A Princesa no Escafandro Cor-de-Rosa

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1889 quase no fim e o verão derretia tudo às vésperas de começar. Derretia os ânimos e os sorvetes, que  os lacaios traziam correndo e aos baldes do castelo para a praia. A altezinha tropical, mais conhecida como princesa Maria das Dores dos Remédios do Socorro de Aí, filha do conde de Ei, que virou rei, e da rainha maluca que só, descansava sua beleza agressiva sobre a pedra arredondada pela maré. Os lacaios agora além de cruzarem a areia escaldante, ainda tinham as pedras da ponta da praia pra subir levando sorvete. E ai e ei se derretesse.

Folheando a revista parisiense, do verão passado, mas servia, já que no sul o verão teimava em vir depois, a princesa quis um vestido rosa, quis um colar de pérolas, quis uma arma de mulher e seu coldre pequeno – rubis indianos incrustados fazendo um círculo vermelho no cabo –  quis a mantilha dourada e bordada a ouro. “Tão aurígera esta peça!” E ao virar mais uma página quis também o escafandro. E teria que ser rosa para combinar com o vestido, rebites dourados no tom da mantilha.

– Com certeza no fundo do mar é mais fresco – falou para o conde, seu pai.

Explicação completamente desnecessária para o conde Ei, ás em colocar empecilhos à parte, e para a rainha que só fez rir aos soluços.

Achou-se um escafandro ainda aquele ano, no último dia. A nobrezinha enrolou-se em frente ao espelho em seu vestido novo, colar de pérolas, mantilha e carregou a arminha com balinhas de prata. Rosto branco e sorridente emoldurado no redemoinho dos cabelos negros. O reflexo no espelho de seu quarto, enfeitado de rosas e lírios, era pequeno demais, foi à sala octogonal, se olhar por todos os ângulos em espelhos inteiros: empunhando a mantilha como capa e o revolver como espada, oito touros saltaram pelos espelhos. Furiosos, selvagens, tauromaquindo a menina fera.

Infelizmente quando a tourada terminou, só quatro estavam mortos, pois as balas eram poucas nesta coisa de brinquedo e seu vestido se cobria de rasgos, os enfeites com cacos dos espelhos, as pérolas roladas. Ela usou a mantilha para estancar o sangue que pipocava aqui e ali pelos machucadinhos na branca pele de suas longas pernas.

– Ora do escafandro, disse impávida as 10:30 da noite do dia 31 de dezembro de 1889.

E a corte a seguiu ao mar, aplaudindo e soluçando – a rainha soluçava. Pulou sete ondas – não para dar sorte porque as superstições eram outras naquela época. Foram as tantas para afundar.

Foi-se para retornar somente 365 dias depois, na noite da passagem em 189o/91, achando que  era o ano anterior. Pois ouviu as luzes, viu as vozes, cheirou a areia sob os pés e sacudiu a cabeça para ajustar os sentidos. Viu a festa, ouviu os brindes, areia inodora.

Tirou o traje oxidado e deixou a máscara, coberta de algas negras que escorregavam pelo seu corpo limoso à medida que caminhava para o palácio. Nua e azul brilhante, cabeça de escafandro.

O lacaio do sorvete que corria com o urinol para despejá-lo no córrego à beira praia, deu um salto ao encantar-se com a alteza luminescente e sua carranca redonda. Despejou o dejeto e foi ajudá-la a livrar-se do peso morto sobre a acabeça.

A princesa agradeceu-lhe borbulhando algo incompreensível, mas com certeza um desejo a mais.

– Comida, alteza? Água, alteza? Sorvete, alteza?

Algumas bolhas, sorrisos e regurgitações e ela disse:

– Um confidente – piscando os cílios negros.

– Seu segredo irá para o túmulo.

“Era só um desabafo, mas deixe que o moço pense que é mais do que eu desejaria que fosse.”

– A vida no mar é boa: ser sereia, cantar, amar os marinheiros. Mas estava com saudades dos vestidos rosas, das mantilhas douradas e de meus lindos touros. Quero a minha arma, por favor, ainda restam quatro balas de prata.

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