12 FUNDAMENTOS PARA ESCREVER O OUTRO – TRADUÇÃO DO ARTIGO DE DANIEL JOSÉ OLDER

“Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema que é escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social.”

 

Estamos sempre escrevendo o outro, e sempre escrevendo nós mesmos. Nos deparamos com uma equação quase impossível de resolver toda vez que contamos histórias. Quando criamos personagens com origens e experiências diversas das nossas, nós estamos na verdade contando essencialmente suas histórias sob a nossa própria perspectiva.

Nós nos deparamos com discussões acaloradas sobre escrever o outro – a intersecção entre poder e identidade, privilégio e resistência –  em seminários, nas seções de comentários dos artigos e blogs, na rede social, em salas de aula. Então, como podemos escrever respeitosamente na perspectiva do outro? Aqui estão 12 orientações para iniciar este processo:

1. Pesquisar é só o começo e ainda é muito pouco

Quase todas as conferências, dissertações, blogs e seminários que tenho visto a respeito de escrever o outro podem ser resumidas em “faça sua lição de casa”. Deduz-se pelo não dito que todas as peças deste quebra-cabeças insolúvel de privilégios e poder se encaixarão perfeitamente, se fizermos nossa pesquisa. Só que não é assim. Escrever sobre pessoas que têm uma experiência de identidade diferente da nossa não é um desafio narrativo de simples solução. Vários escritores que são “especialistas” em uma cultura específica ainda criam estereótipos pobres e vulgares quando se trata de trazer esta especialização para criar personagens reais.

As raízes da prática de pesquisa ocidentalizada de culturas diversas incluem eugenia, dissecações, esterilizações forçadas e, frequentemente, o véu desumanizador da antropologia. Não estou dizendo que “toda a pesquisa é má”, mas sim que temos que ter consciência das histórias complexas e mesmo dolorosas que abordaremos para que não repitamos os traumas já causados.

Eis o que diz o escritor de American Horror Story, James Wong: “Fizemos uma pesquisa profunda sobre magia negra e claro, não existia tanta coisa para a gente trabalhar em cima porque nada disso é verdade (risos). Mas quando fazemos pesquisa, encontramos muitos símbolos sobre fertilidade e fomos juntando e misturando este e aquele até resultar na cerimônia que criamos”. A despeito da sua opinião sobre American Horror Story, positiva ou negativa, este é um exemplo excelente de como a pesquisa é somente o primeiro passo. Tendo feito uma “porção” de pesquisa, o time de escritores optou por jogar as cerimônias de fertilidade num caldeirão, misturar tudo e criar algo novo. Veja que a ideia principal era de que nenhuma destas crenças tinha alguma verdade é algo risível para o Sr. Wong. Uma mistura de elementos pode ser bem feita. No entanto, se misturada, como geralmente se faz, com flagrante desdém pelo sistema de crenças que professa, o resultado é uma massa padrão, que não é isso ou aquilo, versão sintética de uma cerimônia sagrada enraizada em tropos de racismo e desrespeito.

2. Seus parâmetros são uma merda (¹)”

Diz Juno Díaz: “A única coisa que se pode dizer de um cara que escreve na perspectiva de uma mulher é: seus parâmetros são uma merda”. A marca de um grande músico não é a sua habilidade com o instrumento (²), mas sua capacidade de ouvir. O patriarcado vem ensinando desde sempre aos homens (NT: gênero) que supostamente nós somos especialistas automáticos em qualquer assunto, então por que ouvir o que outra pessoa tem a dizer sobre o assunto? Resposta: Para escrever o outro nós temos que ouvi-lo. Para ouvir precisamos calar. E esta não é a uma tarefa simples, só esperar alguém terminar de falar para então desembuchar imediatamente seu ponto de vista. Sério. Sente-se, respire profundamente e ouça o que as pessoas em volta estão dizendo. Ouça a você mesmo, seu próprio eu. Suas dúvidas e medos, as coisas que não quer admitir. Ouça as coisas que as pessoas dizem que fazem você se sentir desconfortável. Sente-se com este desconforto. Compreenda que está errado. Então tente errar menos e vá em frente.

3. Empoderar (³) importa

Diz-se que o conflito é a espinha dorsal da história, e o poder é o cerne do conflito, o que faz a história ter importância. Mas a nossa classe raramente oferece uma discussão sobre empoderamento e suas faltas e falhas. Como escritores de ficção não esperam que sejamos versados em escrever sobre o empoderamento, os detalhes, a sutileza, a complexidade disto ou a dor no coração. Habitualmente, pesquisa de fatos toma o lugar de diálogos profundos sobre opressão e resistência.

A compreensão do empoderamento importa mais do que detalhes tangíveis.

Cada personagem tem uma relação com o poder, que inclui as faces: institucional, interpessoal, histórica e cultural. Que é representada das micro-agressões aos crimes de ódio, de orientação sexual, à imagem corporal, das mudanças nas posturas de vida devido aos aborrecimentos cotidianos e diários e no profundo trauma histórico sofrido por uma comunidade. Poder afeta a relação do personagem consigo mesmo e com os outros, sua jornada física e emocional através da história. Se você ignora isso, ao final do processo você obterá bonecas de papel ou rostos brancos pintados de preto.

 

 

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço de Germana Vieira – www.lizziebordello.com/

4. Esqueça o outro. você consegue escrever sobre si mesmo?

Todo o tempo que despendemos escrevendo sobre o outro, nós negligenciamos o verdadeiro problema sobre escrever nós mesmos. Os privilégios sobrevivem na invisibilidade e no silêncio. Privilégios também nos cegam a respeito de quem nós somos e de como somos vistos pela sociedade à nossa volta, e não percebemos que possuímos um escudo que nos dá proteção extra no jogo da representação social. Então vemos tantos caras bonzinhos e perfeitos, salvadores brancos e machos que fazem tudo “certo” e sabem exatamente como agir.

Você, possivelmente, não tem ideia de como os outros o percebem e, principalmente, se a imagem que faz de si mesmo é desconfortável por conta da qualidade do poder que ela perpassa. Salta na página este tipo de abstração do escritor.

Não existe escassez quando o assunto é livros de pessoas brancas falando de pessoas negras, o que não vemos muito são livros de pessoas brancas escrevendo sobre a experiência emocional, política, e social de ser um branco, os desafios e complexidades de ser branco. Nós não vemos muitos homens escrevendo sobre o patriarcado, como isso nos estragou, como diariamente ao nosso redor, aqui e ali, dançam os discutíveis gêneros binários. Sim, isto soa como tópicos para uma dissertação, mas na verdade são exatamente os tipos de conflitos internos que dão vida a um personagem.

 

5.  “Escrita racista é uma falha na construção da história”

Kwame Dawes apontou esta falha na AWP (Association of Writers and Writting Programs). Eu a mencionei anteriormente e vale a pena repetir de vez em quando. Nós falamos sobre preconceito e ódio de gênero como se eles fossem somente morais ou políticos, no entanto, essa abordagem resulta em estereótipos redundantes. Se você escreve estereótipos, sejam eles personagens, pontos na trama, ou pistas contextuais, você está escrevendo alguma porcaria que vem sendo repetida ao longo de gerações. Isso é chato, você consegue fazer melhor.

6. Caso de vida ou morte

Tendo dito que a escrita racista é um caso de como construir sua história, quero deixar claro que vai muito além disso. Normalmente o racismo é colocado em pauta como “ofensivo” ou discute-se o “politicamente correto”. Este é o ponto para debate: nem tanto isso, nem tanto aquilo. Estes formatos são uma moldura condescendente e desumanizadora do diálogo. Estamos falando de vozes continuamente silenciadas e apagadas pela corrente principal da cultura hétero-branca-machista.

Estamos falando da vida e morte de povos inteiros, estamos falando de auto estima e humanidade. Mesmo sendo adultos, com raras exceções, não percebemos como lidar com esta imagética. Pois quando criança não nos foram dadas as ferramentas para lidar com isso. Elas, as crianças, se deparam com isto mais do que ninguém. As altas taxas de suicídio e a opressão racial e de gênero que elas internalizam são reais.

Não podemos continuar criando gerações de crianças negras sob a égide de que só há espaço para elas como os caras maus nas histórias ou o figurante que vai morrer e gerações de crianças brancas pensando que estão perto de Deus só por causa da aparência. Não podemos continuar promovendo normativas sexistas hetero/cis e ideias racistas em nossa literatura. Criando uma configuração padrão de raça e gênero. Se você não está trabalhando contra isso conscientemente, está trabalhando a favor. Ser neutro não é uma opção. O luxo de se pensar deste jeito tem que acabar.

Citando Junot mais uma vez. “Eu acho que a menos que você esteja trabalhando ativa e conscientemente contra a atração gravitacional da cultura, você criará uma temática previsível com esta representação babaca de estereótipos. Sem falhas. A única maneira para fazer isso é admitir para si mesmo que você não é bom com estas questões, e estar consciente do processo de criação destes personagens.”

7. Ritual ≠ Espetáculo

Recentemente editei “Long Hidden”, uma antologia de ficção especulativa com contornos históricos. Eu e minha co-editora, Rose Fox, recebemos um grande número de submissões que não tinham nenhum elemento especulativo e apresentavam cenas de cerimônias não-cristãs. Culturas e crenças diversas de outros povos não são fantasia. Uma coisa é um semideus ou espírito andar por ai, interagindo com as pessoas – só essa interação por si terá uma certa complexidade – outra coisa é pessoas que celebram a sua crença serem incluídas no elemento fantasia, ou seja, serem consideradas não reais (NT), este tipo de coisa caracteriza-se como racismo cultural imperialista.

Além disso, a cultura de outras pessoas não é um circo, um show de horrores, um vídeo de música pop, uma paródia kitsch de um lar, uma fantasia de Halloween, uma afirmação para seu próprio ego.

Veja acima o que disse o roteirista de American Horror Story: “nada disso é real (risos)”. Se a possibilidade destas crenças serem reais é uma piada não escreva sobre elas.

No espetacular “Is Paris Burning?” Bell Hooks escreveu que “ritual é o ato cerimonial que carrega um significado… que vai além da aparência, enquanto espetáculo funciona somente como uma apresentação dramatizada feita para entreter… estes elementos de um dado ritual que são empoderadores e subvertem a ordem, podem não ser perceptíveis para quem olha de fora.

Por isso é fácil para um observador branco retratar rituais negros como espetáculo. Mais adiante, Hooks argumenta como o documentário Paris is Burning reforça esse retrato espetaculoso e desumanizante do ritual quando uma das pessoas retratadas no filme é morta: “tendo servido ao propósito do espetáculo, o filme abandona-o/a… Não há cenas de pesar pela sua morte. Falando grosseiramente, sua morte é suplantada pelo espetáculo. A morte não é  divertida.”

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8. Pesquisa do Outro: História com Estereótipo

Uma estratégia comum para escrever sobre o outro é inverter o estereótipo. O que é somente um começo, porque você continuará apoiado no clichê original, na verdade, terá que ir mais longe. Para começar uma contra narrativa, você tem que saber o que está lá fora. De outra forma trabalhará no mesmo caminho e chegará à mesma porcaria. Textos como o de Edward Said, Orientalismo, famoso por virar o jogo da antropologia branca, analisando sua própria análise, não refletem o que as pessoas querem dizer quando se referem a pesquisar sobre, quer dizer, não há a análise sobre a pesquisa na sua pesquisa, e a análise é tanto ou mais do que o subtexto da história que está contanto. Portanto, fique atento ao seu poder opressor.

 

9.  Evite o Enredo “Sou o Único Capaz de Salvar o Mundo”

 

Falando de estereótipos, vamos pegar o Mágico Negro como exemplo, usada excessivamente no meu gênero preferido, ficção especulativa (FFC). Se no seu livro existir duas pessoas negras e ambas têm superpoderes e representam forças do bem e do mal você tem um problema. Entre estes dois personagens será expressa uma gama de características e complexidade emocional genuinamente brancas. Não importa se um dos personagens seja o bonzinho, acredite, você vai errar.

Na verdade, nós temos que ultrapassar o enredo do tipo O Escolhido, “The Chosen One”. Esse tipo de trama só tem um parâmetro, nada mais é que a representação do Salvador Branco.

– Num mar de rostos negros/mulatos/índios/orientais existe uma pessoa capaz de salvar o mundo!” Damos um zoom e o escolhido é… aquele com a cara branca. –

Como pessoa, esta suposição do salvador não existiria. Como escritor, eu imaginaria desse jeito. Resolve uma série de problemas se o personagem for pré-determinado desta forma para um épico confronto final. O personagem construído dentro do molde “o único capaz” fornece a razão para o antagonista querer colocar o povo nas trevas, para o levantar das lanças e o inevitável e emocionante clímax. A mesma PORCARIA que temos visto zilhões de vezes. Vamos fazer melhor.

10. O fato de que você vai errar não é razão para não fazer

Por volta dos meus vinte anos eu decidi que gostaria de falar sobre sexismo. Eu sabia todas as palavras que queria dizer, e não disse. Um dos motivos do meu silêncio é que meu conhecimento ia até certo ponto, assumi que iria fazer alguma coisa errada, e qualquer coisa que fizesse errado seria agravada pelo fato de que eu era só um de tantos homens falando sobre sexismo. Então eu me percebi jogando comigo mesmo, um jogo mental de ironia, ego e auto percepção, totalmente sem sentido que me impedia de fazer uma coisa que sabia ser importante.

Isto é uma verdade para todos aqueles que escrevem sobre outras culturas e experiências. Você vai estragar tudo e vai ser épico. Eu sei, eu fiz isto. Não significa que não deve fazer. Significa que você deve desafiar a si mesmo a fazer melhor e melhor a cada vez, aprender com seus erros ao invés de deixar-se acovardar por eles e/ou colocar-se numa posição defensiva. Como resultado deste empreendimento se tornará um escritor melhor.

11. A Feira Livre Que é O Mercado Editorial

O cenário atual na indústria editorial ainda inclui branqueamento das capas de livros, racismo, sexismo, cis-normativas, classismo, homofobia e capacitismo (NT: preconceito contra pessoas que têm qualquer tipo de condição física debilitante ou que as torna ineptas a se adaptar aos padrões considerados socialmente “normais”: nanismo, falta de um dos membros, cegueira etc.) A maioria dos agentes e editores são brancos, e a cultura branca rege a indústria. Autores negros lutam para ter sua voz ouvida, e nas editoras que apoiam a diversidade de publicação são autores brancos que, em sua maioria, escrevem sobre personagens negros. Apropriação cultural importa neste contexto porque se trata de quem tem acesso e de quem é pago, o que vai além de problemas como construção pobre da trama ou representação desrespeitosa. Como brancos temos que compreender que, além do contexto dentro da história que escrevemos, existe um contexto social do qual nosso trabalho faz parte.

12. Já considerou o ‘POR QUÊ fazer’? E o “NÃO fazer”?

Este processo requer uma busca da alma e sentir-se desconfortável. Sem desconforto, você não cresce. Às vezes, as pessoas evitam as questões mais básicas. Por que você sente que cabe a você escrever a história de outra pessoa? Por que você tem o direito de tomar para si a voz de outro? A resposta nem sempre é não – como escritores estamos constantemente penetrando na cabeça de outras pessoas. Com muita frequência, no entanto, não paramos para considerar se é a coisa certa a fazer. Então, as vezes a resposta é mesmo não.

 

 

12 Fundamentals Of Writing “The Other” (And The Self)

http://www.buzzfeed.com/danieljoseolder/fundamentals-of-writing-the-other#.vcXPyDzw8

Daniel José Older é um escritor do Brooklyn (NY/EUA), editor e compositor, Salsa Noturna, “ghost noir colection”, foi aclamado como impressionante e original pelo  Publishers Weekly. É editor da antologia Long Hidden: Speculative Fiction from the Margins of History, e seu livro de fantasia urbana The Half Resurrection Blues, o primeiro de uma trilogia, foi lançado em janeiro deste ano pela Penguin’s Roc. Dissertações e contos de sua autoria foram publicados na  The New Haven Review, Salon, Tor, PANK, Strange Horizons, e Apex. Sua música, ponderações e aventuras de ambulância moram em ghoststar.net e @djolder.

 

 

 

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Coisas que gostei em O Andarilho das Sombras de Eduardo Kasse Ed Draco.

 

 

562934_452750564755791_959192777_nO Andarilho das Sombras – Eduardo M. Kasse – 378 páginas – Editora Draco – 1a Edição 2012

Demorei muito para falar deste livro, justamente por causa do título das minhas resenhas – o que mais gostei em O Andarilho das Sombras foi…, pois só conseguia completar com – tudo.

Na verdade, eu não gostei, eu adorei Andarilho das Sombras. Quando comprei o livro, no entanto, fui redondamente enganada pelo autor. Explico, fantasia histórica não é o primeiro item na minha fila de leituras, embora seja tão fascinada por História que esta disciplina chegou a ser cogitada como uma opção de carreira. Além de não ser muito chegada ao assunto “beber sangue e ser imortal”.

– Não é um livro sobre vampiros, ele me disse.

Eduardo Kasse não mentiu nesta parte, não se trata disso, mas o personagem se alimenta do sangue dos vivos e o autor narra estas passagens com tal maestria que agradeço muito ter sido ludibriada.

O livro conta a saga do filho de nobres Harold Stonecross, um ser imortal, amaldiçoado pelos deuses antigos, perseguido pela igreja católica, a quem despreza acima de tudo. Usufruindo do conforto que rouba dos nobres e padres, título e ouro, respectivamente, ele não sente culpa ou arrependimentos, aceita a sua jornada pela imortalidade quase como uma dádiva, a despeito das circunstâncias que o transformaram. De vila em vila escolhe suas vítimas e seduz mulheres.

São duas as linhas cronológicas da narrativa, a atual e a passada, tão bem costuradas que não dá para se perder, o leitor é conduzido com acuidade pelas entrelinhas, situando-o no momento que está sendo explorado naquela determinada parte. A leitura acaba sendo arrebatadora e só no final ficamos sabendo que evento/maldição tornou Harold Stonecross imortal.

Quanto a parte histórica do livro, ele se passa nos séculos X e XI na Inglaterra. O mais legal, além da trama e estilo narrativo, é que, ao invés de centralizar a ação num determinado evento histórico, importante e conhecido, ela corre pelos caminhos do homem comum daquela época. O autor teve o cuidado de pesquisar profundamente os hábitos das pessoas, nobres, religiosos, camponeses, ermitões – não heróis – pessoas como eu e você. E não se pode dizer que Harold é um herói, ou uma vítima, ele é assim como nós, meros mortais, só que não…  já que no caso de Harold ele vive para sempre. Eduardo Kasse nos diz no seu livro das pessoas e costumes da época, do que eram feitas as casas e abrigos, o que comiam e como eram cultivados, comprados, preparados seus alimentos, passando pelo vestuário, armas, hábitos, músicas etc.  Tudo é tão vívido que dá até para sentir o cheiro da comida, ouvir os animais na mata, perceber a textura das roupas no corpo.

Há outros dois livros da saga, que se chama Tempos de Sangue, um que se passa na Itália, Deuses Esquecidos, neste é o camponês Alessio que recebe a maldição e outra, Guerras Eternas, que retorna à Inglaterra no século XII onde encontramos novamente Harold Stonecross e outros imortais.

Recomendo muito a leitura destes livros, para quem gosta de ficção histórica e para quem não gosta, para quem gosta de bebedores de sangue e para quem não gosta, para quem gosta de heróis clássicos e principalmente para quem não gosta.

http://eduardokasse.com.br/blog/2015/08/13/a-literatura-e-a-economia-criativa/

http://editoradraco.com/2012/06/11/pre-venda-com-20-desconto-e-frete-gratis-de-o-andarilho-das-sombras-eduardo-kasse-2/

 

IMERSÃO – EXPLORANDO OS CINCO SENTIDOS – DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 31

Infelizmente eu não tenho tempo para muita coisa na minha vida de professora. Se somar minhas horas de trabalho remunerado às de trabalho não remunerado sobra pouco tempo para comer, ler e tomar banho, quanto a dormir a gente se ajeita. A maior parte do que escrevo aqui remete a experiências e leituras pessoais. Com certeza alguém já fez um tratado sobre isso, um TCC. Um blogueiro americano escreveu em inglês um artigo cheio de adjetivos, redundâncias, exemplos locais que não dá para entender, com no mínimo 1500 caracteres para falar de como não esquecer seus cinco sentidos, ou parte deles, ao escrever sua história.

Ontem à noite estava lendo um livro de ficção histórica e imaginando o trabalho do autor em coletar sua pesquisa para contar o que aconteceu setecentos anos atrás. Comida, plantas, remédios, veículos, armas, roupas e materiais. Imergi no livro e percebi o porque, ele falava do cheiro da comida, das texturas das roupas, do gosto dos remédios, dos diversos sons que o exército em marcha produzia.

Por que alguns livros e contos que leio parecem não oferecer a imersão na história que o autor pretende sugerir? Acho que faltam os cinco sentidos parece ser um boa resposta.
Autores iniciantes imaginam seu livro como um filme, se você sentar numa sala de cinema você vai ver e ouvir a cena – já se tentou fazer cinema com cheiro, mas o fracasso foi diretamente proporcional ao cheiro dos refrigerantes e salgadinhos que as pessoas consumiam, o perfume que usavam ou a falta dele. Setenta por cento da nossa percepção é visual, um filme como Chocolate, com Juliet Binoche e Johnny Depp, remete ao sabor de bombons e ao cheiro da calda quente, mas não sentimos nem o cheiro, nem o sabor ao assisti-lo, pressupomos.

Escrever é suposição bruta de todos os sentidos. A dimensão da experiência sensorial assume o caráter de símbolos sobre o papel e o leitor pode até dispensar a visibilidade destes símbolos: o braile, áudio-livros, contadores de história que leem livros para uma audiência. Se fechar os olhos por alguns momentos, os outros sentidos passam a compensar paulatinamente a falta do principal. Fechei meus olhos e percebi que minha vizinha do apartamento de baixo está fazendo pernil e alguém lava roupa ou o piso com produto perfumado, o ar que entra pelo meu nariz está seco, mesmo tendo chovido ontem à noite e pouco ou nada do cheiro de mato do parque em frente consigo sentir. Posso continuar assim explorando os outros sentidos, tato – a secura do ar mencionada acima – e paladar.
Ao construir seu universo,  ao criar os personagens, cenário e história, o pentagrama sensorial deve ser pensado e explorado, não necessariamente destrinchado. Explore e recolha o que de mais contundente ou contextualizado no sentido (tato-paladar-audição-olfato-visão) e inclua na história. O escritor iniciante que concentrar seu foco só na aparência ou nos ruídos perderá a oportunidade de realizar esta imersão.
Já li vários trechos e contos de autores cuja descrição da cena é como se fosse um roteiro, que deve ser completado pelo leitor. Não faz sentido. O leitor quer viver uma história, quem cria a história é o escritor! Se o leitor tiver interesse em ampliar o universo que o escritor criou ele dispõe de outras ferramentas: desenhar o personagem como ele imaginou, escrever um fan-fic e publicar numa plataforma online para compartilhar com outros fãs etc.
O escritor iniciante imagina a cena e começa por um verbo – virou-se, olhou, ouviu, agachou, levantou – acrescenta um complemento que fomenta mais dúvidas do que surpresas ou questionamento ao leitor e quase nenhuma imersão e a sentença geralmente acaba no nada:
Virou-se e viu um estranho que não sabia dizer quem era.
Olhou para uma coisa estranha que não sabia dizer o que era.
Levantou-se estranhamente não sabia dizer o porquê.
Ouviu um som estranho vindo não sabia de onde.

Por exemplo, o escritor quer descrever uma cena noturna, o mundo será de vultos, dependendo de qual sensação precisa para dar ênfase à sua história terá que explorar um ou outro sentido. Vamos supor que não se trate de medo ou perseguição – o mais comum – mas de abandono ou desamparo, o autor pode trabalhar os odores que a noite exala, talvez uma área suja e pouco cuidada da cidade, um canto escuro cheirando a urina ou vômito. Uma caverna em que o personagem se escondeu e sente sob os pés não a dureza da pedra, mas a umidade de um curso d’água ou a maciez de fezes de animais. Feche os olhos imagine-se por completo dentro da história, sem vê-la, explore um pouco os outros sentidos.

Precisando de pesquisa, vá atrás. A terra na região sudeste brasileira é vermelha por causa do ferro que contém, o chão tem um cheiro agradável e ferroso depois da chuva. O autor que escrever sobre um homem que vira guará nas noites de lua cheia em Minas Gerais, pode usar este elemento e combiná-lo com o gosto ferroso do sangue das vítimas, combinar a temperatura do sangue com o calor das noites de verão etc. Se o autor se preocupar somente em mencionar que o lobo era grande, forte, musculoso, peludo com grandes presas, uivava e corria e a vítima virou-se e viu algo estranho atrás dela, a cena perderá metade do impacto em relação àquela na qual outros elementos sensoriais foram usados. Além disso, esse acréscimo sensorial torna a escrita mais rica e é uma das razões por trás da frase – “Gostei mais do livro que do filme”.

Pense em todos os elementos sensoriais que estão envolvidos na construção de sua história: gostos, cheiros, textura e peso, além dos sons e imagens e no que elas podem enriquecer a sua narrativa. Não precisa encher páginas e páginas de busca sensorial se esta busca não representar nada efetivamente, o que você quer é que o leitor seja imerso no mundo que você criou, não se afogue em excessos abandonando a leitura.

Feche os olhos e responda: que cheiro, que gosto e qual é a sensação sobre a sua pele neste momento?

COPO MUITO CHEIO – BLOQUEIO POR EXCESSO CRIATIVO – Dicas para o Escritor Iniciante 30 (o anterior era 29)

Copo cheio

Já conversamos sobre Bloqueio Criativo (https://claudiadu.wordpress.com/2014/03/06/a-dor-da-folha-em-branco-bloqueio-criativo/), de onde vem este monstro e como acalma-lo. Alguns amigos comentaram comigo que uma das razões do bloqueio criativo é o excesso de projetos e ideias na cabeça, eu também sofro disso as vezes. Hoje, então, vou falar sobre o excesso criativo.

Na última oficina que coordenei nós trabalhamos a criação de ideias, como faze-las surgir de qualquer coisa. Uma lembrança do passado, cadeiras empilhadas, observando pessoas no metrô, juntando referências de outras histórias. É a criação: retalhos de experiências articulados de forma única e harmônica. Quando o autor percebe isso, no entanto, as ideias parecem ganhar um volume superior ao que cabe nas prateleiras de sua mente e, pior, todas as ideias juntas urgem para ganhar vida de alguma forma ou serão enterradas umas sob as outras, desaparecendo.

É isto o que acontece, elas vão se sobrepondo, se engalfinhado para nascer e acabam perdidas, abortadas, cobertas de poeira e ficamos muito tristes com a nossa incapacidade em fazer tudo ao mesmo tempo agora. Mas e o caderninho de anotações? Vocês podem perguntar. Ele é ótimo para guardar ideias, mas as páginas vão passando e algumas vezes nem nos lembramos mais do quê e porquê anotamos aquelas linhas.

Acho que a primeira coisa a se dizer é: ESQUEÇA. Esquecer faz parte do processo, se a ideia era realmente boa, você irá recupera-la e conseguirá se lembrar dela. Se a ideia não tiver que acontecer não acontecerá, outras tomarão seu lugar. Feito isso, livramo-nos da neura, mas não nos livramos dos quatro, cinco, seis projetos que temos em mente para produzir.

Priorizar dá certo¿

Colocar em ordem de importância o que vamos fazer dá certo. Sim, na maioria das vezes. O que costuma não dar certo é o motivo da priorização. A nossa linha de produção criativa precisa ter uma razão além do querer. Esta linha depende do que almejamos quando escrevemos. Escrever para nós mesmos e para o nosso deleite sem pensar se iremos ser lidos ou não, este é o objetivo, então o querer é o determinante ideal para a prioridade. No entanto, a maioria das pessoas sãs escreve para ser lida.

Para estabelecer uma prioridade precisamos pesar a importância das variáveis.

Se você é um escritor amador ou principiante que escolheu o caminho mais difícil e o mais certo para se guiar na profissão – fazer cursos e se aprimorar, trocar ideias com seus iguais e participar de concursos para ter um destaque neste meio bastante competitivo – a sua prioridade precisa estar de acordo com os prazos e conteúdos dos concursos e com o perfil das editoras que você está buscando.

Vai escrever uma saga em três volumes, não tenha outras ideias pelos próximos anos. Dedique-se a organizar as ideias que coletou dentro da sua saga. Não tem jeito de unir aquela determinada ideia à saga? Guarde-a para depois ou faça um conto dentro do mesmo universo. É possível trabalhar mais de um projeto ao mesmo tempo, depende do quão flexível é o autor e da profundidade de sentimento envolvido na construção de seu universo.

Faça um quadro de projetos. Um rascunho, folhas de caderno. Dê notas de um a cinco, pontos positivos ou qualquer tipo de marcação para aspectos como: sua vontade de escrever sobre aquele tema; a relevância que este projeto tem para você e para o seu público alvo; a quantidade de informação que deverá ser coletada para fazer o projeto e se essa parte da pesquisa te atrai; seria interessante para as editoras e está dentro do perfil daquelas que você tem buscado e por fim avalie os prazos de produção, caso vá participar de algum concurso. Nem precisa somar as notas e os pontos positivos, já vai dar para ter uma ideia do que você pode descartar por este momento e ao que se dedicar só por ter pensado sobre.

Usando como exemplo o meu quadro de produção, tenho dois projetos para serem entregues até o final do ano, estes são os prioritários pois têm prazos e envolvem pesquisa, um deles massiva. Um projeto terminado que precisa de atenção para revisão, ou seja, o grosso da criação terminou, precisa aparar as arestas então é mais suave. Um projeto em desenvolvimento, já com começo, meio e fim prontos na fase de pós primeira revisão e primeira reescrita. Por fim um que faço por diversão, nas horas em que a cabeça pesa, mas que quero acabar. Outros dois projetos estão esperando na fila quando acabar pelo menos dois dos citados.

Colocar prazos para si mesmo ajuda muito a não engavetar ideias que foram entendidas como válidas e importantes nos aspectos citados. Não se preocupe se tiver que adiar seus prazos, o que geralmente acontece, você não é uma empresa, mas precisa se entender como um profissional. Encher seu copo com doses de prazer e responsabilidade tomando cuidado para não transbordar.

Se você é uma pessoa que faz só um projeto por vez, sinta-se invejado.

COISAS QUE AMEI EM BALL JOINTED ALICE DA PRISCILLA MATSUMOTO

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Já havia lido um conto da Priscilla Matsumoto, O Reflexo do Dokkaebi – Boys Love, e gostado do modo como ela dialogava com a psique de seus personagens. Estava empolgada para ler o livro. E agora, livro lido, não estou querendo mais história, a história está completa, cheia e tão bem alojada dentro de mim que vai levar um tempo até poder ler algumas das outras que me esperam na estante. Já abri uns três livros e não consigo passar da primeira página ao perceber que falta o artista por trás das letras. Não são livros ruins, Priscilla é que é boa demais. Vou ainda chorar um pouco o vazio de Frank, por dentro, embaixo da cama, no escuro.

O mundo espelhado por Frank, que não consegue se enxergar, me lembrou um livro da minha adolescência, no final dos 70, chamado Sybil, história real de uma garota abusada na infância que desenvolveu 16 personalidades diferentes. Frank é obcecado por sexo e por caos, coloca obstáculos a todo tipo de amor recebido, enquanto do outro lado do espelho ele é completamente apaixonado por pessoas que estão fora de seu alcance: artificiais, mortas ou lésbicas e eventualmente um gay mais deprimido do que ele.

Não se engane pelo que disse até agora pensando que se trata de um relato introspectivo e denso difícil de ler. Não é. Ball Jointed Alice é um livro de ação, personagens que parecem saídos de um mangá muito louco. A violenta e irracional Emi, traficante que guarda um arsenal em casa, Tay a estilista voluptuosa, misto de pin-up e Mortícia Adams, Shin, o japônes lindão gay, o único “normal” do grupo, alheio ao que acontece quando as coisas ficam feias. E elas ficam muito feias, quando Emi decide usar seu arsenal para explodir o hospício de onde todos fugiram e “contrata” Frank para criar um exército de bonecas Alice.

E sobre Alice, a boneca que dá nome ao livro? Ela é a linha que costura o rasgado Frank novamente, que vai busca-lo no poço onde ele caiu e o resgata da Rainha de Copas. Só chegando ao fim do livro para perceber quem é Alice.

Melhor coisa de Ball Jointed Alice é a interpretação do leitor, os quatro parágrafos acima foram a minha leitura da história, a partir de experiências, do entendimento pessoal das referências de livros, a Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, a Sybil etc e dos mangás japoneses e coreanos. Alguém que nunca leu Alice (difícil achar quem não, mas vai que) leia primeiro, depois jogue-se no poço de Ball Jointed Alice e morda o biscoito do mundo conturbado e louco de Frank.

Ainda hoje de manhã me perguntei se Frank não era só um espelho.

Onde encontrar: no site da Editora Draco: http://editoradraco.com

 

Colar de Pérolas – Coletâneas de Fantasia e Ficção Científica

Coletâneas

Parece uma opção preguiçosa ler um conto de fantasia ou ficção científica nesta época em que as Trilogias, Quadrilogias, e Semfimlogias com seus volumes de mais de 400 páginas prosperam, levando fãs e seguidores a comprarem belos livros que além de entreter por longo tempo ficam lindos lado a lado nas estantes. Guerra dos Tronos, O Nome do Vento, Mitsborn, Jogos Vorazes, Deuses de Dois Mundos etc ocupam espaço na mídia especializada, nos expositores das livrarias, em redes sociais e no imaginário dos leitores que querem mais tempo dentro destes mundos. Quando a saga acaba (quando acaba), para superar a frustração, releem, escrevem fan-fics, formam grupos de fãs para trocar impressões e prolongar a sensação de pertencer a um universo paralelo, antigo, místico, distópico ou tudo isso misturado.

Se compararmos as raízes que se criam no imaginário do leitor através destas sagas, torna-se quase ridículo achar uma justificativa para ler um conto, cuja construção econômica não permitirá ao leitor passear pelos mundos, pesquisar os mapas e fazer parte de um clã. A história concentrada do conto poder ter algumas páginas ou só uma linha ou duas e parece não ser tão rica e atrativa, numa coletânea de contos quando um mundo acaba outro começa não dando tempo para a digestão do primeiro.

Sair da zona de conforto, esse é um bom motivo, crescer e ampliar o gosto pela leitura. Experimentar um universo além das suas paisagens e culturas complexas, o conto é o detalhe da relação do personagem com seu mundo e provoca imediata empatia, quando bem escrito. Num livro eu posso acompanhar a saga do herói, de sua insignificância ao seu sucesso, ou o contrário. Num conto eu me aproprio de sua vida, descubro seus sentimentos mais profundos num desafio instantâneo e único.

Escritores como Clarice Lispector e Dalton Trevisan fizeram nos contos suas obras primas, assim como o mestre Júlio Cortázar.  George R. R. Martin é um grande fã de coletâneas e coloca seu nome embaixo de algumas delas no estilo Wild Cards e participa de outras como Ruas Estranhas ao lado de autores aclamados. Alguns dos melhores trabalhos de ficção científica nacional atual estão na área dos contos, Carlos Orsi, Roberta Spindler, Gerson Lodi Ribeiro.

Então, o motivo principal para se ler coletâneas são as pérolas. As obras primas dentro da concha, incrustradas na pedra entre as outras. É preciso abrir para acha-las, mas compensa o esforço encontrar entre umas poucas cascas vazias aquela peça de valor inestimável, cultivada por anos de trabalho duro, fruto de uma centelha de inspiração. Brilhante e único, que não poderia ser uma saga, um livro, pois seu poder é tão concentrado que implodiria.

Indicações prestigiando o nacional/português

Para quem não é muito fã de contos, porque só leu na escola (foi obrigado), do amigo aspirante a escritor amador ou fan-fics. Há excelentes experiências gratuitas em revistas especializadas: Revista Bang, Trasgo, Black Rocket e Black Magic, Contos Sonoros do blog Meia Lua Para Frente e Soco, o podcast A Voz de Delirium (noveletas fantásticas em forma de jornal) e muitos outros.

Para quem quer se arriscar e surpreender-se há várias coletâneas interessantes nesta área. Se você é principiante evite as que tem contos demais, mais de 30, vai ficar difícil garimpar. Entre as coletâneas com até 20 contos estão: as da Draco (as melhores): Space Ópera, Excalibur, Samurais x Ninjas, Monstros Gigantes, Boys Love etc. A Buriti, a Cata-vento, a Aquário são editoras que também oferecem coletâneas de ficção científica e fantasia.

Você também pode garimpar por contos de autores já publicados na Amazon e pagar baratinho, mas nada como a experiência de vê-los lado a lado dentro de um único volume.

Como escrevi meu conto para a Coletânea Piratas – “O Tesouro de Nossa Senhora dos Condenados”

 

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Coletânea Piratas da Editora Catavento – organizadora Karen Alvares

Este conto faz parte de um livro chamado “Na Taverna do Capitão Destroços”. A base do livro foi uma pesquisa sobre as mudanças que ocorreram depois do aparecimento dos corsários, ladrões financiados por reis e rainhas. Em todos os contos há um questionamento social referente a este período. Também adaptei várias gírias inglesas para o português e criei um pequeno dicionário que está disponível no blog.

Procurei usar sempre o mar como referência em figuras de linguagem e na própria maneira de falar dos piratas: “adernando da sua maneira de pensar”, “nome mareado” etc. Procurei saber o que comiam e bebiam, entre as bebidas a que gostei mais foi o bamboo, uma mistura de rum com água e nós moscada. O que vestiam e como os anos podem marcar o corpo das pessoas submetidas às intempéries em alto mar. E também deixar a narrativa alegre e um pouco “tonta” já que todos estavam sempre bêbados e o mundo dava voltas. Eyre Austen foi baseada em uma figura real, que liderou uma frota em companhia de sua amada.

Construí uma história bem tradicional com piratas em pernas de pau, macacos bêbados, mundo de homens e mulheres livres, fantasiosa nas palavras dos piratas, mas coberta de realidade. Os tesouros são perecíveis só o que restará no fim das nossas vidas são as aventuras que tivemos.

http://editoracatavento.com/piratas1.html

Os marujos, timoneiros e palitos embarcaram nos galeões, dirigíveis e mercado paralelo dos capitães: Karen Alvares, Melissa de Sá, Ana Lúcia Merege, João Beraldo, Paola Siviero, Fabiana Madruga, Sabrina M. Marcondes, Luana Tsuki, Albarus Andreos.

DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 30 (acho) – BOLACHA RECHEADA DE PARÁGRAFOS

Vamos comparar o texto/livro a um pacote de bolachas recheadas (você pode substituir a palavra bolacha por biscoito).

Compramos o pacote pela capa, aquelas bolachas “photoshopadas” que parecem crocantes com recheio cremoso, escolhemos o sabor, eu leio um pouco o rótulo como as pessoas leem as orelhas e as resenhas dos livros.

Podemos dizer que a embalagem é a introdução do texto, o que podemos esperar da narrativa. A primeira bolacha é os parágrafos iniciais e irá nos dizer se gostamos ou não do estilo do autor. Lambemos o recheio e sentimos se o texto tem um bom conteúdo, é docinho e desliza na ideia, conseguimos sentir o gosto. Se é mole demais e desmancha muito rápido na boca. Se oferece pouca ligação, na hora da lambida ele se desgruda todo ou mesmo cheio de gordura, mas sem sabor nenhum. A embalagem dizia que o recheio era sabor limão e não sentimos nem o doce do açúcar, nem o ácido da fruta. Se estamos com fome, estamos acostumados a comer qualquer coisa ou se nos delicia vamos até o fim do pacote de uma vez sem arrependimentos.

Regra geral para se comer bolacha recheada: separe as duas metades, lamba o recheio, coma as duas metades. Regra geral da construção de parágrafos. Ideia central ou nuclear vem primeiro, ideias secundárias, que envolvem ou explicam decorrem da ideia central. Há outras maneiras de comer bolacha recheada, mas esta é a básica.

Vou usar uma frase que acabo de discutir com o amigo Giovani Arieira, para explicar o conceito de ideia central:

Ele escreveu:

A escuridão foi rompida por uma lâmpada acesa no canto da sala que iluminava só uma parte do ambiente oposta ao que Gregor se encontrava.

O mais importante nesta sentença é a luz, assim como nas subsequentes protagonista enxerga o ambiente. Mencionar Gregor pelo nome sendo ele o único personagem da trama é gordura desnecessária que tira um pouco o sabor . Reescrita ficou assim:

A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta. (o protagonista havia entrado na sala no parágrafo anterior).

Eu gosto de comer as bolachas inteiras, sem separar, conheço quem come as partes e deixa o recheio e outros que raspam o recheio com faca para comer depois. A apresentação de um parágrafo é tão relativa quanto o modo de se comer uma bolacha recheada. Depende do assunto, da complexidade, do gênero, do público leitor etc.

O autor, no entanto, precisa saber gerir os recursos de expressão e desenvolvimento da ideia começando pelo básico.Não existe liberdade sem que se saiba onde estão as amarras que nos prendem, por isso precisamos conhecer e estudar a estrutura das frases e parágrafos para que elas não nos limitem. Um parágrafo mal construído pode sugerir ao leitor desordem de raciocínio, falta de unidade ou objetividade, acabando por enjoar e desinteressar.

Nos livros de técnicas literárias aprendemos que o parágrafo é uma unidade de composição que representa um processo completo de raciocínio dentro da ideia principal. Ou seja, o ponto central e seus contornos, o recheio e suas duas metades. Até que aparece alguém como Roberto Bolaños (não é o Chaves, pois ele gostava de churros não de bolachas) e escreve “Noturno do Chile”, um livro de 120 páginas, com somente dois parágrafos, um que ocupa quase todo o livro e outro com 8 palavras! Não significa que o autor não domina a construção do texto, significa que ele se sente tão livre que pode fazer o que bem quiser que o texto continuará tendo unidade. Muitos consideram “Noturno” sua obra-prima.

Então podemos concluir que a extensão do parágrafo é menos importante do que a coesão com o conteúdo da ideia principal.

De uma forma bem rasteira podemos dizer que o parágrafo tem que ter:

  1. Uma ideia central e principal que puxa o texto e ocupa dois ou três períodos curtos,
  2. O desenvolvimento ou explicação da ideia e
  3. Uma conclusão ou ligação para o próximo parágrafo.

“ 1- Naquela manhã perdi toda a esperança de encontrar Madalena, pois ela havia partido, de forma definitiva. 2 – A nave em que ela embarcou tinha um destino bem diferente da minha, o tempo em que ficaria em estado de suspensão, muito mais longo que o meu. 3 – Percebi que não há está coisa de destino traçado, duas metades da mesma laranja, par perfeito. Se houver o que podemos chamar de para sempre, não se aplicava a mim e a ela.”

 

Desdobramento da ideia em parágrafos

 

Recurso comum e eficiente é desdobrar uma ideia mais complexa em alguns parágrafos. Argumentar sobre ela, narrar um incidente que a explique, descrever o quadro geral, respondendo perguntas sobre o quê, quando, onde, para quem, por quê.

Trecho de O Homem Sintético de Theodore Sturgeon

“Livrou-se da embriaguez. O alcoolismo não é uma doença, mas um sintoma. Há duas maneiras de liquidar o alcoolismo. Uma é curar a causa. A outra é substituí-lo por outro sintoma. Foi esse o caminho escolhido por Pierre Monetre.

Escolheu desprezar os homens que o liquidaram e acabou desprezando o resto da humanidade, porque estava muito próxima daqueles homens.

Gozava com esse desprezo. Erigiu um pedestal de ódio e encarapitou-se nele para escarnecer da humanidade. Isso era, naquela época, a única coisa que o satisfazia. Ao mesmo tempo, morria de fome; mas, como os ricos eram a única coisa que tinha valor para o mundo do qual zombava, gozou também sua pobreza. Por algum tempo.”

Nestes três parágrafos o autor demonstra a passagem do estado de alcoólatra desiludido para sociopata lunático do personagem.

No primeiro ele diz do raciocínio de Pierre para abandonar o alcoolismo.

No segundo, onde ele aplicou esse raciocínio.

No terceiro, o como.

Abra um livro qualquer, um bom livro, escrito por um autor renomado, daqueles que tanto o público quanto a crítica gostam. Também pode ser um escritor profissional como Jay Bonansinga, responsável pela adaptação de The Walking Dead para romance, ou Timothy Zahn que adaptou Star Wars. Dê uma boa olhada na construção dos parágrafos e na sua disposição. Na próxima história que escrever pratique o que aprendeu com suas leituras e veja o quanto sua história ganha em clareza, coerência e principalmente: sabor.

Chappie

Filmes do Blomkamp são sempre ótimas escolhas.

Metacrônica

Chappie é um filme de ficção futurista. O mais novo filme do diretor Neil Bloomkamp, responsável pelo premiado Distrito 9. O filme conta a estória de Chappie, um robô rejeitado pelo fábrica robótica que acaba sendo “adotado” por um gêniozinho da informática; imbuído do desejo de torna-lo “vivo” ele instala uma inteligência artificial que deixa o robô capaz de pensar e sentir. Chappie é criado como uma criança, aprende muita coisa, mas acaba despertando a fúria de pessoas que não aceitam que uma máquina possa assemelhar-se ao ser humano. Chappie vai conhecer os dois lados da humanidade e precisará usar todas as suas habilidades para “sobreviver”.

Um ótimo exemplar do gênero Sci-fi, Chappie tem todos os elementos necessário para debater o futuro das máquinas e sua relação com a humanidade; e, as competentes atuações de Sigourney Weaver, Dev Patel, Hugh Jackman e Sharlto Copley, que dá voz ao robozinho…

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8 Passos Para Escrever Seu Livro – Dicas Para o Escritor Iniciante 28

The_Writer_by_petebritney1 – Ideia

Nem sempre a ideia é a primeira a se intrometer em nossos pensamentos quando decidimos escrever. Na verdade ela é uma derivada e aparece quando expostos a informações diversas: uma foto, um desenho, um cartaz, uma situação cotidiana ou a confluência de experiências que adquirimos em livros, em fatos por vivência ou presença.

A ideia propriamente original não existe. O que existe é essa derivação que é combinada pelo escritor de uma forma singular.

Portanto, mais importante que o ineditismo da ideia é a capacidade do escritor de elaborá-la.

2 – Invenção

A ideia é um embrião, a invenção a gestação. Dar forma àquilo que ainda nem sabemos o que é exatamente. O que queremos contar? Com que propósito? Que forma terá?

Quanto mais longo é este período de invenção, mais seguro o escritor estará para colocar no papel. No entanto, adiar não significa não pensar sobre. Esta gestação precisa de trabalho e prazo, para que a ideia não se perca nos meandros dos pensamentos.

Trabalho é pesquisa e o desenvolvimentos de padrões. Todos os dias acrescentando um “gen” a mais no corpo do assunto, até que esteja pronto para ser parido.

Não quer dizer que esta ideia deva ocupar o lugar de tudo, o subconsciente vai fazer a parte dele enquanto o escritor se dedica a outras atividades.

Já abordei o tema do bloqueio criativo. (https://claudiadu.wordpress.com/2014/03/06/a-dor-da-folha-em-branco-bloqueio-criativo/) Quando o tema é bem “inventado”, o bloqueio criativo quase não acontece.

3 – Plano

Seja qual for o modo como produz (https://claudiadu.wordpress.com/2014/01/31/deixar-rolar-o-planejamento-do-enredo-dicas-para-o-escritor-iniciante-23/) o mais importante é ter em mente que as linhas não podem estar soltas. E não digo amarradas só em termos de causa-consequência narrativa, como o personagem que aparece num capítulo qualquer entregando uma encomenda que terá relação direta com o que acontece num capítulo adiante. Existem outros modos de contar uma história e nesta fase poderemos brincar de montá-la com outros elementos, desde que esses elementos enriqueçam a trama e não dispersem a ideia geradora.

Este precisa de personagens principais e secundários que se complementam, cenários que querem dizer algo para a trama, vocabulário específico para o gênero e o local da ação, definidos na fase de invenção e engendrados dentro do plano.

4 – O Rascunho

As primeiras páginas do texto parecem duras, o escritor já começou seu trabalho efetivamente, mas ele anda com pernas bambas e sem segurança, por mais apoios que sejam fornecidos ao longo das etapas anteriores. Então nos entregamos as ideias e deixamos fluir nossa verve criativa.

Algumas vezes partes ou capítulos do meio da história surgem em nossa mente e desejamos dar-lhes forma o quanto antes. Faça assim mesmo.

Neste momento não se preocupe quanto a forma, crie intimidade com a história, com os personagens, permita-se viver no seu mundo.

Passados alguns capítulos, releia e aproveite somente as partes que realmente ficaram boas. Jogue o resto fora e recomece.

A sua história já vive sem você, ela já é real. Como o desenhista que risca o papel no primeiro esboço e praticamente apaga todas as linhas da versão original, assim também é o escritor.

5 – A Evocação

O escritor tem outras atividades além de escrever aquele projeto específico. Ele trabalha para o seu sustento já que são raros os escritores que vivem de escrever. Participa de concursos literários e desenvolve outros projetos. Escreve para blogs, faz marketing do livro anterior etc.

Há muitas distrações hoje em dia que tomam parte do consciente. Em algum momento será preciso uma pausa para escrever o projeto, então ele deverá ser evocado para que a escrita se desenvolva.

Volte ao esboço, ou ao retrato meio acabado e o contemple. Leia os capítulos anteriores ou os relativos à parte que irá se dedicar a escrever, concentre-se no plano e chame a história à sua presença. Lembre-se das vozes e da importância de seus personagens e do ambiente no qual eles vivem ou irão atuar.

Então deixe que as palavras fluam com a inspiração, ou quase.

6 – A Revisão

Durante o processo de evocação, quando da leitura dos capítulos já escritos, é possível revisar erros e reconstruir alguma passagem que não ficou clara ou adequada. No entanto, a melhor revisão será aquela em que certo tempo tenha se passado desde a leitura dos capítulos.

A mente acostumada prega peças ao cérebro do escritor, então ao nos distanciarmos do livro poderemos ver com mais clareza as imperfeições. Uma incoerência aqui, um excesso de adjetivos ali, uma falha na sintaxe que fez com que o objeto naquela determinada passagem fosse mais importante que o protagonista e deveria ser o inverso etc.

Nenhuma destas revisões esporádicas elimina a necessidade de leitores beta, leitura crítica ou revisão e copidesque que serão realizadas depois da obra pronta.

7 – O questionamento

No decorrer do processo talvez o escritor tenha mudado o rumo da história, optado por inverter a sequência dos fatos, narrar o que seria previamente um diálogo ou vice-versa.

É interessante tomar nota destas alterações no plano original e observar se o efeito foi melhor.

Durante o questionamento o escritor pode optar por reescrever alguma parte de forma diferente e comparar as duas. Analisar se a quantidade de informação é suficiente para o clima que se quer criar, nem exagerada, nem escassa.

Questionar-se é parte do processo criativo, a falta de um questionamento reduz o que escrevemos ao lugar comum.

8 – Conclusão

O capítulo final tem a mesma importância do inicial, mas muitos autores não se dão ao trabalho de revisitá-lo e interrogá-lo. Dois são os principais motivos:

1 – O autor adia a conclusão por não querer se desvencilhar da obra, está apegado demais. E quando finalmente termina, não tem coragem de olhar para o que “matou” seu projeto, o último capítulo.

2 – Do lado oposto temos o autor que quer chegar ao final da trama com tanta gana que se esquece de tecer bem as linhas. Ou o trabalho foi exaustivo e complexo e ele não vê a hora de dar o último nó.

As soluções estão nos tópicos anteriores: rascunhar, jogar fora, evocar e escrever, esperar, revisar e questionar.

Muito se fala do começo do livro, que é ele que cativa o leitor. O final do livro pede ao leitor que ele indique a outra pessoa na esperança de compartilhar a emoção que sentiu ao terminá-lo.