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A Paixão e as Moscas

Passaram dez anos desde que Senhor das Moscas começou a espalhar as cinzas dos mortos sobre os vivos. No dia em que Huaran perdeu a memória de que era um só e foi dois. O Deus que havia se comovido com a desolação do menino e seu desejo de deitar e morrer. O rapaz o ouvia e poderia pedir que escolhesse outro representante do mundo dos espíritos. Viver sua vida quase ordinária. O deus também poderia colocar o coração no gelo eterno das montanhas e evitar o assédio de Huaran. Mas o menino saiu da cama e decidiu ser o coletador e a colheita, o criador do senhor e seu servo ao mesmo tempo.  Só precisava encontrar uma faísca.

Naquela manhã uma neblina andina pairava sobre a serrana São Paulo.

– Não esquece de trancar o portão, Ariani. Ou os vizinhos vão reclamar de novo, menina.

– Não vou esquecer. Posso ir agora?

A mãe da ex-menina Ariani desgostava dos caminhos do filho, mas foi criada na doçura e fingia quase aceitar que sua pequena se sentisse um rapaz.

– Huaran, é meu novo nome, mama. Não esquece, por favor.

– Deus não gosta dessas coisas. Ainda vou perguntar para o padre se ele acha pecado isso de usar fantasia de desenho – disse apontando para as roupas estranhas do filho. – Você tem sorte que seu pai vai ficar o dia inteiro trabalhando, ele não deixaria sair vestida assim, não.

O calor da mão de sua mãe nos seus cabelos raspados, o vento frio atravessando a janela, o cheiro do café na cuia. Do pão peruano. O espanhol misturado que se falava no corredor do cortiço. Por um breve momento, tão breve quanto o bater de asas de uma mosca, Huaran perdeu todos os sentidos. Ficou vazio como uma panela na casa dos mortos, onde a fome matou a todos.

Esqueceu o portão da rua aberto.  Ele estava a caminho de sua primeira MangaFriends. Havia passado meses juntando os trocados que sua mãe lhe dava para comprar leite e de alguns serviços de costura para comprar o ingresso. Para ter permissão de ir sozinho, foi obrigado a fazer um acordo com a mãe. Huaran teria que se vestir para a festa de 15 anos como uma menina. Esperava que a feira compensasse a dor de fingir quem não era no próprio aniversário.

O ônibus estava cheio, porque de domingo. Tirou o dinheiro da passagem do bolso do colete preto, tinha só o dinheiro da ida e teria que voltar à pé ao final da tarde. Não seria tão ruim assim. Pegaria a Salim Maluf para ver o sol se por atrás do cemitério. Cemitérios o atraiam, como carne atrai moscas.

Huaran queria crescer só um pouco além de seus um metro e meio. A calça bufante vermelha arrastava no chão, pediu desculpas para umas três pessoas que pisaram na sua barra. Estrangeiros são sempre culpados aos olhos dos daqui, ainda mais se tem cara de índio.

Sozinho ele aproveitou a feira. Passeou pelos estandes cheios de coisas que não poderia comprar. Admirou os cosplays bem produzidos, com perucas coloridas, adereços, roupas bem costuradas. Ele mesmo fizera sua roupa, na máquina de sua mãe.

Achou um botom do seu manhwa preferido. Deja Vu. Invejou os fãs do Bleach que escolhiam vários botons para enfeitar as mochilas. Um grupo de adolescentes na barraca ao lado conversava em sua própria língua. Riam das roupas de Huaran. Acharam engraçado uma menina vestida como um coreano tradicional. Talvez, o mais provável, um índio latino americano se interessar por manhwas. Preconceitos não conhecem fronteiras. Huaran estava tão acostumado que ele conseguia fingir não se incomodar. Em algumas ocasiões, raras, a humilhação até desaparecia.

A feira ficava no pátio de uma universidade, árvores cresciam nos jardins em aclive. Escalou uma delas, para ver melhor os medievalistas fingindo lutar, aproveitou para comer o pão que trouxera.

– Gostei da sua roupa. Meu pai tem uma foto do avô dele usando uma igualzinha – o menino andrógino com roupas metálicas esticava o braço e oferecia alguma coisa a Huaran. – Meu nome é Soon Li e o seu?

– Huaran. Nasci Ariani, mas prefiro um nome masculino. Que é isso? – mordeu o pão e olhou para a mão do garoto. Dedos longos, unhas polidas, pele branca. Ele parecia um anjo futurista.

– Um botom. Você não é fã do Deja Vu? Reconheci seu cosplay. Onde você comprou a roupa?

– Eu fiz.

Ele escalou a árvore e sentou-se ao lado de Huaran.

– Você fez sozinha?

– Sozinho.

– Desculpa. Queria saber costurar, passaria o dia fazendo roupas. Quero ser estilista – sorriu mostrando as duas fileiras de dentes. Ele usava batom dourado. – Desculpa meus amigos, eles são uns bobos. Meus pais iriam morrer se soubessem que quero estudar moda. Eles são bem tradicionais.

– Mas eles sabem que você é gay, né? – disse Huaran sem ser ofensivo, os que estão fora da “normalidade” devem se amar, como um dogma, uma seita. 

– Que nada. Acabei de contar para meus amigos, por sua causa. Eu estava indo embora, chorar sozinho. Então eu vi você e pensei, se ela. Desculpa. Se ele tem coragem de ser verdadeiro eu também posso ser. Então o botom é um obrigado por me inspirar.

Huaran sentiu-se inteiro como nunca antes. Ser inspiração para alguém jamais passou pela sua cabeça. Colocou o botom no colete e ofereceu um pedaço de pão peruano a Soon Li.

– Obrigado pelo botom e pelas palavras. Parece até que o mundo é menos ruim.

– Verdade.

Uma onda de segurança, de poder, de bem estar acompanhou a conversa dos dois. Livres para se dizerem, disseram tudo. A feira era o lugar que queriam morar. Ali podiam expressar-se, deixar seguir o curso da vida sem dar explicações que a ninguém interessava a não ser aos dois.

Soon Li, menino classe média, filho mais velho de um empresário, gastou todo o dinheiro com bonecos, camisetas, botons e comida para ele e Huaran. Huaran não recusou nenhuma oferta. Ser orgulhoso é um luxo para os pobres. Só funciona no cinema e na TV.

– Meu tio, irmão mais velho do meu pai, veio a pé para o Brasil – disse Huaran.

– Mentira!

– Todo mundo que conto acha que é mentira. Mas não é. Eles caminharam e conseguiram carona aqui e ali até Rio Branco. Trabalharam numa construção, dormiram na rua para economizar e comprar passagem para Cuiabá. Então de novo, a pé e de carona. Levaram quase um ano para chegar em São Paulo.

– Meus avós vieram logo depois da Guerra da Coréia. Seus antepassados eram mais valentes que os meus. Os seus atravessaram as Aleutas, catorze mil anos atrás. Os meus ficaram por lá.

Huaran não sabia do que Soon Li estava falando, mas não quis perguntar. A voz dele era gostosa de ouvir. Soon Li achava o sotaque de Huaran cativante.

A noite chegou e eles nem se deram conta.

– Você tem namorada? – Soon Li arriscou.

– Não, nem namorado. Tive só dois, um menino que se interessou por mim, mas quando eu parecia mais menina que hoje, então não durou muito. E uma menina no começo deste ano. Mas quando ela soube que eu não fazia diferença entre meninos e meninas, ela me deu um chute. Eu me agrado do jeito das pessoas, não do sexo.

– Eu gosto de meninos.

Choveu. De repente. Com trovoadas que assustariam os deuses. Os dois correram para se proteger debaixo de uma barraca. A água que escorria da cobertura molhava as calças de Huaran, ele teve que enrolar a barra até os joelhos. A leg de Soon Li ficou mais colada ao corpo adolescente. Foram ver as bandas que tocavam K-Pop no ginásio coberto e esperar a roupa secar.

– Vou fazer 16 na semana que vem e nunca beijei um menino. Nem menina também, porque nunca quis.

A professora no estande cor de rosa ensinava os passos da dança. Huaran balançava o corpo como sabia, no ritmo latino. Soon Li não se movia, não sabia dançar.

–  Nós, os peruanos daqui, nos reunimos e fazemos festas. Vou te convidar e te ensinar a dançar a cumbia.

– Quero! – Soon Li bateu palmas e deu pulinhos de alegria, cheio de coragem disse – E quero te beijar. Posso?

– Poder pode, mas tem certeza? Porque… você sabe. – Huaran apontou os seios, a cintura, os quadris. – Não tem nada fisicamente masculino em mim. Só meu espírito.

– Seu espírito é lindo.

Trovoadas. Vento. Enchente. Soon Li e Huaran eram água que corria para longe, para além das campinas e do planalto. Da floresta e dos Andes. Desaguavam no Oceano Pacífico.

A feira acabou e Soon Li e Huaran não tiveram outra opção a não ser encarar a chuva que não dava tréguas.

– Vou ligar para o meu pai e pedir um taxi. Te levo em casa e sigo para a minha.

– Ótimo.

Soon Li conversou em coreano. Gritou em coreano. Chorou.

– Meu pai disse para não aparecer em casa. Meus amigos contaram para ele e ele não quer filho viado.

– Fica frio. É assim mesmo. Você sabia que isso podia acontecer. Não?

– Claro. Acontece com quase todos, me falaram. Estava até meio preparado. Mas ouvir de estranhos é uma coisa. Dos próprios pais é uma dor insuportável – chorou.

– Não fica assim. Vamos para a minha casa. A pé. É longe, mas a gente chega. Meu pai vai ficar furioso, vai gritar e depois te arrumar uma cama e roupas secas. Ele se diz um bom cristão. Minha mãe vai ficar feliz porque arrumei um namorado.

Os soluços de Soon Li foram interrompidos por uma gargalhada. Achou graça da brincadeira de Huaran e da imprecisão em que se organizava o mundo.

A luz acabou. Os ruas ficaram escuras, os caminhos incertos. Huaran ouviu o deus pedindo que lhe fizesse ouvidos e asas que zunissem.

– Estou com medo – disse Soon Li agarrando firme o braço de Huaran

– Não fique. Eu te protejo. Tenho um deus que me atormenta para acordá-lo desde que eu era pequeno. Ele e eu o protegeremos.

– Um espírito imortal! Tudo que sempre sonhei. Por que você não o acorda?

Huaran fingia. Fingia se aceitar. Fingia não se importar. Fingia que a rejeição era a normal. Não queria fingir para Soon Li. O momento de ser por completo havia chegado. O deus estava pronto, ele estava pronto.

O cemitério  apareceu do da avenida. Os túmolos dispostos em declive, alguns centenários, apareciam de repente sob a luz dos raios e desapareciam para ouvir os trovões. Huaran via o fogo dos mortos acender os céus, suplicando por mais uma vida. A noite virou dia na alma do trans menino.

– Você vé o fogo, Soon Li?

– Não.

– Chegue mais perto.

Soon Li encostou a testa no rosto de Huaran e viu o fogo do deus nascendo nele.

– Os mortos se levantarão. Mas não como na Bíblia. Mortos são mortos.

Soon Li deveria sentir medo, de deuses, trovões, mortos que se levantam, mas não. A tranquilidade de Huaran penetrava seus poros, drogava seu sangue.

Algumas pessoas velavam seus mortos literalmente. A queda de energia fez as velas serem acesas. Os mortos das salas de velório foram os primeiros a se levantar. Os vivos fugiram em pânico, esquecidos das profecias. Descrentes do deus que veneravam, preferindo pensar na pop cultura zumbi à ressurreição da carne no dia do Juízo Final. Abandonaram os entes queridos. Estes mortos seguiam outros mitos, anteriores aos cristãos, gregos, egípcios, anciãos como o nascimento das civilizações. Nascidos antes da América, as lendas que caminharam do Canadá à Terra do Fogo em seus cavalos, cobras e moscas. Estes mortos buscavam um abraço acolhedor, um sorriso. Fediam a flores que nasciam nas encostas geladas das rochosas depois que o gelo derretia, ou nos vales dos rios no México, rios que corriam para o Infra Mundo e ressurgiam nas montanhas. E desciam para alagar a pequena faixa de terra que separa o norte do sul e virar gelo de novo nos Andes e depois flores de primavera. Este era o cheiro dos qur se levantavam, não para serem julgados, para que o Huaran-deus fizesse bom uso de seus espíritos.

Depois dos recém falecidos, crianças se levantaram dos túmulos. Então, os que morreram de morte violenta gritavam palavras de rancor e mágoa. Por último levantaram-se os velhos, que foram preparados para a morte ou que a desejavam pois a vida havia se tornado um fardo. Huaran-Deus os acolhia em seus braços flamejantes. Assim como Soon Li mantinha-se calmo ao lado do novo amigo. Os assassinados acalmavam sua sede de vingança, as crianças pararam de chamar pelos pais e os jovens esqueceram a surpresa da partida inesperada. A multidão de esqueletos e carcaças gemia em uníssono como um bebê que adormeceu com febre e não acordou.

Huaran-Deus sentou-se no meio da avenida com seus mortos  – não mortos vivos, não zumbis – apenas mortos. E esperaram. Naquelea noite, em todos os cemitérios ao redor do mundo eles se levantaram. Provocando pânico, consternação e orações. Inúteis. Quando o dia amanheceu, Huaran-Deus transformou os mortos em cinzas. Espalhadas pelo vento, as cinzas voaram em moscas e as moscas consumiram o ódio. Durante dez anos Huaran-deus limpou a terra, cavou sulcos e plantou o amor no coração dos seres humanos.

Mas isso só foi possível porque Huaran encontrou a faísca da paixão, Soon Li.

 

Baseado em lendas dos índios Nuu chah nulth do Canadá, dos índios modoc da região do Óregon (USA), huaroxiri mexicanos e quechuas do Peru.

 

 

 

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