. Dê notas de um a cinco, pontos positivos ou qualquer tipo de marcação para aspectos como: sua vontade de escrever sobre aquele tema; a relevância que este projeto tem para você e para o seu público alvo; a quantidade de informação que deverá ser coletada para fazer o projeto e se essa parte da pesquisa te atrai; seria interessante para as editoras e está dentro do perfil daquelas que você tem buscado e por fim avalie os prazos de produção, caso vá participar de algum concurso. Nem precisa somar as notas e os pontos positivos, já vai dar para ter uma ideia do que você pode descartar por este momento e ao que se dedicar só por ter pensado sobre.

Usando como exemplo o meu quadro de produção, tenho dois projetos para serem entregues até o final do ano, estes são os prioritários pois têm prazos e envolvem pesquisa, um deles massiva. Um projeto terminado que precisa de atenção para revisão, ou seja, o grosso da criação terminou, precisa aparar as arestas então é mais suave. Um projeto em desenvolvimento, já com começo, meio e fim prontos na fase de pós primeira revisão e primeira reescrita. Por fim um que faço por diversão, nas horas em que a cabeça pesa, mas que quero acabar. Outros dois projetos estão esperando na fila quando acabar pelo menos dois dos citados.

Colocar prazos para si mesmo ajuda muito a não engavetar ideias que foram entendidas como válidas e importantes nos aspectos citados. Não se preocupe se tiver que adiar seus prazos, o que geralmente acontece, você não é uma empresa, mas precisa se entender como um profissional. Encher seu copo com doses de prazer e responsabilidade tomando cuidado para não transbordar.

Se você é uma pessoa que faz só um projeto por vez, sinta-se invejado.

COISAS QUE AMEI EM BALL JOINTED ALICE DA PRISCILLA MATSUMOTO

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Já havia lido um conto da Priscilla Matsumoto, O Reflexo do Dokkaebi – Boys Love, e gostado do modo como ela dialogava com a psique de seus personagens. Estava empolgada para ler o livro. E agora, livro lido, não estou querendo mais história, a história está completa, cheia e tão bem alojada dentro de mim que vai levar um tempo até poder ler algumas das outras que me esperam na estante. Já abri uns três livros e não consigo passar da primeira página ao perceber que falta o artista por trás das letras. Não são livros ruins, Priscilla é que é boa demais. Vou ainda chorar um pouco o vazio de Frank, por dentro, embaixo da cama, no escuro.

O mundo espelhado por Frank, que não consegue se enxergar, me lembrou um livro da minha adolescência, no final dos 70, chamado Sybil, história real de uma garota abusada na infância que desenvolveu 16 personalidades diferentes. Frank é obcecado por sexo e por caos, coloca obstáculos a todo tipo de amor recebido, enquanto do outro lado do espelho ele é completamente apaixonado por pessoas que estão fora de seu alcance: artificiais, mortas ou lésbicas e eventualmente um gay mais deprimido do que ele.

Não se engane pelo que disse até agora pensando que se trata de um relato introspectivo e denso difícil de ler. Não é. Ball Jointed Alice é um livro de ação, personagens que parecem saídos de um mangá muito louco. A violenta e irracional Emi, traficante que guarda um arsenal em casa, Tay a estilista voluptuosa, misto de pin-up e Mortícia Adams, Shin, o japônes lindão gay, o único “normal” do grupo, alheio ao que acontece quando as coisas ficam feias. E elas ficam muito feias, quando Emi decide usar seu arsenal para explodir o hospício de onde todos fugiram e “contrata” Frank para criar um exército de bonecas Alice.

E sobre Alice, a boneca que dá nome ao livro? Ela é a linha que costura o rasgado Frank novamente, que vai busca-lo no poço onde ele caiu e o resgata da Rainha de Copas. Só chegando ao fim do livro para perceber quem é Alice.

Melhor coisa de Ball Jointed Alice é a interpretação do leitor, os quatro parágrafos acima foram a minha leitura da história, a partir de experiências, do entendimento pessoal das referências de livros, a Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, a Sybil etc e dos mangás japoneses e coreanos. Alguém que nunca leu Alice (difícil achar quem não, mas vai que) leia primeiro, depois jogue-se no poço de Ball Jointed Alice e morda o biscoito do mundo conturbado e louco de Frank.

Ainda hoje de manhã me perguntei se Frank não era só um espelho.

Onde encontrar: no site da Editora Draco: http://editoradraco.com

 

DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 30 (acho) – BOLACHA RECHEADA DE PARÁGRAFOS

Vamos comparar o texto/livro a um pacote de bolachas recheadas (você pode substituir a palavra bolacha por biscoito).

Compramos o pacote pela capa, aquelas bolachas “photoshopadas” que parecem crocantes com recheio cremoso, escolhemos o sabor, eu leio um pouco o rótulo como as pessoas leem as orelhas e as resenhas dos livros.

Podemos dizer que a embalagem é a introdução do texto, o que podemos esperar da narrativa. A primeira bolacha é os parágrafos iniciais e irá nos dizer se gostamos ou não do estilo do autor. Lambemos o recheio e sentimos se o texto tem um bom conteúdo, é docinho e desliza na ideia, conseguimos sentir o gosto. Se é mole demais e desmancha muito rápido na boca. Se oferece pouca ligação, na hora da lambida ele se desgruda todo ou mesmo cheio de gordura, mas sem sabor nenhum. A embalagem dizia que o recheio era sabor limão e não sentimos nem o doce do açúcar, nem o ácido da fruta. Se estamos com fome, estamos acostumados a comer qualquer coisa ou se nos delicia vamos até o fim do pacote de uma vez sem arrependimentos.

Regra geral para se comer bolacha recheada: separe as duas metades, lamba o recheio, coma as duas metades. Regra geral da construção de parágrafos. Ideia central ou nuclear vem primeiro, ideias secundárias, que envolvem ou explicam decorrem da ideia central. Há outras maneiras de comer bolacha recheada, mas esta é a básica.

Vou usar uma frase que acabo de discutir com o amigo Giovani Arieira, para explicar o conceito de ideia central:

Ele escreveu:

A escuridão foi rompida por uma lâmpada acesa no canto da sala que iluminava só uma parte do ambiente oposta ao que Gregor se encontrava.

O mais importante nesta sentença é a luz, assim como nas subsequentes protagonista enxerga o ambiente. Mencionar Gregor pelo nome sendo ele o único personagem da trama é gordura desnecessária que tira um pouco o sabor . Reescrita ficou assim:

A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta. (o protagonista havia entrado na sala no parágrafo anterior).

Eu gosto de comer as bolachas inteiras, sem separar, conheço quem come as partes e deixa o recheio e outros que raspam o recheio com faca para comer depois. A apresentação de um parágrafo é tão relativa quanto o modo de se comer uma bolacha recheada. Depende do assunto, da complexidade, do gênero, do público leitor etc.

O autor, no entanto, precisa saber gerir os recursos de expressão e desenvolvimento da ideia começando pelo básico.Não existe liberdade sem que se saiba onde estão as amarras que nos prendem, por isso precisamos conhecer e estudar a estrutura das frases e parágrafos para que elas não nos limitem. Um parágrafo mal construído pode sugerir ao leitor desordem de raciocínio, falta de unidade ou objetividade, acabando por enjoar e desinteressar.

Nos livros de técnicas literárias aprendemos que o parágrafo é uma unidade de composição que representa um processo completo de raciocínio dentro da ideia principal. Ou seja, o ponto central e seus contornos, o recheio e suas duas metades. Até que aparece alguém como Roberto Bolaños (não é o Chaves, pois ele gostava de churros não de bolachas) e escreve “Noturno do Chile”, um livro de 120 páginas, com somente dois parágrafos, um que ocupa quase todo o livro e outro com 8 palavras! Não significa que o autor não domina a construção do texto, significa que ele se sente tão livre que pode fazer o que bem quiser que o texto continuará tendo unidade. Muitos consideram “Noturno” sua obra-prima.

Então podemos concluir que a extensão do parágrafo é menos importante do que a coesão com o conteúdo da ideia principal.

De uma forma bem rasteira podemos dizer que o parágrafo tem que ter:

  1. Uma ideia central e principal que puxa o texto e ocupa dois ou três períodos curtos,
  2. O desenvolvimento ou explicação da ideia e
  3. Uma conclusão ou ligação para o próximo parágrafo.

“ 1- Naquela manhã perdi toda a esperança de encontrar Madalena, pois ela havia partido, de forma definitiva. 2 – A nave em que ela embarcou tinha um destino bem diferente da minha, o tempo em que ficaria em estado de suspensão, muito mais longo que o meu. 3 – Percebi que não há está coisa de destino traçado, duas metades da mesma laranja, par perfeito. Se houver o que podemos chamar de para sempre, não se aplicava a mim e a ela.”

 

Desdobramento da ideia em parágrafos

 

Recurso comum e eficiente é desdobrar uma ideia mais complexa em alguns parágrafos. Argumentar sobre ela, narrar um incidente que a explique, descrever o quadro geral, respondendo perguntas sobre o quê, quando, onde, para quem, por quê.

Trecho de O Homem Sintético de Theodore Sturgeon

“Livrou-se da embriaguez. O alcoolismo não é uma doença, mas um sintoma. Há duas maneiras de liquidar o alcoolismo. Uma é curar a causa. A outra é substituí-lo por outro sintoma. Foi esse o caminho escolhido por Pierre Monetre.

Escolheu desprezar os homens que o liquidaram e acabou desprezando o resto da humanidade, porque estava muito próxima daqueles homens.

Gozava com esse desprezo. Erigiu um pedestal de ódio e encarapitou-se nele para escarnecer da humanidade. Isso era, naquela época, a única coisa que o satisfazia. Ao mesmo tempo, morria de fome; mas, como os ricos eram a única coisa que tinha valor para o mundo do qual zombava, gozou também sua pobreza. Por algum tempo.”

Nestes três parágrafos o autor demonstra a passagem do estado de alcoólatra desiludido para sociopata lunático do personagem.

No primeiro ele diz do raciocínio de Pierre para abandonar o alcoolismo.

No segundo, onde ele aplicou esse raciocínio.

No terceiro, o como.

Abra um livro qualquer, um bom livro, escrito por um autor renomado, daqueles que tanto o público quanto a crítica gostam. Também pode ser um escritor profissional como Jay Bonansinga, responsável pela adaptação de The Walking Dead para romance, ou Timothy Zahn que adaptou Star Wars. Dê uma boa olhada na construção dos parágrafos e na sua disposição. Na próxima história que escrever pratique o que aprendeu com suas leituras e veja o quanto sua história ganha em clareza, coerência e principalmente: sabor.

A Dor da Folha em Branco – Bloqueio Criativo – Dicas Para o Escritor Iniciante 26

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Como superar a dor da folha em branco? Acho que a pergunta deveria ser: por que você passa por um bloqueio criativo?

Há vários fatores que podem desencadear o bloqueio criativo, o principal é a insegurança que nasce do excesso de expectativas.

1-      Você acha que a sua ideia é genial, então quer escrever um livro genial, lógico, ele tem que ser único e elaborado com a fina flor da língua. Caminho errado. A prática faz a perfeição. Não existem anabolizantes para escrever. Baixe as expectativas, sente-se e escreva sua história como desejar, não se preocupe com a crítica (interna ou externa), seja você mesmo e divirta-se. Como não existem dois seres humanos iguais, jamais existirão dois escritores iguais, de qualquer forma sua ideia será original e única.

2-      “Estava tão inspirado, agora acabou. Onde está você, inspiração?” Ela vai voltar, todo mundo tem seus lapsos criativos: grandes escritores, jornalistas, advogados, pedreiros. Todo mundo um dia acorda virado e nada sai direito. Aguarde um pouco, preocupe-se com outras coisas e depois volte a escrever que a inspiração voltará também.

3-      Considerar cada linha, parágrafo ou página como eterno e imortal é considerar que aquele despertador de corda, velho e quebrado irá ser útil um dia. Não guarde quinquilharias, elas ocupam o espaço do novo. Leia o que escreveu e se parecer pobre, insuficiente, desnecessário ou inadequado: jogue fora. Reescreva e tudo se necessário.

4-      Aquela ideia perdida, como já disse em outro capítulo, não vai voltar, mas outras virão, nunca esqueça o bloco de notas, virtual ou físico, e verifique se estas notas levarão a um projeto, guarde-as para um momento em que este projeto que está desenvolvendo travar. Parta para outro livro/conto, momentaneamente, retorne revigorado pelas novas experiências para o antigo projeto. Outra ideia é considerar alguma proposta dentro do projeto e desenvolvê-la: um cenário, uma história paralela, um acontecimento passado etc. Pode guardá-la ou usá-la se for relevante.

5-      Outra forma de revigorar-se é exercitando o corpo – “mens sana in corpore sano”. De uma longa caminhada, ande de bicicleta, faça exercícios e volte para a folha em branco. A circulação aumenta e seu cérebro fica energizado pelo fluxo de sangue.

6-      Leia o que escreveu em voz alta, aliás, ler é uma forma de voltar-se para a história, o escritor vive suas histórias, tanto que ao terminar um livro se sente um pouco órfão, um pouco abandonado. Este também pode ser um fator de estresse que pode impedir novas conquistas. Desapegue-se.

7-      O pior de todos os bloqueios é o inicial. Então esqueça o início e vá para o meio, o fim, a parte que está na sua cabeça no momento que decidiu escrever. O processo de escrita não é uma novela que começa no primeiro capítulo e termina no último. Esta decisão também pode ser generosa para com seu trabalho. Imagine que seu livro tem uma batalha épica para acontecer por volta do capítulo 10, e para que esta batalha aconteça uma série de conflitos e intrigas terão que estar nos capítulos 1 a 9, então você acelera para alcançar o capítulo 10. Escreva o capítulo 10, livre das expectativas, verá que os capítulos anteriores se desenvolverão melhor, quando chegar ao ponto da batalha, observe se o conteúdo do capítulo está adequado e continue.

 

Por que os bons começos de livros são tão cultuados? Por que eles nunca são tão certos quanto deveriam, reescrevê-los num determinado momento do processo é quase obrigatório para os escritores modernos.

A Força da Palavra – Dicas Para o Escritor Iniciante 17

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“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.”
João 1:1-3

A Bíblia é um livro lindo, adoro Os Cantos, Os Salmos, Matheus. Quem não leu, seja por algum preconceito, ou por não acreditá-la também literatura, leia. Não sou religiosa, não tenho religião. Mas tenho certeza que sem a palavra o mundo não existiria, porque não poderíamos dizê-lo.

Como pensar o mundo sem usar palavras? A linguagem tem três funções principais: representar ideias, exteriorizar sentimentos e demonstrar vontades.

Para expressar o mundo precisamos de um vocabulário amplo, que não deixe dúvidas quanto ao que queremos dizer em relação as nossas ideias, sentimentos ou vontades. Vocabulário escasso ou usado de forma inadequada prejudica a recepção, confunde o leitor. Existem dois caminhos para adquirir vocabulário e nenhum deles é automatista. Um é a leitura, o outro a escrita. Não faz nenhum sentido decorar listas de palavras.

É preciso conhecer todos os vícios de linguagem para que não abusemos deles. Repetições, solecismos, redundância, cacofonia, arcaísmo, anfibologia. O escritor iniciante peca bastante neste quesito, não vou discorrer sobre eles, há muitas informações disponíveis.

“Adentrou o recinto, recitando a ode em forma de poema, o rei o reverenciou, seus pés ocilaram, estava aonde deveria estar.” 

Temos alguns exemplos de vícios de linguagem como o verbo adentrar no sentido de entrar, adentrar significa penetrar ou pela força ou com certa dificuldade, o mesmo vale para aonde, que não é onde, aonde implica movimento, direção. Os pés de quem oscilaram? Do poeta ou do rei? Oscilar (com s) é a melhor palavra para esta narrativa?

Utilize sempre um dicionário, ou dois, três. Um dicionário de sinônimos e outro de antônimos, faça pesquisa etimológica, estude semiótica. Aprender outro idioma ajuda a entender como o seu próprio idioma funciona, mas para o escritor é bom que ele compreenda além da oralidade, um pouco de sintaxe da língua estrangeira. Use ferramentas para aumentar seu vocabulário como pesquisar na internet o assunto sobre o qual se quer escrever e criar um banco de palavras.

Usando palavras, sejam no seu sentido denotativo ou conotativo – expressões em desuso, diga-se – precisamos de um contexto para que possam viver. Muitas delas têm tantos significados que sem o contexto não conseguiríamos definir sua função.

torre – dedo – seguir

Torre – edifício alto fortificado, usado antigamente para defesa na guerra

Dedo – cada uma das extensões articuladas da mão

Seguir – marchar, caminhar após.

“Torre fria do mundo, vulcão, dedo de neve que me seguiu por toda…”

Descrição do vulcão Osorno no Chile por Pablo Neruda.

Já falei no perigo de usar generalizações. Estava generalizando. Em qualquer texto mais elaborado, as duas extensões – particular e geral – se interligam e formam um conjunto, este conjunto é que dá a dimensão do que se escreve. Observe alguns desenhos, quadros ou revistas em quadrinhos, reproduza o quadro geral, depois procure descrever os detalhes.

Outro problema comum aos escritores inciantes é o excesso de adjetivos. Não são necessários adjetivos em profusão para descrever um ambiente, há outros recursos como as figuras de linguagem por exemplo.

Ela tinha uma beleza incomum. E? O que esta frase acrescenta ao retrato da personagem é absolutamente nada. Que tipo de beleza? Por que incomum?

Singularmente alta e quase sem seios, vestida de preto das botas ao lenço no pescoço, pareceria um homem, não fosse a cintura fina marcada pelo colete a definir-lhe o sexo. Os cabelos lisos desvencilhavam-se da cabeça, apontando a saída para todos os lados. Observavam-me seus profundos olhos violetas. Eu observava sua boca vermelha, sangue sobre o branco em seu rosto dividido simetricamente pelo nariz reto. Sua aparência tinha um quê de anjo saído das sombras – faltavam asas, sobravam intimidantes sorrisos. Descrição de um herói de mangá – não me lembro do nome ou da revista.

Seja claro e procure a palavra certa para expressar o que quer, a escrita traduz o som e a imagem, não copia.