O desejo de ser como um rio

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Não comprei minha passagem para o outro eu. Embora, nos últimos dez anos, tenha guardado dinheiro para este fim. Acessei o link, marquei o dia e a hora da viagem e fui até o guichê para embarcar. Uma fila imensa. Odiar multidões é uma das muitas neuroses que a idade me trouxe. Faltando dois números, desisti. Não estou velho o suficiente para perder toda a disposição de lutar contra o novo. Voltei para casa e peguei meu crochê, dei laçadas e laçadas até que novos calos crescessem sobre os outros. Antoine me chamou três vezes e não atendi, nem deletei.

Confortável e protegido pelas almofadas sobre o sofá, concentrei toda a minha capacidade em copiar o padrão da combinação de cores no modelo, para que ao final do processo o desenho fosse o mais perfeito possível. Em algum momento, anestesiado pelo compasso da agulha, adormeci. Quando acordei tomei o resto do suco que ficou me esperando sobre a mesinha. Os líquidos me entendem, se acomodam ao copo, se acomodam dentro de mim. Fui ao banheiro, precisava de um banho, mas não tomei. A linha em toda a extensão do novelo cheirava a mim.

Antoine chamou e o localizador apontou para a minha porta. Esqueci de marcar ausente e ele sabia que eu estava em casa, escondido, imóvel. Será que eu poderia ser a porta da rua na próxima vida? Não me sentiria sozinho, ouviria as conversas dos que me esperavam abrir, mudaria de cor e forma de tempos em tempos. A resposta é não. Então teria que ser a alma da porta, não a porta física, não seria eu, mas a minha alma a ocupar um lugar.

Antoine usou o código que lhe dei e entrou provando que a minha resistência era inútil. Seria encontrado e confrontado de qualquer jeito. Ele me fez as perguntas para as quais eu mesmo buscava respostas.

– Está lúcido? – Foi a primeira.

– Acho que sim, não sei. Boa tarde, Antoine.

– Boa tarde, Lucas. Que aconteceu com você?

– Eu fui, mas não tive coragem. Você entende?

– Olha para mim.

Eu estava olhando para ele e para aquele mundo torto e sujo, que um dia foi como meu apartamento. Janelas retas e móveis práticos. Antoine refletia sobre o vidro da janela num laranja crepuscular e compassivo. Ele me observando envelhecer e sofrer.

– Eu mudei – disse.

– Não, Antoine, para mim continua o mesmo. – Virei e meu amigo estava nítido, em nada parecido com o sol moribundo do fim da tarde. Resplandecente em toda a sua juventude e energia, como 40 anos atrás.

– Eu só fiz por que você disse que faria o mesmo depois que eu atingisse a idade limite! Gastei tudo o que tinha! Mudei, estou pronto, esperando por você. – Os olhos brilharam, mas nenhuma lágrima. Antes da viagem com certeza choraria rios, fluído como era.

– Não consegui. Acho que não consigo. – Volto a olhar o crepúsculo, agora roxo e fúnebre, as nuvens descendo junto com o sol para as entranhas da cidade gigante que é o hoje.

Por insistência dele, agendo uma consulta com a doutora Simone, do outro lado do rio. Vou a pé, meu prédio é um dos únicos nesta região que não sofreu interferências até perder a estética, assim como eu. Não me acomodo à nova maneira de viver, ele também. Somos pares, nossa paisagem continua do mesmo jeito de quando éramos criança: paredes retas, janelas retangulares, terraços espaçosos com seus parapeitos gradeados onde minha mãe costumava pendurar o tapete da sala para arejar. “Tapetes respiram”, dizia ela. O estacionamento em frente onde brincava com meu skate não existe mais, foi substituído por uma torre verde, um enorme emaranhado de plantas hipócritas na Rua da Agricultura que não produzem sequer uma romã, sem folhas no inverno e infestado de insetos no verão.

Quando o sol ataca a janela do meu quarto carregado pelos pernilongos e moscas, meu desejo de viajar e ser o outro aumenta. Nos últimos dez anos, todos os dias durante os dois meses de sol intenso, faço uma oração de estio, ameaço os insetos com a intenção de abandoná-los, deixá-los sem a iguaria que é meu sangue ralo de idoso. Tóxico de passar pela vida respirando poluição e ameaças. Então, como os padres extintos, me recolho ao catre – minha cama envolta em tela – e procrastino, peço ardentemente por mais um dia, me penitencio com picadas.

No fim da rua havia uma prisão que virou hospital que agora é depositário dos que transitam entre esta vida e a outra. Minha mãe dizia que éramos sortudos, pois se qualquer doença nos acometesse era só andar uma quadra e pronto, não precisaríamos nem de ambulância. Nunca precisamos, meu pai era catalão, dizia: “meu filho é forte como um touro”. Só preciso andar uma quadra para ser jovem, ser melhor, quase imortal. Quando tiver coragem para abandonar-me eu irei, ou melhor, quando tiver certeza de que a vida que levei valeu a pena, conseguirei passar pela multidão e retirar minha passagem, andar este quarteirão e me juntar ao futuro. Antoine ficará feliz em ver um Lucas que nunca deixará de amanhecer, como ele.

A Avenida Charles de Gaulle não existe mais, aqueles prédios baixos, os espaços abertos. O vento úmido com o cheiro do rio é amparado pelas aletas dos edifícios tortos entre vielas idem, de onde pendem itens variados para o conforto dos que se arriscam voar. Prefiro rastejar, mas não há a opção pele de lagarto na nova vida: asas retráteis, pés rodantes, mãos multiuso, sexo reversível são as modificações mais solicitadas. O dinheiro compra mobilidade e prazer. As minhas juntas doem e estalam, o peso do meu corpo é excessivo e meus joelhos que se dobram para dentro permanecem inchados a despeito das pílulas e injeções. Bato a bengala na calçada, mais para espantar a dor do que me equilibrar. Queria arrastar-me pelo chão, investigar as frestas e desaguar no rio.

Não gosto de atravessá-lo ele me faz querer mergulhar até o banco de areia no seu fundo, areia que se espalha pelas suas margens nuas, sem plantas, no descaso onde estendem-se os ociosos do fim da tarde. Tiraram as laterais da ponte, desnecessárias neste mundo seguro, sem suicidas ou veículos erráticos. Sento-me na beirada de concreto e observo a corrente tranquila do rio serpentear pela cidade. Do outro lado, a doutora me espera e o rio de outra cidade, imundo. A confusão dos que gritam para além da ponte.

– Sente-se, Lucas. É bom tê-lo aqui, são poucos pacientes hoje em dia. Todos se acham perfeitos e sem problemas. Não que esteja reclamando.

– Já está, doutora.

– Sei, queria trabalhar mais. Temos a mesma idade, você sabe, não?

– Sim, você já me disse. Nasceu no Rio, não foi?

– Não, em São Paulo, deste lado do rio. Havia uma rodoviária aqui bem movimentada.

– Novos tempos, novas experiências.

Ela parece distante. Da sua própria profissão. Fomos jovens num tempo em que o trabalho era tudo, dignidade e escravidão, corda bamba que cruzávamos todos os dias na intenção única de sobreviver. Para os que amavam o que faziam é doloroso olhar o passado e desvencilhar-se deste amor. Eu era fotógrafo, parte do que capturei em preto e branco está na minha caixa de memórias que pode ser acessada por todos, mas quase ninguém vê. Eu a chamo de minha paixão invisível.

– Eu imaginava – diz ela – na vida anterior, que a esta altura estaríamos todos morando numa estação espacial e comendo ração ou encontrando algum predador alienígena. – Simone enlaça os dedos de 30 anos, ela sempre foi comedida, a maioria pede menos de 25. As unhas estão pintadas de vermelho fogo como os lábios.

– Posso falar do que me incomoda? – Interrompo suas divagações, não quero voltar depois de anoitecer e nossas sessões são doloridas.

– Claro, Lucas. Desculpe. Fale, por favor.

– A solidão. Eu tinha um trabalho reconhecido no mundo inteiro, não era famoso, mas meus pares me motivavam e eles não existem mais.

– Explique melhor seu raciocínio, Lucas. Pois acredito que as pessoas a quem se refere estão vivas, pelo menos a maioria.

– Elas estão vivas para si mesmas. Nós, os mais velhos, ainda podemos sentir aquela compaixão desapegada. Antes se caíssemos na rua, seríamos amparados por estranhos que não perguntariam se éramos dignos ou não de ajuda. Não remexeriam nas nossas informações para saber que tipo de pessoas somos ou fomos, simplesmente nos ajudariam. Hoje, sofremos de compaixão seletiva.

– Você acha que não te ajudariam se o vissem cair na rua?

– Provavelmente não, foram tantos os erros semânticos e não semânticos que cometi na vida. Todos nós cometemos, quero dizer.

– Eu não me lembro de nenhum. Esta é uma das vantagens de renascer, acho mesmo a melhor. – Deu um sorriso resignado. – Poder eliminar todos os arrependimentos.

– Deve ser o Paraíso na Terra, não é? – começo a rir e não consigo parar até que o riso vire gargalhada. – Somos todos uns filhos da puta ateus procurando pela redenção religiosa disfarçada de tecnologia, a humanidade virou uma charge gigantesca.

Simone esperou primeiro a graça passar em mim e então a volta do ar aos meus pulmões asmáticos. Eles que são parte da minha resistência pacífica e recusam-se a trabalhar na normalidade. Respiro amplamente num esforço para sugar todo o ar da sala e faço aquele som de torneira abrindo e cano vazio. Ele resiste, o ar da sala continua todo lá, rodando à minha volta, zombando da minha incompetência em subjugá-lo.

– Sinto muito, Simone – sussurro ou arfo ou os dois.

– Quando estiver melhor continuamos, sabe que não tenho pressa. Não preciso ter.

– Vou indo. Tenho uma colcha para acabar. – Apoio a bengala no tapete sujo e levanto.

– Lucas, precisamos conversar. Por favor, sente-se, não fuja de si mesmo novamente.

– Eu sei que não há saídas, Simone. Amanhã viajo, em uma semana estarei nos braços de Antoine, novo em folha, um lindo bebê com sua memória em progresso. Quero escolher parar aos 35 anos, acha uma boa idade?

– Sim. Quero te ver em alguns anos, promete voltar.

– Prometo voltar e te levar para olhar as estrelas e fazer amor sob elas até amanhecer. Como antigamente.

– Não me lembro disso.

– Desta vez não vai se arrepender.

Ao deixar o consultório tenho a impressão que consegui enganá-la, mesmo sem saber porque o faria, talvez só para me livrar desta Simone. No princípio era novidade, recordava dos nossos tempos em Paris, do apartamento longe do centro, da comida brasileira que ela me fazia, enquanto ela falava. Ela não recorda mais. Ao longo de nossas conversas consegui descobrir o que ela trouxe para a nova vida e o que deixou para trás, mas estou longe de conquistá-la e quando recuperar as lembranças de nós dois elas se limitarão àquele consultório monótono do lado barulhento da cidade ubíqua. Nossos diálogos sem nexo, as minhas inconstâncias e as inseguranças dela. Médico e paciente, barreira moralmente intransponível como um incesto.

As paredes grafitadas e irregulares do túnel Cruzeiro do Sul sustentam milhares de abrigos sobre ela, os refugiados da Cidade Luz, os que não tinham dinheiro para a transformação. Cogitei mudar-me para cá, para o resto do mundo que não conhece nada além da necessidade de sobreviver este dia para talvez ganhar o próximo. Sou prisioneiro do meu conforto, da minha rotina, dos dois banhos diários, das histórias nas estantes da memória, da cultura e correção dos meus pares, da comida que nunca falta. Sem falar, mas já falando, do crochê e das almofadas sedutoras sobre meu sofá.

Preciso de um transporte, é quase noite. Talvez quando sair do túnel o horizonte já esteja negro e a lua tenha tomado emprestado um pouco do brilho do sol. Vou a pé. Daqui a pouco minhas costas arquearão ainda mais e meus joelhos latejarão. Mais adiante, disputarei contra o ar, com ajuda dos meus velhos escudeiros, os pulmões, tossirei e arfarei até que derrotado ele não tenha outra opção a não ser deixar-se respirar. Sentirei pela última vez todo o pesar da minha vida, chorarei a noite inteira a tristeza infinita que é amar e perder o amor, amar e perder o amor, amar e perder o amor.

É noite sobre a ponte sobre o rio. Ele fluí e eu sento exaurido para vê-lo seguir sem que lhe seja cobrado outro caminho que não o seu destino. O que previ no túnel alguns minutos atrás torna-se realidade. Menos o resultado da batalha, o ar venceu e não tenho mais provisões no meu castelo fortaleza murado contra o novo. Quero tombar para frente, cair, tocar a água e ser levado para a areia, mas sinto meu corpo inclinar para o lado, meus dedos soltarem o cabo da bengala, a Lua me iluminando, refletindo sua distância na lâmina do rio.

Não sei por que tenho medo do prédio na Rua da Agricultura. Papai me diz que foi na outra vida. Fico mais tranqüilo.

– O que você quer fazer depois do passeio, Lucas? – ele pergunta.

– Brincar de voar!

Antoine abre as asas e me carrega. Ele é o melhor pai do mundo!

 

 

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About claudiadu

Sou professora e escritora. Gosto de ler e escrever Ficção Científica e Fantasia. O resto é bobagem. Livros: O Caminho do Príncipe Matando Gigantes Um Pequeno Livro de Poemas, 70% Água Na Taverna do Capitão Destroços Contos do Mimeógrafo Noveletas: IICO Contos publicados: Gente é Tão Bom - Trasgo no. 1 O Tesouro de Nossa Senhora dos Condenados, Coletânea Piratas - Editora Catavento Lolipop, Coletânea Boy's Love - Editora Draco Monsuta - Shi, Coletânea Dragões - Draco Encaixotando Nina - Cobaias de Lázaro Invasão de Corpos - co autoria, Cobaias de Lázaro Seduzindo Oliver - co-autoria, Cobaias de Lázaro A Princesa no Escafandro Cor-de-Rosa - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco Extensão - Contos Sonoros do Meia Lua Pra Frente e Soco A sair em breve: Retrônicos, coletânea - editoração e conto O Menino Jaguar e o Escudo do Sol - Trasgo 10

Posted on March 6, 2016, in Ficção, Uncategorized and tagged , , , . Bookmark the permalink. Leave a comment.

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