DENTES

 

Como ela era branquinha! Aquelas pernas de galinha arrepiadas. “Aqui faz frio, esquisita”, queria dizer e não disse, fui até ela puxar assunto, só tinha meninos zanzando na rua, nas tardes de não fazer nada até ela aparecer.

Sentada no portão, a menina cruzava os braços sobre os joelhos envolvendo-os num abraço apertado, carinho indeciso com a jaqueta da escola pública.

– Ai! Vamos jogar bola? – chamei.

– Minha mãe não vai deixar, ainda não lavei a louça.

– Não faço nada, não preciso. Minha mãe trabalha meio período, o resto do dia faz o serviço de casa. E a sua?

– A minha trabalha fora também, mas sou eu que faço tudo. – me olhou com olhos redondos e suplicantes – Quer entrar?

– Prá te ver lavar louça? – ironizei.

– Prá conversar, está frio aqui fora.

– Espera chegar o inverno, ai você vai ver o que é frio.

E elas descobriram-se quase parecidas: nos nomes, Ana Beatriz e Ana Isabel; nas origens, aqui e mais ao norte. Pintaram as unhas, trocaram roupas e gostos, escolheram ser amigas para sempre. Da sexta até a oitava série pelo menos. Para o segundo grau ficou a dúvida.

A mãe de Isabel molhava o biscoito no copo de café com leite quente, enquanto ponderava sobre sua própria adolescência cercada de agreste e pai.

– Se o irmão da Bia vai com vocês nesse baile eu deixo você ir, Isabel. Mas tem que estar aqui às 11. Entendeu?

– Entendi, mãe.

– Como assim, tem que estar em casa às 11?! – fiquei inconformada. Minha mãe confiava em mim, como a mãe da Isabel não confiava nela?! Ela era tão mais responsável do que eu.

– Só tenho 14, também acho certo.

– Ai! Meu deus, Isabel, como você é paradona. Bota uma boca na sua mãe de vez em quando senão nunca vai sair da aba dela. Por que não disse que ia dormir lá em casa?

– É mentira, pecado, ainda mais para mãe e pai.

Eu ri muito da esquisita da minha amiga, com medo de deus e do diabo. Ambos a castigariam. Sem dúvida. A merda é que os garotos gostam do jeitinho enjoadinho dela, bom para mim que não sou tão bonita, nem tão branca, arrumo uns gatinhos por tabela. Consegui um garoto naquela festa, mas Isabel foi gostar do meu “casinho”.

Deu em cima para valer. Mandou mensagens, curtiu, cutucou até que o trouxe para o portão da escola e deu uns pegas na frente de Bia.

Tudo se transforma neste momento da vida, a falta de pretensões viram urgências plenas, as palavras, gritos e os gestos, tapas, socos e pontapés. Hematomas e mordidas nas duas. Isabel quebrou um dente ao enterrá-lo na mão de Bia.

 

– Você viu quantos acessos teve o nosso vídeo da briga? – perguntei para puxar assunto, pois achei sinceramente que era o fim da nossa amizade, mas não foi. Isabel implicava bastante com meu jeito, tentei mudar, mas não consegui. Queria ser como ela, assim decidida, certa das coisas que quero na vida, boa na escola. Alguém que eu amasse.

– Não vi, não. Quantos. – respondeu como se nada tivesse acontecido.

– Três mil e quinhentos acessos só neste final de semana! – disse ainda do lado de fora, na calçada em frente ao portão da casa dela, a mãe dela não deixava que eu entrasse.

– Nossa, que legal! Vou avisar minha mãe que estou saindo e já volto, vamos à sua casa para conversar, me espera, não vai embora.

Claro que não iria. Isabel era a melhor amiga do mundo.

Bia apoiou a mochila da escola no sofá e sentou em cima, havia pelos de cachorro por todos os lados. Sua mãe só limpava a casa no final de semana, o mesmo com a roupa: a própria, a de Bia, a do marido, dos dois menores e do mais velho que cochila no outro sofá. As meninas cochichavam para não perturbar um descanso tão merecido, pois era desgastante para ele arrumar desculpas e não fazer nada:

– Quer ficar com meu namorado agora? Já terminei, aliás, ele terminou. Estou em outra. Um cara mais velho. Quer curtir ele também? Ele gosta de novinha. A sua mãe deve ter achado que fui eu que comecei. Se ela tinha raiva de mim, agora ela quer me ver mortinha. – ri sem graça.

– Vira essa boca, mas foi difícil convencê-la que eu não quero deixar de ser sua amiga só por causa de uma briguinha à toa. Mais velho é? Conta tudinho, vai…

 

Brigas à toa foram várias e durante anos. Por prazeres ou por dinheiro. Masoquismos à parte, viviam como anjos quando não estavam juntas. Juntas às vezes compreendiam as contingências que moviam Bia e as convicções que escoravam Isabel.

 

Isabel não quis me emprestar dinheiro de novo. Não fosse por mim, essa sem graça nunca sairia de casa, nunca pintaria as unhas ou pentearia o cabelo. Fui eu que percebi o quanto ela era bonita. Eu não sou tão bonita como ela. Tenho um emprego melhor, mas preciso de mais dinheiro do que ela para me produzir, roupas, sapatos, baladas, bebidas. O que aconteceu com a ela? Ela não era assim, tão ingrata! Tudo bem que não devolvo o que pego, mas eu considero que o que é dela é meu também.

Bia esperou que Isabel fosse ao banheiro para, mais uma vez, tirar dinheiro do “esconderijo secreto”.

– Devolve o que você tirou da minha gaveta. – gritou comigo.

– Não tirei nada não. Deve ter gastado e esquecido. – expliquei.

– É sempre assim. Nunca pega dinheiro meu, nunca rouba as minhas roupas…

– Eu pego emprestado, amigas emprestam coisas umas para as outras, sabia? – provoquei.

– Eu não peço nada seu emprestado.

– Não pega por que é uma merdinha toda certinha. Se pedisse eu te emprestava…

– Emprestar é quando um pede e o outro dá. Você me pede? Não, então não é empréstimo. E tem mais: você também diz que nunca mente… Você nunca mente!?

– Não minto mesmo, nunca minto, você sabe. Só quando preciso muito. – como ela não entende essas coisas? Que existem mentiras e mentiras.

– Desisto.

Bia achava que a mentira por uma boa causa não era mentira e automaticamente virava verdade.

 

Isabel se afastou de mim um pouco no fim do segundo grau, mas eu insisti, pois amizades nunca morrem.

– Vamos prestar o Enem juntas, para a mesma faculdade. – disse decidida.

– Eu quero fazer Química. Acha que vai se dar bem nessa área? – Isabel parecia não querer minha companhia.

– Não sei, não sei o que quero. Qualquer coisa tá bom pra mim e se não der certo eu mudo depois. – argumentei mesmo sem argumentos.

Isabel queria que a amiga olhasse para si mesma, mas algum destino era melhor que destino nenhum.

– Então não faz faculdade, até decidir, Bia. Conselho de amiga, faculdade não é fácil, não é igual ao segundo grau que se faz trabalho copiando da internet só para alcançar a nota, precisa prestar atenção e tirar suas próprias conclusões, pesquisar. Quer fazer, faz o que gosta ou não vai ter saco para isso.

– Vou fazer o que você fizer e vou gostar. Sabe por quê? Porque sempre gostamos das mesmas coisas e não vai ser diferente agora.

 

Não entendo que descuido foi esse. Isabel grávida! Tomara que ela não desista da faculdade, como vou entregar os projetos sem ela, e o TCC! O Vitor é delícia, quando ela me contou os detalhes, fui com tudo conferir. Eu me preveni e ela não fez o mesmo?! Será que foi de propósito. Preciso perguntar para ela. Que merda! Que grande merda!

 

—-

 

– Bia, vou casar porque gosto do Vitor, gosto de ser mãe, quero uma vida estável. – expliquei com calma pela enésima vez a essa cabeça dura.

– Vida estável? Viver é ser instável, adaptar-se às mudanças.

– A vida pode não ser dois mais dois para você, Bia, para mim ela é exatamente isso: matemática, combinações que dão certo. Gosto de você e não vou te deixar, amiga, sossegue.

– Promete, Isabel? – os olhos dela brilharam.

– Quer ser a madrinha? – não era bem quem eu queria, mas Bia era tão carente.

– De quem? Do bebê ou sua?

– Dos dois: do casamento e do bebê.

 

Bia estava inconformada com a troca, mesmo que o bebê fosse pequeno e o casamento fresco, pelo menos poderiam ir ao salão juntas para fazer as unhas uma vez por mês, que fosse. Mas a amiga sempre dava uma desculpa.

 

Mentira que podemos compensar nossas perdas. Pregue um prego na porta e veja a madeira afundar, retire o prego e a marca está lá, a fissura jamais será madeira. Era assim que Bia sentia – terrivelmente incompensável. Postumamente amiga.

 

Fiz tudo certo? Marcas de sangue… nenhuma. Impressões digitais… nenhuma. Pistas que levam a um assalto. Álibi… um, o crédulo do meu marido.

 

– Tô falando sério, cara. Minha esposa pegou só quatro anos porque acharam que foi passional. A polícia só descobriu por que a idiota deu uma dentada na morta! Foi tudo premeditado mesmo, menos a dentada. Ela planejou direitinho, contou no mesmo dia que matou a amiga.

– Ela te disse o motivo, Vitor?

– Eu fui o motivo. Na hora eu me senti cara, uma mulher capaz de matar pela gente! Não é todo dia.

 

Isabel cumpriu sua mínima pena, sem dó. Bia não faria falta num mundo tão grande, cravejado de pregos.

 

 

 

 

 

 

 

 

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