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O desejo de ser como um rio

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Não comprei minha passagem para o outro eu. Embora, nos últimos dez anos, tenha guardado dinheiro para este fim. Acessei o link, marquei o dia e a hora da viagem e fui até o guichê para embarcar. Uma fila imensa. Odiar multidões é uma das muitas neuroses que a idade me trouxe. Faltando dois números, desisti. Não estou velho o suficiente para perder toda a disposição de lutar contra o novo. Voltei para casa e peguei meu crochê, dei laçadas e laçadas até que novos calos crescessem sobre os outros. Antoine me chamou três vezes e não atendi, nem deletei.

Confortável e protegido pelas almofadas sobre o sofá, concentrei toda a minha capacidade em copiar o padrão da combinação de cores no modelo, para que ao final do processo o desenho fosse o mais perfeito possível. Em algum momento, anestesiado pelo compasso da agulha, adormeci. Quando acordei tomei o resto do suco que ficou me esperando sobre a mesinha. Os líquidos me entendem, se acomodam ao copo, se acomodam dentro de mim. Fui ao banheiro, precisava de um banho, mas não tomei. A linha em toda a extensão do novelo cheirava a mim.

Antoine chamou e o localizador apontou para a minha porta. Esqueci de marcar ausente e ele sabia que eu estava em casa, escondido, imóvel. Será que eu poderia ser a porta da rua na próxima vida? Não me sentiria sozinho, ouviria as conversas dos que me esperavam abrir, mudaria de cor e forma de tempos em tempos. A resposta é não. Então teria que ser a alma da porta, não a porta física, não seria eu, mas a minha alma a ocupar um lugar.

Antoine usou o código que lhe dei e entrou provando que a minha resistência era inútil. Seria encontrado e confrontado de qualquer jeito. Ele me fez as perguntas para as quais eu mesmo buscava respostas.

– Está lúcido? – Foi a primeira.

– Acho que sim, não sei. Boa tarde, Antoine.

– Boa tarde, Lucas. Que aconteceu com você?

– Eu fui, mas não tive coragem. Você entende?

– Olha para mim.

Eu estava olhando para ele e para aquele mundo torto e sujo, que um dia foi como meu apartamento. Janelas retas e móveis práticos. Antoine refletia sobre o vidro da janela num laranja crepuscular e compassivo. Ele me observando envelhecer e sofrer.

– Eu mudei – disse.

– Não, Antoine, para mim continua o mesmo. – Virei e meu amigo estava nítido, em nada parecido com o sol moribundo do fim da tarde. Resplandecente em toda a sua juventude e energia, como 40 anos atrás.

– Eu só fiz por que você disse que faria o mesmo depois que eu atingisse a idade limite! Gastei tudo o que tinha! Mudei, estou pronto, esperando por você. – Os olhos brilharam, mas nenhuma lágrima. Antes da viagem com certeza choraria rios, fluído como era.

– Não consegui. Acho que não consigo. – Volto a olhar o crepúsculo, agora roxo e fúnebre, as nuvens descendo junto com o sol para as entranhas da cidade gigante que é o hoje.

Por insistência dele, agendo uma consulta com a doutora Simone, do outro lado do rio. Vou a pé, meu prédio é um dos únicos nesta região que não sofreu interferências até perder a estética, assim como eu. Não me acomodo à nova maneira de viver, ele também. Somos pares, nossa paisagem continua do mesmo jeito de quando éramos criança: paredes retas, janelas retangulares, terraços espaçosos com seus parapeitos gradeados onde minha mãe costumava pendurar o tapete da sala para arejar. “Tapetes respiram”, dizia ela. O estacionamento em frente onde brincava com meu skate não existe mais, foi substituído por uma torre verde, um enorme emaranhado de plantas hipócritas na Rua da Agricultura que não produzem sequer uma romã, sem folhas no inverno e infestado de insetos no verão.

Quando o sol ataca a janela do meu quarto carregado pelos pernilongos e moscas, meu desejo de viajar e ser o outro aumenta. Nos últimos dez anos, todos os dias durante os dois meses de sol intenso, faço uma oração de estio, ameaço os insetos com a intenção de abandoná-los, deixá-los sem a iguaria que é meu sangue ralo de idoso. Tóxico de passar pela vida respirando poluição e ameaças. Então, como os padres extintos, me recolho ao catre – minha cama envolta em tela – e procrastino, peço ardentemente por mais um dia, me penitencio com picadas.

No fim da rua havia uma prisão que virou hospital que agora é depositário dos que transitam entre esta vida e a outra. Minha mãe dizia que éramos sortudos, pois se qualquer doença nos acometesse era só andar uma quadra e pronto, não precisaríamos nem de ambulância. Nunca precisamos, meu pai era catalão, dizia: “meu filho é forte como um touro”. Só preciso andar uma quadra para ser jovem, ser melhor, quase imortal. Quando tiver coragem para abandonar-me eu irei, ou melhor, quando tiver certeza de que a vida que levei valeu a pena, conseguirei passar pela multidão e retirar minha passagem, andar este quarteirão e me juntar ao futuro. Antoine ficará feliz em ver um Lucas que nunca deixará de amanhecer, como ele.

A Avenida Charles de Gaulle não existe mais, aqueles prédios baixos, os espaços abertos. O vento úmido com o cheiro do rio é amparado pelas aletas dos edifícios tortos entre vielas idem, de onde pendem itens variados para o conforto dos que se arriscam voar. Prefiro rastejar, mas não há a opção pele de lagarto na nova vida: asas retráteis, pés rodantes, mãos multiuso, sexo reversível são as modificações mais solicitadas. O dinheiro compra mobilidade e prazer. As minhas juntas doem e estalam, o peso do meu corpo é excessivo e meus joelhos que se dobram para dentro permanecem inchados a despeito das pílulas e injeções. Bato a bengala na calçada, mais para espantar a dor do que me equilibrar. Queria arrastar-me pelo chão, investigar as frestas e desaguar no rio.

Não gosto de atravessá-lo ele me faz querer mergulhar até o banco de areia no seu fundo, areia que se espalha pelas suas margens nuas, sem plantas, no descaso onde estendem-se os ociosos do fim da tarde. Tiraram as laterais da ponte, desnecessárias neste mundo seguro, sem suicidas ou veículos erráticos. Sento-me na beirada de concreto e observo a corrente tranquila do rio serpentear pela cidade. Do outro lado, a doutora me espera e o rio de outra cidade, imundo. A confusão dos que gritam para além da ponte.

– Sente-se, Lucas. É bom tê-lo aqui, são poucos pacientes hoje em dia. Todos se acham perfeitos e sem problemas. Não que esteja reclamando.

– Já está, doutora.

– Sei, queria trabalhar mais. Temos a mesma idade, você sabe, não?

– Sim, você já me disse. Nasceu no Rio, não foi?

– Não, em São Paulo, deste lado do rio. Havia uma rodoviária aqui bem movimentada.

– Novos tempos, novas experiências.

Ela parece distante. Da sua própria profissão. Fomos jovens num tempo em que o trabalho era tudo, dignidade e escravidão, corda bamba que cruzávamos todos os dias na intenção única de sobreviver. Para os que amavam o que faziam é doloroso olhar o passado e desvencilhar-se deste amor. Eu era fotógrafo, parte do que capturei em preto e branco está na minha caixa de memórias que pode ser acessada por todos, mas quase ninguém vê. Eu a chamo de minha paixão invisível.

– Eu imaginava – diz ela – na vida anterior, que a esta altura estaríamos todos morando numa estação espacial e comendo ração ou encontrando algum predador alienígena. – Simone enlaça os dedos de 30 anos, ela sempre foi comedida, a maioria pede menos de 25. As unhas estão pintadas de vermelho fogo como os lábios.

– Posso falar do que me incomoda? – Interrompo suas divagações, não quero voltar depois de anoitecer e nossas sessões são doloridas.

– Claro, Lucas. Desculpe. Fale, por favor.

– A solidão. Eu tinha um trabalho reconhecido no mundo inteiro, não era famoso, mas meus pares me motivavam e eles não existem mais.

– Explique melhor seu raciocínio, Lucas. Pois acredito que as pessoas a quem se refere estão vivas, pelo menos a maioria.

– Elas estão vivas para si mesmas. Nós, os mais velhos, ainda podemos sentir aquela compaixão desapegada. Antes se caíssemos na rua, seríamos amparados por estranhos que não perguntariam se éramos dignos ou não de ajuda. Não remexeriam nas nossas informações para saber que tipo de pessoas somos ou fomos, simplesmente nos ajudariam. Hoje, sofremos de compaixão seletiva.

– Você acha que não te ajudariam se o vissem cair na rua?

– Provavelmente não, foram tantos os erros semânticos e não semânticos que cometi na vida. Todos nós cometemos, quero dizer.

– Eu não me lembro de nenhum. Esta é uma das vantagens de renascer, acho mesmo a melhor. – Deu um sorriso resignado. – Poder eliminar todos os arrependimentos.

– Deve ser o Paraíso na Terra, não é? – começo a rir e não consigo parar até que o riso vire gargalhada. – Somos todos uns filhos da puta ateus procurando pela redenção religiosa disfarçada de tecnologia, a humanidade virou uma charge gigantesca.

Simone esperou primeiro a graça passar em mim e então a volta do ar aos meus pulmões asmáticos. Eles que são parte da minha resistência pacífica e recusam-se a trabalhar na normalidade. Respiro amplamente num esforço para sugar todo o ar da sala e faço aquele som de torneira abrindo e cano vazio. Ele resiste, o ar da sala continua todo lá, rodando à minha volta, zombando da minha incompetência em subjugá-lo.

– Sinto muito, Simone – sussurro ou arfo ou os dois.

– Quando estiver melhor continuamos, sabe que não tenho pressa. Não preciso ter.

– Vou indo. Tenho uma colcha para acabar. – Apoio a bengala no tapete sujo e levanto.

– Lucas, precisamos conversar. Por favor, sente-se, não fuja de si mesmo novamente.

– Eu sei que não há saídas, Simone. Amanhã viajo, em uma semana estarei nos braços de Antoine, novo em folha, um lindo bebê com sua memória em progresso. Quero escolher parar aos 35 anos, acha uma boa idade?

– Sim. Quero te ver em alguns anos, promete voltar.

– Prometo voltar e te levar para olhar as estrelas e fazer amor sob elas até amanhecer. Como antigamente.

– Não me lembro disso.

– Desta vez não vai se arrepender.

Ao deixar o consultório tenho a impressão que consegui enganá-la, mesmo sem saber porque o faria, talvez só para me livrar desta Simone. No princípio era novidade, recordava dos nossos tempos em Paris, do apartamento longe do centro, da comida brasileira que ela me fazia, enquanto ela falava. Ela não recorda mais. Ao longo de nossas conversas consegui descobrir o que ela trouxe para a nova vida e o que deixou para trás, mas estou longe de conquistá-la e quando recuperar as lembranças de nós dois elas se limitarão àquele consultório monótono do lado barulhento da cidade ubíqua. Nossos diálogos sem nexo, as minhas inconstâncias e as inseguranças dela. Médico e paciente, barreira moralmente intransponível como um incesto.

As paredes grafitadas e irregulares do túnel Cruzeiro do Sul sustentam milhares de abrigos sobre ela, os refugiados da Cidade Luz, os que não tinham dinheiro para a transformação. Cogitei mudar-me para cá, para o resto do mundo que não conhece nada além da necessidade de sobreviver este dia para talvez ganhar o próximo. Sou prisioneiro do meu conforto, da minha rotina, dos dois banhos diários, das histórias nas estantes da memória, da cultura e correção dos meus pares, da comida que nunca falta. Sem falar, mas já falando, do crochê e das almofadas sedutoras sobre meu sofá.

Preciso de um transporte, é quase noite. Talvez quando sair do túnel o horizonte já esteja negro e a lua tenha tomado emprestado um pouco do brilho do sol. Vou a pé. Daqui a pouco minhas costas arquearão ainda mais e meus joelhos latejarão. Mais adiante, disputarei contra o ar, com ajuda dos meus velhos escudeiros, os pulmões, tossirei e arfarei até que derrotado ele não tenha outra opção a não ser deixar-se respirar. Sentirei pela última vez todo o pesar da minha vida, chorarei a noite inteira a tristeza infinita que é amar e perder o amor, amar e perder o amor, amar e perder o amor.

É noite sobre a ponte sobre o rio. Ele fluí e eu sento exaurido para vê-lo seguir sem que lhe seja cobrado outro caminho que não o seu destino. O que previ no túnel alguns minutos atrás torna-se realidade. Menos o resultado da batalha, o ar venceu e não tenho mais provisões no meu castelo fortaleza murado contra o novo. Quero tombar para frente, cair, tocar a água e ser levado para a areia, mas sinto meu corpo inclinar para o lado, meus dedos soltarem o cabo da bengala, a Lua me iluminando, refletindo sua distância na lâmina do rio.

Não sei por que tenho medo do prédio na Rua da Agricultura. Papai me diz que foi na outra vida. Fico mais tranqüilo.

– O que você quer fazer depois do passeio, Lucas? – ele pergunta.

– Brincar de voar!

Antoine abre as asas e me carrega. Ele é o melhor pai do mundo!

 

 

DICAS PARA O ESCRITOR INICIANTE 30 (acho) – BOLACHA RECHEADA DE PARÁGRAFOS

Vamos comparar o texto/livro a um pacote de bolachas recheadas (você pode substituir a palavra bolacha por biscoito).

Compramos o pacote pela capa, aquelas bolachas “photoshopadas” que parecem crocantes com recheio cremoso, escolhemos o sabor, eu leio um pouco o rótulo como as pessoas leem as orelhas e as resenhas dos livros.

Podemos dizer que a embalagem é a introdução do texto, o que podemos esperar da narrativa. A primeira bolacha é os parágrafos iniciais e irá nos dizer se gostamos ou não do estilo do autor. Lambemos o recheio e sentimos se o texto tem um bom conteúdo, é docinho e desliza na ideia, conseguimos sentir o gosto. Se é mole demais e desmancha muito rápido na boca. Se oferece pouca ligação, na hora da lambida ele se desgruda todo ou mesmo cheio de gordura, mas sem sabor nenhum. A embalagem dizia que o recheio era sabor limão e não sentimos nem o doce do açúcar, nem o ácido da fruta. Se estamos com fome, estamos acostumados a comer qualquer coisa ou se nos delicia vamos até o fim do pacote de uma vez sem arrependimentos.

Regra geral para se comer bolacha recheada: separe as duas metades, lamba o recheio, coma as duas metades. Regra geral da construção de parágrafos. Ideia central ou nuclear vem primeiro, ideias secundárias, que envolvem ou explicam decorrem da ideia central. Há outras maneiras de comer bolacha recheada, mas esta é a básica.

Vou usar uma frase que acabo de discutir com o amigo Giovani Arieira, para explicar o conceito de ideia central:

Ele escreveu:

A escuridão foi rompida por uma lâmpada acesa no canto da sala que iluminava só uma parte do ambiente oposta ao que Gregor se encontrava.

O mais importante nesta sentença é a luz, assim como nas subsequentes protagonista enxerga o ambiente. Mencionar Gregor pelo nome sendo ele o único personagem da trama é gordura desnecessária que tira um pouco o sabor . Reescrita ficou assim:

A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta. (o protagonista havia entrado na sala no parágrafo anterior).

Eu gosto de comer as bolachas inteiras, sem separar, conheço quem come as partes e deixa o recheio e outros que raspam o recheio com faca para comer depois. A apresentação de um parágrafo é tão relativa quanto o modo de se comer uma bolacha recheada. Depende do assunto, da complexidade, do gênero, do público leitor etc.

O autor, no entanto, precisa saber gerir os recursos de expressão e desenvolvimento da ideia começando pelo básico.Não existe liberdade sem que se saiba onde estão as amarras que nos prendem, por isso precisamos conhecer e estudar a estrutura das frases e parágrafos para que elas não nos limitem. Um parágrafo mal construído pode sugerir ao leitor desordem de raciocínio, falta de unidade ou objetividade, acabando por enjoar e desinteressar.

Nos livros de técnicas literárias aprendemos que o parágrafo é uma unidade de composição que representa um processo completo de raciocínio dentro da ideia principal. Ou seja, o ponto central e seus contornos, o recheio e suas duas metades. Até que aparece alguém como Roberto Bolaños (não é o Chaves, pois ele gostava de churros não de bolachas) e escreve “Noturno do Chile”, um livro de 120 páginas, com somente dois parágrafos, um que ocupa quase todo o livro e outro com 8 palavras! Não significa que o autor não domina a construção do texto, significa que ele se sente tão livre que pode fazer o que bem quiser que o texto continuará tendo unidade. Muitos consideram “Noturno” sua obra-prima.

Então podemos concluir que a extensão do parágrafo é menos importante do que a coesão com o conteúdo da ideia principal.

De uma forma bem rasteira podemos dizer que o parágrafo tem que ter:

  1. Uma ideia central e principal que puxa o texto e ocupa dois ou três períodos curtos,
  2. O desenvolvimento ou explicação da ideia e
  3. Uma conclusão ou ligação para o próximo parágrafo.

“ 1- Naquela manhã perdi toda a esperança de encontrar Madalena, pois ela havia partido, de forma definitiva. 2 – A nave em que ela embarcou tinha um destino bem diferente da minha, o tempo em que ficaria em estado de suspensão, muito mais longo que o meu. 3 – Percebi que não há está coisa de destino traçado, duas metades da mesma laranja, par perfeito. Se houver o que podemos chamar de para sempre, não se aplicava a mim e a ela.”

 

Desdobramento da ideia em parágrafos

 

Recurso comum e eficiente é desdobrar uma ideia mais complexa em alguns parágrafos. Argumentar sobre ela, narrar um incidente que a explique, descrever o quadro geral, respondendo perguntas sobre o quê, quando, onde, para quem, por quê.

Trecho de O Homem Sintético de Theodore Sturgeon

“Livrou-se da embriaguez. O alcoolismo não é uma doença, mas um sintoma. Há duas maneiras de liquidar o alcoolismo. Uma é curar a causa. A outra é substituí-lo por outro sintoma. Foi esse o caminho escolhido por Pierre Monetre.

Escolheu desprezar os homens que o liquidaram e acabou desprezando o resto da humanidade, porque estava muito próxima daqueles homens.

Gozava com esse desprezo. Erigiu um pedestal de ódio e encarapitou-se nele para escarnecer da humanidade. Isso era, naquela época, a única coisa que o satisfazia. Ao mesmo tempo, morria de fome; mas, como os ricos eram a única coisa que tinha valor para o mundo do qual zombava, gozou também sua pobreza. Por algum tempo.”

Nestes três parágrafos o autor demonstra a passagem do estado de alcoólatra desiludido para sociopata lunático do personagem.

No primeiro ele diz do raciocínio de Pierre para abandonar o alcoolismo.

No segundo, onde ele aplicou esse raciocínio.

No terceiro, o como.

Abra um livro qualquer, um bom livro, escrito por um autor renomado, daqueles que tanto o público quanto a crítica gostam. Também pode ser um escritor profissional como Jay Bonansinga, responsável pela adaptação de The Walking Dead para romance, ou Timothy Zahn que adaptou Star Wars. Dê uma boa olhada na construção dos parágrafos e na sua disposição. Na próxima história que escrever pratique o que aprendeu com suas leituras e veja o quanto sua história ganha em clareza, coerência e principalmente: sabor.

Cobaias de Lázaro – Sendo Cobaias de Nós Mesmos

 

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O professor pede aos alunos para formarem um grupo de cinco para um trabalho que inclua apresentação, cartaz de cartolina com fotos aleatórias, texto que ninguém vai ler e leitura do material pesquisado em frente de toda a classe. Reunião, com refrigerante e salgadinho, na casa do fulane. Dos cinco, só vão três. Um faz a pesquisa na internet e Ctrl+C/Ctrl+P, outro cola as fotos na cartolina e o outro fica lá só paquerando o irmão/irmã do fulano. Quando o trabalho não sobra todo para o tal fulane, porque ninguém foi na reunião. Salvo se cinco forem os nerds da escola.

Esta fórmula também pode se aplicar ao mundo do trabalho, tendo em mente que numa empresa trabalham adultos, há sempre aquele que faz ou acha que faz mais que os outros e aquele que fala que não ganha para isso. A não ser que as pessoas que compõe o staff  (não se diz grupo no ambiente corporativo, vamos gastar um pouco de inglês) sejam muito bem preparadas, bem pagas e levem o profissionalismo a sério. Sejam nerds no trabalho.

Nesta lógica, um livro em conjunto escrito por um bando de nerds iria dar certo. Só o fato de sermos nerds, no entanto, não bastaria. O que houve foi uma química perfeita, combinação de diferentes cabeças e maneiras de ver o projeto tendo como catalisador a amizade. Daquele tipo especial, que respeita as ideias do outro, sentindo segurança para criticar e ser criticado, porque sabe não vai perder um amigo só por causa de uma opinião divergente.

O Início

Um pouco antes do fim da Skynerd (rede social dos fãs do JovemNerd) um grupo de escritores que se encontrava por lá e costumava trocar textos, dar pitaco nos textos dos outros, postar desafios e informações, participar do famoso catálogo do #eberfrog, decidiu fazer um curso online de Storytelling e para trocar informações. Abrimos uma página em outra rede social.  Este grupo permaneceu unido e produtivo e em abril de 2014 alguém teve a ideia de fazer um livro com os contos da grupo.

Planejamento

A chave para todo e qualquer projeto é o planejamento. Responder as cinco perguntas.

1. Quem?

Todos somos escritores amadores, com pouca ou nenhuma experiência editorial. Melhor que todos sejam “chegados”. Aqueles que trocam figurinhas na rede, postam trabalhos etc. Depois de um rápido bate papo, enviamos convites por mensagem para esses “chegados” e marcamos a primeira reunião. Quinze aceitaram participar. Também pisamos na bola deixando de convidar gente muito boa como Rodrigo Van Kampen, Daniel Rossi, Anderson DC etc.

O público neste “Quem?” seriam nossos amigos, os amantes de livros e histórias de fantasia, ficção-científica e mistério.

2. O que?

Na nossa primeira reunião via skype, dez compareceram, definimos que não escolheríamos um tema, ele seria livre dentro dos temas que apreciamos: fantasia, ficção científica, mistério. Teríamos quinze contos, em primeira pessoa, em cada conto um protagonista, três contos seriam escritos posteriormente com base nos outros doze, tivemos dúvidas se isso poderia funcionar, mas seguimos em frente.

3. Como?

Então definimos as funções de cada um dentro do grupo. Escolhemos quatro editores que viraram cinco, uma plataforma online para que os editores pudessem revisar e dar conselhos para os autores. Delegamos responsabilidades como contabilidade, marketing e a contratação dos parceiros que precisaríamos para que  o trabalho fosse o mais profissional possível. Optamos por publicar em e-book para que os custos fossem mínimos, já que tinha gente quase sem capital. Dividimos igualmente os custos pelos participantes em parcelas mensais.

4. Quando?

Fizemos um cronograma com prazos para todas as etapas: entrega dos contos, revisão pelos editores, reuniões, montagem, elaboração dos anexos e contos chave, entrega para a leitura crítica e revisão, proposta para o capista, pagamentos etc.

5. Onde?

Sobre a questão do lançamento decidimos pensar depois, quando o trabalho estivesse pronto pois dependeria da disponibilidade de distribuição e marketing.

O Trabalho

1. Os contos

Como somos criadores, sabemos que a inspiração não é uma constante. Um dia estamos bem e escrevemos muito, outro dia não nos sentimos preparados para criar. Como seres humanos nosso comprometimento é relativo, a importância que damos aos diferentes laços que criamos: profissionais, sociais, afetivos estão sempre sobre uma balança para escolhermos o que pesa mais no momento de decidir o que fazer. Alguém iria dar para trás, ou na condição de criador ou de ser humano.

A proposta para burlar estes empecilhos foi dividir o livro em 15 partes. Não na ordem em que são apresentados no livro, esta decisão foi tomada de acordo com a análise do conjunto. Cada escolheu dois números aleatórios, 1 e 5, entre os 15. Cada número podia ser escolhido duas vezes, outro participante escolheu 1 e 7, outro mais 4 e 15. Então cada participante escreveu dois contos, mas só um foi escolhido pelos editores. Se para alguém faltasse inspiração ou comprometimento, teríamos reserva. Estratégia que funcionou muito bem, recebemos mais contos do que precisávamos e foi possível escolher e preencher as lacunas deixadas pelos desistentes. Terminamos o trabalho com dez dos quinze participantes, entre os desistentes estava aquele que lançou a ideia para o grupo.

2. Serviços Profissionais

A capista, Sil Boriani, já fazia parte do grupo, já sabíamos da sua qualidade técnica, tivemos alguns problemas na definição do que precisaríamos no contrato e da próxima vez solicitaremos também material que possa ser usado para o marketing. Fora estes detalhes burocráticos e técnicos, ficamos todos encantados durante o processo, pois à medida que o trabalho da capa avançava, Sil disponibilizava os desenhos para nossa opinião, que eram no nível “UAU”, o resultado é o que está na imagem acima.

Para leitura crítica e revisão contamos com indicações e fizemos orçamentos. Não escolhemos pelo preço e sim pela competência e tivemos a felicidade de contar com Ana Lúcia Merege como parceira. Se era competência o que queríamos, conseguimos além da conta.

3. Os valores

Captamos os valores para pagar os profissionais e outros custos ao longo de cinco meses, enquanto o trabalho era realizado, para não pesar no bolso de ninguém. Estratégia que não deu certo, as cobranças eram intermináveis, da próxima vez faremos de forma diferente.

4. Montagem

Escolhidos os contos, percebemos que eles abordavam um tema comum. “Como se o grupo tivesse uma conexão neural imperceptível” diria o fantasioso. Um dos contos se mostrou perfeito para encerrar o livro. Nos reunimos algumas vezes até ter certeza de qual ordem ficaria melhor para o desenrolar da história. Passamos para a elaboração dos contos chaves, que uniriam a história. Depois que estes ficaram prontos, foram feitos alguns adendos – textos explicativos, mas não muito, em terceira pessoa sobre o universo do livro. O que deu ao livro aquele ar de laboratório e levou a escolha do nome, “Cobaias de Lázaro”.

Dez meses

Trabalho pronto, vamos registrar na Biblioteca Nacional para garantir os direitos autorais. Novela mais longa e enrolada do que a trilogia do “Hobbit”. Greve do Ministério da Cultura, burocracia, papelada que os autores não enviam. Outra coisa que faremos diferente. Gostaríamos de ter lançado o livro no Natal, ficou para depois do Carnaval.

Dez meses, ou sete se descontarmos a greve, parece muito tempo para um livro de pouco mais de 80 páginas. Boa parte deste tempo foi gasto para avaliar se todos concordavam com as decisões tomadas pelos editores e com perguntas aos participantes sobre como deveríamos agir e o que fazer, com pesquisas e coleta de informações sobre o mercado.

Parece também muita conversa para pouco texto. Mas foi justamente a conversa e a paciência que resultaram no “Cobaias de Lázaro”. Fizemos o que queríamos, gostamos do resultado e nos dá orgulho e prazer vê-lo pronto. Foi divertido e ainda está sendo.

Principalmente: aprendemos muito durante o processo com nossos erros e acertos e vamos fazer de novo, este ano mesmo. Melhor.

Agradecimentos

A todos, sem exceção, mesmo aos desistentes.

E à nossa conexão neural invisível.

Editores, contabilistas e marketeiros

Claudia Dugim – aqui mesmo (editora, contabilista e pitaqueira)

Sérgio Suzart – https://www.facebook.com/zillianpage (editor honorário)

Giovani Arieira –  http://oarieira.blogspot.com.br/ (editor internacional)

Carlos Moffatt –  http://www.carlosmoffatt.com.br/ (editor e marketeiro)

Eber Dantas – http://www.thegeekers.com.br/ (editor e famosão)

Participantes

Eduardo Prota – http://www.infinitoslivros.com/

Guilherme Vertamatti – http://gamehall.uol.com.br/meialua/costelas-e-hidromel

Isaac Alves Moreira – https://skyisaac.wordpress.com/

Marco Antonio Febrini Jr

http://novedragoes.blogspot.com.br

http://acc.descolados.com/

Ricardo Strowitzky – sei lá, ele também não sabe, mas dá para encontrar pelo facebook, twitter, instagram, youtube etc.

Links relacionados:

LEIA o conto “Atormentando Pilar” na íntegra em:
• Wattpad: http://www.wattpad.com/…/32908377-atormentando-pilar-de…
• Widbook: http://www.widbook.com/ebook/read/atormentando-pilar

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Coisas que Gostei em A Torre Acima do Véu de Roberta Spindler – Ed. Giz

Sem título Como já disse das minhas resenhas, elas não são assim “resenhas” de que se possa dizer “Ah! Que resenha! Bela resenha esta”,  Deveria ter falado sobre A Torre Acima do Véu há duas semanas, pois gosto de falar dos livros assim que termino a leitura, sem problemas, este livro é bom e livros bons grudam em nossas mentes.

Li e não me lembro onde uma “crítica” sobre A Torre Acima do Véu ser quase juvenil, na minha opinião, o que não desmerece em nada o livro, ninguém precisa rotular seu público para escrever para ele, não nos dias de hoje, tenho 55 anos e adorei o livro. Primeiro por que é o tipo de livro/história que gosto, distopia urbana com protagonistas fortes e independentes. Segundo, há muitos escritores que forçam a barra nos diálogos ou nas cenas para parecerem “adultos descolados”, sem que nada seja acrescentado à história.

Gostei dos “superpoderes” que são algumas vantagens genéticas perfeitamente explicáveis tornando a história e os protagonistas reais e críveis. Beca, a menina de 20 anos, personagem principal, é uma saltadora, alguém com musculatura e força mais desenvolvidas. Os teleportadores são licença poética, a trama fica muito mais emocionante com eles.

Emoção e ação é o que há de sobra no bem escrito A Torre Acima do Véu, e não é fácil criar um mundo futurista, pós-apocalíptico, distópico. O leitor deste gênero é atento aos detalhes, esmiúça os acontecimentos e aponta suas falhas. Eu mesmo, no início do livro, apontava possíveis inconsistências, que logo se dissipavam. Passada a desconfiança inicial, a história estava lá, plena: personagens com suas vozes e características marcantes, cenários descritos para envolver a história, não suplantá-la, uma trama contagiante do começo ao fim. O que mais gostei em A Torre Acima do Véu foi:

1 – Rio-Aires, é aqui mesmo que se passa esta distopia, os personagens são latinos, parecem-se conosco, falam como nós. Fora os da Torre que são árabes.

2 – Nas entrelinhas do estilo de Roberta Spindler, ainda marcado pelos RPGs e traduções dos livros de fantasia e seus adjetivos “focadamente estranhos”, é possível ver uma escritora sensível e vigorosa, capaz de transmitir para o leitor o que o personagem sente para além da ação/cenário à sua volta.

Deixem-se envolver pela névoa de A Torre Acima do Véu de Roberta Spindler, editora Giz, 271 páginas. http://rspindler.tumblr.com/ http://www.gizeditorial.com.br/web/titulos/?book=174 imagem

Coisas que gostei em “Alameda dos Pesadelos” de Karen Alvares – Ed. Catavento

 

Alameda

Comparar livros a  coisas que agucem os sentidos como bebidas ou comidas é uma boa forma de transmitir o que sentimos ao lê-lo: vinhos, perfumes, a brisa do mar na pele.

O perfume da pessoa que amamos que resiste naquela peça de roupa e usamos para recordá-la. A folha de cheiro estranho, nem tempero, nem jasmim. O iogurte com geleia de fruta no fundo que comemos de uma vez para chegar ao docinho do final, em Alameda dos Pesadelos esse docinho talvez seja a folha de cheiro estranho ou a peça de roupa de cujo perfume só restou o de guardado.

O que vai te encontrar na Alameda dos Pesadelos são sentimentos misturados, recordações doloridas, constatações incômodas e doces revelações.

Devorei o livro em 4 dias, não lia assim tão avidamente desde o best-seller de Rafael Montes “Dias Perfeitos”, com quem gostaria de comparar o livro de Karen Alvares, os dois se completam, o que falta em um (no bom sentido) sobra no outro, mas não é esse o caso, talvez eu faça um infográfico, quando aprender a fazer um.

A história é tensa e emocionante, a linguagem de Karen Álvares é moderna e vívida. A cidade de São Paulo é o cenário desta história, no que ela tem de opressiva e caótica: o tráfego, as multidões, a correria do trabalho, moldura perfeita para a saga da protagonista Vivian e suas tribulações solitárias. Tudo no livro remete a esta solidão de alma que Vivian carrega, mesmo na companhia do atencioso pai ou quando consegue alguns momentos com o filho depois da longa jornada de trabalho. Tudo no dia a dia de Vivian é doloroso e arrastado. Impossível não gerar empatia e torcer para que as coisas deem certo.

O antagonista Gabriel costura as esgarçadas linhas do caminho de Vivian com sua obcessão. Vivian não consegue distinguir se a perseguição de Gabriel é real ou fruto de sua atormentada mente, em consequência a depressão da moça se agrava. No correr das páginas, a autora abandona  o leitor na mesma alameda e o expõe  aos mesmos pesadelos de Vivian.

Quanto ao caráter do suspense. Ao contrário do livro do Rafael, escrito em primeira pessoa, que tem o objetivo de transportar o leitor para a cabeça doentia do protagonista; o leitor espera que seu alvo se salve das garras físicas do seu sequestrador ao final – esse inesperado. No livro de Karen, em terceira pessoa, a catarse leva o leitor a partilhar a busca de Vivian para salvação de si própria.

O que mais gostei no livro de Karen é algo bem pessoal: lembrar de minha mãe e meu pai e de como eles foram importantes na minha vida, principalmente quando decidi criar meu filho sozinha.

 

https://papelepalavras.wordpress.com/author/karenalvares/

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