Delicadamente Real – A Vida em Tons de Cinza de Ruta Sepetys

A Vida em Tons de Cinza

Livro: A Vida em Tons de Cinza  

Autora: Ruta Sepetys

Editora Arqueiro

Tradução Fernanda Abreu

240 páginas

 

Este livro estava na estante de minha nora, não me chamou atenção pela capa, nem pelo título. Eu o peguei emprestado para saber mais sobre o país de origem dos meus avós paternos, a Lituânia. Quando minha avó chegou ao Brasil em 1926, ela tinha a idade da protagonista do livro, Lina. Comunista de raiz e uma analfabeta sábia, letrada em contar histórias, conservava e transmitia seus ideais aos netos. O que acontecia em seu país natal, no entanto, estava longe desta utopia de igualdade e valorização do homem pela sua capacidade de produzir o bem comum.

Nas duas décadas entre a primeira e a segunda guerra mundial, os países bálticos eram constantemente ameaçados, de um lado pela Alemanha (meu avô nutria certo ódio pelos alemães, dizia ele que costumavam destruir as colheitas para forçar o povo a morrer de fome). Do outro, pela ampliação do estado soviético. A história começa em 1941 quando a União Soviética vence a disputa, sob o comando do ditador Stalin, e anexa os países bálticos à União Soviética. Então, Stalin promove um genocídio maior do que o que aconteceu na Segunda Guerra. 20 milhões de civis e suas famílias morreram sob o rótulo de ameaça ao regime stalinista que pregava a mudança pela força e não pelo consenso. Por mais absurdo que possa parecer, este massacre quase nunca é mencionado. Faz parte de uma história esquecida e enterrada sob o gelo que cobre estes países boa parte do ano.

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Lituanos no Campo de Trofmovisk

Lina Vilkas é filha de um professor universitário lituano, tem um grande talento para o desenho e sonha em entrar para a escola de Belas Artes. Mas seus sonhos são interrompidos quando agentes da NKVD (órgão soviético que reunia a polícia, a segurança interna e o serviço secreto) sequestram seu pai. Lina, a mãe e o irmão menor são enviados para um campo de concentração a dois mil quilômetros de distância no coração da União Soviética.

Lina e sua família são obrigadas a exaustivas horas de trabalho forçado, passam fome, sofrem humilhações e agressões. Neste campo, a mãe de Lina se destaca, consegue se comunicar com os guardas em russo e resolver atritos, além de demonstrar grande coragem e empatia, acaba fazendo com que os confinados trabalhem em equipe e atendam as exigências de seus algozes diminuindo as punições.

Então, sua família é mais uma vez deslocada. Mais três mil quilômetros, para Trofimovsk na Sibéria, um campo dentro do Círculo Polar Ártico. O frio chega a ser insuportável, os alojamentos não dispõem de calefação, as temperaturas no inverno chegam a menos 50º C. As noites duram 180 dias. Os algozes de Lina diziam que aquele era um lugar onde as pessoas iam para bem agonizar antes de morrer. Para nós que vivemos num país tropical, de clima agradável a maior parte do ano, é difícil imaginar que alguém consiga sobreviver num ambiente tão inóspito.

A autora, Ruta Sepetys, é dona de um prosa direta e fluída e, mesmo assim, rica em detalhes. Ela conta a história do ponto de vista de Lina e consegue passar com delicadeza de sentimentos a realidade da adolescente. A despeito das humilhações e privações, Lina não deixa o coração congelar e acaba vivendo o primeiro amor, um amor contido pelos ventos frios, mas nem por isso menos intenso. Os infortúnios e o abandono não transformam a jovem Lina em alguém insensível e vingativa. Ela mantém seu talento e se nega a deixar seus sonhos morrerem.

Embora a realidade retratada seja extremamente violenta, a autora tem a delicadeza de não incluir na narrativa recursos rasos como sadismo ou estupro. Preservando a integridade das pessoas entrevistadas para compor o livro.Todo ele fruto de uma pesquisa histórica e social que não se resumiu à textos. Ruta Sepetys colheu depoimentos das vítimas e costurou suas histórias vestindo as personagens de seu livro. No booktrailer é possível ver e ouvir os sobreviventes contando a própria experiência. Recomendo assisti-lo depois da leitura, garanto que o efeito é gratificante, pois o leitor irá reconhecer nos relatos as passagens do livro e reviver as passagens mais emocionantes.

www.youtube.com/watch?v=e80hAM8bxWY

Antanas Sutkus – fotógrafo lituano.

 

 

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About claudiadu

Sou professora e escritora. Gosto de ler e escrever Ficção Científica e Fantasia. O resto é bobagem. Livros: O Caminho do Príncipe Matando Gigantes Um Pequeno Livro de Poemas, 70% Água Na Taverna do Capitão Destroços Contos do Mimeógrafo Noveletas: IICO Contos publicados: Gente é Tão Bom - Trasgo no. 1 O Tesouro de Nossa Senhora dos Condenados, Coletânea Piratas - Editora Catavento Lolipop, Coletânea Boy's Love - Editora Draco Monsuta - Shi, Coletânea Dragões - Draco Encaixotando Nina - Cobaias de Lázaro Invasão de Corpos - co autoria, Cobaias de Lázaro Seduzindo Oliver - co-autoria, Cobaias de Lázaro A Princesa no Escafandro Cor-de-Rosa - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco Extensão - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco A sair em breve: Retrônicos, coletânea - editoração e conto O Menino Jaguar e o Escudo do Sol - Trasgo 10

Posted on December 8, 2013, in LIvros que li e amei. Bookmark the permalink. Leave a comment.

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