Ah! A culpa, essa morta viva.

A culpa

 

Ah! A culpa, esta morta-viva.

 

Durante todos os longos anos de sua juventude e do rápido passar da maturidade, Carla manteve a sua polidez incorreta. Cedia seu lugar na fila da vida aos fúteis: vaidosos, mentirosos, egocêntricos. Por isso, talvez, a vida lhe retribuiu adequadamente, pois foram muitos a quem deu bom dia com sorrisos para depois perceber que não eram dignos de um balde de fezes.

Quando foi adicionada à fila dos portões da morte se perguntava o que deixou de fazer e ponderava se esta deveria ser a hora da mudança, em que passaria a perna em todos eles e entraria no inferno primeiro. Não, respondeu. Quem sabe haveria outra vida, redenção depois da expiação dos pecados.Ficou ali dando passagem aos mais velhos, às crianças, aos apaixonados. Não tinha medo de queimar no espeto do capeta, sempre pusera a mão no fogo pelos outros, estava acostumada. Deixou passar os vadios e os assassinos, os bêbados e os inocentes, as crianças inconfessas, as mães bastardas e os deficientes. A fila do inferno não fazia sentido algum, tal qual seu criador. Aplicou a paciência da vida na morte e esperou um ou dois séculos até encontrar-se na entrada.

Esperou por alguém que lhe desse um empurrãozinho e a jogasse dentro da caldeira de lava fumegante. Sua covardia escancarada para purgatório inteiro ver, tornar-se mais digna da provação eterna. Não houve quem ajudasse. Ela que fez tanto pelos outros! Então deixou-se estar sobre as nuvens observando o sofrimento alheio sem poder ajudar. Esta seria sua tortura? Por séculos, talvez, até virar pó. Um vento forte espalhou-a pela ionosfera e além.

As chuvas estão mais violentas, os tufões mais avassaladores e os raios caem duas, três ou quatro vezes na mesma pessoa por causa dela – dizem os ignorantes. – Desde que Carla infectou as nuvens. Não adianta confrontá-los com a ciência: ela está muito longe, a interferência na camada de gás é muito ínfima. Ela é a responsável, este é o seu legado. Nestes tempos apocalípticos, ela ganhou um santuário para onde correm todos os que negam suas culpas. Eles invocam seu nome e se sacrificam pelos outros, as vezes, não sempre.

– Carla nos proteja! Lá vem  mais um Carlaclisma! – exclamam a qualquer sinal de chuva.

Do ócio de seu passeio estelar ela diz no vácuo – onde sabe que as palavras não tem poder:

– Desculpe, não foi minha intenção.

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