A Moça na Bacia de Água e Sal

woman-oppressed-2women oppressed – sculpture by susan dorothea white 1989

 

A Moça na Bacia de Água e Sal

 

Contei minha história, mas ela foi terra carregada pelo vento. Peço a quem a observa que a conte. Não em versos ou teses: nenhuma sequência de letras pode definir quanta terra há em mim.

A primeira a falar tem a testa grudada nos olhos e os ombros redondos empurrando-a para o chão.

“Não nasceu. Eu lembro, brotou do nada, assim sem mais nem menos. Era triste de se ver, porque além de nua, estava escorregadia e torta. Tinha arranhões na boca, como se alguém a quisesse calada e friccionasse as pontas de um garfo aos seus lábios, até sangrar.”

“Não há outra forma ter certeza de que sangrava, não que eu saiba.” Objetou o velho senhor com a cara de sábio na grande cabeça redonda que expelia três fios de cabelo para incomodá-lo.  “Não parecia um homem. Por fim, infelizmente, constatei ser uma mulher. Chorava muito e reclamava muito. Como sou uma pessoa do bem, ensinei-a a se comportar melhor.”

Outro homem mais forte que o velho se sobrepõe:

“Ela veio da mais profunda escuridão. Eu, por minha vez, cobri sua boca com panos e a levei para fora: ouvir os pássaros nas árvores do bosque. Ela não se acalmava, olhava para o chão e pisava as folhas mortas.” Só largura este homem que diz ser meu pai.

Silêncio. O vento passa pela fresta da janela e não assobia. Esvoaça a saia da pequena senhorita. Ela levanta a mão trêmula pedindo ao pai para quebrá-lo, permissão que nunca teve. Apoia sua aura nas tranças de crochê.

“Era só uma menina pequena. Gostava de histórias de chão: cobras, serpentes, tatus. Ela mesma gostava de viver rastejando. Não era necessário arrastá-la, como faziam.”

“Aquela água toda desperdiçada, neste deserto em que vivemos. Merecia um castigo, não merecia?” – todos ouvem o professor. Nem estudou para tanto, ouvem porque é alto.

O vento empurra a folha da janela. Enquanto ele passa, alguém lá no fundo sussurra:

“Sei que serei punida por dizer: se pudesse não teria filhos, nem filhas.” Ninguém a ouviu, então a moça encapsulada em seu vestido de flores voltou a se sentar no fundo da cena espantando as moscas que entram pela janela.

“Porca, isso ela é ou era. Não sei… toda coberta com aquele barro, sempre. Teve sorte de arrumar quem a quisesse. Não meu filho. Ela o queria e eu a rejeitei. Corri atrás dela com o espeto em chamas. Como qualquer mãe faria.”

Depois que a mãe do rapaz que amei fala, fecham a cortina do palco e recolhem suas cadeiras. Esperarei até amanhã. Só mais um dia. Vinte e quatro horas. Um mil, quatrocentos e quarenta minutos.

Olho pela nesga de pano que me cobre o rosto, a mulher manca cuspindo no chão seu resto de saliva.

Amanheceu, mas o sol era escasso. Ouço o bater de cadeiras e as engrenagens puxando o pano vermelho que os separa de mim. Plateia de um, numa bacia de água e sal.

Sentam-se adernados e parelhos como os dentes do indigente.

“Vou falar desta vez e vocês vão me ouvir”. – Grita a mãe de vestido florido e dos filhos e filhas que não queria. Senta-se.

A mulher mais velha toma sua palavra, literalmente, e a joga no lixo do lado de fora da porta:

“Dei o que pude a ela, mesmo não sabendo se era minha ou de onde vinha: uma casa, comida, escola, faculdade e um marido com sua própria casa”. Esta é a mãe que não tive, que fala do que não sabe, enquanto faz uma lista de compras para o almoço de domingo.

“Devemos nos perguntar por que ela gosta tanto de terra. Vejam todos esses espaços tão bem delineados e recobertos, grandes salões iluminados, ricas pedras artificiais. Para mim ela teve tudo. E por tudo chegar tão fácil, não deu valor.” O professor olhou para todos esperando pela resposta certa.

Este novo personagem eu não conheço, já o vi circulando pelos lugares onde eu mesma vivia, mas nunca fui inteiramente apresentada a ele. Peito coberto pela barba azul aromática.

“Deviam ter cortado a cabeça da menina assim que apareceu. O que fizeram? Curaram suas feridas, vestiram-na com seda. Livros e histórias fantásticas. Prometeram o paraíso que segue após esta vida desgraçada.”

“Mas nós a castramos, como manda a lei” – disse o sábio.

“Nós a protegemos como manda a lei” – disse a mulher de tranças.

“Nós a rejeitamos como manda a lei” – disse a mãe do antigo amor, que não era amor ao final das contas partidas no laço.

“Nós a enterramos” – grita a moça no fundo do palco com toda a sua voz, sacudindo as flores do vestido.

“Ela gosta de terra. Já a comi na terra, ela teve seus filhos na terra. Ela devorou o último com terra.” A confiança do meu pai acalma a todos.

Quero que contem minha história, mas não quero que a enumerem. Tampo meus ouvidos com o que resta de minha mão. A carne de meus membros se soltou quase toda dos ossos…

“Eu a amei como manda a lei”. Minha mãe recolhe sua cadeira quando diz isso. Ela mesma fecha a cortina no segundo dia.

Meu útero – acorrentado ao osso sagrado – se desfaz na água salgada.

O dia ainda está no meio. Não respiro mais, mas ninguém nota. Continuo aqui, sem paraísos ou infernos. Nenhum expurgo ou constatação de que vivi o que tinha que viver ou o que não tinha. Estou num barco no centro do oceano. Alguma terra se aproxima, pois ouço pássaros. Continuo a ouvi-los por minutos sem fim. Perco a paciência e bebo toda a água salgada, até tocar a areia calcária do fundo do mar que nunca conheci. Nunca saí da vila que me cercou.

 

Menos três cadeiras: a da senhora de tranças e do velho sábio, substituído pelo professor com sua peruca grisalha enfeitada de ‘tags’ e do largo pai. Gosto do homem da bandeira. Revê-lo é triste.

“Tenho que protestar a respeito de tudo o que foi dito, bando de mentirosos!” Saudades de seu rosto sempre vermelho de raiva e aptidão. Inclina-se para olhar pela nesga em busca do brilho que dizia dos meus olhos.

“Quem é mentiroso, aqui?” Minha mãe nunca o perdoou pelo dom da oratória. Ela deixa o palco e a cadeira ainda morna.

“Mentirosa, traiçoeira, monstro. Ela matou meu filho. Ele nunca mais olhou para outra mulher. E ela nunca mais olhou para ele.” Porque chora a mulher cheia de graça se esconde com um véu, se foi ela a primeira a ser devorada por todos os outros!

“Trago minha espada presa à cinta. Vou matá-la assim que puder.” Meu marido coça sua barba azul refletida na luz da moça triste de vestido florido e rosto eternamente inexpressivo.

“Quero morrer agora.” – ela grita.

Por que ninguém mais conta minha história? Preciso sabê-la, antes que meu coração derreta.

Com seus olhos já encostados ao chão, a moça de ombros arqueados se prepara para cerrar as cortinas pela última vez. Olha para a bacia de água, sal e restos. Plateia emudecida que não aplaude, saúda ou se extasia com o fim de um espetáculo tão banal.

“Vamos ser racionais! Não volte a nascer! Se não puder evitar, não volte a nascer uma mulher! Querendo viver novamente, procure um lugar distante e pedregoso! Vá lidar com as pedras desta vez… Carregue-as até ficarem leves.”

Como se as pedras se deixassem ser carregadas.

Fico ali murchando em panos desalinhados. A história que esperei ser contada não ouvi. Ouço a despedida de todas que estiveram aqui antes e voltarão a ser terra esquecida carregada pelo vento.

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