Category Archives: Dicas Para Escritores Iniciantes

Esta é uma série de artigos com dicas para escritores inciantes que abrangem além da organização e profissionalização. com temas como Direitos Autorais, Revisão, Leitura Crítica, Mercado Editorial a solução dos problemas comuns ao escritor iniciante: construção de diálogos, importância dos conflitos e do tempo etc.

Micro Contos – Como e Porque Escrever

flash-fiction

O que são e o que não são Micro Contos

Micro contos são narrativas muito curtas, com 300 palavras ou menos, que trazem uma história total, não parcial. Não são muito populares no Brasil, nem mesmo tem valor comercial. Então por que nós, escritores brasileiros, deveriamos perder tempo escrevendo micro contos?

Primeiro porque para o escritor qualquer forma de escrita é válida. De haicais à sagas em “n” volumes.

Escrever micro contos permite ao autor avaliar o que é importante na prosa. Trabalhar o vocabulário e escolher as palavras mais adequadas. Cortar  redundâncias e tudo o que não é essencial. O autor fica afiado na hora de escrever narrativas longas. Além do que é uma forma de arte com as palavras, um modo divertido ou profundo de contar histórias.

Precisamos saber, no entanto, o que um micro conto NÃO é: um resumo de uma história ou uma parte isolada de uma narrativa maior. Também não são pensamentos aleatórios ou reflexões, cenários desconexos. Ações sem contexto não são micro contos. Recortes dentro de uma narrativa maior não são micro contos.

Micro Contos são narrativas completas e como tal necessitam de enredo, elementos do arco narrativo (reviravolta, flash backs, repetições, conflitos etc.), personagens, local, tempo.

Dois micro contos e seus elementos narrativos

Assim como o conto tradicional, a linha narrativa é melhor desenvolvida se baseada em no máximo três personagens e a trama contenha elementos simples e facilmente reconhecíveis.

Acerto de Contas – Lydia Davis (considerada uma das melhores escritoras contemporâneas de narrativa curta)

 “O fato de ele não me dizer sempre a verdade faz duvidar da verdade do que ele às vezes me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não para de me dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

Personagens – duas pessoas num relacionamento

Arco – estabelece a dúvida sobre o que ouve do parceiro, faz uma busca para descobrir o que é verdade, termina por convencer-se que ele às vezes não diz mentiras.

Elementos narrativos – flash back, reviravolta, conflito, repetição

Tempo – ao longo do relacionamento.

Arquíloco – séc. VII a.C.

Algum saio (guerreiro da tribo inimiga) do escudo se orgulha. Sem querer abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se: conseguirei outro igual.

Personagens – Arquíloco e o saio

Arco – perdeu o escudo, salvou a própria vida, eliminou o arrependimento

Elementos narrativos – flash back, suspense, conflito, repetição

Tempo – durante uma batalha

Local – no campo de batalha

Dicas para escrever micro contos

  1. Mostre não conte, este conselho essencial para qualquer narrativa, deve ser seguido à risca para as narrativas curtas.
  2. Atenha-se ao que faz uma narrativa interessante, conflito, cenário, atmosfera, personagens, enredo
  3. Escreva e reescreva sua história diversas vezes, quantas forem necessárias, até que ela só mostre o essencial.
  4. Comece pelo meio, pela parte mais importante ou mais emocionante. Forneça uma guia da história ao leitor.
  5. Escolha o melhor título possível, ele fará parte da narrativa
  6. Deixe um questionamento na última linha que conduza o leitor a reler o conto para entender a mensagem. Ou seja, leve o leitor por um caminho e o empurre para outro.
  7. Coloque a conclusão no meio da história.

Neste link, Lydia Davi conta sobre seu processo criativo e mostra como um dos seus contos foi escrito. Do rascunho ao final.

 

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/07/lydia-daviss-very-short-stories/372286/

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Marcadores Neutros de Gênero – x, e, @, i, u – Considerações sobre o uso

O uso de indicadores neutros  x, e, @, i, u de gênero  não é um assunto novo lá fora. Aqui é um pouco mais recente. Não vou falar das polêmicas, problematizar não é o objetivo, o texto traça algumas considerações sobre o como fazer e a parte prática deste fazer. A transformação da linguagem se dá mais pelo uso do que por decreto ou por força. O importante é que a língua muda, quer se aceite ou não. O nascimento do italiano moderno, por exemplo, está ligado à popularidade da A Divina Comédia, que foi escrita em uma das muitas línguas da região, não em latim como era comum.  A língua já fazia parte do povo, era ouvida nas ruas, nas casas, nos órgãos administrativos. Dante não mudou a língua, só colocou no papel o que já existia, solidificou o uso.

A subversão é importante, mas não determinante. O subversivo causa um ferida, resta saber se esta ferida é profunda para formar uma cicatriz permanente. Até que ponto vai a nossa ambição em modificar o que é popularmente aceito sem causar uma sangria irreversível entre o acadêmico/popular e a expressão da igualdade de gêneros? Queremos matar a nossa esperança ou construir uma nova identidade? O esperanto morreu na sua ambição de se tornar uma língua comum, justamente porque não se preocupou com fatores culturais e sociais de identidade dos povos e a importância da linguagem na representação desta identidade.

O Português e o sentido intrínseco do marcador de gênero

A língua portuguesa determina geralmente o feminino e o masculino pelo uso das vogais a e o, respectivamente. Tudo tem gênero. A casa, o carro, o tomate, a batata. Animismo que algema as expressões não binárias. Os marcadores de gênero nos adjetivos, bonita, bonito, desiludido, desiludida ainda podem ser acrescidos de seu esteriótipo.

Generosa – mulher boa, doadora, humilde, provavelmente religiosa e submissa a algum preceito de caráter conservador.

Generoso – homem bom, desapegado, honesto, provavelmente rico que dedica os fins de semana para fazer o bem ao próximo, porque durante a semana trabalha para acumular bens.

Uma atitude generosa nos parece corriqueira, acontecida no dia a dia.

Um ato generoso tem força, exigiu do protagonista desprendimento do ego.

Quantas vezes os escritores preferem usar ato generoso para demonstrar a importância do gesto sem perceber que reforçam esteriótipo de gênero?

Portanto quando usamos um marcador de gênero num objeto, ação ou pessoa estamos ao mesmo tempo reforçando padrões culturalmente aceitos como norma de que a mulher é fraca e o homem é forte. Mas como disse no início, não é o objetivo deste artigo. O objetivo é buscar ideias para a representação não binária.

Marcadores – e, x, i, @, u e seu uso prático

Algumas considerações permeiam todas as classes de palavras, pronomes, adjetivos, substantivos e artigos.

Pronomes – ele, dele, seu, sua, aquela, aquele etc…

E – ele, dele, seu ou sue – A presença do e como partícula masculina nestes pronomes nos impede de usar este marcador como neutro/não binário.

X – elx, delx – quando falamos acrescentamos uma vogal ao final da palavra quando ela termina em consoante, o anglicismo na frase me add no seu facebook se transforma em |me ade no seu facebuque|. Mudamos o som final do l em u, do m em ão. Ao pronunciar o x em elx, delx, aquelx, acrescentaremos vogais ao sons |cs| ou |∫| (símbolo fonético para o som ch): elecs, delecs, elechi, delechi. Impossível com seu e sua – sex, sux!!!! Sem falar da questão dos áudio books e leituras sonoras por aplicativos para cegos, analfabetos, disléxicos etc.

@ – é um novo sinal, atual, moderno, pouco prático sonoramente, seria o mesmo que usar o a ao invés do e. Por que não? Seria uma atitude política, de afirmação mais do que uma atitude prática que conduzisse a uma mudança que fosse aceita por todos a longo prazo. A primeira alteração seria gráfica, um símbolo novo @ no nosso alfabeto. A segunda sonora. Qual sonora? |a|, |at|?

I – eli, deli – dependendo do país e região em que se vive, os sons não diferem em relação ao e. Siu ou sui são similares às onomatopeias de sussurros, alívios, chamadas.

U – elu, delu – em tese parece o mais adequado, na prática ele esbarra na falta de costume com a sonoridade do |u|, vogal menos usada em português. Podemos pensar que eu termina em u e portanto faria todo o sentido usar elu tanto para ele quanto para ela. Seu e sua conservariam o s e o u, su, eliminando tanto o e quanto o a. No entanto, a som |u| é usado para palavras que terminam em o e são masculinas na maioria dos sotaques: pato – |patu|, atrasado |atrasadu|.

Adjetivos e Substantivos

Tendo o que foi dito sobre o uso dos marcadores nos pronomes, as questões do uso do X, I, @ para adjetivos seriam similares. O x e a exclusão de grupos de pessoas. O i e a similaridade com o som do e, o @ e a complexidade de introdução de dois novos conceitos ao invés de um.

E –  usado para designar tanto palavras masculinas quanto femininas, o tomate, o embate, a manchete, a tempestade. A adaptação para o uso desta terminação com substantivos e adjetivos é simples e próxima ao uso que já fazemos do e para complementar o som de consoantes “solitárias” no final e no meio da palavra.

U – como dizemos o |i| é falado no lugar do e, em muitos sotaques, tapete |tapeti| e assim acontece o mesmo com o |u|,  em relação ao o, barco |barcu|, o que jogaria todos os adjetivos e substantivos com a terminação u como masculinos.

Artigos O, A

@ – neste caso específico do artigo, este símbolo tem um quê de unificador o a envolvido pelo o, no entanto esbarramos no problema da dupla complexidade de introdução. A aparência do símbolo também remete mais à androginia do que a não binaridade.

E – analisando o uso que fazemos do e como onomatopeia para chamar a atenção de alguém ou pausar a sentença para pensar sobre o que estamos falando, parece uma solução simples usá-lo também como substitui do a e o.- Ê, fulane, vem aqui! – Estava em casa eeeeeeee não estava na escola quando recebi a mensagem. Porém, e é uma partícula de ligação, o que poderia confundir o leitor ou ouvinte. Será uma continuação do que se fala ou não? Precisaremos exercitar a contextualização.

Exemplos de uso

Irei utilizar o u e o como marcadores para exemplo. Alguns vícios de linguagem são inevitáveis com o uso de marcadores:

Ambiguidade:

Rani e Kieran estavam conversando quando de repente elu pegou o cavalo delu e fugiu. Elu ficou surpreso com o roubo.

Quem fugiu? Com e cavale de quem? Quem ficou surpreso?

Repetição:

Rani e Kieran estavam conversando quando Kieran pegou e cavale de Rani e fugiu. Rani ficou surprese.

Um texto com excesso de repetição se torna cansativo e desestimula a leitura.

Há a questão da própria sonoridade do texto, quem escreve trabalha com símbolos no papel, mas quem lê transforma estes símbolos em sons. Por isso ler o texto em voz alta é um dos conselhos dados aos escritores iniciantes para avaliação do próprio texto. Como avaliar sonoramente um texto se não podemos lê-lo?

 Rani e Kieran estavam conversando enquanto Anna carregava @ arma. De repente Kieran pegou @ cavalo de Rani e fugiu. Rani ficou surpres@ com @ atitud@ d@ menin@. 

A quem se refere o menin@? A Kieran ou Rani?

Marcadores e Representatividade

Rani estava conversando com Kieran quando de repente estu fugiu com o cavalo daquelu. Aquelu ficou surprese.

Além do exemplo acima ter ficado horrível em todos os sentidos. Por nossa memória semântica concluiremos que os dois personagens são de gênero masculino. Pode não ser importante para a trama e pode ser importante se estamos buscando uma literatura representativa. Rani é a personagem do livro O Sino de Rani de Jim Anotsu, uma menina negra. Kieran é o personagem da série Castelo das Águias da Ana Lúcia Merege, um professor.

Num curso para debater a escrita quir  (de queer – peço desculpas a quem não gosta de anglicismo, prefiro o termo por ser abrangente) produzimos textos sem marcadores. Não mencionamos gênero, cor, sexualidade. A classe  era diversa: cis, trans, homos, héteros, não binários, bissexuais, negros, brancos e índios etc.Conseguimos produzir bons textos e colocar as características dos personagens nas entrelinhas. A conclusão sobre o que os textos nos diziam da posição de leitores foi no mínimo triste. Até que as entrelinhas se tornassem claras para os leitores, quase todos imaginaram os personagens como brancos/héteros/masculinos. Não há representatividade ou igualdade na anulação das características dos personagens. Não vivemos uma utopia social e cultural onde todos são iguais. E se queremos que o leitor comum veja esta representatividade e que ela um dia chegue a ser considerada a norma cultural e social precisamos deixar claro de quem falamos.

Para escrever sobre um personagem das minorias precisamos pensar como um personagem de minoria e valorizar as características que representam esta minoria no personagem.

Minhas escolhas (que não precisam ser as suas)

De dois anos para cá tenho buscado algumas soluções. Não dispenso o gênero do personagem se é importante. Quanto aos adjetivos uso o e para fugir da conotação do a e do e. Se vou escrever sobre um personagem assexuado ou não binário procuro soluções de marcadores que passem esta definição. Quando faço um estudo de personagem, penso em como ele gostaria de ser identificado e escolho a representação mais adequada. Não uso marcadores, ou uso e u para os personagens em que o gênero não tem relevância alguma, são figurantes. De qualquer forma não sigo uma regra. Existem mais cores no espectro do arco íris do que sete. Posso estar enganada quanto as escolhas, por isso fico de ouvidos e olhos atentos às palavras de amigues.

Rani e Kieran conversavam. Repentinamente e para surpresa de Kieran, Rani arrancou as rédeas do cavalo de suas mãos e saiu em disparada.

Não é fácil escrever uma história que seja clara, interessante, tenha uma estética própria e personagens com características marcantes. Pensar cada parágrafo dentro de seu próprio contexto e em relação aos anteriores e posteriores. Para não falar do cuidado ortográfico e semântico. O escritor que busca sempre aprimorar-se tem mais um desafio. Adequar seu trabalho ao tempo em que vive.

Para quem gosta de escrever. Este é um momento único. O momento em que o problema que se apresenta é universal, não é particular de uma determinada língua. Quantas possibilidades para pensar e elaborar! Quantas ideias para trocar! Ninguém criou uma fórmula ainda. Somos nós participando deste momento e tendo liberdade para colaborar com uma mudança importante no modo como nos comunicamos.

O Básico sobre Mostrar e Contar

Contar e Mostar

 

Este artigo foi traduzido do original escrito por Emma Darwin em seu blog The Icht of Writing Showing and Telling: The Basics.

Fale-se muito em “mostrar e não contar” porque escritores iniciantes contam demais quando eles deveriam estar mostrando. Mas é claro, como regra geral, não é tão radical a necessidade de Mostrar ao invés de Contar. Ambos têm seu valor, a chave é entender a força de cada um e usá-los de forma eficiente na sua história. Repare que nem tudo na escrita é sempre binário, na verdade, atravessa um espectro que vai do mais contado conto até a mais mostrada mostra.
Mostrar é para fazer com que o leitor sinta que está dentro da história: cheire, veja, ouça, acredite na verdade da experiência do personagem. Como John Gardner diz: “é convencendo o leitor através da realidade e do detalhe que evocamos nosso mundo imaginário sobre o que o personagem faz ou diz”, persuadimos o leitor a ler a história como se tivesse realmente acontecido, mesmo estando cientes do contrário. Significa trabalhar com a imediata reação física e emocional do personagem: a cólera que chega a seus ouvidos, o vento açoitando seu rosto, um pedinte agarrando seu casaco. Quanto mais eu explico o Mostrar, mais eu o quero chamar de Evocar.
Contar é para forrar o caminho, quando você precisa de um narrador, tanto se ele é um personagem quanto por sugestão: um narrador externo ou uma terceira pessoa. Uma informação suplementar: “era uma vez”, “um exército voluntário foi reunido”, ou “as montanhas estavam cobertas de uma fina camada de cinza vulcânica”. Colocado desta forma é só um pouco mais distante da experiência imediata de que o momento do livro trata. Quanto mais eu falo sobre Contar, mais eu quero chamar de Informar.

Contar/Informar: A temperatura caiu durante a noite e a densa geada refletia os brilhantes raios de sol.
Mostrar/Evocar: O ar da manhã penetrava o frio cortante que era faca em seu nariz e boca, deslumbrantes camadas de gelo cobriam cada broto e galho.
Contar/Informar: O homem alto era um marceneiro pleno e carregava as ferramentas de seu ofício.
Mostrar/Evocar: Um machado e um martelo pendiam de se cinto e um enxó enganchava-se ali, a unha de um de seus dedões era negra e quando ele se inclinou ela viu várias farpas e serragens presas em seus cabelos negros.
Contar/Informar: Eles estavam em pé, juntos e envolviam os braços um no outro, num abraço apaixonado, então ela percebeu que ele havia cavalgado muito para encontrá-la e, talvez, por isso estivesse tão nervoso quanto ela.
Mostrar/Evocar: Eles se agarraram no abraço e o tecido de sua jaqueta parecia desconfortável sob o seu queixo. Sua mão subiu para tocar seus cabelos, ela sentiu o cheiro do couro e dos cavalos sobre a pele de seu punho. Ele tremia.

Perceba que, embora Mostrar seja um pouco mais longo que contar, não precisa ser necessariamente assim (Link para o artigo em inglês sobre Mostrar demais) Existe situações em que deixamos assuntos mais abertos e não tão pormenorizados para que o leitor possa fazer uso da própria imaginação, (link para artigo em inglês sobre mais e menos informação). No geral, você está tentando fazer com que a experiência do mundo e do personagem ganhe vida, como se sentisse de leve o perfume deles, intenso e imediato. Mostrar é mais importante nos momentos de mudança na história, nos eventos cruciais na jornada do personagem e deve viver em nós da forma mais intensa possível, pela sua total compleição, acima de tudo, pela total evocação.

Contar/Informar: James era alto e atraente para as mulheres, sendo charmoso ao ponto delas se apaixonarem à primeira vista, elas nem imaginavam o quão pouco ele se importava com isso.
Mostrar/Evocar: Mostre-nos como é James no bar, o que ele diz, mostre-nos Anna olhando para seu rosto e vendo o amor no seu sorriso… e então mostre-nos o que ele diz, no banheiro dos homens, sobre se prevenir para que aquela garota, “Como é mesmo o nome dela? Anna?”, não descubra seu endereço.
Diálogo é basicamente Mostrar, está é a sua função, embora tenha que se ter cuidado para que

a) a voz do personagem, a maneira como fala, reflita sua personalidade e

b) não encher o diálogo de tralhas descritivas sobre o que está rolando em volta.
Pode ajudar muito pensar em termos de distância fictícia (Link para o artigo em inglês sobre distanciamento). Por enquanto, dê uma olhada nos parâmetros de distâncias, e veja como elas demonstram o espectro que vai do extremo contar até o extremo mostrar.

  1. É o inverno do ano de 1853. Um homem forte está parado do lado de fora da porta sob a tempestade de neve.
  2. Henry J. Warburton nunca se preocupou com nevascas.
  3. Henry odeia nevascas.
  4. Deus! Como ele odeia estas malditas nevascas.
  5. Neve. Sob o seu colarinho, dentro de seus sapatos, congelando e encobrindo sua alma miserável

Veja como o Contar é ótimo e explica exatamente onde estamos e o que está acontecendo. E Mostrar funciona da mesma maneira quando queremos denominar o físico e o emocional da experiência do personagem, embora não nos diga onde e quem o personagem é. Como um exercício sobre o assunto, pegue duas ou três sentenças do meio de uma história que você está tentando escrever, e reescreva-as de acordo com os cinco parâmetros de distância sugeridos por Gardner.

A sugestão Mostrar-não-Contar é também a raiz da discórdia quando se fala em que se deve evitar adjetivos e advérbios. Se você nos diz que uma casa é imponente e um personagem se aproxima nervosa e hesitantemente, não é nem de perto tão vívido quanto fornecer a sensação da experiência dele sobre a casa, fornecendo corpo ao momento.
“Ela tem que dobrar o pescoço para ver o topo do telhado e uma águia de pedra olha de volta, enquanto ela sobe degrau por degrau suas pernas doem.”
Encorpar o efeito de colocar o personagem na ação faz com queo leitor sinta junto com ele, porque a mente não reconhecesse a diferença entra o imaginário e o real durante a leitura. O que a palavra imponente nos faz sentir? O que a expressão aproxima-se nervosa tem a nos dizer na verdade?Nos informa qual o efeito, mas não evoca a experiência do personagem. Mas eu sei como é sentir meu pescoço dobrando para olhar para cima e subir escadas que parecem não terminar nunca. Mostrar/Evocar ainda nos dá outra vantagem neste exemplo. Do ponto de vista dela as águias estando apontando seus narizes na sua direção: a evocação da sua postura é filtrada através da sua própria percepção, assim ao mesmo tempo nos é dada tanto a experiência física quanto a emocional. E porque estamos cientes de que as emoções são dela, sabemos que pode não ser tudo a se dizer (alguém pode ver as águias de forma positiva como se curvando num sinal de boas-vindas, uma terceira pessoa ainda pode conjecturar de que espécie são as águias) e nosso entendimento sobre o caráter da personagem e sua experiência subjetiva ganha peso.

Um subitem de Contar, que trata também do uso de advérbios, fala sobre a inscrição do discurso propriamente dito (Link para texto em inglês sobre elocuções). Não informe que ele gritou furiosamente, evoque em palavras furiosas e ações, assim a fúria será evocada para o leitor também. Não informe que ela falou em tom de piada, escreva a piada e confie que o leitor saberá que se trata de uma gracinha do personagem. Se o discurso for tomar um caminho diferente do que pretendia, mostre o efeito que será produzido: ele foi surpreendido pela fúria que irrompeu de si mesmo ou nos outros personagens. Na verdade, mostre-nos o efeito daquela gracinha que ela disse, o que há de realmente interessante na cena: ela contou uma piada, esperou pelas risadas, ele sorriu e Granny resmungou desaprovando. Um pouco menos eficientes, são as marcações de discurso, elocuções, no sentido de mostrar o como foi dito: “ele riu, ingênuo”, “ela murmurou já sem esperanças”. Se tiver dúvidas, troque o disse ou falou por “gritou”, “chorou” quando quiser indicar volume, por exemplo.

 

Não elimine o Contar. Contar é a cobertura do terreno quando ela é necessária, tem muito valor. Que você pode colorir com a voz e o ponto de vista do seu personagem, tornar mostrável, mesmo se for só para fornecer um forro à cena.
Contar Ruim: A temperatura nos meses de novembro e dezembro era terrível, como ela percebia toda a vez que se iniciava seu dia de trabalho. No geral, o trabalho progredia, mas os cavalos sofriam com o tempo úmido. Ela esperou que ele entrasse em contato com ela, mas ele não o fez e perto do Natal ela quase persuadiu a si mesma a perder a esperança de que ele entraria em contato. Ela decidiu que de qualquer jeito celebraria o Natal e foi decorar a árvore, então, finalmente, ela ouviu o toque do celular indicando que alguém estava tentando entrar em contato com ela.

Contar Legal: Novembro virou-se em Dezembro e a trama no tricô crescia com constância, enquanto do lado de fora abaixo da sua janela os cavalos eram incomodados pela chuva. E ele ainda não ligara. Perto do Natal ela desistiu de ter esperanças. Decidiu armar a árvore mesmo assim, quando ela estava tentando enganchar a primeira bola o celular tocou.

O Personagem Conta: Novembro desaba em chuvas, sem parar, todos os dias, parecendo um único e longo final de semana, os cavalos pastavam tristonhos e eu tricotava. Sei que sempre chove nesta época, mas parecia que estava chovendo em mim, a chuva era pessoal, além disso o telefone recusava-se a tocar. Choveu Dezembro todo também e mesmo quando eu abri a caixa de enfeites de Natal não me senti melhor, neste momento o telefone tocou…

Repare que por causa do Contar a narrativa não está próxima, a distância psíquica paira entre o 2 e 3 (NT: vide acima  exemplos de distância em negrito). Quando o personagem conta pode ser 3, pois ainda oferece dados precisos, forra o terreno, mas não generaliza o número de meses e a inclemência do tempo ou a época festiva. Tudo é envelopado em aspectos físicos, tangíveis, imagináveis: o tempo marcado no crescimento do tricô, o seu estado de espírito na tristeza aparente dos cavalos sob a chuva, a erosão gradual da esperança enquanto o tricô crescia o telefone continuava mudo. Ainda há um verbo de ação atrelado ao mês, que abstrai a ideia de tempo. Embora o contar do personagem não use estruturas específicas de Contar tipo: “sempre chovia”, “não me fez sentir melhor” etc., o fato deste contar ser produto da expressão e do ponto de vista do personagem o torna mais vívido.

E quando ela atender o telefone, iremos direto para o Mostrar do personagem em ação: o que ela disse, sentiu, pensou. Generalizando, quanto mais crucial é a cena, o personagem em ação, o cenário, mais cheio de mostrar terá que ser sua escrita. A maioria das cenas principais acontecerá em tempo real, porque serão os momentos importantes de mudança, conflito, decisão e aquisição de experiência. Elas precisam e merecem ser evocadas com o máximo de vida e conteúdo possível. Como um trem: mostrando os compartimentos e os vagões enquanto passa pelo túnel, contar seria um engate forte e flexível que liga uma composição à outra.

No entanto, sempre existirá casos para condensar partes de uma cena importante: sempre existirá eventos que precisamos saber que aconteceram, momentos que precisamos dar forma à cena sem detalhes tão específicos. Momentos em que na verdade o escritor precisará ser mais direito, mais plano para deixar um pouco de espaço à imaginação do leitor. (NT: em breve traduzirei dois artigos da mesma autora que falam justamente deste tema, um deles sobre cenas de sexo e outro que explora excessos no Mostrar).

Especialmente no começo de um livro torna-se complicado balancear o mostrar e o contar de forma correta, porque por um lado você precisa envolver o leitor o mais rápido possível na vida e nos sentimentos dos personagens, fazer com que tenham carinho por eles e assim levar o leitor a querer saber mais sobre eles. Por outro lado, precisamos de uma certa quantidade de informações sobre o quê, o onde e o porquê, isso se nos preocupamos suficientemente com o leitor para fazê-lo continuar com a leitura. Se você começar no 1 é melhor inserir logo o leitor no mundo do personagem, se começar no 5, terá um monte de explicações para dar.

Uma última observação. Sempre existe a liberdade de ação para quem quiser escrever a história como fábula ou caso, gênero que usa frequentemente um contador de histórias para contá-la e a voz do narrador está presente ao longo da história. O arquetípico narrativo é parecido com o de um conto de fadas, que é quase totalmente Contar. Neste modelo, a voz do narrador é mais crítica do que em qualquer outro tipo de escrita, para manter o efeito de distanciamento o narrador nos mantem junto a ele e não com os personagens, o narrador e o que está dizendo deve ser muito mais cativante. Mas se você ler algum dos contadores modernos verá que mesmo com uma narrativa carregada de Contar ou um narrador muito presente quando bem feita não elimina a experiência física e emocional do que lemos é extremamente vívida. Isto é o que Mostrar significa quando faz uso do Contar.

 

DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 30 (acho) – BOLACHA RECHEADA DE PARÁGRAFOS

Vamos comparar o texto/livro a um pacote de bolachas recheadas (você pode substituir a palavra bolacha por biscoito).

Compramos o pacote pela capa, aquelas bolachas “photoshopadas” que parecem crocantes com recheio cremoso, escolhemos o sabor, eu leio um pouco o rótulo como as pessoas leem as orelhas e as resenhas dos livros.

Podemos dizer que a embalagem é a introdução do texto, o que podemos esperar da narrativa. A primeira bolacha é os parágrafos iniciais e irá nos dizer se gostamos ou não do estilo do autor. Lambemos o recheio e sentimos se o texto tem um bom conteúdo, é docinho e desliza na ideia, conseguimos sentir o gosto. Se é mole demais e desmancha muito rápido na boca. Se oferece pouca ligação, na hora da lambida ele se desgruda todo ou mesmo cheio de gordura, mas sem sabor nenhum. A embalagem dizia que o recheio era sabor limão e não sentimos nem o doce do açúcar, nem o ácido da fruta. Se estamos com fome, estamos acostumados a comer qualquer coisa ou se nos delicia vamos até o fim do pacote de uma vez sem arrependimentos.

Regra geral para se comer bolacha recheada: separe as duas metades, lamba o recheio, coma as duas metades. Regra geral da construção de parágrafos. Ideia central ou nuclear vem primeiro, ideias secundárias, que envolvem ou explicam decorrem da ideia central. Há outras maneiras de comer bolacha recheada, mas esta é a básica.

Vou usar uma frase que acabo de discutir com o amigo Giovani Arieira, para explicar o conceito de ideia central:

Ele escreveu:

A escuridão foi rompida por uma lâmpada acesa no canto da sala que iluminava só uma parte do ambiente oposta ao que Gregor se encontrava.

O mais importante nesta sentença é a luz, assim como nas subsequentes protagonista enxerga o ambiente. Mencionar Gregor pelo nome sendo ele o único personagem da trama é gordura desnecessária que tira um pouco o sabor . Reescrita ficou assim:

A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta. (o protagonista havia entrado na sala no parágrafo anterior).

Eu gosto de comer as bolachas inteiras, sem separar, conheço quem come as partes e deixa o recheio e outros que raspam o recheio com faca para comer depois. A apresentação de um parágrafo é tão relativa quanto o modo de se comer uma bolacha recheada. Depende do assunto, da complexidade, do gênero, do público leitor etc.

O autor, no entanto, precisa saber gerir os recursos de expressão e desenvolvimento da ideia começando pelo básico.Não existe liberdade sem que se saiba onde estão as amarras que nos prendem, por isso precisamos conhecer e estudar a estrutura das frases e parágrafos para que elas não nos limitem. Um parágrafo mal construído pode sugerir ao leitor desordem de raciocínio, falta de unidade ou objetividade, acabando por enjoar e desinteressar.

Nos livros de técnicas literárias aprendemos que o parágrafo é uma unidade de composição que representa um processo completo de raciocínio dentro da ideia principal. Ou seja, o ponto central e seus contornos, o recheio e suas duas metades. Até que aparece alguém como Roberto Bolaños (não é o Chaves, pois ele gostava de churros não de bolachas) e escreve “Noturno do Chile”, um livro de 120 páginas, com somente dois parágrafos, um que ocupa quase todo o livro e outro com 8 palavras! Não significa que o autor não domina a construção do texto, significa que ele se sente tão livre que pode fazer o que bem quiser que o texto continuará tendo unidade. Muitos consideram “Noturno” sua obra-prima.

Então podemos concluir que a extensão do parágrafo é menos importante do que a coesão com o conteúdo da ideia principal.

De uma forma bem rasteira podemos dizer que o parágrafo tem que ter:

  1. Uma ideia central e principal que puxa o texto e ocupa dois ou três períodos curtos,
  2. O desenvolvimento ou explicação da ideia e
  3. Uma conclusão ou ligação para o próximo parágrafo.

“ 1- Naquela manhã perdi toda a esperança de encontrar Madalena, pois ela havia partido, de forma definitiva. 2 – A nave em que ela embarcou tinha um destino bem diferente da minha, o tempo em que ficaria em estado de suspensão, muito mais longo que o meu. 3 – Percebi que não há está coisa de destino traçado, duas metades da mesma laranja, par perfeito. Se houver o que podemos chamar de para sempre, não se aplicava a mim e a ela.”

 

Desdobramento da ideia em parágrafos

 

Recurso comum e eficiente é desdobrar uma ideia mais complexa em alguns parágrafos. Argumentar sobre ela, narrar um incidente que a explique, descrever o quadro geral, respondendo perguntas sobre o quê, quando, onde, para quem, por quê.

Trecho de O Homem Sintético de Theodore Sturgeon

“Livrou-se da embriaguez. O alcoolismo não é uma doença, mas um sintoma. Há duas maneiras de liquidar o alcoolismo. Uma é curar a causa. A outra é substituí-lo por outro sintoma. Foi esse o caminho escolhido por Pierre Monetre.

Escolheu desprezar os homens que o liquidaram e acabou desprezando o resto da humanidade, porque estava muito próxima daqueles homens.

Gozava com esse desprezo. Erigiu um pedestal de ódio e encarapitou-se nele para escarnecer da humanidade. Isso era, naquela época, a única coisa que o satisfazia. Ao mesmo tempo, morria de fome; mas, como os ricos eram a única coisa que tinha valor para o mundo do qual zombava, gozou também sua pobreza. Por algum tempo.”

Nestes três parágrafos o autor demonstra a passagem do estado de alcoólatra desiludido para sociopata lunático do personagem.

No primeiro ele diz do raciocínio de Pierre para abandonar o alcoolismo.

No segundo, onde ele aplicou esse raciocínio.

No terceiro, o como.

Abra um livro qualquer, um bom livro, escrito por um autor renomado, daqueles que tanto o público quanto a crítica gostam. Também pode ser um escritor profissional como Jay Bonansinga, responsável pela adaptação de The Walking Dead para romance, ou Timothy Zahn que adaptou Star Wars. Dê uma boa olhada na construção dos parágrafos e na sua disposição. Na próxima história que escrever pratique o que aprendeu com suas leituras e veja o quanto sua história ganha em clareza, coerência e principalmente: sabor.

8 Passos Para Escrever Seu Livro – Dicas Para o Escritor Iniciante 28

The_Writer_by_petebritney1 – Ideia

Nem sempre a ideia é a primeira a se intrometer em nossos pensamentos quando decidimos escrever. Na verdade ela é uma derivada e aparece quando expostos a informações diversas: uma foto, um desenho, um cartaz, uma situação cotidiana ou a confluência de experiências que adquirimos em livros, em fatos por vivência ou presença.

A ideia propriamente original não existe. O que existe é essa derivação que é combinada pelo escritor de uma forma singular.

Portanto, mais importante que o ineditismo da ideia é a capacidade do escritor de elaborá-la.

2 – Invenção

A ideia é um embrião, a invenção a gestação. Dar forma àquilo que ainda nem sabemos o que é exatamente. O que queremos contar? Com que propósito? Que forma terá?

Quanto mais longo é este período de invenção, mais seguro o escritor estará para colocar no papel. No entanto, adiar não significa não pensar sobre. Esta gestação precisa de trabalho e prazo, para que a ideia não se perca nos meandros dos pensamentos.

Trabalho é pesquisa e o desenvolvimentos de padrões. Todos os dias acrescentando um “gen” a mais no corpo do assunto, até que esteja pronto para ser parido.

Não quer dizer que esta ideia deva ocupar o lugar de tudo, o subconsciente vai fazer a parte dele enquanto o escritor se dedica a outras atividades.

Já abordei o tema do bloqueio criativo. (https://claudiadu.wordpress.com/2014/03/06/a-dor-da-folha-em-branco-bloqueio-criativo/) Quando o tema é bem “inventado”, o bloqueio criativo quase não acontece.

3 – Plano

Seja qual for o modo como produz (https://claudiadu.wordpress.com/2014/01/31/deixar-rolar-o-planejamento-do-enredo-dicas-para-o-escritor-iniciante-23/) o mais importante é ter em mente que as linhas não podem estar soltas. E não digo amarradas só em termos de causa-consequência narrativa, como o personagem que aparece num capítulo qualquer entregando uma encomenda que terá relação direta com o que acontece num capítulo adiante. Existem outros modos de contar uma história e nesta fase poderemos brincar de montá-la com outros elementos, desde que esses elementos enriqueçam a trama e não dispersem a ideia geradora.

Este precisa de personagens principais e secundários que se complementam, cenários que querem dizer algo para a trama, vocabulário específico para o gênero e o local da ação, definidos na fase de invenção e engendrados dentro do plano.

4 – O Rascunho

As primeiras páginas do texto parecem duras, o escritor já começou seu trabalho efetivamente, mas ele anda com pernas bambas e sem segurança, por mais apoios que sejam fornecidos ao longo das etapas anteriores. Então nos entregamos as ideias e deixamos fluir nossa verve criativa.

Algumas vezes partes ou capítulos do meio da história surgem em nossa mente e desejamos dar-lhes forma o quanto antes. Faça assim mesmo.

Neste momento não se preocupe quanto a forma, crie intimidade com a história, com os personagens, permita-se viver no seu mundo.

Passados alguns capítulos, releia e aproveite somente as partes que realmente ficaram boas. Jogue o resto fora e recomece.

A sua história já vive sem você, ela já é real. Como o desenhista que risca o papel no primeiro esboço e praticamente apaga todas as linhas da versão original, assim também é o escritor.

5 – A Evocação

O escritor tem outras atividades além de escrever aquele projeto específico. Ele trabalha para o seu sustento já que são raros os escritores que vivem de escrever. Participa de concursos literários e desenvolve outros projetos. Escreve para blogs, faz marketing do livro anterior etc.

Há muitas distrações hoje em dia que tomam parte do consciente. Em algum momento será preciso uma pausa para escrever o projeto, então ele deverá ser evocado para que a escrita se desenvolva.

Volte ao esboço, ou ao retrato meio acabado e o contemple. Leia os capítulos anteriores ou os relativos à parte que irá se dedicar a escrever, concentre-se no plano e chame a história à sua presença. Lembre-se das vozes e da importância de seus personagens e do ambiente no qual eles vivem ou irão atuar.

Então deixe que as palavras fluam com a inspiração, ou quase.

6 – A Revisão

Durante o processo de evocação, quando da leitura dos capítulos já escritos, é possível revisar erros e reconstruir alguma passagem que não ficou clara ou adequada. No entanto, a melhor revisão será aquela em que certo tempo tenha se passado desde a leitura dos capítulos.

A mente acostumada prega peças ao cérebro do escritor, então ao nos distanciarmos do livro poderemos ver com mais clareza as imperfeições. Uma incoerência aqui, um excesso de adjetivos ali, uma falha na sintaxe que fez com que o objeto naquela determinada passagem fosse mais importante que o protagonista e deveria ser o inverso etc.

Nenhuma destas revisões esporádicas elimina a necessidade de leitores beta, leitura crítica ou revisão e copidesque que serão realizadas depois da obra pronta.

7 – O questionamento

No decorrer do processo talvez o escritor tenha mudado o rumo da história, optado por inverter a sequência dos fatos, narrar o que seria previamente um diálogo ou vice-versa.

É interessante tomar nota destas alterações no plano original e observar se o efeito foi melhor.

Durante o questionamento o escritor pode optar por reescrever alguma parte de forma diferente e comparar as duas. Analisar se a quantidade de informação é suficiente para o clima que se quer criar, nem exagerada, nem escassa.

Questionar-se é parte do processo criativo, a falta de um questionamento reduz o que escrevemos ao lugar comum.

8 – Conclusão

O capítulo final tem a mesma importância do inicial, mas muitos autores não se dão ao trabalho de revisitá-lo e interrogá-lo. Dois são os principais motivos:

1 – O autor adia a conclusão por não querer se desvencilhar da obra, está apegado demais. E quando finalmente termina, não tem coragem de olhar para o que “matou” seu projeto, o último capítulo.

2 – Do lado oposto temos o autor que quer chegar ao final da trama com tanta gana que se esquece de tecer bem as linhas. Ou o trabalho foi exaustivo e complexo e ele não vê a hora de dar o último nó.

As soluções estão nos tópicos anteriores: rascunhar, jogar fora, evocar e escrever, esperar, revisar e questionar.

Muito se fala do começo do livro, que é ele que cativa o leitor. O final do livro pede ao leitor que ele indique a outra pessoa na esperança de compartilhar a emoção que sentiu ao terminá-lo.

Reino Sem Fim – RPG e ficção escrita – Dicas para o escritor iniciante 24

RPG

O RPG inspira jovens jogadores a se aventurarem como escritores, através da fantasia das sagas criadas pelos games, com seus personagens ricos e coloridos e inúmeras possibilidades de cenários. Ótimo começo, mas só um começo. Estes jovens raciocinam mais ou menos desta forma:

“Fazendo uma continha de 2 + 2, onde o primeiro 2 são os personagens e o segundo 2 é o cenário, vamos ter um resultado de 4, ou seja se eu tenho cenário e personagens eu tenho um livro, basta escrever uma trama onde eu possa mostrar os poderes dos meus personagens e a maravilha do meu cenário. Tão fácil como 2 + 2.”

Não funciona assim, infelizmente, um livro não é um manual de informações sobre personagens, nem a trama de uma história baseia-se só no seu cenário.

Sentindo-se capazes pelas horas a fio de RPG, pelo mestrar e o rolar de dados, imaginam a história no mesmo formato. Quando colocam suas ideias no papel costumam usar o mesmo plano do manual, descrevem seus personagens e habilidades por um capítulo a fio, usam dois ou três capítulos para falar do “reino/mundo”, o cenário, onde se passa a trama. As vezes dividem os capítulos iniciais do livro entre estas duas descrições antes de incluir os personagens na trama ou mesmo mostrar ao que eles vieram. Confundem definição e construção com dissertação e fazem uma lista de atribuições físicas, poderes, capacidades, letalidade das armas e poções, deliram sobre a simbologia de uma única tatuagem por exemplo.

 “Turmond era alto e tinha os ombros retos e musculosos, cabelos negros e longos e olhos profundos que denotavam sua coragem e força. Possuía quatro escudos, e quatro espadas cada um representando um dos elementos da natureza, o escudo para a batalha contra a água era ornamentado com uma anaconda e o fulgor da luz nos sulcos do desenho refletia o rio que ele teria que dominar se quisesse atingir o maior grau de poder. A espada da terra era feita de cobre e blá,blá,blá”, e assim por diante para cada arma e peça de roupa, do que é feita, quando deve ser usada etc.

Parágrafos e parágrafos para descrever personagens e/ou cenários. Difícil criar expectativa sobre a trama, empatia com o personagem e entender sobre o que é o livro.

Nem toda a característica física ou psicológica do personagem precisa ser definida com uma descrição. Pode ser feita de forma indireta através dos olhos de outros personagens, de uma situação em que o personagem se mostre alto ou baixo, forte ou fraco, corajoso ou esperto. Através dos diálogos, do apelido etc. O personagem irá viver por palavras escritas numa folha de papel, não por imagem ou sensação. Ele ganha vida quando mostramos que ele reage como nós reagimos, não quando mostra seus poderes sobrenaturais. Vamos ver o Tormund novamente.

“Depois da noite mal dormida – a cama da estalagem era muito pequena. Tormund se prepara para a batalha que o aguarda assim que passar pelo portão sul. Pura rotina diária, para esse mercenário, bastava escolher o escudo e a espada certa, calçar as botas que o terreno pedisse e partir para decepar cabeças, braços e pernas, sem dó, sem misericórdia. O que não entendia é por que neste dia sentia-se tão cansado de tudo isso?”

Veja bem, você sabe que Tormund é alto, porque a cama da estalagem era pequena para ele, e ele é como eu ou você, que tem noites mal dormidas. Sabe-se que ele é forte, porque ele decepa partes de corpos, sabe-se que ele tem várias armas porque ele escolhe aquela que usará. Sabe-se também que ele já lutou muito, tanto que está até entediado, não lhe falta coragem. Quanto às características das armas deixe para quando a batalha chegar.

Mostre, evoque seu personagem, faça-o viver a cada linha, não informe que ele é isso ou aquilo sem demonstrar. (sobre a diferença entre Mostrar e Contar irei publicar um post em breve)

O cenário não é outro personagem do livro, ele é um pano de fundo, sua função é refletir a história e os humores de seus protagonistas. O sino de um campanário pode parecer doce a quem sonha com um casamento ou torturante para quem está de ressaca. Um castelo pode ser sombrio quando residência do mal e cheio de energia quando guarda uma relíquia mágica. Ele não está lá só para oferecer um obstáculo ao protagonista, ele é a moldura da trama. Uma taberna que se chama Covil dos Ogros tem que ter algo além do que só ogros horrendos bebendo cerveja.

“Tormund deixou o escudo de terra, aquele que precisaria para derrotar os homens de areia, com Barl, “amigos” ogros são inconstantes, não devia ter feito isso, mas estava bêbado e foi muita sorte ter se lembrado com quem deixara a arma. Desceu a rua até o “Covil dos Ogros”, lugar escuro, úmido, cheirando a carne podre e imbecilidade. A placa na entrada anunciava o descaso, pendia pendurada por um único gancho enferrujado, o chão nunca vira nada além de cusparadas, nacos de charque, vinho derramado e desprezo. Barl jogava Trim com seus “amigos”. Trim era um jogo de dados, para cada derrota um pouco de sangue do adversário, o escudo de Tormund apoiava as facas usadas para lacerar o perdedor.” 

É importante que seu personagem tenha sido definido previamente, que ele viva dentro da sua imaginação, que suas características sejam sempre lembradas para que ele tenha coerência. Seu personagem cria empatia à medida que ele pareça real e apresente reações coerentes com a trama. Um personagem de um livro não é um boneco, uma peça num tabuleiro, é alguém que ganhará vida para você para o seu leitor.

Evitando os clichês

Outra coisa que acontece com os escritores “rpgísticos” é o excesso de adjetivos, as redundâncias, os pleonasmos, típico das traduções descuidadas do inglês para o português. São línguas diferentes, com diferentes usos das palavras. Leia muito, boa literatura, clássicos nacionais, use um dicionário para saber se não está abusando da mesma coisa. Cuidado com os gerúndios.

Estas sentenças estavam em duas páginas de um livro:

“Um forte facho de luz que cegou-o” – luz que cega, típico.

“Barulho ensurdecedor” – além de cego, ficou surdo, coitado.

“A porta se abriu com um rangido metálico” – melhor seria: a porta metálica rangeu ao se abrir.

“Estrutura corpórea avantajada” – sem comentários.

“Explosão ensurdecedora” – o cara já estava surdo, ficou ainda mais.

“Meneou a cabeça numa expressão desaprovadora” – melhor seria: desaprovou balançando a cabeça.

Há várias outras expressões clichês comuns no mundo do RPG, fiquem atentos e façam uso de seu  próprio brilho sem depender delas e seja bem vindo ao reino dos escritores.

Tomando Críticas e Se Sentindo Bem – Dicas Para o Escritor Iniciante 25

crítica

 

“Nossa! Não é que seja o vestido de noiva mais feio que já vi, mas não combina com você, ele te deixa gorda, minha filha… Agora vamos que a porta da igreja já abriu.

A noiva entra na igreja aos prantos, todos acham que é felicidade.”

Ninguém gosta de receber críticas. Jeito infalível de conquistar pessoas no primeiro contato é elogiando-as, todo bom vendedor sabe disso. Apesar de ansiarmos por elogios, também esperamos por repreensões, não quer dizer que nos preparamos para recebê-las ou nos sentiremos bem ao ouvi-las.

No entanto, se mudarmos nossa atitude e prepararmos nossas mentes para as críticas, poderemos aliviar seus efeitos negativos sobre a nossa autoestima e utilizá-las a nosso favor.

Há duas situações que nos impulsionam a criar, ligadas à resposta que recebemos dos nossos pais e amigos quando mostramos nosso trabalho. Na primeira recebemos congratulações, tapinhas nas costas, afinal eles nos amam, portanto nos admiram para além do que fazemos. Estimulados nos dispomos a ir adiante, trabalhar mais, estudar mais e nos aprimorar para que sua admiração nunca cesse. Na segunda, recebemos indiferença e escárnio das mesmas pessoas e somos estimulados a provar nossa capacidade para que um dia conquistemos sua admiração.

São situações antagônicas, mas as duas nos direcionam a buscar somente admiração e respeito dos outros, não nos preparam para críticas positivas. Inconscientemente a crítica gera sentimentos de falta de amor e rejeição, por que ela está intimamente ligada aos laços afetivos que desenvolvemos e assim a projetamos para o mundo.

Por isso é muito comum reagirmos às críticas negativas com observações como “Esta pessoa não me conhece para falar do meu trabalho desta forma”, “Se esta pessoa não entende o que escrevo,problema dela, se tivesse lido direito entenderia”, “Não gostou, faz melhor que quero ver se consegue”, “#$%&¨%$@” ou chorando, ficando deprimido, abandonando o projeto. Quem nunca teve um professor que gostava de diminuir os alunos e cujas críticas fizeram com que odiasse a matéria que ele ensinava¿

Lembrando o que foi dito em outros capítulos, o escritor escreve para seu público, precisa de leitores. Não escreve nem para si próprio, nem para seus pais ou amigos. É o analista que vai dizer o que está errado com ele antes que o leitor o rejeite, pois pessoas que não te conhecem, não tem laços afetivos com você é que irão ler sua história, ela precisa estar pronta para eles.

Devemos nos preparar com isenção de sentimentos para as críticas, elas são sempre positivas, mesmo quando descem o cacete no que fazemos, mesmo que injustas, nos fazem olhar para dentro de nós mesmos, buscar os porquês da nossa necessidade criativa. Um pai não nega uma injeção ao filho pequeno, mesmo que doa muito, se isso o curar de uma doença. Deixe as emoções de lado e ouça o que outros têm a dizer como se o trabalho não fosse seu.

Só Elogios

Leitores beta são pessoas comuns, que podem ler seu livro antes mesmo da primeira revisão. E darão uma opinião geral sobre ele: se gostaram, se não e por que:

Como escolher seus betas:

Antes de procurar um leitor crítico ou agente literário (as vezes as duas funções são feitas pela mesma pessoa), tente obter alguns feed-backs de leitores seus conhecidos e amigos (desconhecidos só depois da obra registrada). Alguns requisitos para escolher bem:

 

1 – Se gosta de ler, tem o hábito da leitura. Não adianta entregar seu livro para aquela pessoa da faculdade de quem você está a fim só para que se admire com o fato de você ter escrito um livro.

2 – Se faz o gênero desta pessoa, ela gosta de romances e escrevemos terror, é melhor procurar entre os que gostam do gênero, eles lhe darão um retorno condizente com o conteúdo do seu livro.

3 – Se a pessoa tem disponibilidade para ler até o fim e apontar os erros. Seus amigos próximos vão te elogiar porque gostam de você, irão justificar seus erros durante a leitura com a lente da amizade. São aquelas pessoas que vão dizer: “Nossa! Demais! Adorei!” – mesmo se tiver uma porcaria. Isso insufla o ego, mas não melhora seu trabalho.

4 – O melhor beta é aquele que também escreve, por isso é bom formar um círculo de amigos escritores com quem trocar ideias e originais.

Não entregue seu original para muita gente, uma a três pessoas bem escolhidas são o suficiente. Se os leitores se sentem incomodados com personagens ou com as cores que demos a eles, se todos os apontam como clichês, machistas, preconceituosos, os vilões são fracos e as dúvidas, muitas. Jogue tudo fora antes mesmo de passar na mão do crítico e recomece.

 

Antes de procurar uma editora ou publicar seu livro e depois de registrado, tente obter o máximo de respostas às leituras. Ao escolher o leitor beta verifique:

1 – Se gosta de ler, tem o hábito da leitura. Não adianta entregar seu livro para aquela garota/o da faculdade de quem você está afim só para que ela/ele se admire com a sua obra.

2 – Se  seu livro faz gênero deste leitor. Ela gosta de romances e escrevemos terror, é melhor procurar entre os que gostam do gênero, eles lhe darão um retorno condizente com o conteúdo do seu livro, já leram outros e podem apontar os problemas.

3 – Se a pessoa tem disponibilidade para ler até o fim e apontar os erros. Se o único retorno que espera receber é “gostei” ou “não gostei” não ajudará no esforço em aprimorar o que fazemos.

 

Leitor Crítico

Antes da revisão e copidesque do seu livro, entregue-o a um leitor crítico. Para escolher, verifique se ele já trabalhou com leituras do seu gênero, se puder solicite informações de escritores que usaram seus serviços. Este profissional vai vasculhar seu livro atrás de falhas mais profundas do que o copidesquista, embora na análise das partes as duas funções se confundam. Sua função principal é analisar o todo e dar opiniões sobre vários aspectos:

Título – se condiz com a história.

Estrutura – analise do gênero literário e como o livro se situa nele.

Enredo – se foi bem desenvolvido e de que maneira.

Cenas, Cenários, Diálogos – quais os pontos positivos e negativos.

Tensão emocional – os micro clímax e o clímax são percebidos corretamente

Personagens – se são carismáticos e tem personalidade própria

Discurso – se o livro é equilibrado mantendo a mesma característica discursiva ao longo do texto e se há problemas entre contar/mostrar

Análise Estilística – se o autor é elegante, profissional ou não tem estilo próprio.

Elementos Simbólicos – emprego correto

Vícios de Linguagem – recorrência

Final – se o leitor terá uma reação positiva, mesmo em se tratando de parte de uma trilogia, pois o livro tem que fechar o arco narrativo.

Explicada a complexidade da análise do leitor crítico, você deve estar pensando que é um negócio caro. Sim, com certeza. Entenda o seu livro como o cachorrinho ou gatinho a quem você ama como parte da família e que de repente fica doente, você não mede esforços para pagar a conta do veterinário nem que seja em 12 vezes. Seu livro já nasceu doente e quanto mais iniciante o escritor é, mais fraco o livro, então faça sua poupança à medida que escreve para não pesar no final.

Como tirar o melhor proveito das críticas

O leitor crítico é mais incisivo, portanto o escritor tem que ser mais aberto às mudanças e interferências, e consequentemente às opiniões que possam diminuir a sua autoestima. Ao receber a avaliação, baixe a bola, encare a realidade e mãos à obra. A opinião do leitor crítico não é um ultimato, se sentir-se inseguro busque outra opinião. Não entenda como um carimbo de aprovação ou recusa, a leitura crítica é muito mais uma alavanca para impulsionar o próprio nível crítico do autor e melhorar seu desempenho.

Preste bem atenção em tudo o que o leitor crítico tem a dizer, não descarte nenhuma sugestão. No entanto o livro é seu e você pode muito bem mudar. Faça uma análise dos conselhos recebidos e no caso de sentir-se desconfortável com alguns deles, questione-se se a mudança lhe fará bem. Por exemplo, o crítico/leitor diz que uma determinada passagem é desnecessária, mas nós gostamos do que está escrito, pois tem uma poética própria, há várias opções: guardar para outra obra, torna-la importante, arranjar outra posição em que ela seja relevante.

Se o leitor/crítico não entendeu uma passagem que está clara para nós, pode ser por que a passagem não está bem resolvida. Fazemos um comentário pequeno sobre uma passagem importante e não complementamos esta informação, para nós que estamos dentro da história parece que todos irão entender, mas não é o que acontece. Insira Informações.

Se o crítico e os leitores se sentem incomodados com personagens ou com as cores que damos a estes personagens, podemos avaliar a necessidade da mudança e verificar se na hora de delinear o personagem notamos este desconforto ou se ele é proposital ao caráter do personagem, mas não ficou claro. Adapte.

Não se incomode se tiver que injetar coisas novas, costurar lacunas, amputar partes desnecessárias. Faça o que tiver que fazer para que seu livro sobreviva e passe a sua mensagem de forma que seus leitores entendam.

Agente Literário

O agente literário é um leitor crítico contratado por uma editora para avaliar os originais recebidos. E acredite, são muitos! E por trás de cada um deles há um escritor esperando virar estrela.

Os bons agentes são pagos pelas editoras e não são de fácil acesso. Mandar seu original direto para algum deles sem que seja solicitado é destinar seu livro para a prateleira coberta com pó do esquecimento. Para não dizer lixeira. Portanto, é preciso que o agente encontre você. Como? Toda vez que você encaminhar livros para a editora é o agente que receberá sua oferta e, antes de ler, ele avaliará entre outras:

1. A necessidade do mercado em relação à sua proposta literária,

2. A sua carreira (participação em concursos, contos publicados, formação, blog etc.),

3. O seu posicionamento profissional através de feed-back dos veículos nos quais já tenha publicado. (Não é bom discutir nas redes sociais, com leitores e outros autores.)

Se depois desta análise inicial concluir que você tem algum potencial ele lerá o que escreveu. Você pode também ser indicado por alguém para este agente, mas não se iluda, com certeza passará pelo mesmo processo de avaliação prévia. Prepare-se. Algumas dicas para uma boa apresentação sua e de seus originais estarão num próximo capítulo.

 

 

 

A Dor da Folha em Branco – Bloqueio Criativo – Dicas Para o Escritor Iniciante 26

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Como superar a dor da folha em branco? Acho que a pergunta deveria ser: por que você passa por um bloqueio criativo?

Há vários fatores que podem desencadear o bloqueio criativo, o principal é a insegurança que nasce do excesso de expectativas.

1-      Você acha que a sua ideia é genial, então quer escrever um livro genial, lógico, ele tem que ser único e elaborado com a fina flor da língua. Caminho errado. A prática faz a perfeição. Não existem anabolizantes para escrever. Baixe as expectativas, sente-se e escreva sua história como desejar, não se preocupe com a crítica (interna ou externa), seja você mesmo e divirta-se. Como não existem dois seres humanos iguais, jamais existirão dois escritores iguais, de qualquer forma sua ideia será original e única.

2-      “Estava tão inspirado, agora acabou. Onde está você, inspiração?” Ela vai voltar, todo mundo tem seus lapsos criativos: grandes escritores, jornalistas, advogados, pedreiros. Todo mundo um dia acorda virado e nada sai direito. Aguarde um pouco, preocupe-se com outras coisas e depois volte a escrever que a inspiração voltará também.

3-      Considerar cada linha, parágrafo ou página como eterno e imortal é considerar que aquele despertador de corda, velho e quebrado irá ser útil um dia. Não guarde quinquilharias, elas ocupam o espaço do novo. Leia o que escreveu e se parecer pobre, insuficiente, desnecessário ou inadequado: jogue fora. Reescreva e tudo se necessário.

4-      Aquela ideia perdida, como já disse em outro capítulo, não vai voltar, mas outras virão, nunca esqueça o bloco de notas, virtual ou físico, e verifique se estas notas levarão a um projeto, guarde-as para um momento em que este projeto que está desenvolvendo travar. Parta para outro livro/conto, momentaneamente, retorne revigorado pelas novas experiências para o antigo projeto. Outra ideia é considerar alguma proposta dentro do projeto e desenvolvê-la: um cenário, uma história paralela, um acontecimento passado etc. Pode guardá-la ou usá-la se for relevante.

5-      Outra forma de revigorar-se é exercitando o corpo – “mens sana in corpore sano”. De uma longa caminhada, ande de bicicleta, faça exercícios e volte para a folha em branco. A circulação aumenta e seu cérebro fica energizado pelo fluxo de sangue.

6-      Leia o que escreveu em voz alta, aliás, ler é uma forma de voltar-se para a história, o escritor vive suas histórias, tanto que ao terminar um livro se sente um pouco órfão, um pouco abandonado. Este também pode ser um fator de estresse que pode impedir novas conquistas. Desapegue-se.

7-      O pior de todos os bloqueios é o inicial. Então esqueça o início e vá para o meio, o fim, a parte que está na sua cabeça no momento que decidiu escrever. O processo de escrita não é uma novela que começa no primeiro capítulo e termina no último. Esta decisão também pode ser generosa para com seu trabalho. Imagine que seu livro tem uma batalha épica para acontecer por volta do capítulo 10, e para que esta batalha aconteça uma série de conflitos e intrigas terão que estar nos capítulos 1 a 9, então você acelera para alcançar o capítulo 10. Escreva o capítulo 10, livre das expectativas, verá que os capítulos anteriores se desenvolverão melhor, quando chegar ao ponto da batalha, observe se o conteúdo do capítulo está adequado e continue.

 

Por que os bons começos de livros são tão cultuados? Por que eles nunca são tão certos quanto deveriam, reescrevê-los num determinado momento do processo é quase obrigatório para os escritores modernos.

Deixar Rolar o Planejamento do Enredo – Dicas Para o Escritor Iniciante 23

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Planejar antes de escrever tem suas compensações, mas será que é imprescindível, como dizem os grandes produtores de  livros (editoras e mega autores)? Podemos organizar aquele caderno cheio de rascunhos, ou as inúmeras anotações do bloco de notas do word e fazer chegar em algum lugar? Ou precisamos saber nosso destino para depois dar a partida?

De maneira geral, como  tudo o que escrevo aqui, farei observações sobre algumas possibilidades de produção da criação a que o escritor costuma utilizar:

A produção “hippie” – Quando o escritor vai desenrolando/escrevendo a história assim que as ideias aparecem, confia na inspiração como deus supremo da arte de escrever,  não espera que a ideia faça sentido, espera que ela se faça, a história caminha com o vento “sem lenço e sem documento”.  Este escritor não busca agradar ninguém, nem mesmo aos leitores, não conhece críticas, as vezes abusa das figuras de linguagem ou esmiúça o cotidiano. O emaranhado que sai de sua cabeça pode  ser bem interessante, ou pode ser a pior coisa que já se leu. Há muitos escritores neste estilo: Rimbaud, Jack Kerouac  e quase todos os beatnics precursores da cultura hippie por exemplo.  Uma boa capacidade de memorização, ou tempo livre para escrever sem parar por horas a fio permite que um texto assim engendrado: funcione, seja homogêneo e transmita verdade. Se bem que possa carecer às vezes de clareza e direção. No mais, muito talento, uma bagagem grande de experiência de vida e uma visão nova e acurada sobre o cotidiano podem tirar a história do lugar comum em que ela cairia, se esta fórmula produtiva fosse usada sem estas qualidades. Embora esta maneira criativa funcione  muito bem para contos curtos e poemas de combustão espontânea.

“Só muitos anos depois ouvi falar de novo no Conde Christian. Isto se deu em Urnekloster, e foi Mathilde Brahe quem gostava de falar nele. Estou certo, agora, que ela expunha os episódios de um modo muito pessoal, pois a vida de meu tio, da qual a família sabia sempre boatos, que ele nunca negava, era passível de interpretações ilimitadas. Urnekloster agora é propriedade dele. Mas ninguém sabe se mora lá. Talvez ainda esteja viajando, como era de costume; talvez a notícia da sua morte esteja chegando de algum, lugar longínquo da terra, escrita pela mão daquele criado esquisito num inglês ruim, ou em alguma língua desconhecida. Talvez esta criatura não dê sinal de vida quando um dia sobreviver ao patrão. Talvez, há muito, ambos tenham desaparecido, e permaneçam apenas como nomes na lista de passageiros de algum navio perdido, nomes que nem eram os verdadeiros.” Os Cadernos de Malte Laurids Brigge – Rainer M. Rilke

A produção “rabiscada” – A ideia do livro/conto surgiu e foi anotada conforme de costume, enquanto a ideia amadurece na cabeça do escritor ele reescreve o esboço do enredo, depois pensa nos personagens e na ação e a partir desta pré produção começa a escrever. Não há um ponto para o clímax ou para a reviravolta, estes acontecem à medida que a ação se desenvolve.

O escritor então toma outras notas, e refaz pontos que ficarão obscuros e reescreve. Rabisca, por assim dizer a obra, de fio a pavio. Algumas vezes usa vários cadernos/janelas, cola papéis pela parede e consegue ter uma visão do todo. Ao contrário do que parece, este escritor é o mais organizado de todos, se não fosse assim, não saberia por onde começar ou terminar em meio a tantas anotações. O mais coerente, pois precisa unir estes pontos num todo que faça sentido. Alguns escritores que optaram por este estilo, como Proust, são obcecados pela perfeição. Proust trabalhava assim.

Proust rascunhoEscrever a mão

Este é o tipo de livro que demanda mais tempo para ser produzido, pois cada parte dele precisa ser gestada separadamente e depois equilibrada no todo. Como uma família e suas unidades.

A produção “Sucesso Disney”: arrebatando o coração e a atenção das pessoas, a história estende-se em um planejamento padronizado. Quem opta por este sistema tem a seu favor um conjunto de dicas e um esquema realizador pré-fabricado, um quebra cabeça instantâneo. Escolha uma figura (ideia), escolha um tamanho (páginas/saga em 3 livros etc), recorte e então monte até formar a história. Consiste basicamente em dividir a história em partes e seguindo este padrão estabelecer qual será o contexto em que estas partes se inserirão, os contextos em termos gerais são: Apresentação/Ambientação – Incitação/Exposição – Busca/Desejo – Impedimentos/Questionamentos – Clímax/Reviravolta – Conclusão/Resolução

Plot diagram

O escritor monta um diagrama, com as ações e desenvolve cada ato do contexto de forma a obter o resultado desejado.

Diagram

O diagrama pode ser ampliado para uma planilha delineando capítulos. À medida que os capítulos vão acontecendo, revisa-se o processo. O  “feed-back” de leitores beta é imprescindível.  E a partir da metade do trabalho a planilha precisará ser revista e melhorada.

Plot board

Ao contrário do que se possa imaginar este processo tem raízes no teatro grego,  e faz parte integrante da nossa capacidade cognitiva. Não é um padrão inventado por um grupo de espertinhos da indústria cinematográfica hollywoodiana. Esta técnica foi muito bem aproveitada pelos escritores/produtores da tal indústria. A maioria dos autores de fantasia/young-adult  utilizam este processo, citemos, então, um anterior ao boom da “fórmula Disney” – O Senhor dos Anéis de Tolkien.

A Produção  “Mista” – Todos os processos acima são usados, mas não como ferramenta absoluta. O autor deixa-se levar pela inspiração e escreve horas a fio ou dias a fio. Então para e indaga ao texto. Onde ele me levará? Que história quero contar? Qual será o tamanho desta história? Entre outros. Desenvolve um plano, como um desenho de um caminho, mas sem a preocupação de seguir os passos do  contexto da produção 3.

O autor, embora tenha clara certeza do que quer contar, em muitos casos não visualiza o fim antes que este se apresente. Por isso a liberdade da produção 2, de reescrever à perfeição e demorar o quanto quiser pode ser usada, lapida a história até que a história seja o que espera. Quanto à  conclusão, como nos processos 1 e 2, não necessariamente apresenta uma solução, ela pode abrir-se para outra possibilidade, encerrar-se abruptamente deixando o leitor em suspense.

Neste processo o autor pode construir uma planilha dos capítulos ou partes a serem narradas e anotar um resumo dos acontecimentos para que não se perca a linha narrativa.  Esta planilha também irá ser útil no momento de enviar originais para editoras, pois muitas delas solicitam este material.

Gosto muito deste processo, por que, enquanto me dá liberdade para fugir do lugar comum, não me joga no “outerspace”, onde ficaria sozinho com meus pensamentos. Estes são alguns dos materiais físicos de planejamento que usei no meu livro “O Caminho do Príncipe”, que diga-se, comecei pela segunda parte e foi feito inteiramente no word. Pena que “os post-its” não existem mais.

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Superando o Bloqueio Criativo – Artigo de J. Mcnamara

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Overcoming Writing Block – J. Mcnamara – Tradução e adaptação de Claudia Dugim

Para muitos escritores a pior parte da experiência de escrever é o “começar”, quando se está sentados na mesa da cozinha/quarto/escritório admirando a folha de papel em branco na tela estável e perfeitamente vazia do monitor. “Não tenho nada a dizer”, é a única coisa que vem à cabeça. “Eu tenho 20 anos e não fiz nada, não descobri nada, não sou nada (este texto é em inglês e infelizmente eles não tiveram um Fernando Pessoa) e não existe pensamento  em minha cabeça que alguém, algum dia, gostaria de ler. Esta é a “Auto Crítica” no seu cérebro, sua censura interior, e algumas vezes esta censura é maior do que você. Quem sabe a causa da existência desta horrível “Auto Crítica”? Uma experiência desastrosa na infância, talvez, uma crítica muito rígida de um professor a um texto seu, não importa. A “Auto Crítica” existe para todos nós, construindo e reconstruindo esta coisa limitadora chamada Bloqueio Criativo. Pode ser reconfortante saber que até escritores profissionais sofrem de bloqueio criativo de vez em quando. Alguns dos grandes escritores, como Leon Tolstoy, Virginia Wolf, Josef Conrad,  eram atormentados por lapsos momentâneos na sua habilidade de produzir textos, não importa o quão produtivo seja o autor, um dia acontece.

O poeta americano W. Stafford oferece este conselho aos poetas que sofrem de bloqueio criativo: “Não existe esta coisa de Bloqueio Criativo para escritores de baixo nível”. A principio, este parece um conselho terrível. “Que?! Esperam que eu escreva um lixo qualquer?! É isso?! Sou melhor que isto!” Não, Stanford não está encorajando escritores a produzirem porcaria. Embora ele sugira que é fácil você se levar tão a sério ao ponto de achar que está produzindo a maior, mais encantadora, mais inteligente frase já escrita em todos os tempos. Se for assim, sente e pense o quanto você não vale a pena, amaldiçoe o dia em que nasceu, imagine por que cargas d’água você resolveu estudar, odeie cada frustante momento em que escreveu e não seu texto não funcionou . Um escritor tem que deixar-se levar, esquecer sobre censura e crítica. Vá em frente e escreva qualquer coisa, contanto que escreva. A parte todo o nonsense e as divagações, no entanto, acredite que alguma coisa boa irá sair, alguma ideia se acenderá ali mesmo, naquela página em branco, faiscará e guiará você. Disponha-se a jogar coisas no lixo. Tudo bem. Pode encher a lixeira do seu computador com “papéis amassados”. Alguma coisa boa vai sair deste processo.

Sempre carregue um bloco de notas, eletrônico ou não, onde você possa escrever ideias que surjam de repente. Quantas vezes as ideias não chegam até você dentro de um vagão de metrô ou na mesa de um bar? Você acha que se lembrará delas e então ao chegar em casa e sentar na frente do computador tudo o que você se lembra é que teve uma boa ideia uma hora atrás.(*) Parte da experiência de escrever decorre do fato de aprender que as ideias aparecem de maneira fortuita, não só quando nos predispomos a tê-las.

Pessoas que dizem a você que a atividade física é essencial ao processo mental dizem a verdade. Se nada acontece ao sentar-se na frente do computador, vá dar uma volta. Bata uma bolinha, corra em volta do quarteirão. Leve o bloco de notas com você. Sangue novo circulará pelo seu cérebro e ele ficará mais disposto e vigoroso.

Outro truque é começar no meio do seu projeto de escrita. Evitando aquele problema de começar por começar para ver onde vai dar. Comece pela parte do projeto que mais te interessa e depois volte à questão da introdução. Parece  como começar no segundo tempo do jogo. mas não é uma má ideia, por que algumas vezes é mais fácil dizer onde se quer chegar se já soubermos onde ir. Um jogo só se define no segundo tempo, às vezes na prorrogação. Uma dica final sobre Bloqueio Criativo, converse com um amigo sobre seus escritos, troque ideias, fale e grave em voz alta, depois ouça e veja se não consegue melhorar o corpo da ideia ou escreva livremente sobre o que ouviu.

(*) Opinião da tradutora/escritora – uma boa ideia não anula outra, muitas vezes eu perco uma ideia e depois outra melhor aparece, não é o fim do mundo.