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Amigas infláveis

barbie3idade

Liang queria arranhar e furar a cobertura plástica que a continha, mas não tinha unhas ou ossos. De intenções próprias só possuía a ideia de liberdade e o bafo de látex, dos outros, um selo de qualidade e um manual sobre cuidados e usos com garantia de um ano.

– Chegou sua hora – Angelina sussurra no ouvido inflável da boneca para acalmá-la.

Angelina empurra o carrinho em direção ao caixa do atacado. Coisas para o almoço de aniversário. Bebidas, batatas para a salada, três frangos congelados, latas de leite condensado para os brigadeiros dos bisnetos.

– O frango hoje em dia não tem sabor de frango, parece papel – reclama com a filha quando ela atende o celular.

– É a idade mãe, também sinto que estou perdendo o paladar.

– Não, Clarinha, não é a idade. São os detalhes no sabor, sabe. Aqueles que a língua se lembra. É só por na boca este frango de agora e a lembrança desaparece.

– Não cozinha muita coisa, mãe. Os meninos não vão, eles têm compromissos de família este domingo. Quer dizer, com a própria família… Quer dizer, a família deles e os filhos. Entendeu? Não fica chateada, eles também não dão bola para mim ou para o pai.

O supermercado está vazio, são três da manhã. Angelina testa a filha pelo menos uma vez por semana, liga no meio da madrugada para ver se ela se irrita, mas não.

– Um retiro de idosos. Esses de casinhas. São bonitos.

– Não e não, mãe. Uma que não tenho dinheiro para este tipo de asilo, outra que não vou jogar você em qualquer canto. Enquanto estiver lúcida e bem, não tem razão.

Angelina ouviu a amiga de malha contando da prima que mora num retiro com casinhas:

– De noite, menina, ninguém é de ninguém. Uma suruba só.

Angelina empurra o carrinho de volta ao corredor onde comprou a boneca inflável. Na sessão Acessórios para Adultos o atendente faz piada:

– Já tem dezoito, vovó? Se não tiver não pode entrar.

Ela segue para a seção de infláveis.

– Menino tosco – sussurra para si mesmo.

Angelina compra mais duas bonecas. Nem escolhe, só derruba as caixas no carrinho. Entabula uma conversa com as prateleiras: acessórios BDMS…

– Já basta ter que lavar, passar, arrumar a casa, pagar as contas. Ha! Ha!

… fantasias

– Homem de Ferro tá mais para BDMS. Ha! Há!

… consolos

– Pintos! São pintos! Pena que não vai ninguém na minha festa. Podia comprar todos estes e fazer uma piscina, como as de bolinhas.

A aposentadoria deste mês e do próximo foi o total da compra. Paga tudo com cartão de crédito parcelado para estourar de novo. Os filhos e netos que se virem para cobrir o rombo.

O perueiro do supermercado fez a gentileza de colocar todas as sacolas na mesa da cozinha por cinco reais. Angelina deixa a compra ali mesmo, as batatas, os sorvetes e os frangos.  Leva as bonecas para a sala.

Quando criança tinha uma de trapo, cabeça de madeira com olhos descascados que lhe dizia coisas doces ao ouvido, promessas que nunca cumpriu.

– Boneca tratante, mas eu gostava dela.

Angelina procura o pino de Liang e assopra até ficar ficar sem fôlego. Tosse, arfa. Deita no sofá e puxa a caixa de instruções de cima da mesinha. Tira os óculos para ajustar a lente às letras miúdas. Morda o pino e assopre.

– Ah! Tá! Espera só recuperar o ar.

Amadeus se enrodilha na suas pernas esticadas. E Angelina dá um pulo.

– Oh! gato! Oh! Angelina! Que louca! Ele vai arranhar as meninas.

Cata o bichano pelo cangote e o coloca porta afora.

– Vai namorar umas gatas e encher o saco dos vizinhos, Amadeus, seu gato safado.

Ser preenchida de ar é melhor do que ser preenchida de nada. A menina recém inflada tinha olhos, tinha pele, embora tenha sido feita para ser cega e inerte. Angelina escolhe roupas. Penteia os cabelos das moças, senta-as da sala para bater papo enquanto a comida descongela sobre a mesa.

– Primeiro quero conhecer vocês. Vou ver se acerto os nomes. Liang é você de cabelo comprido e camiseta amarela. Acertei? Você, pequena de cabelo curto é Mei Mei. A loira é a Kate.

Liang ouve recostada nas almofadas de franjas. Mei Mei ainda não sabe de si. Kate gosta da voz rouca e doce de Angelina.

– Meu marido morreu há dois anos. Graças a Deus! Velho rabugento. Eu era rabugenta, mas agora tomo remédios e estou feliz.

Liang sorri com boca redonda e profunda. Mei Mei balança a franja. O relógio cuco pia seis horas da manhã. O sol aparece na fresta da cortina.

– A conversa foi boa, meninas, mas preciso ir jogar malha. Semifinal do campenonato. Desejem sorte para estas mãozinhas.

– Toda a sorte, diz Kate.

Angelina ajeita as meninas na própria cama. O avião das 6.20 passa rasteiro na sua rota para o aeroporto.

– Lá do alto se vê o contorno do mundo.

Angelina esvazia as moças. Dobra as pernas, os braços, as cabeças, para dentro dos corpos. Vaginas e seios no látex murcho. Ela as empilha e guarda na prateleira do guarda roupa, onde estavam as malas de viagem que jogou fora na semana passada.

– Porque quis. Porque sim. Se for viajar vou com a roupa do corpo ou para uma colônia de nudismo – respondeu rindo para a filha.

No caminho cumprimenta Alva, sentada no banco do ponto de ônibus a espera de alguém para bater papo. Um menino de mochila é seu próximo alvo. Angelina prefere mirar no tangível. Brinca com o disco de malha na mão direita para avaliar seu peso. Dizem que o peso do disco é calibrado. Não é, varia de acordo com a disposição da mão em carregá-lo. Isto pode ser dito também sobre a distância da cabeceira da pista ao pino na extremidade oposta. Hoje, para Angelina, o disco parece mais leve e flexível e o pino, mais próximo, mais largo. Ela poderia jurar que o disco flutua. Dobra um pouco os joelhos, eles doem. Apoia o disco gentilmente nos dedos e prende-o com o dedão. Traz a mão do disco para perto do ombro. Convém avaliar de novo o peso e a distância. A Terra gira e oscila sobre seu eixo, circula em volta do Sol, caminha em espiral pela Via Láctea atraída pelos outros bilhões, trilhões de estrelas. E de acordo com esta relatividade, Angelina lança o disco e derruba o pino.

No caminho de volta oferece um abraço a Alva. Ela recusa:

– Sabe se o Parque dos Pinheiros passa aqui¿

– Ih! Alvinha, faz anos que não passa mais.

Coloca os frangos descongelados nos sacos de marinada pronta e os joga dentro da geladeira. Os sorvetes, as latas de cerveja e os refrigerantes coloca no freezer para endurecerem. Toma um banho demorado e dorme na companhia murcha de Liang, Mei Mei e Kate.

As bonecas trocam fluídos. Estão hipoteticamente úmidas. As variáveis dos objetos inanimados existem na dimensão da realidade de Angelina.

Faz o almoço como o padre faz a missa, orando pela ressurreição da carne. A filha e o genro descem do carro e entram pela porta da cozinha, precisam colocar a sobremesa na geladeira.

– Desculpa o atraso, mãe. Domingo tem tanto trânsito no horário do almoço!

– Acordei tarde, filha. Vai demorar umas três horas, acabei de por dois frangos no forno.

– Dois frangos! Que exagero! Falei que as crianças não vêm. Esqueceu?

– Claro que não, minha memória continua excelente. Pode me perguntar o que conversamos da última vez, que digo palavra por palavra.

– Foi bom trocar de remédio, então. – Clara senta-se na cadeira da cozinha. – Quer ajuda, Dona Angelina? – Reinaldo fuma um cigarro no quintal.

– Não! Fora o frango, o resto está pronto. Maionese sem milho para você. Farofa sem passas para a Clara. Feijão com meu temperinho e arroz soltinho. Salada. Vou limpar a cozinha agora. Enquanto você faz companhia para as minhas amigas na sala.

– Amigas! Que novidade boa, mãe! Do clube de malha? – Clara estica o pescoço para olhar para o corredor que leva à sala. Mas sua mãe mudou os móveis de lugar.

Sandra segue pelo corredor, olha o quarto da mãe. Tudo arrumado, remédios na cabeceira. O banheiro brilha, a nova faxineira é mais cuidadosa que a anterior. Abre a última porta, onde passou a vida até se casar. O quarto está vazio, ela o preenche com a memória dos móveis e brinquedos. Da primeira vez com o namoradinho da oitava série. Foi horrível, mas foi a primeira vez, lembra e suspira.

Na sala, Liang, Mei Mei e Kate esperam por Clara. Rodam, oscilam, circulam e fazem a elíptica. No sofá, ela se acomoda ao lado de Kate e segura sua mão.

– Que é isso? – pergunta o homem.

– Quem, Reinaldo. A pergunta certa é quem. São as amigas da mamãe.

– Já falei. Sua mãe não está bem. A gente leva ela para casa, coloca no quarto do Leo e com as aposentadorias dela contrata uma moça para ajudar. Assim… – aponta para as meninas. – deste jeito… não dá…

– Você não entende nada, Reinaldo.

Angelina limpa as mãos e joga o avental no cesto de roupas do banheiro, também para na porta do quarto da filha. Ela imagina camas para suas novas amigas, um guarda roupa, quadros nas paredes com paisagens de países que gostaria de visitar. Uma prateleira de troféus para que elas admirem sua habilidade na malha.

– Kate, Mei Mei, Liang, estes são minha nora e genro, Clara e Reinaldo.

– Ganhei o campeonato de malha de novo. Queria participar do estadual da 3ª idade.

– Vai mamãe. Vai ser bom.

– Não posso deixar as meninas, elas estão se adaptando ainda.

– São bonecas infláveis, Dona Angelina – reclama Reinaldo. – Servem para tarados fazerem sexo com elas. Ainda bem que as crianças não vieram!

– E você acha que as crianças iriam ligar para aparência das minhas amigas. Você é visita assim como elas. A casa é minha, então respeite minhas amigas.

Kate se defende. Angelina rasgou o manual, então ela pode o que quiser.

– Você não pode por um feitiço em mim, homem. Não pode me fazer trabalhar para você. Não pode me trancar no armário, não pode me surrar, ou me obrigar a ficar de quatro.

Outras mulheres se juntam ao coro de Kate. Animadas ou mortas.

– Não pode apontar uma arma para minha cabeça. Não pode atirar. Nem me enterrar no jardim como se nada tivesse acontecido e arrumar outra para repetir minha sina. Não pode me fazer de culpada como se a maldade fosse minha, não sua. Colocar fogo na minha pele e depois atirar um balde de água e esperar que as cicatrizes desapareçam. – As que nasceram antes de você, antes de mim, de Angelina ou Clara. Quando a Terra não rodava, oscilava ou circulava. As mulheres são a elíptica. O tempo não se move com elas, elas movem o tempo.

– Ouviu o que elas disseram, Reinaldo?

– Elas são bonecas! Não falam, Dona Angelina!

– Vai lá fora fumar um cigarro, meu bem. Deixa que as mulheres se entendem? Vamos fazer as unhas enquanto o almoço não fica pronto? – segura nas mãos de Liang – Mãe? Moças?

– Estou precisando mesmo – Angelina olha para os dedos miúdos e tortos.

– Reparei.

– Queremos tatuagens – pede Mei Mei.

Angelina abre a caixa de manicure e tira a tampa de todos os esmaltes. Entrelinhas, no vidro de esmalte lia-se tatuagens para pessoas infláveis. Angelina desenha um bordado de renda no braço de Mei Mei na cor Dara. Sandra desenha peixes na barriga de Liang na cor Jaqueta Jeans.

Entremeios, Kate assobia uma canção. Os frangos ficam prontos. Reinaldo se recusa a sentar na mesa com as meninas.

– É embaraçoso. Perco o apetite de olhar para elas. Vou comer na mesinha do quintal.

– Seu desaforo é bem vindo, meu genro.

– Cadê o Amadeus, mãe?

– Trepando por ai.

– Precisa castrar.

– Gatos são engraçados quando estão no cio e gosto de amolar os vizinhos.

– Seu frango está delicioso. Não está, meninas?

Mei Mei balança a franja. Liang finge que pisca. Kate admira as tatuagens nas irmãs.

Reinaldo espera no carro enquanto Clara se despede da mãe.

– Obrigado, o almoço estava ótimo. Queria te ver mais. Adorei suas amigas. Pena que o Rei se incomoda, senão convidaria vocês para passar uma tarde lá em casa. Ainda quer ir para o retiro?

– Não. Bobagem minha. Melhor assim, com as moças. Já tive meu quinhão de vida normal.

Kate, Mei Mei, Liang e Angelina conversaram sobre o Universo até amanhecer a segunda feira.